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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Histórias que dão a cara por esta causa #24 "Senti muitas vezes que me tinha perdido no meio desta imensidão que é a maternidade"

Incrível a partilha desta leitora sobre a sua vivência da maternidade. 

Uma mãe que se sente perdida, que por muito sofrimento passou, e que continua a lutar por um futuro melhor para si, e para a sua família, ao mesmo tempo que sente que mantém a "convivência" com a depressão pós-parto que teima em acompanhá-la. 

 

Mais uma história de referência, de uma mulher coragem, e de um exemplo que nos mostra que ainda muito há a fazer neste sentido! 

 

Partilhem também as vossas histórias. Vamos dar a cara por esta causa, mesmo sem a mostrar. 

Quantas mais histórias forem partilhadas, mais força esta problemática terá. 

 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

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"Não sei bem quantas vezes tentei iniciar este email... acho que pelo menos umas 5... começava a escrever e depois ou surgia alguma coisa e ficava a meio... e pensava amanhã com mais calma envio... espero que hoje seja o dia....

 

Fui mãe faz hoje precisamente 23 meses... e mesmo já tendo passado todos estes meses a verdade é que desde essa altura nunca mais fui a mesma....

Descobri que estava grávida numa suposta consulta de ginecologia de rotina, o período estava atrasado mas já havia feito um teste de gravidez que havia dado negativo... portanto logo nessa altura foi um misto de emoções de alegria e medo ao mesmo tempo... a altura na minha cabeça não era a melhor, a situação profissional era complicada, mas pensei tudo se consegue..


Depois veio a ecografia do primeiro trimestre e o rastreio bioquímico e acho que foi nessa ai nessa altura que eu mudei enquanto pessoa ... um rastreio bioquímico positivo com uma probabilidade muito grande para uma trissomia 21... nada nos prepara para estas situações e acho que efetivamente esse terá sido o pior dia da minha vida se não mesmo o pior... o dia em que me senti mais frágil e perdida...as expectativas, as tramadas das expectativas, nunca estamos preparados para que as coisas possam eventualmente correr mal... ou que possam não ser da forma como imaginamos... o chão foi-me tirado nesse dia. O que era suposto ser uma primeira ecografia, quem sabe até para saber o sexo do bebé, tornou-se um dia que me iria marcar para sempre e que efetivamente ainda hoje passado este tempo todo ainda é algo que me perturba e sempre que me vejo a falar no assunto seja com profissionais de saúde, amigos, familiares é impossível recordar essa altura sem que os olhos não se encham de lágrimas.


Depois de todo um processo de explicações sobre o que são efetivamente estes rastreios bioquímicos, os falsos positivos, etc., e de muita pesquisa minha no mundo da Internet, informação essa, que se por um lado, alguma me descansava outra ainda me deixava mais preocupada... veio a altura de realizar a amiocentese. A verdade é que da altura da primeira eco conjugada com o rastreio bioquímico até a realização da mesma, foram cerca de 2 semanas de espera, duas semanas essas onde vivenciei momentos de elevado stress emocional, de angustia de medo de revolta... era a minha primeira gravidez... não foi assim que eu idealizei as coisas... não era isto que tinha imaginado para mim... mais uma vez as expectativas...


Felizmente os resultados da amiocentese foram negativos e felizmente estava tudo bem com o meu bebé... mas a verdade é que já tinha vivenciando momentos muito angustiantes que tal como disse me marcaram e apesar de sarados a marca da ferida continua lá...


O restante percurso da gravidez também não foi fácil, entrei de baixa muito cedo com contrações sendo que tinha que fazer muito repouso, passei muito tempo sozinha, apesar de todo o suporte familiar e de um marido espetacular... foram tempos difíceis e depois um bebé que acabou por nascer de 37 semanas, muito pequenino e magrinho, pois a minha placenta não correspondia as necessidades nutricionais que o meu bebé necessitava, tendo o mesmo nascido de cesariana.


Os primeiros dias na maternidade também não foram fáceis, o meu bebé não pegava bem na mama foi introduzido no 1º dia de vida suplemento pois os níveis de glicémia estavam a baixar... mais uma vez as minhas expectativas tinham saído furadas... sonhei tanto amamentar, era algo que queria muito por todos os motivos e mais alguns mas sobretudo porque sabia que o meu leite seria sempre o melhor para o meu bebé ... mas infelizmente não consegui passar de 1 mês, sendo que nesse mês conheci um novo eu, um eu animalesco que gemia de dor e frustração por não conseguir alimentar a sua cria, como se me tivessem ferido das piores formas e essa dor não tivesse fim e durante largos meses não teve...

