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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Á conversa com a Ana #7 - "Foste tu que me incentivaste a procurar ajuda e a nunca desistir de cuidar de mim. Obrigada meu amor."

Na semana que passou eu e o meu marido fizemos 13 anos que estamos juntos. E desde aquele primeiro dia em que nos conhecemos até hoje, um mundo de experiências e momentos aconteceram. E um deles foi a minha experiência da depressão pós-parto.

 

Tornarmo-nos pais revelou-se uma experiência mais dura do que havíamos imaginado. A C. foi uma bebé desejada. A gravidez foi muito tranquila. O parto foi difícil e doloroso. Mas o pós-parto superou tudo o que poderíamos esperar. Pela negativa, sublinho. Antevíamos momentos cansativos, mas não imaginávamos a exaustão que nos esperava. Líamos e ouvíamos sobre as possíveis dificuldades que sucedem ao nascimento de um bebé, mas tinhamo-nos como pessoas tranquilas o suficiente para lidar com o quer que fosse. Mas tranquilidade não foi de fato o cenário com que nos deparamos logo após os primeiros dias em casa com a C.

 

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Como disse uma vez o meu marido a um amigo: “na gravidez a Ana começou a correr a maratona. Depois de 9 meses a correr veio o parto e ela continuou a correr, sem poder parar e descansar. E depois nasce a C., voltamos para casa com ela e a Ana não pára de correr. Não pode parar. Continua a correr a maratona. E por muito que eu tente nunca conseguia correr com ela. Foi duro para mim, então para ela…” Estas são, quase na íntegra, porque não me lembro palavra por palavra, as suas palavras. E a ele só posso agradecer por tudo.

 

Celebramos 13 anos, e a ti quero agradecer por seres um companheiro de viagem maravilhoso. Foste a minha força quando ela não existiu. Foste a estrutura emocional para a nossa filha quando eu não estava capaz. Deste-lhe colo, tanto colo. Eu tinha medo de pegar nela. Mas tu pegavas, colavas-a a ti, ao teu peito, falavas-lhe baixinho, dizendo que estava tudo bem, que o pai estava ali. Amaste-a desde sempre, quando eu ainda não conseguia. Ficaste horas, sim horas, para adormecê-la para eu poder dormir até à mamada seguinte. Ligavas ao teu pai para vir trazer-me almoço, quentinho, acabo de fazer, para eu ter o que comer. Obrigavas-me a sair de casa, quando chegavas do trabalho, para espairecer. Ofereceste-me livros, um puzzle (que sabes que eu adoro) para me animar.

 

Nunca me apontaste o dedo pela mãe que eu (ainda) não estava a ser para a nossa filha. Não ouvi nenhuma crítica, não senti nenhum julgamento. Pelo contrário, eu tinha em mim mesma um coração cheio de auto-críticas, julgamentos e culpa, e tu acalmavas-me sempre com as tuas palavras serenas e com os teus abraços quentes. Foste tu que me incentivaste a procurar ajuda e a nunca desistir de cuidar de mim.

 

Oh meu amor, dizes que não conseguias correr comigo mas correste! Correste muito! Cuidaste da nossa filha e de mim. Obrigada meu amor.

Á conversa com a Ana #5 - "Depois da depressão pós-parto, voltarei a ser a Ana de antes?"

A semana passada tive a 4ª consulta com a psiquiatra. Saí a fazer um balanço do percurso feito desde a primeira vez que entrei naquele consultório, no Hospital Júlio de Matos. Cada consulta marcou uma etapa diferente no meu processo de cura.

 

A primeira foi no dia 12 de Novembro 2015. Faltava uma semana para a C. fazer dois meses. Mal sabia eu que este dia iria ser o dia D: o dia da rutura total, tanto física, como emocional e psicológica, mas também o dia do recomeço. A minha querida médica foi a mão (a primeira entre muitas outras que se seguiram) que a vida estendeu-me para puxar-me até si.

Não me esquecerei da tranquilidade, da doçura e da paciência com que ela me recebeu, falou e me ouviu. Com ela, nesse dia, comecei a sentir esperança. Esperança de não ficar “maluca” para sempre e de voltar a ser a Ana de antes. Sim, porque estas foram as minhas primeiras perguntas: ficarei maluca para sempre e voltarei a ser quem eu era! Mas voltarei um pouco atrás, para falar um pouco das semanas que antecederam este dia e que mostram a importância deste encontro.

