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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Á conversa com a Laura #3 - "A felicidade de se ser autêntica. E como a maternidade rima com autenticidade."

Um dia eu escrevi que, para mim, ser mãe é andar num monociclo à beira de um precipício e depois descobrir que afinal temos asas. E continuo a sentir isso em todos os momentos da minha ainda jovem maternidade: nos bons, nos muito bons, nos ruins, nos que apenas passam, nos maravilhosos... Em todos. Mesmo.

 

Vou vos contar um pouco da minha história. Sem filtros. Autêntica: quando a minha filha nasceu, naquela belíssima meia noite e um quarto de 13 de Fevereiro, não nasceu mãe nenhuma em mim. Eu detestei ser mãe quando a minha filha nasceu; eu só queria a minha vida "pré mãe": as noites de amor escaldante e carinhoso entre mim e o meu marido - que na altura eu chamava de namorado hehehe - ir jantar fora e depois ir beber copos até de madrugada e ficar a dormir até já não "caber na cama", o brunch numa esplanada solarenga e um mergulho na praia ou um cineminha romântico a dois... Só sei que de repente, a curvilínea e sensual Laura era do tamanho da baleia azul e tinha a graciosidade de um frigorífico combi que tinha a maravilhosa modalidade de servir leite quente de cada peito a uma bebé permanentemente ávida de atenção mas que eu grávida tinha imaginado permanentemente sossegadinha na sua alcofinha macia, o meu amante charmoso transformou-se numa insuportável criatura que me dizia sem parar para eu ter calma - que bom que era termos um interruptor do stresse instalado no nosso corpo!! - e os amigos íntimos e familiares queridos, atenciosos e preocupados tornaram-se numa miragem longínqua a partir desse dia.

 

 

Se houve algo que eu odiei das profundezas das minhas entranhas foi o início da minha maternidade e da nossa vida familiar: era para mim apenas um gigante cenário grotesco de uma mulher e de um homem ambos monstruosos e deformados sempre em guerra e a braços com uma bebé feita de nitroglicerina que eu tinha de estar sempre a pensar como desarmadilhar, numa casa caótica onde não existia mais comida nem banho nem descanso, por isso, sim, eu nesta altura e até cerca dos 4 meses da minha filha, estava sempre a tentar equilibrar-me no tal monociclo à beira do precipício... e caí. Caí numa depressão gigantesca e foi-me apresentada pela vida a mais dura e chorada forma de autenticidade: o ter de olhar para mim mesma sem máscaras nem fugas, num aqui e agora sem paninhos quentes, que só nos conduz a duas portas. A porta da existência em piloto automático e a porta do viver de verdade e na verdade. 


Eu escolhi a segunda porta que é por sua vez a mais dolorosa de abrir, aquela por onde passar nela nos rasga a pele e onde a luz que entra por ela nos queima os olhos, mas a que me levou ao caminho de eu ser adequadamente tratada e de conseguir uma rede de apoio com profissionais qualificados e especializados - psicóloga, psiquiatras, terapeutas de bebés, naturopata, Doula pós parto e outras terapeutas de vida - o maravilhoso Kundalini Yoga e meditação, que me fizeram finalmente perceber que afinal eu sempre tive, tenho e terei umas enormes, fortes e maravilhosas asas que me elevam a mim, ao meu amado marido e a minha filha e nos protegem a todos como família. E tanto o meu marido como a minha filha são também dotados dessas asas que os elevam e que me elevam e me protegem tantas vezes e que sabem tão bem! Noutros dias... As asas andam cansadas e fazem greve cá em casa e lá volto eu, o meu amado marido (para mim o melhor pai do universo e arredores!), aos equilibrismos no monociclo à beira do precipício onde a única diferença de há uns meses atrás é que já não caímos: já estamos treinados pelos melhores professores que foram esta rede de apoio e claro, a parentalidade! Esta nossa experiência e a nossa sabedoria entretanto despertada por todo este processo vivido na autenticidade.

 

Only_if_we_embrace_each_other_by_Redeemer_of_light

 

Mas o que é isto da autenticidade?

 

Para mim, é aceitarmos e nos responsabilizarmos por quem somos e o que somos, bem como a vida que temos, mas não nos conformarmos que somos "apenas" isso e que a vida não é um rascunho de um livro que nunca será editado. Nós e a vida somos aqui e agora, com as nossas virtudes, forças, frustrações e medos, sem necessidade de máscaras ou armaduras do nosso "modo sobrevivência", pois a vida só é vida, só é vivência em pleno na autenticidade.

 

Por isso na minha opinião, a maternidade só é bem vivida na autenticidade. Sem floreados nem fantasias mágicas, sem bruxas más nem monstros. Apenas sendo como ela é: feminina e flutuante, furiosa e terna, quente e fria, doce e amarga, emocional e potente, empoderadora e infinita... Autêntica. Não dá para fugir da maternidade! E então ela nos transforma, colocando a nossa essência à vista, iluminada e poderosa.

 

E foi através desta autenticidade que desde os 5 meses da minha filha, eu descobri o que é amor incondicional, o que é amor autêntico, por ela, pelo pai dela e por mim. E sim, pela minha filha é simplesmente um amor que de tão infinito que é, dói tanto quando transborda neste corpo humano finito mas cuja alma, também tão infinita, rejubila e que mesmo nos momentos mais complicados, agradece, aceita, se transforma e evolui. 
E é este amor tão autêntico por mim e por nós que me transformou na mulher e na mãe autêntica que eu agora sou. Sem filtros. Uns momentos tão carinhosa e calma e noutros tão feroz e brava, mas sempre de bem comigo mesma.

 

Obrigada maternidade por me teres feito rimar com autenticidade!