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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

O amor pelos nossos filhos.

Quando pensamos no amor por um filho, tenho a certeza que todos concordarão comigo, que o que nos vem ao pensamento de imediato ultrapassa a possibilidade do infinito.

É difícil de descrever por palavras, mas muito fácil de se compreender através do que sentimos.

Também já foi tema de conversa entre nós e aquele nosso grande amigo que vos falei, e que da última vez nos escreveu sobre "Os pais como mediadores".

 

Hoje, partilho convosco a sua reflexão sobre o amor filial. Espero que vos faça refletir - tanto como nos faz a nós - independentemente da possível concórdia ou não.

 

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Quase todos queremos ter filhos e um dos nossos desígnios, quando casamos ou nos juntamos a outra pessoa, é precisamente constituir uma nova família. Já aqui fomos alertados para a nossa tendência imediatista, porquanto achamos que tudo pode mudar em pouco tempo. Mas o ser humano não é assim. Pode mudar certas coisas fora dele, mas interiormente as mudanças não aparecem apenas porque as desejamos. Temos de as desejar mas também temos de as realizar na prática, o que, consoante os casos, pode demorar algum tempo (muitos anos até, mau grado as nossas boas intenções) Pode, até suceder que não sejamos espectadores dessas alterações nesta vida, sobretudo quando envolvem assuntos que abrangem muitas outras pessoas. Contudo, se tivermos uma visão mais ampla, não deixaremos de proceder de acordo com a nossa consciência e o benefício recairá sobre as próximas gerações, ou seja, as dos nossos descendentes.

 

Isto vem a propósito de, muitos de nós, pensarmos que basta querer que os filhos que trazemos ao mundo sejam “boas pessoas” para isso suceder. Não é assim. Desde logo porque se não trabalharmos sobre nós mesmos, ao longo das nossas vidas, nesse sentido, o carácter desses seres não deixará de reflectir o que nós somos. Não será o casamento que alterará essa disposição e muito menos o “amor” que dizemos ter por eles. Depois, porque o seu querer também é muito importante. Não alteramos as pessoas. Caso queiram, elas é que se transformam.

 

O termo “dizer ter” não põe em causa o sentimento que, na maioria, temos pelos nossos descendentes; apenas reflecte a qualidade desse sentir e as suas motivações. Mas, na maior parte das vezes, entendemos o “amor” de uma forma muito deficiente. Dizemos “amar” as crianças, mas, na realidade, temos um grande afecto por aquelas que são as “nossas”, o que não é um sentimento abrangente. Caso os crianças em causa saiam desse âmbito, podemos ser simpáticos com elas, mas dificilmente vamos ao ponto de fazermos grandes “sacrifícios”. Pensamos: “eu não sou progenitor desta criatura, logo não tenho obrigação nenhuma. Isso cabe a família”.

Claro que a “obrigação” diz mais respeito aos familiares, mas, tal como referido noutra ocasião, há um lado “colectivo” dessa criança que nos toca. O que significa que o “amor” pelos nossos filia é, por vezes, muito restritivo e, de certo modo, um bocado egocêntrico. É muito positivo sermos pais, mas essa experiência não pode ser limitativa, dado que o Amor é universal e não está limitado a uma pessoa. Pelo contrário, deve ser entendido como um começo, um incremento ou alargamento de um sentimento que começa por ser pessoal. Começamos por pensar sobretudo em nós (antes de nos juntarmos a alguém), passamos a ter que pensar também no parceiro e quando somos pais, existem pelo menos três pessoas, pois junta-se um novo ser. Este processo de sociabilização, nem sempre evidente para todos, prepara-nos para darmos entrada num mundo mais abrangente.

 

Por outro lado, este tipo de amor pelos “nossos” filhos pode ser interesseiro, caso os encaremos os como um “prolongamento” de nós mesmos. Neste caso, esses seres serão educados para serem muito “parecidos connosco, o que nos dará muito orgulho. Acontece que se eles forem “iguais” a nós, muito dificilmente isso será um progresso a todos os níveis. É precisamente na diferença, para melhor, que reside o acréscimo. Como tal uma educação esclarecida passa por conhecer as tendências positivas que as crianças trazem e ajudar a alterar as que nos parecem inapropriadas. Todos temos qualidades e defeitos.

 

Dirão alguns que isso não é possível, pois os bebés são tão pequeninos e queridos, que apenas poderão ter qualidades. Ainda não desenvolveram defeitos. Caso pensemos assim, incorremos num lamentável erro de que só nos daremos conta quando pouco há a fazer. Agir como se a criança fosse apenas aquele corpo e não uma alma que tem um corpo, que crescerá e se tornará um adulto, é limitarmos ou adiarmos a sua educação e o seu crescimento como pessoa. E ignoramos também que essas qualidades e esses defeitos podem ser passados por nós, ou através da genética ou através da aprendizagem que foram assimilando ao viver connosco. E a partir de certa altura essa forma de ser poderá tornar-se irreversível.

 

José Mendes

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