 

A ansiedade e a tristeza constante que sentia levaram-me ao final do 1º mês a enviar um email à médica de família, a comentar tal estado de espírito e a perguntar se me podia indicar algum psicólogo. Recebi resposta a confortar, não conhecia ninguém, mas na próxima consulta da C. falaríamos se ainda sentisse necessidade. Falámos na consulta do 1º mês da C. Tentou ajudar, perguntou se conhecia grupos de mães com quem pudesse estar e falar. Eu não conhecia nenhum e ela também não. Perguntou se tinha uma rede de apoio, disse que sim. Perguntou se saía de casa, se estava com amigas, disse que sim. Aconselhou-me a descansar e marcou consulta para daí a uma semana.

Voltei, uma semana após. Disse-lhe que me sentia um pouco melhor, mas que continuava a abanar a C, e isso inquietava-me muito. Não me revia neste tipo de atitudes. Ela falou pela 1ªvez em tomar medicação, leve, que me ajudasse a relaxar e a dormir (estava com insónias). Mas acordámos em esperar mais 1 semana.

 

Outra semana seguiu-se, nova consulta. Ela quis que eu fizesse o teste para despiste da depressão. Senti que seria um exagero, eu não teria uma depressão. São os primeiros tempos de vida de um bebé que são exigentes, são muitas mudanças, a privação de sono, mas o abanar, o abanar tocava alertas internos. Isso não poderia continuar.

Quando respondi às questões, fiquei admirada com o fato de, em nenhuma delas, eu poder responder pela positiva. Nas escalas que apareciam, de nada feliz a muito feliz, eu responderia nada feliz. Até pensei “mas é possível estar feliz nestes primeiros tempos?” Deu positivo, tinha DPP. Receitou-me um antidepressivo compatível com a amamentação e outro medicamento para relaxar e induzir o sono. Escreveu um relatório para entregar noutro C.Saúde, a prescrever a necessidade de uma consulta de Psicologia. Tempo médio de espera: 4 meses! Saí de lá com um diagnóstico de DPP, com uma receita para os medicamentos e um relatório que me fazia esperar 4 meses por uma consulta. No imediato senti-me aliviada, afinal já havia um diagnóstico e um tratamento.

 

Mas a semana que se seguiu foi a descida ao inferno. Aos poucos comecei a interiorizar que estava com uma depressão. E que imagem tinha eu das pessoas deprimidas? Pessoas apáticas, que ficam neste estado anos e anos a fio, nunca mais voltando a ser a mesma pessoa. Eu ficaria estragada, avariada para sempre. Nessa semana, não dormi nada de jeito todos os dias, o nível de ansiedade crescia, tinha pavor em ficar sozinha com a C, pois não confiava em mim para cuidar dela.

O meu marido, o meu querido marido, já se tinha lembrado de uma amiga cuja mãe é psiquiatra e pediu-lhe para ela ver-me. Marcou-se a consulta. Na noite anterior não consegui adormecer por nada, andei horas às voltas na cama, extremamente agitada. Adormeci. Uma hora depois acordei em sobressalto, a chorar compulsivamente e a dizer que não aguentava mais, que queria morrer. O meu marido tentou acalmar-me, dizendo que iríamos à consulta com a psiquiatra e que tudo ficaria bem. Mas eu já não consegui acalmar. Já estava numa espiral de ansiedade e a parte consciente e racional completamente off.

 

Eu diria que estava numa fase catatónica, só conseguia sentir e dizer que não aguentava e que queria morrer. Ele pegou em mim e na C., não foi trabalhar, e saímos de carro. Lembro-me do dia, de sol, agradável. Ele perguntou-me aonde eu gostaria de ir. Eu respondi “para longe”. E levou-nos para a Comporta. Cuidou da C. e de mim, dentro do possível. Tentou animar-me, fazer-me rir e eu não tinha forças sequer para esboçar um sorriso. Até às 17h00 estive prisioneira da minha ansiedade. Sentia que estava maluca e que não havia uma solução para mim. Não no sentido de voltar a ser quem era. Foram horas horríveis.