 

Era impossível falar ou ler alguma coisa sobre amamentação sem que não me sentisse culpada por não ter conseguido amamentar o meu bebé... depois um bebé que desde a primeira semana de vida até mais ou menos aos 5 meses que sofreu muito com cólicas... ou talvez agora refletindo todo o meu percurso, um bebé que absorveu muito do meu stress e que tinha como sua mãe e cuidadora uma jovem, inexperiente, assustada e cansada mãe, muito sofrida de todo o percurso que tinha antecedido o seu nascimento e agora a sua nova condição de mãe com um bebé completamente dependente de si e que se sentia perdida, impotente, exausta e muito assustada principalmente por não conseguir acalmar o seu choro.


Os primeiros meses de vida do meu bebé foram de um grande isolamento, não consegui ganhar forças para sair fazer passeios, ir a praia.... como via tantas amigas e famosas fazerem com os seus bebés nas redes sociais... Tinha um bebé que chorava muito durante grande parte do dia, que não se acalmava facilmente, nem com colo... e opiniões de todo o mundo, que era sede que era fome que era manha que era isto que era aquilo... não foi fácil... senti muitas vezes que me tinha perdido, que tinha perdido a minha essência no meio desta imensidão que é a maternidade... senti-me também muitas vezes sozinha e incompreendida e senti acima de tudo que não estava a conseguir dar conta do recado...


E a verdade é que ainda hoje, por mais que as coisas tenham acalmado... ainda há dias em que sinto isto tudo e que o medo mais uma vez toma conta de mim e que sei no fundo e por mais que eu tente não valorizar todos estes sentimentos, que sim que tive e tenho uma depressão pós parto e que apesar de já ter tentado algumas coisas, parece que ainda não encontrei aquela que me possa verdadeiramente ajudar... já fiz hipnoterapia, já dediquei mais tempo a mim mesma enquanto mulher, já passei fins de semana fora a dois, mas a verdade é que sei que ainda tenho aqui muita coisa mal resolvida e que preciso desesperadamente resolver para me voltar a encontrar e para desfrutar na sua plenitude deste bebé que não será eternamente bebé e que não tem culpa nenhuma e que precisa de mim!


Comecei acompanhar a sua página no facebook muito cedo, talvez nos primórdios da página e sempre  li muito atentamente não só o seu testemunho em relação a sua depressão pós parto como os testemunhos de outras mães que partilharam as suas histórias consigo ... e a verdade é que infelizmente neste mundo da maternidade as mães ainda são muito esquecidas no pós parto... e este tema apesar de já ser muito abordado ainda esta longe de conseguir alcançar todos os profissionais de saúde que lidam diariamente com mães e futuras mães... ainda há uma preocupação muito grande centrada no bebé que é válida e legitima, mas a verdade é que é preciso ter uma mãe tranquila e bem para que a mesma possa desempenhar na sua plenitude a bênção de ser mãe."

Á conversa com a Ana #4 - "Nos primeiros 2 meses da minha filha evitava olhar para ela, estava em piloto automático"

"Há 2 semanas percebi que precisava de ajuda porque tinha entrado numa espiral de ansiedade, medo, angústia, desespero. Sentia-me quase sempre infeliz, muitas vezes pensava que não queria ter tido a C. e queria a minha vida de volta. Não estava a estabelecer ligação emocional com ela.”

 

Assim começa o texto do meu primeiro desabafo.

Dia 25 de Novembro de 2015, pouco mais de dois meses depois de ter nascido a minha filha, e duas semanas após o início do meu tratamento, enviei um e-mail às minhas amigas a fim de partilhar o que estava a acontecer.

Ao enviar o e-mail, procurando resumir dois meses tão intensos, apercebi-me de algo que, até então, não tinha percebido. Nos primeiros 2 meses de vida da minha filha, eu cuidava dela por responsabilidade e obrigação. Evitava olhar para ela. Estava em piloto automático: era mamar, pôr a arrotar, mudar a fralda, pôr a dormir. Não havia qualquer vínculo emocional.

