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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Um ser humano melhor

O nosso querido amigo e Psicólogo José Mendes decidiu partilhar connosco mais uma das suas reflexões. Desta vez sobre o tentarmos ser melhores seres humanos, a cada dia que passa.

 

E vocês, também têm reflexões sobre parentalidade e saúde mental perinatal que gostassem de partilhar no blog?

Enviem-nas para blog@mulherfilhamae.pt 

 

 

Nas famílias e, mais tarde, nos estabelecimentos de ensino, o assunto mais importante que devemos passar às novas gerações, será as atitudes a ter para nos transformarmos em melhores seres humanos. Partir do pressuposto que isto é do conhecimento geral tem-nos induzido num erro de enormes proporções e numa vastíssima ilusão; basta ver um pouco o que passa ao nível global. Dizer que anda “meio mundo a enganar o outro meio mundo” será tapar o sol com uma peneira. Mais perto da verdade seria dizermos que a maioria anda a enganar uma minoria, em certo aspecto. E quando consideramos que, dado isso ser uma evidência, todos devemos trabalhar nesse sentido e virarmos as costas ao problema, é pura ignorância relativamente às nossas tendências.

 

Isto não significa – como muitos pensam - que o ser humano seja essencialmente “mau”. Esta visão considera apenas metade da realidade. O ser humano encerra em si as duas tendências – positiva e negativa – e, por variados factores, uma delas pode tornar-se preponderante. A tarefa da pedagogia consiste, precisamente, em ajudá-lo a escolher a via que pode ser mais benéfica, tendo em conta que é não vive sozinho.

 

Por isso, a educação começa na máxima: “não faças aos outros o que não pretendes que te façam”, apesar de nos estar a apetecer fazer o que nos convém. E como o que nos apetece nem sempre é o que apetece a todos os outros, temos de aprender a reflectir e a ver bem as consequências dos nossos actos.

 

Um hábito bastante enraizado na maioria, consiste em calar as nossas intenções e, desde que ninguém nos veja, proceder independentemente daquilo que a nossa consciência nos dita. É assim que quase todos vimos agindo ao longo dos anos e, até, das idades. E quando descobrimos um erro, ou algo incorrecto, numa pessoa ou num grupo, consideramos que actuaríamos de outro modo, eventualmente bem, logo “descobrimos” os “culpados” da anomalia e não pensamos mais no assunto. Porém, não é por existirem esses “culpados” que a anomalia de verifica. O motivo desta existir prende-se com o facto de todos termos que nos aperfeiçoar constantemente e não considerar que tudo se resolve caso um conjunto de pessoas se modifique.

 

Mais difícil de encontrarmos são as nossas incorrecções, imperfeições ou faltas. Com facilidade vimos que algo não está bem em nosso redor, mas dificilmente detectamos o que temos aperfeiçoar em nós mesmos. Estamos tão “perto” de nós que os outros são capazes de ver primeiro algo que nos compete modificar. O comum será chegarmos a uma certa idade já “completos” ou com pouco a aperfeiçoar.

 

 Consideramos que a vida nos “ensinou” - o que é certo – logo pouco temos de aprender a partir de certa altura. Ignoramos, porém, que tudo se renova e, com as sucessivas ondas de vida, a aprendizagem não é definitiva. Cada nova geração contém novas perspectivas, inerentes à sua criatividade. É assim que a evolução é possível ao longo dos tempos. Há coisas que se parecem manter, outras que acabam e outras que começam, mas nada fica como antes, tudo se renova.

 

Consciencializemo-nos, pois, de que um “homem novo” apenas surgirá quando o desejarmos, se o engendrarmos e o realizarmos. Nunca irá “cair do céu” já feita. Por consequência, a sociedade humana não crescerá, caso não surjam instrumentos para que isso aconteça, isto é, pessoas em número suficiente para proceder a essa alteração, que adquiram capacidade de viver de acordo com as Leis universais e não apenas utilizando as leis humanas para os seus fins pessoais.