 

A hora da consulta chegou. Entrei, perguntei se ficaria maluca para sempre e ouvi “não Ana, não vais ficar.” E, logo de seguida, atirei “e voltarei a ser a Ana de antes?” e ouvi, “Sim, claro que sim. Daqui a 2 semanas já te vais sentir um bocadinho melhor” E, a partir daqui, tudo mudou. Foi o recomeço. Voltei a ser a Ana de antes, eu diria até que uma Ana muito melhor. Mais madura, mais confiante, mais serena. E muito feliz.

 

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Ontem, a minha filha, pela primeira vez, por sua iniciativa, fez-me festas na cara e deu-me um beijo. Assim do nada. Ai, como o meu coração se derreteu! Quanta distância foi percorrida entre os abanares e este beijo!

 

 

 

 

 

 

E se... acreditássemos os dois?

Lembro-me do primeiro dia em que trocámos olhares. Eu fixei-te, mas não obtive retorno. 

Acreditei que também poderíamos cruzar energias naquele ambiente tenro, mas não aconteceu. 

Ficaste-me no pensamento, amor. Sim, amor. Foi assim, num tom adolescente que me assolaste o pensamento, e não saíste mais. Acontecera comigo, e eu não queria acreditar.

Deixámos a sala, e eu sabia que sete longos dias de espera e ânsia me aguardavam. Mas calma. Tudo se esgotava numa pequena esfera de fraco autocontrolo, quando comparado com o momento em que nos voltaríamos a cruzar. Poderiam não ser as nossas energias, mas a minha vontade...talvez a minha vontade, de alguma forma, prendesse a tua. Quem sabe.

 

 

(e não é que estava certa, sem saber?)

 

 

Perguntaste-me como tinha sido a minha semana quando nos voltámos a ver. Eu vibrei por dentro, mas tal não se fez sentir na voz. Tentei responder de uma forma neutra, mas a demonstrar claramente que queria que me perguntasses mais qualquer coisa. Foi inevitável. (mas o que é que se passava comigo?! Nunca tinha estado assim!)

Conversámos  durante horas. Nesse dia e nas próximas semanas e meses que se seguiram. Tema de conversa não faltava. Falávamos amor, falávamos de amor, falávamos com amor, e a amar, cada detalhe que em nós sobressaía e que construía um nós com futuro. É tão bom recordar amor.

 

E quando decidimos juntar escovas, sapatos, malas, roupas, expectativas, livros, sofás... tudo debaixo do mesmo teto. 

 

 

(acham que foi ótimo? Nem por isso...)

 

 

Os primeiros dias foram apaixonantes, as semanas que se seguiram desafiantes, e os meses após, desestruturantes. Mas aguentámos firmes. Porque era de amor que falávamos. Era com amor que falávamos, lembraste? 

 

E quando decidimos que juntar os melhores amigos, a família, vestirmo-nos a rigor e fazermos uma festa à nossa medida, seria uma excelente forma de celebrar a forma como falávamos de e com amor? Eu choro, a rir, cada vez que os pormenores me afluem em pensamento e se esgotam em emoção. Minto. Não se esgotam, transbordam. Transbordam em emoção. O calor, a tensão, os sorrisos, as despedidas, as conversas, as divergências, a comunicação, o amor (acaba sempre em amor). Tudo isto são conceitos que nos encaixam na perfeição. Tu sabes. Eu sei. E o nós - este nós que em nós existe e persiste em crescer - agora ganhou forma, e nome!

 

 

(mas dá para acreditar?!)

 

 

O amor já não é só falado e demonstrado entre nós. Agora também é pessoa pequena, de grande envergadura emocional. 

E é tão bom crescermos juntos. É tão bom assistirmos juntos à sua evolução. É tão bom, fazermos também parte dela.

Mas não é só um tom tão bom que tocamos em conjunto. Existem outros tons. Existem tons de amargura, de frustração que também tocamos na perfeição, em determinados momentos. E quando esses dão origem a tons mais altos e agudos? Aquele tipo de tons dos quais não nos orgulhamos e que teimam em perdurar nesta fase em que ambos precisamos (mais do que nunca até aqui) de apoio e proteção?

 

Um nós ganhou forma de ser, e essa forma de ser, transformou a nossa forma de ser em conjunto e em particular. E agora, em conjunto gritamos por ajuda sem o dizer. Gritamos simplesmente. Ou às vezes, gritamos de fúria de viver. Outras não gritamos, mas estamos em silêncio, incomodados com a presença um do outro. De qualquer uma das formas, falando a gritar ou em silêncio, gritamos por ajuda. Gritamos porque sentimos que as nossas conversas já não estão só e simplesmente imbuídas em amor, mas também em tristeza e irritação. Por vezes até, desilusão. 