 

Nessa altura, eu estava tão cansada (e doente) que não me apercebi que ainda não havia acontecido o clique, aquele momento em que olhamos ou pensamos nos nossos filhos e somos inundados de puro amor. Não, eu ainda não amava a minha filha, não como eu hoje sei que é amar. Não a amava incondicionalmente. Amava-a nos dias bons, nos dias em que ela estava calma e em que dormia bem.

Nos outros, a maioria, eu não sentia qualquer empatia por ela, pelas suas necessidades. Sentia-me irritada, frustrada, mesmo zangada com ela. Pensava “porque é que fui ter uma filha assim, tão difícil, que chora tanto?!” Pensava que ela dava muito trabalho, que era uma bebé exigente, que chorava muito, que era um tormento para dormir. Ficava até admirada, às vezes mesmo aborrecida, quando alguém mostrava carinho e preocupação com ela. 

 

Aqueles dois meses foram mesmo uma verdadeira loucura para mim. A pessoa que eu conhecia em mim, até então, tinha desaparecido. Eu, uma pessoa calma, pouco ansiosa, compreensiva, parecia que vivia em constante reatividade, sempre pronta a rebentar à mais pequena situação. Abanei a minha filha porque ela não parava de chorar, gritei com ela, disse-lhe que a detestava, virei-lhe as costas muitas vezes por não suportar o choro, evitava pegar-lhe ao colo, não queria ficar sozinha com ela.

 

Tantos mas tantos sinais de que as coisas não corriam nada bem! Mas, estando no meio da tempestade, com o cansaço característico do pós-parto, pela inevitável privação de sono, não consegui ter o discernimento para ver mais do que o meu sofrimento no dia-a-dia. Nem eu, nem o meu marido. Claro que sentíamos que havia qualquer coisa errada, mas achávamos que passaria, que era uma fase, que era o cansaço a falar mais alto. Que, algum dia, as coisas iriam acalmar.

 

Com a medicação e, sobretudo com a psicoterapia e o shiatsu, a tal ligação emocional começou a aparecer. Nos primeiros dias após o início da medicação o meu marido tirou uma foto de mim e da C. A primeira em que eu sorria verdadeiramente para ela. Poucas semanas depois, pela primeira vez, acordei e em vez de sentir um peso enorme no coração, e uma vontade de fugir, senti amor pela minha filha. Senti que a Amava. Foi tão poderoso para mim. Foi mesmo bonito. Fico emocionada ao recordar. Foi um momento muito importante para mim. Depois de tudo o que aconteceu naqueles dois meses, eu comecei a sentir que não estava estragada, que não era um monstro.

 

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Ao longo deste ano e meio de vida da minha filha, a nossa relação cresceu, cresceu muito, alargou-se para nela caber tudo. Os dias maravilhosos, os dias cansativos, os choros, os sorrisos. Amo incondicionalmente a minha filha.

À conversa com a Ana #3 - "Com a depressão pós-parto surgiu a necessidade de focar-me nas minhas necessidades"

Hoje tirei o dia de férias só para mim! Sem marido, sem filha. Sem horários, sem obrigações. Um dia inteiro para seguir ao sabor do momento.

 

Com a depressão pós-parto, surgiu uma necessidade imperiosa de focar-me nas minhas necessidades. Precisava curar-me, seguindo um tratamento que implicava muito descanso, consultas, terapias. Era tempo que precisava de canalizar para mim. O meu foco não era só a minha bebé. Tinha que ser eu, tentando sempre conjugar isso com a satisfação das necessidades dela, é claro. Era necessário encontrar um equilíbrio entre uma coisa e outra.

 

E isso acabou por servir como uma aprendizagem importantíssima para o futuro. E porquê? Porque mostrou-me, de forma inequívoca, que o meu bem-estar e a minha felicidade são o elemento chave para tudo o resto. Mãe feliz = Filha feliz é realmente verdade. Todos os dias, é importante acordar e pensar/sentir: “O que é que é que eu preciso hoje para estar bem e ser feliz?” Como é que eu posso nutrir-me, quais são as minhas necessidades, o que é que eu preciso para encher o meu copo dos afetos?