 

Ciclicamente, as sociedades sucedem-se, com novas características e aperfeiçoamentos, obedecendo a um plano que foi gizado desde o começo. Cabe-nos tentar percebê-lo e fomentar nas gerações vindouras esse interesse e essa maturidade. No fundo, temos de decidir, de uma vez por todas. Ou transformamos a nossa consciência ou continuamos a ser influenciados pelo que nos é transmitido  diariamente.

 

José Mendes 

O que é que tu sabes sobre Depressão Pós-Parto?

Uma grande amiga minha decidiu juntar-se ao Movimento Depressão Pós-Parto, e mesmo tendo pouco contacto com o tema, partilhou a sua opinião!

 

E vocês, a vossa família e amigos, o que é que sabem sobre Depressão Pós-Parto?

blog@mulherfilhamae.pt

 

o que é que tu sabes sobre dpp.jpg

 

Não posso falar na depressão pós-parto na primeira pessoa visto que ainda não fui mãe, no entanto algumas amigas, e até mesmo em contexto profissional algumas doentes já passaram por esta situação.
O que eu sei sobre a depressão pós-parto é que este acaba por ser um tema tabu. Tabu no sentido em que o que é "vendido" no pré-parto é que tudo será lindo e maravilhoso, não havendo espaço para o que não será bem assim...Para o cansaço, para as alterações hormonais, para o encarar de novos papéis, etc.. E acima de tudo, para o sentimento de culpa por o experienciado não ser "lindo e maravilhoso" como era expectável, pela dificuldade em afirmar isso a terceiros, e muitas das vezes ao próprio parceiro.
Penso que se deveria falar mais, e mais abertamente sobre esta temática.

 

‪#‎movimentodepressãopósparto‬

Histórias que dão a cara por esta causa #14 - "cheguei a um ponto de ansiedade tal que sentia que só queria morrer"

Uma leitora do blog enviou-nos a sua história via email, relatando de forma bastante clara e objetiva muito do que passou antes, durante e após lhe ter sido diagnosticada uma depressão pós-parto. 

 

Um relato com o qual, eu acredito, que muitas pessoas se identificarão. Ou porque passaram pela situação descrita de forma semelhante, ou porque a observaram de perto. 

 

Tenho a certeza que por aí existem muitas outras histórias semelhantes, ou mesmo que pouco semelhantes, que merecem ser partilhadas para que todos nós, de uma forma geral, possamos ficar mais alerta para o problema em questão e que se insere na esfera da Saúde Mental Perinatal

Enviem-me as vossas histórias sobre o tema para blog@mulherfilhamae.pt

 

Conto convosco!

 

 

Há 5 meses atrás, percebi que precisava de ajuda porque tinha entrado numa espiral de ansiedade, medo, angústia, desespero. Sentia-me quase sempre infeliz, muitas vezes pensava que não queria ter tido a minha filha e queria a minha vida de volta. Não estava a estabelecer ligação emocional com ela. Cuidava dela por responsabilidade e obrigação. Evitava olhar para ela. Estava em piloto automático: era mamar, por arrotar, mudar fralda, por (tentar) a dormir. Achava que era normal sentir-me assim, todos diziam que ia passar, que faz parte, que não é fácil ter um filho, que todas as mães passam por isso. Que eu devia sair de casa, estar com pessoas, falar, evitar andar de pijama e eu fazia isso tudo. Saia sozinha, com amigas, com o meu marido, falava ao telefone com amigas mães para procurar companhia e conselhos, vestia-me todos os dias, tive ajuda dos avós, do meu marido e mesmo assim cheguei a um ponto de ansiedade tal que sentia que só queria morrer. 
 
O ponto de ruptura foi perceber que passados 2 meses eu continuava a abanar a minha filha, gritava com ela com frequência, cheguei a gritar que a detestava. A seguir chorava imenso pelo mal que sabia que lhe estava a fazer, que ela não tinha culpa nenhuma. Custou-me muito admitir que fazia isto à minha filha, custou-me admitir a mim mesma, ao meu marido, ao resto das pessoas. Pensei que iria conseguir ultrapassar sozinha, mas não consegui. Decidi pedir ajuda médica e foi me diagnosticada depressão pós-parto. Comecei a tomar medicação e, aos poucos, as coisas foram melhorando. Já me sinto mais a Ana de antes, com o plus de ter uma filha com a qual já tenho um prazer imenso em estar :) E a filha que eu achava que tinha dias muitos difíceis, por estar muito irritada passou a ser um bebé mais calmo. A mãe está mais calma e feliz, por isso...
 