 

Gritamos por tanto e por tão pouco. E no final, sentimo-nos sós, mesmo na presença um do outro. E aqui, já não gritamos. Por vezes, choramos.

Sim, é triste, amor. Um nós cresceu, cresce, e o nós parece que desapareceu, desaparece.

Gostava de escrever outras coordenadas para seguir a teu lado. Gostava de encontrar aquele outro nosso lado que eu também sei que existe. Gostava porque se grito, a falar ou em silêncio, e se aqui ainda me mantenho considerando um vasto leque de tons que teimamos em descobrir em conjunto, é porque de alguma forma ainda acredito que sabemos falar de e com amor, para além de gritar.

 

Mas não quero ser só eu a acreditar, por isso, tão ansiosa como na troca do primeiro olhar, proponho-te o seguinte:

 

 

E se... fossemos os dois a acreditar? 

 

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Á conversa com a Ana #4 - "Nos primeiros 2 meses da minha filha evitava olhar para ela, estava em piloto automático"

"Há 2 semanas percebi que precisava de ajuda porque tinha entrado numa espiral de ansiedade, medo, angústia, desespero. Sentia-me quase sempre infeliz, muitas vezes pensava que não queria ter tido a C. e queria a minha vida de volta. Não estava a estabelecer ligação emocional com ela.”

 

Assim começa o texto do meu primeiro desabafo.

Dia 25 de Novembro de 2015, pouco mais de dois meses depois de ter nascido a minha filha, e duas semanas após o início do meu tratamento, enviei um e-mail às minhas amigas a fim de partilhar o que estava a acontecer.

Ao enviar o e-mail, procurando resumir dois meses tão intensos, apercebi-me de algo que, até então, não tinha percebido. Nos primeiros 2 meses de vida da minha filha, eu cuidava dela por responsabilidade e obrigação. Evitava olhar para ela. Estava em piloto automático: era mamar, pôr a arrotar, mudar a fralda, pôr a dormir. Não havia qualquer vínculo emocional.

 

Nessa altura, eu estava tão cansada (e doente) que não me apercebi que ainda não havia acontecido o clique, aquele momento em que olhamos ou pensamos nos nossos filhos e somos inundados de puro amor. Não, eu ainda não amava a minha filha, não como eu hoje sei que é amar. Não a amava incondicionalmente. Amava-a nos dias bons, nos dias em que ela estava calma e em que dormia bem.

Nos outros, a maioria, eu não sentia qualquer empatia por ela, pelas suas necessidades. Sentia-me irritada, frustrada, mesmo zangada com ela. Pensava “porque é que fui ter uma filha assim, tão difícil, que chora tanto?!” Pensava que ela dava muito trabalho, que era uma bebé exigente, que chorava muito, que era um tormento para dormir. Ficava até admirada, às vezes mesmo aborrecida, quando alguém mostrava carinho e preocupação com ela. 

 

Aqueles dois meses foram mesmo uma verdadeira loucura para mim. A pessoa que eu conhecia em mim, até então, tinha desaparecido. Eu, uma pessoa calma, pouco ansiosa, compreensiva, parecia que vivia em constante reatividade, sempre pronta a rebentar à mais pequena situação. Abanei a minha filha porque ela não parava de chorar, gritei com ela, disse-lhe que a detestava, virei-lhe as costas muitas vezes por não suportar o choro, evitava pegar-lhe ao colo, não queria ficar sozinha com ela.

 

Tantos mas tantos sinais de que as coisas não corriam nada bem! Mas, estando no meio da tempestade, com o cansaço característico do pós-parto, pela inevitável privação de sono, não consegui ter o discernimento para ver mais do que o meu sofrimento no dia-a-dia. Nem eu, nem o meu marido. Claro que sentíamos que havia qualquer coisa errada, mas achávamos que passaria, que era uma fase, que era o cansaço a falar mais alto. Que, algum dia, as coisas iriam acalmar.