 

E digo-vos, sempre, mas sempre, que eu subi um degrau no meu bem-estar e no meu sentido de felicidade, a minha filha ficou mais calma, mais tranquila, mais sorridente. É mesmo literal e automático. Em todos os momentos em que Eu me acalmei, ela acalmou. Quando iniciei o tratamento, com a toma da medicação, quando ajustei a dosagem, quando regressei ao trabalho, quando comecei a psicoterapia e o shiatsu, em todos estes momentos chave para mim, a minha filha ficou mais calma e mais segura. Os episódios de choro passaram a ser muito menos frequentes e com duração menor.

 

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E é muito bonito viver esta dança sincronizada entre mãe e filha. Este fluir de bem-estar e felicidade. Eu estou mais calma e feliz, ela fica mais calma e feliz e, ela estando assim, leva-me a estar ainda mais calma e feliz. É maravilhoso. Claro, que existem momentos, dias em que esta dança está menos sincronizada, às vezes, mesmo caótica. Afinal é o fluir natural da vida, esta alternância entre o caos e a calmaria. Nesses momentos, de stress ou cansaço, por exemplo, o meu marido, e também os avós, surgem como os outros braços que constituem esta dança. Esses braços permitem que a dança continue e que eu possa ir encher o meu copo.

 

Hoje não preciso encher o copo, preciso apenas mantê-lo cheio. Preciso preservar o bem-estar e a felicidade que sinto, para que a dança continue.

Bebé-Mãe: a primeira relação humana.

O título deste texto é da autoria de Daniel Stern que na década de 80 editou um livro, assim intitulado, e que em muito contribuiu para o aumento de conhecimento inerente à psicologia do bebé, assim como para a crescente consciencialização da importância da relação mãe-bebé para o seu desenvolvimento psicossocial.

Ao terminar de ler uma das suas obras, rápido pensei em partilhar algumas das suas conclusões aqui no blogue que me fizeram refletir bastante, e que espero que também vos façam refletir também.

 

Todos nós passamos por esta relação, sendo, de facto, a nossa primeira relação humana. 

Stern observou, filmou, analisou, estudou e descreveu muitas das interações entre o bebé e a mãe, e de vários desses momentos, retirou uma panóplia de conclusões que deram origem a conhecimentos fundamentais, que ainda guiam determinadas práticas de muitos profissionais que trabalham este tipo de relação, nos dias de hoje. 

 

Uma das suas primeiras grandes afirmações ditam que a "mãe e o bebé, quer estejam conscientes disso, ou não, sabem mais do que nós sobre as suas próprias interações sociais (...). A mãe está envolvida num processo natural com o bebé, um processo que se desdobra com uma complexidade fascinante para o qual, ela e o bebé estão preparados por milénios de evolução". Motivo pelo qual, na grande maioria das vezes, o que fazia, era observá-los.

 

Da análise destas primeiras interações concluiu que as interações sociais naturais existentes entre ambos, constituem-se das experiências mais cruciais na primeira fase de aprendizagem do bebé. Ao fim de alguns meses, o bebé desenvolve a capacidade de compreender alguns esquemas do rosto humano, voz, tato, e dentro destas categorias ele reconhece o rosto, voz, movimentos específicos da pessoa que mais cuida dele - normalmente, a mãe. Para além disso, apreendeu pistas sociais que têm efeito mútuo para iniciar, manter, terminar e evitar interações com a mãe. 

 

Pode-se afirmar que o comportamento maternal, é a matéria do mundo exterior com a qual o bebé começa a construir o seu conhecimento e a experiência de tudo o que é humano, assim como é interessante verificar que as mães agem com os bebés de uma forma diferente de como agem com outros adultos ou crianças mais velhas, sendo que, cada pessoa desenvolve o seu próprio estilo de comportamento, de acordo com o que é, ou de acordo com o seu bebé.

 

 

Seja através das expressões faciais, do tom de voz, do que verbaliza e da forma como o faz, da proximidade, do olhar, do toque, etc., várias são as formas pelas quais mãe e bebé comunicam e interagem, sendo este, de acordo com Stern, um "processo individual e intrincado - de improvisação, no local de comportamentos inesperados que vêm de dentro, de criação espontânea e mudança de padrões temporais e sequências de comportamento que nunca antes tinham sido manifestados dessa maneira, e que, no entanto, são observados milhões de vezes". O suficiente para conduzir a uma direção de ação nova e desconhecida, fazendo tudo isto parte de um processo natural e comum a todos nós. 

