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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Histórias que dão a cara por esta causa #18 - "Tinha falta de vontade de tomar conta da bebé que chorava e eu não ligava"

É sempre com grande estima e interesse que leio os testemunhos que me enviam! 

Para mim todos eles têm um lugar cativo, pois de certo que todos já ajudaram muitas outras mulheres e respetivas famílias a tomarem consciência, ou a aumentarem a sua consciência, sobre o baby blues e a depressão pós-parto. 

 

A Ana enviou-se o seu testemunho há poucos dias, e tal como lhe disse, deixou-me perplexa perante o que relatou, e ao mesmo tempo, pela força que demonstrou ter perante todas as adversidades, tendo em conta as circunstâncias referidas pela própria. 

Melhor! Para além da partilha, ainda deixou uma mensagem muito assertiva, sentida e realista a todas as pessoas que possam estar a passar por esta problemática, tal como ela. Curiosos?

 

Podem lê-la no final do testemunho, e não se esqueçam que também vocês podem contribuir para que todos tenhamos uma consciência maior sobre esta problemática. Enviem-me o vosso testemunho, tal como a Ana fez, para blog@mulherfilhamae.pt

 

 

Olá, eu sou a Ana, tenho 35 anos, mãe de dois filhos e sou acompanhada em psiquiatria desde 2011.

Em 2011 estava já a tentar engravidar há quase dois anos, tínhamos já feito alguns exames para saber se estava tudo bem e não foi identificado nenhum problema. Simplesmente não acontecia... e de repente, da noite para o dia, ela veio sem eu me aperceber. Foi a primeira noite sem dormir, na almofada só ouvia o bater do meu coração a 100km/h. Cada vez que fechava os olhos, uma avalanche de coisa e tinha de os abrir. E os pensamentos a mil à hora, tudo de repente me pareceu estanho, eu era estranha, a casa era estranha, o meu R. era estranho. Parecia que andava assustada, em permanente estado de alerta. Vim depois a saber que era ansiedade, a resposta que temos perante o perigo, mas aparentemente sem razão, como eu lhe chamo, patológica. Nos dias seguintes o quadro manteve-se, não conseguia dormir, não conseguia controlar a velocidade dos pensamentos, e comecei a não conseguir comer. Para além disto tudo, senti-me muito apática, sem energia, agoniada, mas não conseguia chorar e o meu corpo pesava chumbo. Tudo era um sacrifício. Andar, comer, falar... tudo. E eu sentia-me culpada por estar assim, por não me sentir bem em lugar nenhum, por estar a causar sofrimento ao meu marido e a às pessoas que me rodeavam. Mas pedi ajuda passado poucos dias. Marquei uma consulta de psicologia e após a consulta chegou-se à conclusão que estava a vivenciar um episódio depressivo com a companhia da amiga ansiedade. Falar ajudou, por momentos sentia que voltava ao meu eu, mas rapidamente tudo ficava igual. Ficou combinado relaxar, comprar qualquer coisa de origem vegetal para tentar dormir, continuar a psicoterapia e se a coisa piorasse procurar o médico de família. Mas o principal nunca estabilizou, o dormir, e depois de 2 semanas de muito penar, decidiu-se avançar para o tratamento com calmantes e antidepressivos e a coisa começou a melhorar.... Chegou-se à conclusão que o primeiro episódio foi despoletado pela dificuldade em engravidar, talvez por ter exigido muito de mim, não sei. Aos olhos de hoje, e pelo que conheço de mim agora, o episódio apareceu porque tinha de aparecer, porque a depressão é uma doença como outra qualquer e pode aparecer sem qualquer razão aparente e, à luz do que fui aprendendo na psicoterapia, sempre tive uma personalidade propícia a isso.

