Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Porque é que o nosso cérebro se torna ansioso?

A ansiedade está presente numa grande fatia da população portuguesa, e o mesmo aplica-se quando falamos sobre saúde mental perinatal

 

Há pouco tempo li um livro sobre algumas técnicas para controlar a ansiedade, de Margaret Wehrenberg, e de uma forma bastante simples e objetiva a autora leva-nos a compreender o lado mais técnico da ansiedade. Achei curiosa a forma como fez a ponte entre a neurociência e o comportamento humano para o leitor (mesmo podendo ser o útimo leigo na questão) para que este pudesse aceder de forma mais simples a este tipo de informação. Desta forma, e tendo em conta que a ansiedade é um tema que muitas vezes é abordado quando falamos de gravidez e pós-parto, resolvi trazer aqui um pequeno resumo para responder à questão: Porque é que o nosso cérebro se torna ansioso? 

 

O cérebro integra uma rede complexa de células cerebrais chamadas de neurónios, todas interligadas entre si.

Há muito ainda para conhecer sobre o funcionamento do cérebro, contudo, algo que se sabe até agora é que todos os pensamentos que temos e todas as emoções que sentimos, são resultado da atividade cerebral, e da mesma maneira que não nos sentimos bem quando algum órgão não está a funcionar adequadamente, os nossos pensamentos e emoções podem sofrer perturbações se o cérebro não estiver a funcionar bem.

 

 

Os neurónios comunicam entre si através de mensageiros específicos, os chamados neurotransmissores. Quando há problemas ao nível da sua quantidade - podem ser insuficientes, ou suficientes, mas não conseguirem passar a mensagem de um neurónio para outro, ou estarem presentes em excesso - e qualidade - no que toca ao local do cérebro onde são recebidos, ou, por exemplo, se houverem dificuldades no recebimento da mensagem no ponto de chegada, podendo haver neurónios que não as recebem com facilidade - a pessoa pode desenvolver ansiedade, ficando preocupada, reagindo excessivamente ao stress, ficando em pânico, ou até dando demasiado importância a coisas que não a merecem.

 

O tipo de sintoma que sentimos depende do tipo de neurotransmissores que tem problemas num determinado local do cérebro.

 

Estes sintomas podem ir desde o negativismo, à preocupação, a uma maior sensibilidade à ameaça, à perda de controlo emocional, a preocupações recorrentes, à demonstração de uma atitude inflexível, à agitação geral, à inquietação interior, tensão física e mental, ataques de pânico, sensação de desespero, concentração excessiva nos pormenores, entre outros. 

 

Durante o período perinatal (que vai desde a conceção até ao pós-parto), muitas pessoas referem sentir ansiedade de uma forma geral, com vários tipos de manifestações como as supracitadas, tal como, em parte, já abordei aqui

Seja neste período, ou em qualquer outro da vida, aprender e praticar algumas técnicas de meditação e relaxamento pode ajudar a atenuar este tipo de sintomatologia. Nesta fase, o controlo da ansiedade ganha um maior relevo tendo em conta o período em questão, e a influência do comportamento materno sobre o feto/bebé.

 

Em breve falarei mais sobre algumas técnicas de meditação e relaxamento, e divulgarei algumas datas para as podermos aprender e realizar em grupo, tal como aconteceu aqui. 

 

Interessados? 

blog@mulherfilhamae.pt

Ansiedade: uma fiel companheira parental no pós-parto.

Há alguns meses descrevi qual a diferença entre ansiedade "normal" e a ansiedade considerada "patológica", num texto denominado por "Ansiedade Pós-Parto: quando é que deixa de ser normal e passa a patológica?"

 

Como já identifiquei várias vezes por aqui, o período que alberga o nascimento de um filho é caracterizado por mudança e imprevisibilidade constituindo-se um desafio em termos de exigências e expectativas, que muitas vezes é percebido como um acontecimento de vida stressante, o qual pode precipitar ou agravar qualquer uma das perturbações da ansiedade descritas nos manuais de diagnóstico. 