Á conversa com a Ana #2 - "Curei a cabeça e o coração, agora é o corpo que precisa da minha atenção e energia"

Olhando em retrospetiva para o percurso que tenho vindo a fazer desde o dia em que comecei a tomar a medicação, consigo perceber muito claramente que toda esta experiência da DPP/tratamento trouxe-me mais maturidade, clareza e confiança. Sinto-me a Ana de antes, mas uma Ana ainda melhor, muito melhor.

 

Mas existem assim uns senãos! Certas coisas que vieram com a experiência, mais concretamente com a desregulação emocional e a toma da medicação. Falo do peso. Tal como a maturidade que floresceu em mim, também os quilos multiplicaram-se. Consegui atingir a proeza de estar a pesar mais do que o que estava a pesar no final da gravidez.

 

O peso da gravidez perdi-o logo nos primeiros 2 meses. Mas claro havia uma depressão, ainda não diagnosticada, e o meu apetite flutuava tanto, quanto o meu humor. Ou não comia nada, ou atacava tudo o que aparecia à frente. Com o diagnóstico, em Novembro, e o começar a tomar os antidepressivos o apetite deixou de flutuar tanto, mas apenas para ir para o extremo do excesso. Comecei a ter fome emocional.

 

Os meses seguintes foram meses em que ainda havia muita ansiedade e culpa, e a comida era o escape fácil (e saboroso) para lidar com essas emoções. Sabia que estava a comer demasiado, que a roupa estava primeiro a apertar, para depois deixar de servir, mas não tinha energia para lidar com isso. O meu foco era curar a cabeça e o coração. O corpo, pensava, fica para depois. E ficou.

No final do Verão passado deixei de tomar o antidepressivo que me fez engordar, comer que nem uma louca e inchar! Desinchei, perdi volume, regulei o apetite para o que era habitual, acabou a fome emocional.

 

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Em Dezembro comecei a ir a consultas de acompanhamento no Centro de Saúde com o fim de emagrecer. Prescrição médica: alguns ajustes na alimentação (quantidades menores, adeus pão alentejano e manteiga) e exercício físico. Os ajustes na alimentação foram mais fáceis. O exercício físico, nem tanto. Consegui começar a fazer abdominais, pranchas quase todos os dias. Sinto-me um bocadinho mais em forma (tendo em conta que estava em 0% boa forma), mas não chega.

 

Hoje saí da consulta de acompanhamento no Centro de Saúde com o resultado de 0 quilos perdidos desde Dezembro. Prescrição médica: suar! Fazer exercício que faça o coração bater mais rápido. Ai, é mesmo desse tipo de exercício que eu tento sempre fugir. Mas vai ter que ser. Curei a cabeça e o coração, agora é o corpo que precisa da minha atenção e energia.

"Já gritei com o meu filho e já me senti a pior mãe por isso"

Este foi o comentário que uma leitora deixou no facebook do blogue, após a publicação deste texto.

 

"É msm verdade, já gritei e já me senti a pior mãe por isso...mas sei que a tarefa mais difícil é mesmo conseguir o malabarismo de todas as tarefas e ainda desfrutar da maravilha que é ser mãe, é um misto constante de cansaço e alegria...pena que muitas de nós tenhamos pouco apoio num papel tão importante que desempenhamos. Parabéns a todas porque é uma luta diária que com amor por um filho vencemos todos os dias "

 

Acredito que várias mulheres gritem, e que posteriormente, sofram em silêncio por isso. 

Acredito até que muitas sejam invadidas por pensamentos/emoções angustiantes, que não esperavam, que não querem, que temem, mas que se instalam sem pedir, ou mesmo, sem avisar. E pior. Têm crítica sobre isso, e mesmo assim, continuam a sofrer em silêncio com medos, muitos medos. Medo de que possam ficar sem os seus bebés, do que quem as rodeia possa pensar de si, de considerarem que está a ficar "maluca", e pior de tudo, de se confrontarem pessoalmente com todos eles, com todos esses pensamentos e emoções, e terem de viver, sozinhas, lado a lado, por muito tempo com toda essa culpa maldita que lhes está associada, que teima em ficar, e que é difícil de desaparecer. 

 

Começar a maternidade com o coração amarrado ao que deveria ter sido e não foi, ao que queria que se fosse e não é, não é um bom presságio para ninguém. É amargo de se saborear, duro de roer, e muito angustiante de se sentir. Mas é a realidade de muitos.