 

Com a medicação e, sobretudo com a psicoterapia e o shiatsu, a tal ligação emocional começou a aparecer. Nos primeiros dias após o início da medicação o meu marido tirou uma foto de mim e da C. A primeira em que eu sorria verdadeiramente para ela. Poucas semanas depois, pela primeira vez, acordei e em vez de sentir um peso enorme no coração, e uma vontade de fugir, senti amor pela minha filha. Senti que a Amava. Foi tão poderoso para mim. Foi mesmo bonito. Fico emocionada ao recordar. Foi um momento muito importante para mim. Depois de tudo o que aconteceu naqueles dois meses, eu comecei a sentir que não estava estragada, que não era um monstro.

 

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Ao longo deste ano e meio de vida da minha filha, a nossa relação cresceu, cresceu muito, alargou-se para nela caber tudo. Os dias maravilhosos, os dias cansativos, os choros, os sorrisos. Amo incondicionalmente a minha filha.

Os pais, os sogros, e o papel fundamental que têm no apoio aos filhos e aos netos!

Ter pais e/ou sogros que ajudem a cuidar de um filho é fundamental! 

 

Digo fundamental pois, digam o que disserem, a verdade é que nos tempos que correm ser mãe e ser pai é também o mesmo que ser "atropelado" por um conjunto de exigências de âmbito parental, profissional e pessoal, tudo ao mesmo tempo, a uma velocidade louca e estonteante, dia após dia! 

São as crianças que têm de estar e/ou sair da escola a determinada hora, somos nós que temos de chegar a determinada hora ao trabalho (mas cuja hora de saída nem sempre é bem definida), são os trabalhos que as crianças trazem para casa, são os trabalhos que os educadores "convidam" os pais a fazer, são os afazeres profissionais que muitos trazem para casa (e acredito que a maioria o traz, não por opção), são os banhos, as refeições para o próprio dia e para o seguinte (que não se fazem sozinhas), são os animais que também temos de alimentar e cuidar, são, por vezes, os poucos minutos a sós que o casal tem para conversar, são as histórias que as crianças querem que se conte, são as roupas e as malas que se preparam para o dia seguinte, e no meio de tudo isto, as birras que, enquanto pais, também devemos estar à altura para lidar, etc., etc., etc. 

 

No fundo somos criativos e malabaristas nas horas livres, professores, técnicos de saúde, operários e afins, uma parte do dia, educadores a vida inteira, e aposto que muitos, em várias fases do desenvolvimento das nossas crianças, ainda fazem uns turnos extra enquanto guardas noturnos, enfermeiros e motoristas. Muitas são as profissões que nos assistem ao longo do nosso ciclo parental, e no meio de tanta tarefa profissional, ter uma (ou duas, ou quarto...) mão que ajude, é, no meu ponto de vista, fundamental e precioso nos dias que correm. Mas a verdade, é que nem todos têm esta sorte. E muitos que a têm, ainda se veem confrontados com algumas (ou muitas...) exigências adicionais, mesmo que parcialmente disfarçadas por determinadas observações mais humorísticas, ou completamente assolapadas por algumas atitudes (in)esperadas. 

 

Honestamente falando, cobrar, é feio, no meu ponto de vista. Especialmente perante este tipo de circunstâncias. 

Pais e sogros, se de facto querem e gostam de ajudar os vossos filhos, façam-no de coração. Ajudar de coração devia deixar qualquer um satisfeito por si só. Sem esperar que haja qualquer tipo de retribuição, seja de que índole for. 

Não se esqueçam nunca que o vosso papel é fundamental para quem está grávido, e para quem é pai e mãe! 

 

 

Têm mais sabedoria, é verdade!

(Mas atenção, porque não dominam todo o leque de conhecimentos e procedimentos universais relacionados com a vida humana.) 

Têm mais paciência, é verdade!

(Mas atenção, porque também vocês já foram pais e podiam lembrar-se mais frequentemente de todos os momentos em que o vosso primeiro impulso foi dar uma palmada ou um grito numa determinada situação limite.) 

Têm mais disponibilidade, é verdade! 

(Mas atenção, lá porque se demitiram de alguns postos que outrora ocuparam, não deixam de ser educadores [lembram-se? É para a vida toda!]. Assim sendo, lembrem-se que enquanto avós, também vocês continuam a educar filhos (e netos!), e eu acredito que é na observação, na sensatez, no senso pedagógico individual e na tolerância, que está a chave da educação.) 

Têm muito amor para dar, é verdade! 