 

Estimativas de incidência nos primeiros seis meses podem chegar aos 30% e de acordo com alguns autores, a ansiedade é muito mais comum no pós-parto do que a depressão. Para além disso, a ansiedade na gravidez é reconhecida como um fator de risco para a depressão perinatal, assim como níveis elevados de ansiedade nos primeiros dias do pós-parto foram associados ao desenvolvimento de uma depressão pós-parto.  

 

 

De todas as perturbações da ansiedade integradas nos manuais de diagnóstico aquela que se desenvolve com maior frequência é a Perturbação da Ansiedade Generalizada (PAG), que em termos de prevalência pode chegar aos 8% na gravidez e no pós-parto e está relacionada com a preocupação excessiva e incontrolável durante uma grande parte do dia, durante vários meses, e a vários níveis na vida de cada individuo. Segue-se a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), cuja prevalência poderá chegar aos 3.5% na gravidez e no pós-parto. Sabe-se que até 70% das mulheres com POC reportam o inicio da sua doença ao período perinatal e cerca de 50% das mulheres com POC preexistente referem exacerbação dos sintomas no período perinatal. 

 

De uma forma geral a ansiedade patológica pode manifestar-se no pós-parto, através da vivência persistente e a longo prazo de momentos (por exemplo) de maior irritabilidade, cansaço extremo, grandes dificuldades de concentração, insónia frequente, preocupação excessiva com determinados pormenores, incapacidade de relaxar, obsessão relacionada com determinados tipos de cuidado ao bebé, ideias recorrentes de agressividade em relação ao bebé, entre outros, ao ponto deste tipo de manifestação acabar por incapacita-la de vivenciar o seu dia-a-dia de uma forma geral, ou mais de metade do seu dia-a-dia, tornando-se assim uma fiel companheira parental no pós-parto. 

 

Caso se identifique com o descrito no presente texto, saiba que não é a única e que é provável que perto de si possa encontrar o apoio de que necessita para ultrapassar da melhor forma o momento presente.

 

Contacte-me caso queira esclarecer alguma dúvida, ou colocar alguma questão afeta ao tema. 

blog@mulherfilhamae.pt

Projeto 'Mulher, Filha & Mãe': Novidades para breve!

Vejo que muitas pessoas se têm interessado em explorar o novo item na barra de menu, alusivo ao Projeto Mulher, Filha & Mãe. 

projeto mfem brevemente.png

 

Um Projeto ao qual dei inicio há pouco mais de um ano, que fui desenvolvendo em parceria com particulares e instituições que também se encontravam interessados em desenvolver o tema, e que teve de ficar em stand-by durante algum tempo para eu poder aprofundar mais os meus conhecimentos na área e encontrar novas redes de apoio que, quer de forma direta ou indireta, pudessem apoiar de forma mais sustentada o projeto. 

 

Têm sido muitos os que têm contribuído para tal ao longo do último ano, e agora, de forma mais madura e consistente, o projeto está de volta e com várias novidades. Pronto a reiniciar, a lutar, e a promover não só via virtual, mas também presencial, a sensibilização para a área da saúde mental perinatal

 

Estejam atentos! Novidades sobre o projeto para breve!

"Obrigada Ana por proporcionar este espaço de partilha!"

Ainda fiquei na dúvida, mas não resisti! Tive de publicar este comentário no blogue. 

E não. Não falo só do excerto que deu origem ao título - e que muito agradeço, pois é sempre bom vermos o nosso trabalho reconhecido - mas falo especialmente do resto que o compõe, e que passo desde já a partilhar:

 

 

"Obrigada Ana por proporcionar este espaço de partilha! 