 

Imagino só, esta minúscula possibilidade, ínfima entre tantas, sobre como é que todas estas sensações convivem no dia-a-dia de cada uma, dia após dia. Com todos os malabarismos, todas as lutas, todas as opiniões alheias, todas as expectativas, todas. Imagino, só.

Imagino, e arrepia-me, só de imaginar, as que convivem com tudo isto, sem se sentirem apoiadas por ninguém, ou mesmo sem ninguém. Sem pai, sem mãe, sem marido, sem amigos, sem família. Imagino... sozinhas... com todos os desafios do dia-a-dia, como é que será? Ou mesmo acompanhadas, mas mal. Vai dar ao mesmo: sozinhas. 

 

 

Imagino as noites mal dormidas, mas sem ninguém, ou com muito poucos, a quem recorrer para ajudar. Imagino as várias vezes que pediram para sair mais cedo do trabalho, que cansadas percorrem quilómetros para a tempo chegar, e que chegando a casa, têm tudo para fazer. Depois de um dia de trabalho comum e/ou bastante extenuante, pensar que às sete ou às oito da noite, esta ainda é uma criança, e que ainda muita paciência, dedicação e trabalho há para fazer. Compreendo que muitas se possam sentir atacadas por esta vida, por esta realidade, por estes percursos e que juntando as noites mal dormidas, ao fraco apoio que sentem, à confusão do dia-a-dia, às dúvidas que emergem em todos os momentos, à sensação de insegurança, às incertezas económicas, à sensação de se estar só, entre tantas outras possibilidades, não me é muito difícil imaginar uma mãe a gritar com um filho. 

 

Imagino tudo isto junto, ou mesmo só e simplesmente, uma ou outra coisa em uníssono dia após dia e não me é muito difícil imaginar esta realidade partilhada.

 

É-me sim, muito difícil de compreender, como é que ainda tão poucos dos que deveriam, se focam e agem sobre isto. Porque gritar, pode não ser o caminho mais adequado, mas onde se verifica um pedido de ajuda, mesmo que não declarado, deveria haver, para lá dos incentivos atuais, uma capacidade de prestação de apoio emocional nestas circunstâncias que, infelizmente, não há! 

 

Portanto, antes de julgarmos mães que gritam com os seus filhos, sabendo de antemão que este (até) poderá ser dos primeiros impulsos latentes a um pedido de ajuda não declarado, porque não refletirmos mais aprofundadamente sobre isto? 

"Há pequenos momentos em que só me apetece fugir"

E quantas vezes é que se começa a falar de forma mais aprofundada sobre o tema e esta opinião acaba por tornar-se um lugar comum?

 

Sim, comum:

Ser mãe.

Apetecer fugir. 

Sentir-se sem paciência.

Culpar-se por isso.

Sentir-se incompreendida.

Ser alvo de comentários sentidos como invasivos.

Sentir que se tem de ser capaz de fazer tudo.

Sentir que não há melhor sensação no mundo do que ser mãe, ao mesmo tempo.

 

Esta leitora descreveu-no na perfeição num comentário no blogue:

 

"Gritar não.. mas há pequenos momentos que só me apetece "fugir um pouco ".. sem paciência .. e culpo me por isso . E bastante difícil ser mãe e só compreende quem é... mas também não há melhor sensação do mundo do que o nosso filho  e concordo com alguns comentários aqui a sociedade está muito centrada no que a mãe tem que ser capaz , nós temos que ser capazes de tudo , tanto que chega um pouco de nós enlouquecer .. eu sinto bastante isso temos que ser mães ser donas de casa e esposas .. basta errar uma vez somos alvos de comentários .. não é fácil ..."

 

 

Não é preciso ter um diagnóstico de Depressão Pós-Parto, para alguém se sentir assim.

Também não significa que todas as mulheres se sintam assim.

Mas a verdade, é que muitas se sentem.  

 

E então? 

 

blog@mulherfilhamae.pt

Histórias que dão a cara por esta causa #23 "tinha uma depressão avançada com pensamentos suicidas"

Mais uma história que, muito provavelmente, se encaixa no contexto de várias mulheres. Um pedaço de uma história que demonstra muitos contornos em volta da vida familiar, e da sua importância no apoio emocional durante a gravidez e no pós-parto. Conta-nos também um pedaço de história de uma mulher que, desde então, tem lutado com grande afinco para ultrapassar cada momento menos positivo do seu pós-parto, e tentado encontrar no seio da sua família, amigos e respetivo trabalho, a luz que a conforta e que a faz seguir em frente.

