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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Admiro os Pais que cuidam dos filhos a tempo inteiro!

Foram nove, os meses que estive em casa de Licença. 

Inicialmente planeámos que ficasse os típicos seis, mas depois acabei por ter de alargar a licença e ficar durante 9 meses, a tempo inteiro com a Madalena.

Há tanto para dizer em relação a esta experiência, que sinto que os pensamentos correm, e que aqui não há espaço suficiente para poder escrever tudo o que gostaria sobre o tema.

 

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Tive de ficar em casa pela força de algumas circunstâncias, mas também quis ficar mais tempo a cuidar da minha filha. Senti que seria benéfico para ambas, especialmente para ela. Por outro lado, também queria voltar a trabalhar e às minhas rotinas habituais. Precisava do meu tempo, das minhas construções.

Ou seja, inicialmente foi bastante confusa esta (nova) realidade, em determinados momentos, para mim - ser Mãe a tempo inteiro. Pensei muitas vezes nas mulheres que o são, quer por opção ou por força das circunstâncias, e senti, sempre que pensava no assunto, o quanto as admirava!

 

Hoje em dia muitas de nós trabalham e exercem paralelamente o seu complexo e desejado papel de Mãe.

Trabalhamos e temos de gerir toda a logística que envolve o trabalho, a creche para uns, a ida e vinda da casa dos avós para outros, a confeção de refeições, os banhos, a preparação do necessário para o dia seguinte, o tempo de qualidade com os filhos (e connosco próprios), entre tantas outras tarefas que integram o nosso dia-a-dia. Trabalhar e cuidar de filhos, é complicado e envolve uma adaptação brutal das rotinas de um casal e de cada um dos elementos por si só, assim como das suas necessidades humanas básicas, psicológicas e de autoregulação. No entanto, ser mãe ou pai a tempo inteiro, não é - de todo - muito diferente! 

Pode não envolver toda a azáfama de ir de um local para outro ou gerir as preocupações que ocupam as mentes e corações de pais que passam o dia sem ver os seus filhos, mas envolve várias outras coisas que tornam esta condição muito difícil. Mais do que, para muitos, aparenta.

 

A vida de alguém que cuida em exclusivo de alguém (e evidenciando aqui uma mãe/pai que cuida de um filho a tempo inteiro) corre o risco de se fundir no cuidado, na atenção exclusiva e no necessário para suprir a necessidade do outro. O tempo para si dissolve-se entre os cuidados com o outro, os trabalhos domésticos e outras necessidades familiares.

Claro que esta pode não ser a realidade de todos os pais, mas acredito que seja a realidade de muitos que o são a tempo inteiro. 

 

Desde que voltei a trabalhar e a solidificar todas as rotinas que tinha e a integrar outras novas, a verdade é que, por muitas (imensas!) saudades que tenho da minha filha durante o dia, sei que em grande parte, faz parte deste processo, e que no geral, nos faz bem. Sentir saudade, é saudável para qualquer relação. É fácil dar-se mais valor ao que se tem, quando se sente a sua ausência, seja de que tipo for. Então, quando não sentimos a sua ausência, como podemos sentir saudade? Como podemos gerir o que sentimos em relação ao que nos repleta e completa, se o temos sempre perto de nós?

 

Não se gosta mais ou menos quando trabalhamos ou ficamos em casa a cuidar dos filhos. Mas a verdade é que é muito difícil gerir uma relação a longo prazo, quando se passa o tempo inteiro a vivê-la. No fundo, independentemente do amor que se tenha pelo outro, a verdade é que é (mais) complicado - no meu ponto de vista - gerir a relação entre uma mãe/pai e um filho quando se cuida em exclusivo do mesmo, de ambas as partes. O que torna esta opção, fruto de admiração da minha parte. 

Se tivesse de o fazer, como foi o caso, continuaria a cuidar a tempo inteiro da minha filha com todo o amor e intenção. Mas sei que seria difícil para mim fazê-lo a longo prazo. Preciso muito do meu tempo, e só o facto de estar a trabalhar já faz com que tenha tempo para mim. O que não acontecia com tanta frequência (ou praticamente nenhuma) quando cuidava a tempo inteiro da Madalena.

 

Desde que voltei a trabalhar, sinto até que a nossa relação evoluiu. A minha filha sente a minha falta e eu sinto muito a falta dela, mas quando nos vemos levamos uma injeção de amor e emoção e ficamos a saborear normalmente, um longo abraço acompanhado de um jato de beijos e sorrisos que enchem e floreiam todo o meu dia, independentemente de como o dia começou ou como se foi desenrolando. A verdade é que o momento em que nos vemos, é muitas vezes, o momento do meu dia. 

 

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Enquanto cuidei a tempo inteiro da Madalena também tive ajuda dos meus pais e de amigos próximos sempre que precisei, mas tudo isto me levou muitas vezes a pensar: E quando existem pais que estão na mesma situação do que eu, e pouca ou nenhuma ajuda têm? E quando existem pais que têm de cuidar dos filhos a tempo inteiro, porque é a única alternativa? 

Não é, não deve ser - mesmo nada - fácil, esta condição.

 

Não coloco em causa (jamais o faria) o amor que cada um de nós sente pelos seus filhos. Não sei sequer se tal é mensurável. Simplesmente hoje, ao lembrar-me de muitos desses momentos que passei enquanto cuidei a tempo inteiro da Madalena, e agora, vendo como tudo está desde que voltei ao ativo - e o bem que isto nos fez! - decidi dedicar a todos estes pais, as minhas palavras, o meu tempo e a minha grande admiração.