Sinto que se fala muito pouco sobre este tema. Espero contribuir um bocadinho para desmistificar e ajudar outras mulheres a terem força para procurarem ajuda. Faz toda a diferença! Temos que cuidar de nós acima de tudo. Se estivermos bem e felizes os nossos filhotes também estarão.
 
Obrigada!

Assumir uma Depressão Pós-Parto: dúvidas, medos e vergonhas.

A semana passada uma leitora do blog veio falar comigo através do facebook

 

Tinha algumas dúvidas sobre o conceito de depressão pós-parto e sentia que estava a passar por uma situação semelhante. Falámos durante algum tempo, e pedi-lhe autorização para copiar para o blog este excerto da nossa conversa, pois já não é a primeira vez que 'ouço' alguém constatar este tipo de afirmação. 

 

Falo-vos do medo de assumir a possibilidade de uma depressão pós-parto. No medo de assumir que algo não está bem, por medo de se ser confrontado com a opinião 'dos outros' face ao que se sente. Por medo de se ser considerada má mãe por não se viver a maternidade de forma tão feliz como as outras mães. Por medo de se ser julgada quanto ao que se sente no momento. Por medo de se ser mal interpretada. Por medo de se achar que uma mulher que poderá estar a desenvolver uma depressão pós-parto "está com manias e que depressão pós-parto é coisa de gente fraca".

 

Ora, em 1547, o Dr. João Rodrigues de Castelo Branco exemplificou este tipo de perturbação num dos seus registos clínicos na época, referindo-se a "uma mulher que ao dar à luz se tornava melancólica e louca". Contudo, esse tipo de caracterização rapidamente se começou a verificar ultrapassada, pois como o povo diz (e bem, no meu ponto de vista) - de médicos e loucos, todos nós temos um pouco. Assim sendo, caros leitores, chamo a vossa atenção para a afirmação que farei de seguida e que nada mais é do que a constatação da mais pura realidade neste contexto: A "Depressão" , no sentido profundo e lato da palavra, é pura e 'simplesmente', uma doença. Não é loucura. Não é mania. Não é coisa de gente fraca.  

 

E tendo em conta esta afirmação, recordei-me de imediato de uma imagem que uma vez partilhei no facebook do blog e que anexo neste post, para reforçar ainda mais a última afirmação. Foi uma das capas de uma revista de psicologia. 

 

 

Seja uma Depressão Pós-Parto, ou não, à qual a respetiva leitora se referia, a verdade é que muitas são as mulheres e homens que passam por este tipo de realidade, e se confrontam com o medo e com a vergonha de assumirem o seu problema perante os próprios e perante terceiros. Isto, leva a que qualquer tipo de apoio que seja necessário - desde o diagnóstico até à reabilitação - chegue, muitas vezes, tardiamente.

 

conversa entre mim e cátia.png

 

Já o Prof. Dr. António Macedo e a Dra. Ana Telma Pereira, no seu livro referem que "As mulheres também podem adiar o pedido de ajuda para tentarem conformar-se ao mito ocidental da felicidade na maternidade. Isto é, na gravidez e pós-parto qualquer mulher deve sentir-se feliz. As mulheres que não sentem essa suposta felicidade podem desenvolver sentimentos de vergonha, culpa, fracasso ou medo de serem estigmatizadas ou que lhes sejam retirados os filhos por receio de serem vistas como más mães" (p. 11).

E a realidade, à qual também vou tendo acesso com o trabalho que vou realizando através do blog, é que muitas são as mulheres que passam por uma experiência deste género, menos feliz no pós-parto, e dessas, muitas são as que referem este tipo de receio. 