 

A M. é uma leitora do blogue que já teve uma depressão pós-parto grave numa primeira gravidez, e que desenvolveu uma segunda - embora que menos grave - na sua segunda gravidez. Hoje, resolveu partilhar connosco um pouco da sua história.

 

Cada mulher encontra as suas estratégias dentro do seu contexto e dos recursos que possui. Estas, foram as estratégias que esta leitora utilizou (e utiliza) para se manter o mais saudável mentalmente possível numa fase de grande turbulência emocional, como muitas vezes é, o pós-parto.

 

Partilhem também as vossas histórias e estratégias! O que considerarem pertinente pode revelar-se uma ajuda para as várias pessoas que diariamente leem a rubrica Histórias que dão a cara por esta causa

 

blog@mulherfilhamae.pt

 

Vamos conversar?

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Olá sou a M., aos 18 anos caso-me e tenho o meu primeiro filho aos 19 anos - o Francisco. Mas era mãe de primeira viagem,super nova mas sempre sabendo o que queria,mas passado 4 meses o Doutor reparou que não estava bem,e ja tinha uma depressão super avançada com pensamentos já suicidas...fui para psiquiatras ....psicólogos. ....e andei em médicos e em médicos. ...e passado 1 ano e meio o meu casamento chegou ao fim....não perdi esperança e agora tenho uma relação forte com um meio familiar muito compreensivos e estão muito presentes na vida dos meus filhos pois o Francisco é filho....Neto.....bisneto de coração da minha nova relação (foi aceite como se levasse o sangue de familia). Acho muito importante que haja um meio familiar estável, é super importante. Agora com 32 anos engravidei novamente (gravidez do Mateo) engordei quase 30 kilos e não aceitei o meu novo corpo, sentia-me muito mal, nem dormia,nem à rua eu saia, até que passado 9 meses o meu "Carlos" diz que me ama todos os dias, e quando eu tenho um problema com os meus filhos, os meus patrões deixam-me sair logo sem me cobrar uma única satisfação ou horas extraordinárias,ou me repreendam. ....a vovó Zeza fica com os netinhos e não tenho preocupações. O Seio familiar é muito importante, e ter um emprego com bons patrões, é um passo para a depressão ir embora sem nos dar-mos conta. ..há altos e baixos mas já aceitamos. ....agora é viver e pensar que não sou a única. ....sou só especial com uns kilinhos a mais....um bem haja ......beijinhos.

À conversa com a Ana #1 - "Pensava que ter a minha filha nos braços e amá-la seria algo automático. Não foi."

Conhecer a Ana, autora deste blogue, foi muito importante para mim. Foi a primeira vez que falei com alguém que passou por um pós-parto turbulento, tal como eu. Desde esse dia, tenho pensado quase diariamente na Ana, na sua experiência, na minha experiência, em todas as outras mulheres/casais/bebés que possam ter passado ou que estejam a passar por momentos difíceis.

 

Uma experiência assim pode marcar-nos duramente para a vida se nada for feito, no sentido de assumir, procurar e encontrar as ajudas certas. São mulheres, pais, filhos que ficam com marcas.

 

Pelo contrário, quando as ajudas certas chegam aquilo que podem fazer por todos os envolvidos é profundamente incrível. Para mim, foi a diferença entre uma relação turbulenta ou uma relação rica em significado e afetos com a minha filha. Foi a diferença entre o perpetuar de um sofrimento muito recalcado do passado, o qual eu julgava ultrapassado, e o começar a libertar-me de medos e inseguranças e sentir-me mais livre, tranquila e viva do que nunca!

 

Mas, e que ajudas têm sido essas?:

 

  • Medicação - foi o começo do processo de cura. Estava num tal ponto de ansiedade, angústia e exaustão que precisa de algo que parasse de imediato a espiral descendente em que me encontrava. Decorreram várias semanas até acertar na dosagem mas, ao final de apenas 15 dias de toma, já sentia melhorias. Prometi a mim mesma que seguiria religiosamente o que a psiquiatra dizia. Queria ficar boa e não queria recaídas. 10 meses depois, começamos a reduzir a medicação.

 

  • Psicoterapia e Shiatsu - ao fim de 6 meses com os antidepressivos, sentia que o meu organismo já se tinha reequilibrado. O sono, o apetite, as hormonas, a menstruação, todos esses processos fisiológicos estavam a entrar num ritmo “normal”. Mas a nível emocional, o coração pesava chumbo.

