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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Amiga, estarei sempre aqui!

E não tenhas dúvidas. 

 

Ainda me recordo das conversas em que o tempo passava a voar. Em que divagávamos sem limites, sempre fixadas na esperança de que um para sempre assim estaria ali subjacente. 

Ainda me recordo daquelas músicas que nos faziam divagar em silêncio. Que penetravam diretamente no nosso âmago, e que nos faziam sonhar e imaginar como estaríamos dali para a frente, sempre juntas. 

 

As gargalhadas nas madrugadas após uma noite de loucura e as ressacas nesse mesmo dia. Ressacas de, acima de tudo, noites, momentos, paixões, vivências, que sabíamos (lá bem no fundo) que cada vez seriam menos frequentes. 

 

E aquela noite em que fui bater à tua porta às tantas da madrugada? Não. Não estava, de todo, numa boa fase. E tu, acolheste-me, como sempre. 

E aquela tarde me que te liguei desesperada? Não sabia o que fazer. E tu, orientaste-me. 

E naquela manhã em que apareci de surpresa para tomarmos o pequeno-almoço em conjunto? No fundo, apetecia-me falar contigo. Saber a tua opinião. E tu captaste-me, mesmo sem o assumires. Mesmo sem o assumir. Contornaste o assunto e foste direta ao cerne da questão. Apanhaste-me no meu próprio enredo, e confrontaste-me com o que precisava de ouvir, mas que não me apetecia nada. Apeteceu-me gritar-te naquele momento, mas eu sabia que tinhas razão. Lês-me tão bem! Sempre foi assim.

E quando aconteceu o mesmo contigo? O teu mau-feitio não te permitiu assumir o momento em que te captei, e viraste-me as costas. Ficámos um tempo assim, mas o que nos unia era, sem dúvida, mais forte. 

 

Primeiro a escola, depois a faculdade, e entretanto, entrou mais alguém para o nosso mundo. Percebi cedo que era o tal. 

Foi difícil dividir-te de inicio, mas a vida é mesmo assim. Rápido me apercebi o quão difícil também foi para ti dividires-me, quando fui eu que encontrei o tal

 

O tempo passa. Continuamos unidas, mas menos tempo juntas. O tempo voa cada vez mais depressa quando nos vemos. Aquele abraço apertado que trocamos, o carinho que se mantém e a forma como tentamos aproveitar cada segundo de conversa a sós, e a quatro. O nosso ritmo de vida é frenético. Isso sempre foi algo que tivemos em comum, e que se mantém. O tempo voa quando estamos juntas, e voa quando estamos sós.

E de repente surge a notícia... oh meu deus, vais ser mãe! Vou ser tia... 

 

Incrível como o tempo passa! Incrível! Só me consigo lembrar daqueles momentos em que divagávamos, questionando - e quando formos mães? - E agora, chegou o momento! 

 

Para mim ainda é cedo, mas eu sabia que esse caminho chegaria cedo para ti! Sempre foi o teu maior desejo! 

Lembraste do que perspetivávamos jovens para este momento? É tal como tu o imaginaste? 

 

É maravilhoso ver-te assim. Radiante, feliz. A gravidez vai passando, e mesmo apesar dos enjoos e de todas as alterações que vão ocorrendo dia após dia, estás verdadeiramente linda! 

 

O tempo de gestação está quase a terminar e rapidamente teremos a nossa menina junto de nós. Já não seremos só duas a passar uma tarde a falar sobre a vida, mas teremos mais uma miúda para integrar! Não tenho grande experiência com bebés, mas quero estar aqui para te ajudar em tudo o que precisares. É tão bom ver-te assim, feliz! 

 

A pequena já está cá fora, linda, saudável...é um doce! E vocês, os pais mais babados do mundo. 

Combinamos ver-nos depois da saída da maternidade, mas não dizes nada. Estranho. Ligo, e não atendes.

Ligas depois, dizes-me que está tudo bem mas que estás cansada. Combinamos para outro dia, e mantemo-nos semana após semana assim. 

 

Decido ir bater-te à porta com uma caixa de sushi e um bolo de chocolate, tal como tu adoras! 

Assim que te olho, há qualquer coisa estranha. Não trazes mais aquele brilho no olhar. Dizes-me vezes sem conta que estás cansada e não provas o que te trouxe para comer. Praticamente não me deixas ver a nossa princesa. Estava a dormir e não queres acordá-la. Compreendo. 

 

Sinto que provávelmente vim em má altura e opto por sair após um forte abraço, que não resisto em oferecer-te. Devolves-me o abraço de forma amena, e eu olho para ti. Afirmo que estarei sempre aqui para o que precisares. Sorris (pouco) e agradeces.

 

Não consigo parar de pensar nesse momento estranho. Comento com a minha família, comento com a tua família, e parece-me que não sou a única a achar que algo não está bem. Tento voltar a ver-te mas ofereces sempre alguma resistência. Ofereço-me para ficar com a nossa princesa, mas tu não deixas. Ofereço-me para te fazer o almoço, mas tu não queres. Dizes-me que tens muito tempo para isso. Ofereço-me para ir contigo passear pela hora de almoço e após a sesta da nossa princesa, mas tu resistes.

 

Passa-se alguma coisa. E eu não compreendo o quê.

 

 

 

Estás há quatro meses consecutivos assim, e eu sem saber como chegar até ti. Não penso em desistir, mas de que forma faz sentido continuar? Depois de todos estes anos... Depois de tudo o que passámos juntas...Honestamente, não compreendo! Porque não falas comigo?

 

Resolvo encontrar-te "de surpresa". Sei que costumas ir ao mercado no Domingo de manhã. Mas curiosamente, hoje, não estavas por lá. Vou até tua casa e encontro-te deitada pelas 13h00, sem vontade para fazer nada. Dizes-me que a nossa princesa teve uma má noite. Sento-me perto de ti e penso que desde que foste mãe, nunca me falaste sobre ti, sobre o que sentes, como estás. Estás sempre "bem". Será?

Confronto-te. Fico na expectativa de ver ressurgir o teu mau-feitio, como outrora. Mas não. Ao revés, dizes-me num tom de voz baixinho, sem me encarares: Tenho uma depressão pós-parto.

 

Engulo em seco, olho para baixo e sinto-me completamente sem jeito, envergonhada. Sinto que nada compreendi durante os últimos meses. Sinto que não estive por aqui. Como é que isto me passou ao lado? 

 

Grita em mim uma vontade de te abraçar, de te abanar, de te fazer ver o mundo tal como quando divagávamos em conjunto, sem limites, há muitos anos atrás. Dá-me vontade de estar frequentemente por perto. De te ajudar. Mesmo sem saber como. Dá-me vontade de te olhar, de te mostrar que te estou a ver, e de te afirmar, bem perto de ti, que estarei sempre aqui. Para sempre assim

Agora tudo faz mais sentido, mas mantém-se a dúvida: como é que será confortável para ti o "estarei sempre aqui"?

 

De qualquer uma das formas, tendo conhecimento do que partilhas, floresce em mim uma acalmia, respiro fundo e penso: vou tentar expressá-lo um dia de cada vez. 

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