(Mas atenção, os filhos continuam a ser filhos e, neste caso particular, os filhos continuam a ter a palavra final na educação dos vossos netos. Portanto, se têm algo para dizer chamem os vossos filhos à parte e se tiverem necessidade de lhes torcer e/ou puxar as orelhas, como outrora, façam-no! Mas longe do olhar dos vossos netos. Os vossos filhos continuarão a cometer erros. E vocês continuarão a ser os pais. Mas não queiram que os vossos netos assistam a esses momentos, por exemplo. Não é saudável para ninguém.) 

 

Por norma, os filhos aperciam e precisam que tenham iniciativa, que queiram estar e, quem sabe até, ficarem com os vossos netos quando os vossos filhos estão mais ocupados. Concomitantemente, que tentem cumprir com as suas recomendações no cuidado para com os vossos netos e que os amem (quase) como se fossem vossos filhos, mas sabendo que, não o são. 

 

Vocês são, deveras, fundamentais na educação e no desenvolvimento dos vossos netos. São, provavelmente, as pessoas em quem os filhos mais confiam e/ou querem confiar. E os vossos netos precisam de vocês! Precisam de contactar com as vossas experiências, com as vossas histórias, precisam que envergonhem (um bocadinho só!) os pais junto deles com aquelas histórias fantásticas que eles não se querem lembrar mas que vocês não se esquecem nunca, e acredito que acima de tudo, precisam de saber que têm em vós uma personalidade firme que represente respeito, amor e disciplina - tudo ao mesmo tempo - numa receita que tenha como produto final a moldura de uma família, genuinamente, feliz. 

 

 

Os vossos filhos e os vossos netos precisam de vós, assim como vocês precisam deles. E é tão bom quando todas as vontades se encontram na mesma frequência, mesmo que nem sempre, na mesma estação. Faz parte do que significa "amar durante uma vida"...certo? 

"Precisava de entender a depressão com o coração e fazer as pazes comigo mesma"

Há mais de um ano que esta leitora me enviou um email a descrever a sua passagem pelos caminhos da depressão pós-parto. Publiquei o seu testemunho na rubrica Histórias que dão a cara por esta causa #14 - "cheguei a um ponto de ansiedade tal que sentia que só queria morrer".

 

Durante este ano fomos mantendo o contacto, e a respetiva foi-me contando como tem sido a sua experiência em termos de recuperação da depressão pós-parto que lhe foi diagnosticada. Cada vez que contactamos é sempre uma agradável surpresa para mim compreender tudo o que tem feito por si, e os bons resultados que está a ter. Há algum tempo desafiei-a a escrever um pouco sobre a sua recuperação para partilhar com quem nos lê, e senti desde logo que foi um desafio aceite com grande entusiasmo da sua parte.

 

Assim que sentiu que foi o momento mais confortável para si, não hesitou em enviar-me um email a contar-me como tem sido essa experiência nos últimos 13 meses, e hoje, partilho convosco a sua viagem, que felizmente, está próxima de ter um final bem feliz! 

 

Enviem-me também as vossas experiências de recuperação da depressão pós-parto. De certo que existem por aí muitas histórias semelhantes à desta leitora. Enviem-me email para: blog@mulherfilhamae.pt

 

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"Passados 13 meses e meio após o nascimento da minha filha e 11 meses e meio após o diagnóstico de depressão pós-parto, sinto-me feliz, mais feliz do que alguma vez fui. A DPP veio "obrigar-me" a olhar, uma vez mais, para dentro de mim e a descobrir-me. E este processo de auto-consciência tem sido maravilhoso. Custoso, desconfortável, mas imensamente rico em aprendizagens. 
 
Aos 2 meses de ser mãe, numa espiral dolorosa de ansiedade, angústia e exaustão, procurei ajuda psiquiátrica. Comecei a tomar medicação e o resultado surgiu logo após 2 semanas. 6 meses após o tratamento exclusivo com a medicação senti que o meu corpo tinha reencontrado algum do seu equilíbrio físico e hormonal e a minha cabeça havia percebido o que era a DPP. No entanto, o coração ainda apertava, a culpa inundava-me, o medo de ter deixado sequelas emocionais na minha filha estava sempre presente. Precisava de entender a depressão com o coração e fazer as pazes comigo mesma. 
 