 

A recordação constante dos momentos vividos, a culpa por ter feito mal à minha bebé, por não tê-la tratado nos seus primeiros meses de vida com o amor e o carinho que ela merecia e o não encontrar ninguém que tivesse passado por semelhante e com quem pudesse falar, levou-me à psicoterapia e ao Shiatsu (massagem terapêutica). E aí tudo mudou! Tenho redescoberta a Ana e apaixonei-me pela minha filha! E, muito importante, tenho conseguido arrumar a minha experiência da depressão pós-parto sem que fiquem traumas. Para o que passou, fique mesmo lá atrás.

 

  • Rede de suporte - para mim é de longe uma das ajudas mais preciosas. Para me curar, tem sido preciso canalizar tempo e energia para descansar, alimentar-me bem, fazer exercício físico, ir às consultas ou às terapias, entre outras coisas. E, para isso, preciso de alguém que esteja para tudo o resto. A família, os amigos e, sobretudo, o meu marido têm sido o meu apoio. Sem eles, não conseguiria ter chegado onde estou hoje.

 

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E assim se tem feito o meu percurso de superação de algo que eu achava que nunca me aconteceria. Pensava que ter a minha filha nos braços e amá-la seria algo automático, natural, simples. Não foi. O nosso começo foi muito doloroso. Muito. Mas, hoje, eu, ela e o pai somos uma Família, feita de muito Amor.

Desafios no relacionamento conjugal no início da maternidade

Muitas vezes os ( também novos, mas não só) pais, enquanto casal, têm uma tendência frequente para que discussões (de múltipla causalidade) ocorram até compreenderem como é que se podem apoiar e satisfazerem as necessidades emocionais um do outro. Não é incomum, para ambos, a experimentação de sentimentos de perda, a sensação de serem menos apreciados pelo(a) companheiro(a), menos valorizados, ou até menos amados do que antes de serem pais. Isto pode aumentar a tensão e contribuir para a experiência de ansiedade e depressão entre ambos e/ou de cada um. 

 

É comum ouvirem-se as mulheres falarem sobre esta realidade, e até mesmo os seus parceiros falam sobre estes factos, mas muitas vezes abordam a questão maioritariamente por não saberem como lidar com este tipo de situação considerada pelos próprios como estranha/desconhecida. 

 

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Também é natural considerar-se e sentir-se esta realidade como um paradoxo. Afinal, o mundo da maternidade que muitas vezes é pintado às cores, revela-se em tons mais cinzentos para muitos, e negro para alguns, no seu inicio. Contudo, não nos podemos esquecer do quão delicado é o momento que estamos a abordar!

É verdade que nem tudo são rosas na maternidade, mas também nem tudo são espinhos. E, especialmente se algum dos membros do casal - ou mesmo os dois - experimentarem algum tipo de perturbação do foro da saúde mental perinatal, então a vulnerabilidade será superior e os momentos de tensão e conflitos entre o casal poderão aumentar. Experimentar esta vulnerabilidade enquanto se cuida de um bebé poderá tornar-se muito assustador, pelo que todo o tipo de apoio, compreensão e tolerância por parte da família e amigos revela-se um elemento chave e que também marca o percurso que é trilhado pelo casal neste período de suas vidas. É vital que os casais tenham acesso a apoio especializado, criem um espaço seguro para explorarem os seus desafios individuais e aprendam a apoiar-se melhor. 

 

Isso pode incluir o recurso à psicoterapia, terapia familiar, ou simplesmente a adesão a um grupo de pais, ou até mesmo reunirem-se regularmente com amigos, onde conversas abertas e honestas sobre a presente temática podem ser compartilhadas com outros na mesma jornada. Assim como é vital que a saúde mental seja priorizada, integrar o relacionamento como uma parte crucial desta recuperação em curso também é importante.

 

O resultado provável é um relacionamento de casal mais forte e uma unidade familiar mais feliz. Mas sim, sem dúvida alguma que os desafios no relacionamento conjugal após a maternidade são muitos. Aliás, mais do que muitos. São diários, constantes, e frequentemente trazem dúvidas e confusões internas, que através de uma boa capacidade de comunicação entre ambos, tornam-se mais simples de resolver. 

 

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