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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

À conversa com a Ana #10 - "A Depressão Pós-Parto colocou tudo em perspectiva e agora sinto que saio sempre a ganhar".

A semana passada a minha filha fez 2 anos. Quanto caminho foi percorrido durante este tempo! O que começou de forma dolorosa e sofrida transformou-se numa relação de um amor puro, único e incondicional.

 

No início da nossa relação predominava o medo, a irritação, a tristeza e a incapacidade de aceitação. Estas emoções foram sendo trabalhadas, sobretudo através do Shiatsu e da psicoterapia e, ao longo dos meses que se foram seguindo, elas foram diminuindo a sua intensidade e frequência. Fui ganhando consciência dessas emoções e do que significavam, e fui ganhando também ferramentas para lidar com elas. E à medida que diminuíam, aumentava a minha capacidade de aceitação, a tolerância e paciência, a alegria. Hoje sou completamente apaixonada pela minha filha.

 

A DPP colocou tudo em perspetiva e, agora, sinto que “saio sempre a ganhar”: o pior dia/momento de hoje não é nada face ao que foi vivido nos 2 primeiros meses. Acho que, por isso, acabo por saborear imensamente o meu papel de mãe e, na verdade, a vida no geral. Como eu digo, por vezes, “a maternidade agora é como andar num carrossel”.

 

Nestes últimos 2 anos tanta coisa mudou, para melhor, na minha vida. Não só a minha relação com a C., como também a relação com o meu marido, com a família e, sobretudo, a minha forma de pensar, estar e sentir.

 

O que desejo a todas as mães (e as suas famílias) que estejam a passar por semelhante, é que encontrem as ajudas certas para vocês, para que consigam enfrentar o problema e usufruir dos vossos filhos, e da vossa vida, de uma forma plena e apaixonada.

 

E já agora eu sou a Ana, esta Ana. Achei que era altura de mostrar quem sou, para que às minhas palavras possam juntar a minha cara. Para que o tabu, a vergonha, o medo possam, de alguma forma, dar lugar à compreensão, à aceitação e ao diálogo aberto sobre o baby blues, a depressão pré e pós parto, a perturbação de ansiedade ou a psicose.

 

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Á conversa com a Ana #9 - "Gratidão."

Gratidão. É uma das emoções que mais tenho sentido ao longo do meu processo de cura. Todos os dias reconheço, no meu íntimo, que sou imensamente felizarda por tantas mãos que se estenderam, e que continuam a estender-se, para me ajudar.

 

Sempre me considerei uma pessoa independente. Eu e o meu marido gostamos de estar com os outros, mas também tínhamos um certo sentido de independência e proteção do nosso espaço. Do género, “quando a C. nascer não queremos muitas visitas, o pessoal a andar lá por casa. Queremos estar sozinhos, a curtir essa etapa tão importante das nossas vidas”. E fizemos isso. A C. nasceu e fechamos-nos ao mundo, acreditando que esse seria o passo mais natural a dar. Mas, no nosso caso, não foi.

Redescobri que somos muito Mais quando estamos em comunhão com todos os outros. Ninguém é verdadeiramente independente. Estamos agarrados uns aos outros. E isso é tão, mas tão maravilhoso! Por isso, só posso agradecer a todas as mãos que se estenderam.

 

Agradeço à minha médica de família que, dentro do que lhe foi possível, ouviu-me e acompanhou-me.

 

 

Agradeço à minha psiquiatra, a primeira mão decisiva que a vida estendeu-me. Obrigada pela empatia com que me ouviu e pela forma como organizou logo o meu plano de tratamento. Não me mostrou apenas que precisava de ser medicada, mostrou também que o tratamento para funcionar precisava do apoio dos outros. Mostrou que o caminho de cura não era sozinho, mas sim envolto de quem mais perto estava, no meu caso os pais, os sogros e o marido.

 

Agradeço à minha psicóloga. Durante todos estes meses, ajudou a acalmar a minha mente e o meu coração.

 

Agradeço aos meus amigos. Nunca senti que algum de vocês me estivesse a desamparar. Nunca senti críticas ou julgamentos. Pelo contrário, senti todo o vosso amor sempre que me ligavam ou mandavam sms. Tantas vezes eu não atendi mas vocês não desistiram. Respeitaram mas mostraram que estavam ali, se eu precisasse. Obrigada por todas as vezes que vocês atenderam as minhas chamadas e ouviram-me, por todas as vezes que se encontraram comigo para que eu saísse um pouco de casa.

 

Agradeço aos meus familiares. Obrigada por ligarem, por se disponibilizarem para ficar com a C. caso precisássemos descansar ou sair.

 

Agradeço às minhas duas terapeutas de Shiatsu. Que diferença fez poder incluir o Shiatsu no meu tratamento! O toque mágico do Shiatsu e as nossas conversas permitiram conectar-me de uma forma muito íntima (e terapêutica). Ajudaram-me a compreender a depressão com o coração. Ajudaram a arrumar, dentro de mim, a imensa culpa que sentia. Ajudaram a ligar o meu coração ao da C. Não me esqueço de uma das sessões, das primeiras, em que senti, durante a sessão, e a partir desta, um imenso amor por mim e pela C.