 

Também sei perfeitamente que este tipo de estigmatização continuará a existir, enquanto por detrás de um qualquer ser humano estiver uma sociedade pouco informada e nulamente sensibilizada para questões deste género. No entanto, é também para isso que espaços como estes servem.  

 

Uma das formas que aqui se encontrou para combater o estigma sentido por muitas mulheres que passam por este tipo de realidade foi o Movimento Depressão Pós-Parto. Não deixem de lhe dar uma expressão: a vossa.

Ao aderirem, contribuem também para fazer face ao estigma que muitas destas pessoas sentem, por não terem iniciado o percurso da maternidade de forma tão feliz como sentiam que seria expectável. 

 

Qualquer dúvida, questão ou sugestão, não hesitem!

blog@mulherfilhamae.pt

Corrida solidária - 'Run to stop Depression' - Quem vai?

Eu adorava juntar-me a esta corrida (mesmo que fosse só para caminhar...), mas não conseguirei ir porque é na Maia, já no dia 30 de Abril (Sábado) no Estádio Municipal Prof. Doutor José Vieira de Carvalho.

 

Não só pelo motivo que é, mas também pela representatividade que tem, considero que valerá bastante a participação de quem se quiser juntar. 

A corrida decorrerá das 00h00 às 12h00, representando a corrida/caminhada que qualquer pessoa diagnosticada com depressão faz ao longo seu tratamento, ou seja, da noite para o dia, da desesperança para um novo projeto de vida.

 

Para obterem mais informações sobre o evento podem consultar os seguintes links:

 

 

 

Entrevista à Dra. Ana Telma Pereira #3

Na publicação da última parte da entrevista  a Dra. Ana Telma Pereira falou sobre a diferença entre blues pós-parto e depressão pós-parto.

 

Hoje, trago-vos a parte da entrevista que fala sobre o porquê da Depressão Perinatal ser tão importante de diferenciar, e o que a diferencia da Depressão, 'por si só'.

 

Já alguma vez se tinham questionado sobre isto? 

 

- Numa resposta anterior referiu que a depressão perinatal é como qualquer outra depressão clínica, que ocorre em qualquer outro período da vida. O que tem então de especial e importante a depressão perinatal?

 

Os principais indicadores (critérios de diagnóstico, sinais e sintomas) de depressão  não são diferentes no período perinatal. No entanto o período perinatal, devido à combinação única de stressores neuro-hormonais e psicossociais que ocorrem torna a mulher suscetível a perturbações emocionais, mais do que qualquer outro grande acontecimento de vida.

 

      A importância da depressão perinatal prende-se com o facto de, mais do que em qualquer outro período da vida da mulher, ser um problema estigmatizante, ser sub-identificada e sub-diagnosticada e acarretar consequências muito graves para toda a família, nomeadamente para o desenvolvimento e saúde dos filhos.

Além disso, também mais do que em qualquer outro período, oferece variadas e excelentes oportunidades para ser atempadamente identificada, pois a gravidez e o pós-parto são provavelmente o período da vida em que uma pessoa tem mais contactos com os seviços de saúde.

 

Podemos dizer, como referimos no nosso livro, que “é o contexto em que ocorre e o seu impacto negativo para os filhos que torna a depressão perinatal um tema especial e importante”

 

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*Ana Telma Pereira

Psicóloga; Investigadora Auxiliar no Serviço de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (Director: Prof. Doutor António Ferreira de Macedo)

Coordenadora do Projecto Rastreio, prevenção e intervenção precoce na depressão perinatal nos cuidados de saúde primários

Financiado pelo Programa Iniciativas de Saúde Pública, EEA-Grants (MFEEE 2009-2014)

Movimento Depressão Pós-Parto - "Ninguém prepara uma futura mãe para o que aí vem"

A autora do blog Melhor Amiga Procura-se, aderiu ao #movimentodepressãopósparto e escreveu-nos sobre o que sabe sobre Depressão Pós-Parto. 

