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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Histórias que dão a cara por esta causa #19 "Estava exausta mas não conseguia relaxar ou dormir, era uma tensão 24h por dia"

Uma leitora do blogue contactou-me para a ajudar no inicio de um projeto na área da saúde mental perinatal. Começando a falar sobre o que a levava até esse projeto compreendi que por trás havia uma história que dava a cara por esta causa. Uma história muito forte, muito dura e com um final muito feliz também.

Uma história de uma longa depressão pós-parto, mas que, para além de superada, revelou-se um excelente motor para ir em busca de uma resposta mais estruturada para esta área, num outro país: o Brasil.

 

Enviem-me as vossas histórias também! Quanto mais histórias acumular-mos nesta rubrica, maior será a visibilidade para esta temática também. 

 

blog@mulherfilhamae.pt

 

 

 

Aos 25 anos de idade me casei de véu e grinalda, realizava a primeira parte do sonho de ter uma família para chamar de minha. Para quem vem de uma família de origem desorganizada, ter uma família de verdade era a realização de um sonho de uma vida inteira. Com 3 meses de casada, disse ao meu marido que queria um filho, a princípio ele achou que era cedo, mas como já morávamos juntos há 5 anos e não sabíamos quanto tempo demoraria para engravidarmos, ele topou. Parei o anticoncepcional e 15 dias depois veio o positivo.

Foi um choque a rapidez da gravidez, mas estávamos muito felizes.

Sou psicóloga e já fazia terapia há alguns anos, nessa época trabalhava em uma escola com crianças deficientes. Era um trabalho puxado e tinha medo de que algum aluno pudesse ter um episódio de agressividade e algo acontecer com meu bebê. Resolvi pedir demissão e curtir esse momento tão especial sem stress.

 

Quando engravidei, minhas duas primas também estavam grávidas. Vivemos momentos deliciosos, compartilhando a nossa gestação.

Sempre fui magra, mas engordei 20kg na gravidez. Foi a partir daí que os problemas começaram. Ficar em casa os 9 meses, fez aquela espera não ter fim. Passava o dia comendo, sentia muita fome e o prazer em comer era algo inexplicável. Não me reconhecia no meu corpo, tomava broncas do médico que fez meu pré natal. Lembro que sempre perguntava ao meu marido se parecia que eu era gorda ou grávida. Nessa fase minha auto estima já estava baixa.

 

Meu bebê nasceu em novembro de 2009, foi o dia mais feliz da minha vida. Uma cesárea tranquila, com uma recuperação ótima. Me lembro de sentir uma realização em ter a família que tanto quis... Mas os dias que se seguiram não foram assim.

Tive muita dificuldade em amamentar, sentia muita culpa por isso. Dava o peito, tirava com a bomba, mas meu bebê nunca estava satisfeito. O primeiro complemento foi ainda na maternidade, meu leite secou com 1 mês e meio. As noites mal dormidas acabavam comigo, havia uma ansiedade por descansar, para ter um momento para dormir, mas a minha atenção com o bebê era tanta, que não conseguia relaxar, estava sempre em alerta e tinha dificuldade de dormir e descansar. Minha terapeuta me apontava que eu dava sinais de depressão pós parto, mas eu achava aquilo um absurdo. Afinal, como eu estaria deprimida se estava realizando um sonho.

 

Quando meu bebê completou 3 meses, comecei a somatizar a depressão que não assumia. Passei um mês com vômitos e diarreia, fiz diversos exames, mas nada dava alterado. Nessa época, meu apetite foi embora, já quase não me alimentava. O cansaço era tanto, estava sempre alerta, começaram os episódios de insônia.

Entre esses sintomas, tinha muitos altos e baixos, a psicoterapia me ajudava e me deixava bem, mas de repente me afundava. Minha terapeuta pediu que eu procurasse um psiquiatra, a consulta estava agendada para algumas semanas para frente. Até que... Passei 3 noites seguidas em claro, meu marido levantou para ir trabalhar e eu tive mais uma crise de choro.

Dizia que não conseguia comer e dormir, que não conseguia fazer o básico por mim, como eu ia cuidar de um bebê sozinha? Ele pediu que eu antecipasse a ida ao psiquiatra, naquele mesmo dia passei pelo médico e iniciei duas medicações. A primeira para eu dormir, que deveria ser usada por 7 dias e a segunda um Antidepressivo que demoraria 15 dias para começar a fazer efeito.

Já estava fazendo terapia 2 vezes por semana há algum tempo. Nesse época, a funcionária que tinha em casa pediu demissão e até acertarmos alguém demorou um tempo. Precisei de alguém que me ajudasse com o bebê. Tinha uma preocupação excessiva com ele, como se ninguém tivesse a capacidade de cuidar dele bem. Me lembro que não tinha energia para nada, passava os dias deitada, olhando para a parede. A funcionária que me ajudava ficava brincando com meu bebê, eu levantava a cada três horas o alimentava, trocava a fralda e voltava para cama. Estava exausta mas não conseguia relaxar ou dormir, era uma tensão 24h por dia.

Emagreci 20 kg no primeiro ano de vida do meu filho, achava meu corpo horrível. Se meu marido não fizesse meu prato de comida e me colocasse sentada na mesa eu não comia. Passava longas horas sem comer nada.

Com a medicação e a terapia fui melhorando e quando meu bebê tinha 10 meses voltei a trabalhar, e isso foi tão fundamental como o acompanhamento psicológico e psiquiátrico que tinha. Fiquei muito estressada por estar longe do meu filho, como trabalhava numa escola, quando ele completou um ano, ele entrou na escola. Nessa fase, comecei a retomar a minha vida. Porém, o primeiro semestre do meu filho na escola, foi de muita infecção. Ele teve otites de repetição, nenhum médico descobria porque meu filho não melhorava com o tratamento. Foram 4 meses de antibióticos, muita febre, sem ajuda para dar conta de filho doente e trabalho.

Com um ano e meio ele operou o ouvido e a adenoide, e eu perdi mais 10kg.

Nessa época eu havia parado com os antidepressivos, tive que voltar a tomá-los. Fiz manutenção do tratamento e aos poucos fui me curando dessa maldita depressão. Desde essa cirurgia, até os 4 anos de idade meu filho sempre teve muitas infecções e eu dizia que não queria outro filho, que nao tinha a menor condição de reviver tudo aquilo. Até que... Mudamos o tratamento do meu filho, ele parou de adoecer e passamos a viver uma vida normal.

Nessa época, eu já estava recuperada da depressão pós parto, mas em conflito com minha vida profissional, sentia que trabalhava muito e não me dedicava o suficiente ao meu pequeno. Meu filho me pedia por um irmão e eu sentia que havia espaço para outro filho na minha vida. Já não fazia acompanhamento psiquiátrico, mas continuava com a terapia, pois sempre adorei.

 

Em maio de 2015 nasceu meu caçula, dessa vez me preparei muito para essa gestação para não reviver aquela maldita depressão. Meu caçula me ensinou como é possível ser mãe de um bebê e saudável ao mesmo tempo. Foi muito importante para que eu resgatasse a minha história e me orgulhasse do meu caminho.

 

Hoje, conciliei minha profissão de psicóloga clínica e minha história de vida para ajudar outras mães que sofrem os conflitos da maternidade. Tenho muito orgulho da minha história e da minha superação. E vejo, como foi preciso eu viver no fundo do poço para poder ajudar outras mães da forma que fui ajudada. Espero que minha história sirva de incentivo para as mulheres que vivem uma depressão e as ajude a buscar um tratamento adequado.