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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Os obstáculos na vida dos nossos filhos.

Os obstáculos fazem parte da vida, e o nosso querido amigo José Mendes resolveu partilhar connosco a sua visão sobre como é importante ensinar-mos os nossos filhos a lidar com os obstáculos desde cedo, e não remover-mos todos e mais alguns da sua frente, correndo o risco de os proteger em demasia.

 

 

É relativamente acessível, para a maioria dos pais, ver até que ponto os filhos possuem ou não os meios e os apetrechos para ultrapassar as dificuldades que a vida lhes vai colocando. Antes do mais, é necessário que os progenitores se percebam que obstáculos e facilidades integram continuamente (e a todos os níveis) a nossa existência. Portanto, quanto mais cedo deixarmos de remover as tais dificuldades e proporcionarmos o discernimento e os sentimentos necessários para as crianças evoluírem e chegarem a uma (relativa) autonomia, melhor para todos. Não é aconselhável educar as crianças numa perspectiva de que alguém irá remover os obstáculos que irão encontrar.

 

Alertamos para o nocivo hábito que se instalou na sociedade actual e que conduz a uma educação muito deficiente, de que os pais devem resolver os problemas dos filhos. Claro que faz parte das funções pedagógicas dar o nosso contributo em variadas situações, não só aos filhos como às pessoas em geral. Mas a nossa função excede-se, no caso das crianças, quando a ajuda continuada exorbita o entendimento do que está em causa.

E o que está em causa é um todo social em que a irresponsabilidade, na maior parte dos casos, um factor corrente. Essa consciência ganha-se desde que se está na barriga da mãe e desenvolve-se depois, através do exemplo dos progenitores. Claro que a nossa actuação não pode ser a mesma no caso de seres de tenra idade ou de filhos mais crescidos. Mas é bom que tenhamos consciência de que da forma como olhamos para essas pequenas criaturas desde muito cedo, depende o seu futuro e…o nosso. Quanto mais cedo forem responsabilizados, mais depressa aprenderão a colaborar, na família e no grupo em que se inserem.

 

Repetimos que não é benéfico levar as crianças a pensar que os outros têm obrigação de lhes simplificar a existência, pondo-lhes a “mão debaixo” sempre que um obstáculo lhes surge pela frente. Porque não é verdade. O que podemos observar é que faz frio e faz calor, chove, neva e faz nevoeiro, há Primavera e Outono, etc. Transmitir que uma dada situação é má e a outra boa, está longe de ser verdade e pode levar essas crianças a acharem que o mundo não lhes é favorável, que têm “azar” quando lhes é apresentada uma situação incómoda e, por outro lado, não desenvolvem a capacidade de superação e de evolução que as fará progredir.

 

Portanto, após termos exemplificado uma forma correcta de pensar, sentir ou de agir, passado um tempo devemos dar-lhes oportunidade de proceder sozinhas. Mesmo que cometam erros, isso não deve ser valorizado, nem deve ser minimizado. O mais valioso será a criança tomar as suas decisões e perceber se isso está de acordo com as leis que nos regem. Não é de fomentar a “esperteza”, muito comum, de actuarem de acordo com os “outros”, dado que isso não é sincero e apenas resolve o assunto momentaneamente.

 

Torna-se, pois, imperativo, uma actualização dos pais, pois “papaguear” fórmulas estafadas não se tem revelado uma boa pedagogia e, mais tarde ou mais cedo, seremos postos perante eventuais incongruências. Não esqueçamos que os seres que ajudamos a crescer, ao contrário do que o vulgar das pessoas possam pensar, são almas que já possuem os seus vícios e as suas virtudes. Desejamos sempre que tenham uma existência positiva, mas isso também tem a ver com a maneira como conduzirmos o processo. É desta interacção pais/filhos que depende o nosso futuro pessoal e o da sociedade.

 

Um entendimento correcto do papel dos obstáculos no nosso crescimento e daqueles que nos rodeiam é crucial. O “amor” pelas crianças nem sempre é o factor mais indicado a seguir, pois para quem representa o papel de pais, a educação tem de ter em vista como a avaliação da especificidade de cada ser e a aprendizagem não é igual para todos. Actuarmos, continuadamente, de forma emotiva é tão prejudicial como fazê-lo cerebralmente. Uma educação completa transmite às gerações futuras um uso equilibrado destes três factores: coração, intelecto e vontade.

 

José Mendes