 

Na sua breve abordagem refere a importância de se falar de forma realista sobre a Maternidade. Algo que poderia contribuir, sem qualquer dúvida, para que situações como a Depressão Pós-Parto não fossem tão devastadoras como o são. Especialmente quando os casais são "especialmente" apanhados de surpresa. 

 

E vocês, o que sabem sobre Depressão Pós-Parto? 

Vamos! Reflitam um pouco sobre a questão e enviem-me a vossa resposta para blog@mulherfilhamae.pt

 

Vamos falar sobre Depressão Pós-Parto?

 

o que é que tu sabes sobre dpp.jpg

 

"A minha filha foi muito difícil, o que fez que muita vez pensasse que finalmente percebia o que levava algumas mães a terem uma depressão... Acho que ninguém prepara verdadeiramente uma futura mãe para o que aí vem, toda a gente fala das maravilhas da maternidade, mas é raro alguém falar das dificuldades e do facto de quase toda gente de esquecer do bem estar da mãe (que acabou de sofrer alterações físicas/hormonais/psicológicas) e só pensarem na criança..."

O comportamento de companheiros de mulheres com depressão pós-parto.

O género de artigos que sempre captaram muito a minha atenção desde que iniciei este percurso, são os que abordam a temática do apoio social à pessoa com Depressão Pós-Parto. Algo que tenho vindo constantemente a evidenciar, tendo já escrito alguns textos sobre o tema. Como por exemplo,  "O Apoio da família é fundamental". 

 

Hoje, acrescento a este novo espaço no blog - Literatura sobre Saúde Mental Perinatal - um artigo que li há pouco tempo, e que me fez muito sentido, tanto a nível pessoal como profissional - "O comportamento parental de companheiros de mulheres com depressão pós-parto". Um artigo bastante objetivo, elucidativo e que capta a nossa atenção do inicio ao fim, pela quantidade de informação robusta que contém. 

 

Vários são os estudos acerca da Depressão Pós-Parto (DPP) que parecem concluir que o apoio do companheiro tem um impacto muito favorável na forma como a nova mãe se adapta à maternidade. Descobrir e compreender de que forma é que os companheiros vivem a DPP das suas esposas e a influência que isso tem no comportamento do casal e na relação com o bebé foi o objetivo deste estudo. Embora não possa ser considerado representativo, foram analisados qualitativamente, 7 casos de DPP.

 

Após a análise das entrevistas e relatos que foram obtidos pode-se concluir que a DPP das mães é descrita como um "Tempo difícil", altura de grande sofrimento para ambos os membros do casal, tendo o condão de se transformar rapidamente num tempo de dor e confusão também para o pai, que se vê apanhado de surpresa numa situação que não previa, não controla e nem sabe como resolver.

 

Os companheiros relatam ainda não terem saudades desse tempo descrevendo a vivência familiar da altura como um verdadeiro caos, pautado pelo cansaço e desespero, especialmente caracterizado para os respetivos pela indisponibilidade materna e por um bebé problemático. A Indisponibilidade materna, pois passando por uma DPP, a tristeza que as mulheres sentem leva a que se sintam extremamente frágeis. O cansaço acumulado das noites sem dormir, deixa-as extenuadas e causa-lhes um sentimento de incapacidade relativa ao que quer que seja, nomeadamente de cumprir tarefas da maternidade, diminuindo-lhes a tolerância e aumentado a irritabilidade e o distanciamento afetivo, com tendência para o isolamento social.  O bebé problemático surge muitas vezes associado à DPP, sendo este um bebé que pelas suas características físicas ou de temperamento se torna difícil de cuidar. Insatisfeito, exigente, irritável, inconsolável, prematuro ou doente, parece impossível de o acalmar ou de satisfazer as suas necessidades. Consequência ou causa da DPP, ainda não se sabe.

 

Perante este quadro, a maior parte dos pais entrevistados confessa ter sentido uma certa 'perplexidade' face ao comportamento da companheira. A mesma, surge associada a sentimentos de choque, incompreensão, confusão ou desilusão, tendo os respetivos companheiros verbalizado nas entrevistas frases como: "Não estava à espera", "Não percebo porque é que ela está assim", "Não é suposto que uma mãe rejeite, recuse ou se sinta incapaz de cuidar do seu filho".