Procurei apoio na psicoterapia (com recurso à hipnose) e no shiatsu (massagem terapêutica). E tem sido a conjugação destas 3 ferramentas que me permitiu embarcar nesta viagem de descoberta, de cura e crescimento. Como já te disse Ana, sinto que finalmente consegui agarrar a vida nas minhas mãos e seguir aquilo que me dá prazer, me apaixona e que me traz significado. 
 
Amo muito a vida, a minha filha, a minha família.
 
Obrigada por alimentares este espaço de divulgação, partilha e reflexão acerca das inúmeras experiências, menos positivas, relacionadas com a parentalidade. Espero que, aos poucos, as pessoas comecem a falar e a percepcionar estes temas com a mesma naturalidade com que se aborda, por exemplo, os cuidados a ter com o bebé ou as possíveis dificuldades com a amamentação. Ninguém nunca estará preparado para aquilo que vai viver quando se torna mãe/pai, mas é possível e desejável que saibam que estas dificuldades poderão surgir, que não serão "maus pais" por isso e que, acima de tudo, existem soluções."

Sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto #7

"Se houve uma transmissão de segurança, amor e atitudes positivas pelos pais, a pessoa tem uma ideia positiva de si própria, isto é, apresenta uma vinculação segura. Tem um amor por si, e um amor pelo outro, forte e adequado."

 

 

Neto, D. Psicoterapia Emocional e Bonding. Lisboa: Climepsi Editores. 

Ao pai do meu filho: Preciso de ti!

És o pai do meu filho, e só por isso preciso de ti! 

 

Optámos por enveredar pelo complexo e maravilhoso mundo da parentalidade, e só por isso, preciso de ti! 

Desejando muito em uníssono, ou nem por isso, este bebé que acolho em mim, implica com todas as certezas que eu precise mesmo muito de ti!

Engravidámos os dois, e projetamos física e emocionalmente, tudo o que poderemos vir a construir em conjunto, e só por isso, preciso de ti!

Fico enjoada, vomito, estou mais irritada, lamechas, com falta de memória, tranquila, feliz, e com todo o tipo de emoções e expectativas à flor da pele, e só por isso, preciso de ti!

Estou quase a parir, e preciso muito de ti! 

Tenho imensas dores, medos, receios, angústias e preciso de mandar tudo à merda, e preciso de ti!

Quero beijar-te, mostrar-te que te amo, dizer-te que tudo poderia ter sido diferente - podendo até nem ter sido - e só por isso, preciso mesmo muito de ti! 

Estou completamente apaixonada pelo nosso filho. Aquele que eu e tu, planeámos, expectamos, imaginámos, e que agora, contemplamos. E só por isso, preciso mesmo muito de ti! 

Doem-me as mamas, dói-me o rabo, doem-me as costas, dói-me a sutura, e acima de tudo, dói-me o peito. Por vezes o coração. A ansiedade aumenta a cada dia que passa depois do nosso filho ter nascido. Será que serei boa mãe? Será que conseguirei educá-lo? Será que? Será? Porra! Como eu preciso de ti... 

 

Preciso de ti para encarares.

Preciso de ti para me ouvires. 

Preciso de ti para me compreenderes. 

Preciso de ti para acreditares comigo que tudo voltará a ser idêntico ao que era, mas agora, bem melhor!

Preciso de ti para me aconchegares.

Preciso de ti para me pedires aconchego e para compreenderes, que por momentos, os meus braços podem estar ocupados, mas que o meu coração mantém o mesmo espaço reservado em exclusivo para ti. 

Preciso de ti para me mostrares que me amas. Que me queres. Que percebes que por agora o sexo não é uma prioridade, mas que o tempo faz com que tudo volte a ser como era, ou quem sabe, bem melhor!

Preciso de ti para me olhares enquanto mulher. Para puxares por esse meu lado também. 

Preciso de ti para me confrontares com o que achas que não está bem, mas para saberes ouvir o que sinto e que poderá estar em discórdia também. 

Preciso de ti para pedires ajuda a alguém, caso eu não me sinta mesma nada bem, e não reconheça, não compreenda.

 

No fundo, preciso de ti para vivermos a vida que idealizámos, e que agora foi completamente abanada pelo nascimento de quem muito esperámos. 

 

Preciso de ti para tudo isto, e quem sabe, até para muito mais. 

Mas se por agora não puderes estar e sentir comigo esta fase que vivemos, e que pode não estar a ser tão feliz como expectámos, sabe que sozinha (é bem provável que) também conseguirei. Mas é bem mais difícil e doloroso também.