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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Educar também é ensinar a dizer adeus...

Sendo este um espaço de crónicas e por isso de reflexão e partilha... é incontornável a minha partilha convosco. E partilho por necessidade, confesso, no sentido individual, mas também, como testemunho, para que esta possa ser outra forma de chegar até vós.

 

Nas últimas semanas fui obrigada a despedir-me de duas pessoas que fazem (pois continuarão sempre a fazer) parte da minha vida. Duas pessoas que tinham ainda muito para viver. Não foram as primeiras despedidas... Já vi partir outras pessoas também precocemente e já perdi algumas que amava, como os meus queridos avós.

Mas desta vez foi diferente, pois desta vez tinha que lidar com o papel de mãe.

 

 

Desta vez para além de ter que gerir a minha dor, a dor do meu marido, tive (tivemos) que pensar na melhor forma de chegar a dois meninos extraordinários de 6 e 2 anos...

Tivemos que explicar o inexplicável, dizer que a avó agora era uma estrelinha no céu. Também explicámos (da forma mais simples possível) que quando alguém morre há um sítio onde todas as pessoas que a amam se despedem e podem lá ir sempre que quiserem. E que já não vamos poder estar mais com a avó, mas que fica no nosso coração e nas nossas memórias. Também dissemos que é natural ficar triste e chorar (e até ficarmos zangados...) que podemos chorar o quanto nos apetecer.

 

O Tiago de 6 anos ficou sério a ouvir, arregalou os olhos, quis saber pormenores (alguns que até nos desconcertam e espelham a sua inocência... “Mas como é que os ossos se transformam em estrelas?”) e só ao deitar-se partilhou emocionado (uma emoção contida) “Mamã, lembro-me de ir ao largo com a avó...”, memórias que reforçam o amor que vai ficar para sempre.

O André de 2 anos e meio, parecendo não ligar, não foi indiferente à tristeza dos pais distribuindo os seus abraços reconfortantes e notou-se que ficou mais sensível. Alertando a nossa consciência para a importância do nosso comportamento.

Apesar da sua noção de morte ser ainda muito vaga, sou de opinião que não é saudável omitir ou não mostrar a tristeza que sentimos. É discutível a participação nas cerimónias em família, não vejo um contra evidente, cada caso é um caso e até pode ajudar a lidar de forma mais natural com a morte.

No nosso caso decidimos que os miúdos não iriam (há pouco tempo começou uma nova etapa, a primária, e não quisemos arriscar, e se não ia um, não ia o outro), mas fizemos a nossa “cerimónia”, um desenho e um girassol que era a flor preferida da avó, os quais dissemos que iríamos colocar junto dela e assim o fizemos.

 

 

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E quando esta dor ainda estava em processo veio outra... o meu tio, meu querido tio... de uma forma igualmente inesperada e brusca.

Não foi possível esconder a tristeza profunda e, mais uma vez digo, nem acho que seja essa a melhor forma de lidar com a situação.

O meu filho mais novo deu-me um abraço e o mais velho (que dei por mim a ter a necessidade de justificar... pois estava a receber a segunda notícia de morte em tão pouco tempo) disse: “Mãe, há algumas pessoas que morrem, outras não morrem”, não o contrariei ou corrigi, terá muito tempo.

Educar também é ensinar a dizer adeus... e para isso aceitar emoções mais cinzentas e permitir falar, falar de tudo, das memórias, da dor, da morte... pois a morte também faz parte da vida.

 

 

Texto escrito por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)