 

O bebé problemático e a indisponibilidade materna parecem também reativar conflitos anteriores nestes homens que acabam por reviver nesse período a relação precoce com a própria mãe, família, irmãos ou outros significativos. 

 

A qualidade das vivencias anteriores destes homens parece influenciar a capacidade de adaptação que revelam nesta situação. As vivências passadas vão determinar o tipo de "expectativas face à companheira". Assim, percebe-se que homens com estruturas mais depressivas e experiências de desamparo ou que sofreram negligencias anteriores, sem expectativas nem modelos maternais pré-definidos, acabam por ser mais compreensivos face à DPP das companheiras, demonstram maior preocupação com a mãe, ajudam-nas nas tarefas domésticas e partilham os cuidados com o bebé. Por outro lado, homens com modelos maternais pré-definidos, acabam por se revelar mais intolerantes e críticos, expressando um 'ressentimento' face à companheira que consideram não ter cumprido a sua parte. São comuns nestes homens sentimentos de tristeza, zanga e de traição face ao projeto da maternidade concebido por ambos, tais como o sentimento de rejeição e abandono provocado pelo isolamento a que elas os devotam, queixando-se essencialmente de falta de tempo para o casal. 

 

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Independentemente dos diferentes afetos e atitudes face às mães com DPP, todos estes homens  assumem um comportamento comum relativamente aos filhos: assumem o papel maternal. Ou seja, vêm-se na eminência de assumirem este papel, no cuidado com os filhos, para que as necessidades básicas do bebé sejam satisfeitas. 

 

Importa salientar que os comportamentos paternos, sejam eles quais forem, parecem ter um impacto na recuperação da mãe. Quando os pais decidem assumir o papel maternal, as mães sentem-se espoliadas, reforçando assim o seu sentimento de incapacidade. Como se o facto da ajuda que os companheiros providenciam e da relação especial que criaram com os filhos as tivesse expropriado do seu papel maternal, fazendo-as sentir ainda mais frustradas por não conseguirem acalmar o bebé, inseguras na sua competência maternal, culpabilizando-se pela falta de disponibilidade em relação aos filhos e isolando-se por rejeitarem ajuda de terceiros. 

O ressentimento dos companheiros relativamente a estas mulheres, agrava assim, os seus sentimentos depressivos e a sua baixa auto-estima. As mães demasiado rígidas e controladoras são aquelas que pior reagem porque a sua exigência e perfeição acabam por colidir com as necessidades e comportamentos sempre imprevisíveis do bebé durante os primeiros meses de vida.

A DPP é vivida como uma dor imensa por estas mulheres, sendo algo que as envergonha e as atormenta. Ao sentirem-se colocadas em causa por um pai mais exigente, que as questiona e ocupa o seu lugar, não suportam o sentimento de culpa e de fracasso, porque vêem refletido o que sentem como uma falha irreparável e deixam-se afundar cada vez mais na depressão.

 

"Mais do que os outros, a sua consciência grita-lhes a sua indisponibilidade, incapacidade e distanciamento, daí ficam tão reativas aos comentários vindos do exterior" (p.112).

 

Para além destes resultados, algo que também me chamou muito à atenção foi o facto dos autores evidenciarem no texto que quando questionados relativamente às atitudes face às mães e aos filhos, quase todos os pais consideraram prioritário ocupar-se dos bebés pois consideram que são mais delicados, indefesos e dependentes enquanto que as companheiras são adultas e devem ser capazes de tomar conta de si. No entanto, quando os Pais têm uma atitude mais compreensiva, uma preocupação também para com a companheira e as ajudam no dia-a-dia, a sua recuperação é muito mais rápida e a depressão é ultrapassada sem grandes traumas ou consequências. 

A partilha de sentimentos, sem culpas nem recriminações, a ajuda nos cuidados ao bebé e na arrumação da casa permite-lhes descansar, dormir, reparar energias que as noites mal dormidas e o stress de um bebé exigente lhes roubaram. 

