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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Em rede ou na rede?!

Em conversa constatei um facto dos dias de hoje. Se há umas décadas existiam os diários, nos quais escrevia-se secretamente e muitas discussões eram geradas quando alguém ousava lê-los. Atualmente não só partilhamos o registo de vivências como queremos que seja visto (caso contrário não publicávamos...) e comentado!

Até aqui tudo ok, efetivamente a tecnologia e as redes sociais facilitaram a transmissão de informação e consequentemente a partilha entre todos, o que tem a grande vantagem não só de nos sentirmos mais próximos (quando a distância geográfica é grande), como de criar pontos comuns, informar e até formar e deste modo ajudar a desmistificar ideias e aceitar com mais naturalidade certas situações.

No fundo este espaço é prova disso mesmo!

Então qual é a questão?

Existem várias questões, mas pensando num contexto de saúde mental poderemos reflectir acerca de: isolamento, idealização, expectativa, ansiedade,...

 

Poderá haver um isolamento camuflado atrás de um qualquer dispositivo electrónico, mas mesmo quando não há um isolamento físico, muitas vezes há um “isolamento mental”, muitos de nós esconde nos seus pensamentos um sofrimento, uma desvalorização acerca das próprias capacidades, um mal-estar social causados precisamente pelo bombardear de informação colorida, pela partilha de momentos que sendo reais aparecem de forma perfeita num contexto virtual. E será só em contexto virtual?... Mesmo num contacto directo, vê-se o empenho de muitas pessoas em passar uma imagem que poderá não corresponder ao que realmente estão a sentir. Como diz uma amiga ninguém mostra o seu lado lunar quando está em campanha!

 

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Um exemplo disto mesmo é a vivência da parentalidade, tanto num período pré, peri e pós-natal, como noutras etapas da vida de uma mãe ou de um pai, a idealização colocada nas futuras e presentes experiências, esperando-se um “bebé modelo”, acompanhado pela mãe/pai perfeito, juntamente com a expectativa imposta pelas imagens e pelos relatos transmitidos por pais que muitas vezes escondem as mesmas dúvidas, dão a ilusão da possibilidade de um mundo perfeito, mas o mesmo não existe, nem tem que existir. Direi mesmo não deverá existir! E porquê? Porque quem considera que não erra (ou não lhe é permitido errar) tem muito maior probabilidade de lidar mal com as contrariedades, com a frustração e tornar-se inflexível, intolerante. Será que queremos pais, ou seja crianças assim?!

Agarrando no desafio da nossa querida autora deste blogue Ana Vale “Movimento - O que é que tu sabes sobre depressão pós-parto?”, vamos partilhar sim! Seja em que rede for partilhar dúvidas, angústias, medos,... e conhecimento, tolerância, serenidade.

O maior desafio é acolher e respeitar qualquer convicção e sentimento, tentando desmistificar crenças que em nada ajudam a que o papel de mãe/pai atinja a sua plenitude e equilíbrio. E se temos pais equilibrados, temos crianças equilibradas (seja o que for esse equlíbrio para cada um de nós).

 

 

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Neste sentido é ótimo estar em rede, mas sem cair na rede...

É tão importante reflectir acerca do que é importante para nós e não só para os outros, o que é que eu sinto e não o que é suposto sentir porque os outros o consideram, é fundamental pensarmos acerca das nossas prioridades e, neste sentido, pensarmos sobre a forma como colocamos as “redes sociais” (virtuais e reais) a nosso favor e não colocarmo-nos ao dispor das “redes sociais”, reféns de uma liberdade de expressão muitas vezes prisioneira do “gosto” e de uma avaliação de nós mesmos presa à realidade que nos é mostrada.

Em consulta a mãe de uma criança que acompanho mostrava-se angustiada com o que lhe teria sido aconselhado, perguntei: “E para si, o que lhe faz sentido?”

 

 

Texto da autoria da Psicóloga Clínica Raquel Vaz