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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Histórias que dão a cara por esta causa #26 "Desliguei de mim e odiei cada momento na maternidade após o parto"

A Laura, uma mulher com grande força interior e coragem, decidiu partilhar connosco a sua história e revelar alguns dos detalhes mais sombrios do inicio do seu pós-parto. Algo que não se orgulha, mas que conscientemente sabe que fizeram parte de um momento da sua vida em que, tal como refere, "desligou dela própria".

Passa-nos várias mensagens absolutamente necessárias de considerar aquando da passagem por um momento semelhante, das quais evidencio o facto de, ser impreterível pedir ajuda o quanto antes.

 

Tal como a Laura, existem muitas outras mulheres que passam por situações semelhantes. Não hesitem e enviem-nos a vossa história! Temos de falar sobre este assunto. Histórias como estas são cada vez mais comuns e o movimento tem de ser, com cada vez maior frequência, no sentido da partilha e da sensibilização. 

 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

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Olá Ana,

 
Sou a Laura e tenho uma história de maternidade para contar e sei que mais histórias terei, pois sei conscientemente e aceito que a minha e a nossa viagem é longa, aventurosa, complexa e maravilhosa, que uns dias serão de tempestade e muita chuva e outros de muito sol e amena brisa.
Primeiro que tudo, quero agradecer ao nosso parto por ter corrido tudo ao contrário do que eu queria para nós os três: eu, a minha amada filha e o meu amado marido. Por causa deste parto, que eu queria natural, tranquilo, acompanhada e sem qualquer intervenção, mas que acabou numa cesariana sem o meu marido presente por proibição do hospital, eu hoje sou uma mulher e mãe caminhante mais consciente e forte na minha longa viagem pessoal.
Após o nosso parto não ter corrido como eu queria e tinha idealizado e eu ter deixado de ter controlo e de ser atriz do mesmo, eu desliguei. Eu desliguei de mim, da minha desejada e recém nascida filha e do meu amado marido e recém pai. Odiei cada momento na maternidade após o nosso parto. Eu só sentia solidão, medo, angústia, dor física e psicológica e muito, muito desespero e quando a minha filha chorava eu só pensava em fugir, em começar uma nova vida sem ela nem o meu marido lá muito longe onde ninguém soubesse quem eu era nem de onde vinha. Ainda na maternidade, no dia seguinte ao nascimento da minha bebé, fiquei inválida fisicamente e descobriu-se que a aplicação da epidural, que eu não queria mas que foi a minha salvação às tremendas dores de um parto induzido, tinha me feito uma fissura numa membrana, o que fez com o que o meu marido ficasse a cuidar da nossa bebé sozinho em casa durante 24h e a sustentá-la a leite artificial em biberão, mais uma vez conforme tudo o que nós não queríamos, enquanto eu era submetida a mais intervenções clínicas e picadas nas minhas veias já ressequidas de dor e tristeza.
O meu regresso a casa e também o primeiro momento desta nova família na nossa casa foi horrível. Eu e o meu marido discutimos imenso devido a tanto stresse acumulado, tanto medo e ansiedade mal geridos e a nossa filha chorou imenso. Tudo o que me recordo desses primeiros dias e semanas com ela em casa, dos nossos primeiros dias como família, é de uma névoa cinzenta, pesada e sufocante onde reinavam em mim o pânico, o medo, a culpa, a ansiedade, a tristeza, o arrependimento, a raiva, a revolta e o total descontrolo emocional, psicológico e mental. Chamava-me a mim mesma de gorda e de deformada e gritava vezes sem conta a chorar que eu não era mulher, não era mãe, eu não era nada. Não tínhamos qualquer apoio familiar ou de amigos íntimos, fosse com um par de braços extra ou uma sugestão criativa e empoderadora, uma panela de sopa, comida pronta ou roupa lavada. Lembro-me de não tomarmos banho durante mais de uma semana, de fazermos turnos a cuidar da nossa pequena bebé para dormirmos o suficiente para não enlouquecermos os dois, de termos de ir à pressa ao café mais perto de casa buscar uma porcaria qualquer para o nosso corpo sobreviver, da amamentação ser extremamente dolorosa e lembro-me de chorar muito, gritar muito, de me doer tudo muito e de odiar tudo muito. Principalmente de me odiar a mim própria. Muito.
Foi quando o meu amado marido e pai da nossa amada bebé me disse que eu precisava de ajuda médica, tendo começado medicação adaptada à amamentação e continuado psicoterapia, que eu já fazia antes por ser a fiel portadora de um transtorno bipolar e de uma história de vida muito turbulenta e conturbada, que eu pensava bem controlados - oh ingenuidade!
Ficou tudo melhor? Não. Quis fugir novamente, insisti várias vezes com o meu marido que a nossa melhor hipótese de sobrevivência e o melhor para a nossa bebé era a deixarmos numa instituição de acolhimento - ainda hoje passados quase três meses, revolvem-se-me as entranhas ao escrever esta realidade - ou eu ir embora e cheguei mesmo a fugir de casa. Voltei passadas horas de tormento para o meu marido e a nossa filha e o da minha constatação verídica: se eu não pedir ajuda, eu suicido-me, porque eu descobri nessas horas de ausência, que o que eu mais queria era morrer, já que não conseguia ser mãe e esposa mas também era insuportável estar longe. E novamente fomos em busca de ajuda médica, foi ajustada a medicação e isso levou-me a abrandar a velocidade frenética de corrida numa espiral negativa que me ia levar ao suicídio, para começar a conseguir pensar com mais clareza, consistência e consciência e eu corajosamente criar, construir e firmar uma rede de apoio através de entidades e profissionais especializados em apoiar mães, pais e bebés, que estão a substituir a família e amigos íntimos que nós não temos e que não valem a pena chorar por isso e que me está a colocar num enorme e bem recebido caminho de auto conhecimento consciente e desenvolvimento pessoal, onde já encontrei e estou com pessoas fantásticas e isto tudo fez trazer novamente ao topo a minha essência, o amor pelo meu marido e o amor pela minha amada filha bebé, enquanto desfruto do prazer de amar a família que criámos, conectar-me com a minha bebé e amamentá-la sem dores nem dificuldades, apaixonar-me novamente pelo meu marido e amar-me a mim mesma, meditar, aprender, crescer, acalmar e evoluir.
Felizes para sempre? Claro que não!! Há dias horríveis e outros maravilhosos, uns que se passam apenas e outros bons e este é o verdadeiro desafio da maternidade: equilibrar este nosso jogo de luz e sombra interno de forma consciente, sintonizada e sentida.
Hoje sei que o meu futuro é paz, carinho e amor e que daqui a pouco serei uma Mãe que ama incondicionalmente.
 
 
Um grande beijinho com um terno abraço!

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