 

De facto, uma mãe deprimida poderá ser uma mãe que provoca sentimentos de rejeição e desamparo quer no pai ou no bebé, no entanto, é também uma mulher aflita na maior parte das vezes e muito casada, que necessita de amparo e de um porto seguro para se reencontrar.

 

"Ajudar os homens a entender estes fenómenos sem se sentirem traídos, zangados, abandonados ou postos em causa, auxiliando-os na compreensão face às fragilidades maternas de uma mulher com depressão pós-parto e ao impacto que o seu comportamento pode ter na mãe, no bebé, no casal e em toda a família parece-nos fundamental uma vez que ele, o pai, é o elemento mais apto para devolver o equilíbrio à mãe sem a desestruturar nem colocar em causa o lugar desta no coração dos filhos. (...) É muito importante que o pai compreenda que não pode e não deve ocupar o lugar da companheira na relação com o filho, deve sim, e caso ela rejeite o bebé, ajudá-la a estabelecer com ele uma nova relação descontaminada de fantasmas e dores internas que inscientemente se projetam. Acordá-las sem as pressionar vai ajudá-las a recuperar a mulher e a amante adormecidas, necessárias para o redescobrimento da identidade e para o equilíbrio do casal e da família." (p.114)

Porque é que é importante promover a saúde mental na gravidez e primeira infância?

A gravidez e os primeiros anos de vida da criança constituem um período crítico e vulnerável para a saúde mental da mãe e do bebé, marcando todo o desenvolvimento futuro. 

 

Esta fase introduz transformações profundas (emocionais, relacionais, sociais e económicas) no pai, na mãe, no casal parental e na família mais alargada. 

 

É um período de crescimento muito rápido do feto e do bebé, em que as experiências então vividas (físicas e emocionais) têm um impacto vital no seu desenvolvimento, repercutindo-se na sua saúde mental ao longo de todo o ciclo de vida

Assim, impõe-se que os profissionais de saúde que contactam com grávidas, bebés e pais adquiram um conhecimento atualizado sobre os aspetos da saúde mental da gravidez e primeira infância, de forma a promoverem o desenvolvimento de fatores protetores e intervirem precocemente nas situações problemáticas.

 

Se queremos que as nossas crianças tenham um bom começo de vida e que o possam transmitir mais tarde aos seus próprios filhos, teremos de dar prioridade às necessidades de saúde mental dos bebés e seus pais. 

 

Os bebés não podem esperar.

 

 

in "Promoção da Saúde Mental na Gravidez e Primeira infância - Manual de orientação para profissionais de saúde", da DGS. 

Movimento Depressão Pós-Parto - Não precisas de ter passado pela experiência para aderir!

A Mónica, autora do blog Fashion & Life By Mónica, já passou pela experiência da maternidade e refere nunca ter passado por uma Depressão Perinatal. Mesmo assim, decidiu aderir ao movimento e dizer-nos o que sabe sobre Depressão Pós-Parto. 

 

Na sua breve abordagem ao tema, a Mónica fez referência a um tema que me é muito especial. Já não é a primeira vez que o abordo aqui no blog. Um tema que pretendo estudar de forma mais aprofundada quando for oportuno - a importância do apoio da família à pessoa que passa por uma Depressão Pós-Parto. 

 

Não fui só eu que falei sobre este tema num dos textos que escrevi para a plataforma Maria Capaz sobre "O apoio da família é fundamental". Também uma das nossas leitoras nos escreveu o seu testemunho afirmando o quão esse apoio é importante (Podem consultar o seu testemunho aqui).

 

E tu, o que é que sabes sobre Depressão Pós-Parto? Já alguma vez refletiste sobre o assunto?

Escreve-me a tua opinião para blog@mulherfilhamae.pt

 

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"Nunca passei por semelhante coisa com os meus filhos, mas penso que o apoio familiar é fundamental, e que se deve pedir ajuda sem vergonha. É algo que acontece, não se escolhe ter uma depressão."

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