Como estava a tentar engravidar, o médico de família sugeriu consultar mesmo um psiquiatra. Mudei de medicação, para um antidepressivo compatível com uma gravidez, mas nunca falei disso a ninguém. Só os médicos e o meu marido é que sabíamos disso, para evitar muitas explicações e também por receio do que as outras pessoas poderiam dizer. Havia risco de tomar, como quase todos os medicamentos que se tomam, mas os benefícios eram muito superiores e já havia um grande suporte científico. Engravidei, tentou-se retirar a medicação, mas recaí, voltou-se a tomar, e deixei quinze dias antes do parto. Correu tudo bem, imediatamente a seguir ao parto, voltei a sentir-me muito bem, como já não me sentia à muito tempo e acho que não tive babyblues. Tudo correu bem à exceção da amamentação. A anatomia não me favoreceu e foi a parte mais complicada do pós-parto. Ainda tirei muito leite com bomba, mas acabava por ser muito extenuante e aos poucos fui deixando. Em relação a tudo o resto, parecia correr às mil maravilhas, estávamos a lidar todos bem com as noites mal dormidas, havia energia para fazer o dia a dia, estávamos muito felizes com a catraia e eu até estava surpreendida comigo mesma. Até que às 6 semanas pós-parto, quando supostamente as hormonas já estabilizaram, a ansiedade apareceu com pezinhos de lã. Ainda tentei resistir ao seu avanço, com as técnicas que fui aprendendo, mas quando ela vem é muito avassalador. E lá apareceu a apatia, a falta de vontade, a tristeza e agora um sentimento de incapacidade e de falta de vontade de tomar conta da bebé, que chorava e eu não ligava. Com quem não tinha vontade de interagir e que tinha à bem pouco tempo começado a esboçar os primeiros sorrisos e nada significavam para mim. Como sabia o que se estava a passar, pedi ajuda o mais rapidamente possível e tudo voltou a entrar nos eixos. Voltei a engravidar, ainda em tratamento. Pelo historial que tinha, a médica achou por bem continuar com a terapêutica. Deixei novamente apenas antes do parto e depois o cenário também se repetiu, tudo óptimo após o parto, tudo a correr bem, conseguia gerir tudo inclusive, o novo rebento e a mais velha, por vezes, sozinha, até que após a fase da euforia pós-parto, a dita voltou e eu voltei ou continuei com o tratamento.

Não sei se o que tive foi DPP ou uma recaída do que já me tinha acontecido, mas como foi também depois do parto, acho que é interessante partilhar. O conselho que eu posso dar é que sempre que sintamos que algo não está bem, não devemos ter medo ou receio de procurar ajuda. O pior que podemos fazer é tentar resolver as coisas sozinhos, pois muitas vezes isso pode acabar mal, como muitas vezes ouvimos. O conforto do companheiro, das familiares e dos amigos é óptimo e devemos aproveitar, mas não devemos ter medo ou receio de procurar ajuda médica e muitas vezes fazer opções que podem parecer egoístas, mas que são a melhor solução para o nosso bem-estar e isso é sem dúvida o mais importante, no dia a dia e na maternidade/paternidade. E, muito menos, nos devemos estigmatizar por ter de recorrer a tratamento com medicamentos, eles são uma ajuda preciosa e a depressão é uma doença como outra qualquer, muitas vezes com característica de crónicidade, como os diabetes, a hipertensão, entre outras. Existe é um estigma social ainda muito grande em relação a esta doença e fala-se muito pouco, quanto mais quando ela aparece numa fase da vida da mulher, em que tudo deveria ser um mar de rosas....sem espinhos :P

Termino este testemunho que já vai muito longo, com umas palavras que me ficaram retidas na memória num workshop que fiz antes de ter a minha primeira filha, relacionado precisamente com a depressão pós-parto. O melhor que se pode fazer é prevenir a DPP e isso inclui procurar o máximo de informação ou ter acesso a ela. E isso passa pela divulgação nos serviços pré-natais e em outros meios mais informais, com é o caso deste blogue. Porque a prevenção não nos torna imune à DPP, mas dá-nos conhecimento e armas para saber actuar, se for necessário.

Obrigada.