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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

E se... acreditássemos os dois?

Lembro-me do primeiro dia em que trocámos olhares. Eu fixei-te, mas não obtive retorno. 

Acreditei que também poderíamos cruzar energias naquele ambiente tenro, mas não aconteceu. 

Ficaste-me no pensamento, amor. Sim, amor. Foi assim, num tom adolescente que me assolaste o pensamento, e não saíste mais. Acontecera comigo, e eu não queria acreditar.

Deixámos a sala, e eu sabia que sete longos dias de espera e ânsia me aguardavam. Mas calma. Tudo se esgotava numa pequena esfera de fraco autocontrolo, quando comparado com o momento em que nos voltaríamos a cruzar. Poderiam não ser as nossas energias, mas a minha vontade...talvez a minha vontade, de alguma forma, prendesse a tua. Quem sabe.

 

 

(e não é que estava certa, sem saber?)

 

 

Perguntaste-me como tinha sido a minha semana quando nos voltámos a ver. Eu vibrei por dentro, mas tal não se fez sentir na voz. Tentei responder de uma forma neutra, mas a demonstrar claramente que queria que me perguntasses mais qualquer coisa. Foi inevitável. (mas o que é que se passava comigo?! Nunca tinha estado assim!)

Conversámos  durante horas. Nesse dia e nas próximas semanas e meses que se seguiram. Tema de conversa não faltava. Falávamos amor, falávamos de amor, falávamos com amor, e a amar, cada detalhe que em nós sobressaía e que construía um nós com futuro. É tão bom recordar amor.

 

E quando decidimos juntar escovas, sapatos, malas, roupas, expectativas, livros, sofás... tudo debaixo do mesmo teto. 

 

 

(acham que foi ótimo? Nem por isso...)

 

 

Os primeiros dias foram apaixonantes, as semanas que se seguiram desafiantes, e os meses após, desestruturantes. Mas aguentámos firmes. Porque era de amor que falávamos. Era com amor que falávamos, lembraste? 

 

E quando decidimos que juntar os melhores amigos, a família, vestirmo-nos a rigor e fazermos uma festa à nossa medida, seria uma excelente forma de celebrar a forma como falávamos de e com amor? Eu choro, a rir, cada vez que os pormenores me afluem em pensamento e se esgotam em emoção. Minto. Não se esgotam, transbordam. Transbordam em emoção. O calor, a tensão, os sorrisos, as despedidas, as conversas, as divergências, a comunicação, o amor (acaba sempre em amor). Tudo isto são conceitos que nos encaixam na perfeição. Tu sabes. Eu sei. E o nós - este nós que em nós existe e persiste em crescer - agora ganhou forma, e nome!

 

 

(mas dá para acreditar?!)

 

 

O amor já não é só falado e demonstrado entre nós. Agora também é pessoa pequena, de grande envergadura emocional. 

E é tão bom crescermos juntos. É tão bom assistirmos juntos à sua evolução. É tão bom, fazermos também parte dela.

Mas não é só um tom tão bom que tocamos em conjunto. Existem outros tons. Existem tons de amargura, de frustração que também tocamos na perfeição, em determinados momentos. E quando esses dão origem a tons mais altos e agudos? Aquele tipo de tons dos quais não nos orgulhamos e que teimam em perdurar nesta fase em que ambos precisamos (mais do que nunca até aqui) de apoio e proteção?

 

Um nós ganhou forma de ser, e essa forma de ser, transformou a nossa forma de ser em conjunto e em particular. E agora, em conjunto gritamos por ajuda sem o dizer. Gritamos simplesmente. Ou às vezes, gritamos de fúria de viver. Outras não gritamos, mas estamos em silêncio, incomodados com a presença um do outro. De qualquer uma das formas, falando a gritar ou em silêncio, gritamos por ajuda. Gritamos porque sentimos que as nossas conversas já não estão só e simplesmente imbuídas em amor, mas também em tristeza e irritação. Por vezes até, desilusão. 

 

Gritamos por tanto e por tão pouco. E no final, sentimo-nos sós, mesmo na presença um do outro. E aqui, já não gritamos. Por vezes, choramos.

Sim, é triste, amor. Um nós cresceu, cresce, e o nós parece que desapareceu, desaparece.

Gostava de escrever outras coordenadas para seguir a teu lado. Gostava de encontrar aquele outro nosso lado que eu também sei que existe. Gostava porque se grito, a falar ou em silêncio, e se aqui ainda me mantenho considerando um vasto leque de tons que teimamos em descobrir em conjunto, é porque de alguma forma ainda acredito que sabemos falar de e com amor, para além de gritar.

 

Mas não quero ser só eu a acreditar, por isso, tão ansiosa como na troca do primeiro olhar, proponho-te o seguinte:

 

 

E se... fossemos os dois a acreditar? 

 

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