 

Agradeço aos meus sogros. As refeições, quentes, acabadas de cozinhar, que nos trouxeram, as vezes que ficaram com a C. para eu puder apanhar ar, as vezes que não dormiram, e ficaram com a C, para nós dormirmos, as vezes em que passei o dia em vossa casa, durante a semana, para não ficar sozinha com a C.

 

Agradeço à minha mãe. Tantas, mas tantas vezes estendeu-me as mãos. As refeições que nos preparou, a empregada que nos arranjou para limpar a casa (e que cá continua), as fraldas, leite, roupa para a C. que comprou, todas (e foram muitas) as vezes que ficou com a C. durante a noite para nós dormirmos. Chegou a sair de casa, perto da meia-noite, porque desesperados, cansados, já não tínhamos forças para acalmar e adormecer a C.

 

Agradeço ao médico que agora me acompanha, nesta fase de recuperação da minha forma física. Há poucos meses atrás estava em baixa forma. Hoje já corro 15 minutos, faço flexões, pranchas. O corpo ganha força, resistência e tônus muscular. A corrida é a minha meditação.

 

Agradeço à Ana, autora deste blogue. Sem ela eu não teria encontrado um espaço que me devolveu empatia, compaixão e compreensão. Obrigada pela tua coragem em partilhar a tua história e de criares um espaço (o único) que aborda este tipo de vivências. És uma pessoa muito especial, minha querida Ana.

 

E, deixo para o fim, o meu companheiro desta vida. A ele agradeço tudo. De ti já te conhecia a tua sensibilidade, a capacidade de te colocares no lugar do outro, a ternura, o sentido de partilha e entreajuda, a honestidade. Mas esta experiência mostrou-te ainda mais. Uma pessoa única, a que melhor me compreende e um pai excecional. Nunca me desamparaste, levaste-me no teu colo, embalaste-me.

 

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Diz-se que é preciso uma aldeia para educar uma criança. Digo mais: é preciso uma aldeia para embalar uma criança, um pai e uma mãe. E eu tive (e continuo a ter) esta rede. Muito obrigada a todos.

Á conversa com a Ana #9 - "Após a redução da medicação... corpo, mente e coração tranquilos"

Em Abril passado fui a mais uma consulta com a psiquiatra e concordamos em reduzir a dosagem do comprimido que tomo todos os dias religiosamente. A médica avisou-me de que, dentro de 2 meses, poderiam manifestar-se sintomas semelhantes aos que senti no início da depressão, bem antes do começo do tratamento. Ou seja, insónias, cansaço extremo, irritabilidade, descontrolo emocional, fome emocional, só para falar dos mais evidentes.

 

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Em Agosto passado quando deixei de tomar um dos comprimidos, passei duas semanas em plena ressaca. Foi horrível, mas passou. O corpo reajustou-se, encontrou um novo equilíbrio. Por isso, desta vez, não me preocupei. O que vier virá, pensei eu.

 

E, dois meses depois, a ressaca chegou. Um dia estou bem, para no dia a seguir, e durante uma semana, o corpo viver sob uma tensão física e emocional enorme. Parece que o corpo está no limite. Dores de cabeça, náuseas, dores musculares, variações muito grandes no apetite, sono mais leve, com muitos sonhos, intensos, acordando com a sensação de que não descansei o devido, facilidade em comover-me, ficar sentida e com a lágrima do canto do olho e uma sensação constante de cansaço e falta de energia. Estive em modo de sobrevivência, conseguindo apenas fazer o mínimo, o essencial, o indispensável.

 

Conseguia apenas ir trabalhar, cuidar da C., jantar e atirar-me para cima da cama. E já isto foi feito com muito esforço. Sentia que só me apetecia ficar encolhida na cama. Cada ação que realizava parecia que consumia todas as minhas energias. O que me ajudou foi saber que iria passar. Que era apenas o corpo em privação e que, daí a algum tempo, ele iria encontrar uma nova normalidade.

 

Agarrava-me a esse pensamento sempre que sentia que estava no limite, sempre que me sentia miserável, com todo o meu corpo a reagir violentamente à redução.

 

Houve um dia, o mais duro, em que a tensão atingiu o limite máximo. Nesse dia nem sequer consegui cuidar da C. Às 18h00 fui para a cama, exausta, nauseada, a tremer. Encolhi-me e ali fiquei. Pensei que iria passar, para aguentar só mais um bocadinho.

Nessa noite dormimos todos mal, incluindo a C. No dia seguinte acordei, sentia-me cansada por ter dormido mal, mas a tensão que o meu corpo vinha a sentir desapareceu. Já não sentia mais nada. A tempestade foi-se formando durante dias, atingiu o ponto máximo para, de seguida, desaparecer. Nesse dia deitei-me cedo, logo a seguir à C. E no outro dia estava tudo bem, tudo normal. O corpo, uma vez mais, encontrou um novo equilíbrio. Corpo, mente e coração tranquilos.

 

Caramba, a medicação mexe com o corpo cá de uma maneira! E eu, sempre tão avessa a medicamentos, há quase dois anos que eles fazem parte de mim. Quando iniciei o tratamento tomava 3 medicamentos diferentes. Hoje tomo 1 e, mesmo este, já é em menor dosagem. Durante esta redução progressiva da medicação, e os sintomas de privação, o meu amparo tem sido a minha querida psicóloga e a minha terapeuta de Shiatsu. A minha gratidão para as duas!