Se efetuarmos uma busca na Internet descobrimos, em Portugal, informação escassa sobre a diversidade de vivências do pós parto, sobretudo de casos de baby blues e, mais ainda, da DPP. Existe informação muito genérica sobre o que é que cada um é, mas informação mais detalhada é difícil encontrar. Encontrar relatos de experiências, grupos de partilha, mais difícil é! Os relatos que se encontram não são de pessoas portuguesas. O teu blog foi o único espaço, até agora, que encontrei e que aborda estas questões. 


A parentalidade é a experiência mais comum da história da nossa humanidade e tão pouco se sabe e tão pouco se fala, de forma aberta e honesta, sobre o processo de nos tornarmos mães e pais (e que começa bem antes do bebé nascer). 


Obrigada Ana, pela iniciativa!"

 

Não sei se é o único, mas acredito que seja dos poucos. E é incrível, pois a parentalidade é, de facto, algo que já há muito se desenvolve, mas que ainda muito pouco fala de forma aberta, na nossa sociedade. E é também por isso que apelo à partilha de vivências na gravidez e no pós-parto, especialmente se não tiver corrido da forma como era expectável.

E não é por acaso que o faço. Não é por acaso que frequentemente apelo para que quem tiver por aí a ler qualquer coisa do que escrevo, ou que simplesmente esteja a aceder a este espaço pela primeira vez, partilhe a sua vivência. 

 

Faço-o porque sei que através dessas histórias, outras mulheres, homens e respetivas famílias esclarecem algumas das suas questões mais internas, alguns dos seus receios mais comuns, e algumas das suas ansiedades mais prováveis, nesta fase de suas vidas. 

Faço-o porque acredito piamente que se falarmos cada vez mais deste tema assim, de forma verdadeira, que outras pessoas possam ficar mais sensibilizadas para o tema. Que compreendam melhor que a gravidez e o pós-parto são fases únicas na vida da mulher, casal e respetiva família, mas que também têm um lado lunar que precisa, merece e tem de ser falado, debatido e explicado, para que todos possam ficar o mais esclarecidos possível quanto ao assunto em questão. E assim sendo, acredito piamente também que, esse esclarecimento possa ser fonte de prevenção de inúmeras angústias, dúvidas, ansiedades e outros estados emocionais mais perturbadores.

 

Acredito muito que esta possa ser (só) mais uma forma de, em conjunto, elevarmos esta problemática e fundamentarmos a razão da sua pertinência.

 

Acredito, e a cada dia que passa, a cada história que me enviam, a cada feedback que recebo, a cada crítica construtiva que me enviam, acredito ainda mais. E espero, honestamente, que vocês que estão por aí, do outro lado, mas em consonância com as minhas crenças, acreditem também. 

 

Este não é só um assunto da mulher que vivência esta problemática, do casal do blogue, ou da família. É um assunto de todos nós, pois qualquer um de nós, pode ficar face a face com esta realidade. 

 

E se assim for, como é que pensam abraçar e solucionar a situação?

 

18340308_2hw5b.jpeg

 

 

Acreditem também, e enviem-me a vossa história para blog@mulherfilhamae.pt

 

E se vos faltar um pingo de coragem, ou se tiverem alguma restea de dúvida, consultem todas as outras histórias que já nos enviaram na rubrica, Histórias que dão a cara por esta causa. 

 

Obrigada!

 

Literatura sobre Saúde Mental Perinatal: Agora, também aparece no blog!

Ter ido a Coimbra também fez com que me voltasse a confrontar com a quantidade de artigos, textos e livros que já li sobre Saúde Mental Perinatal, e acima de tudo, com o quanto ainda me falta ler!  

 

Inicialmente achava que havia pouca investigação sobre o tema, chegando mesmo a verbalizá-lo. Com o passar do tempo, e começando a aprofundar os meus conhecimentos na área comecei a aperceber-me que esta minha perceção estava completamente errada. Existe (e muita!) literatura sobre Saúde Mental Perinatal. E essa literatura que já li, e que ainda me falta ler, agora também passará a estar disponível aqui, no blog. 

 

Como? 

 

Simples! 

Eu leio, faço um resumo e depois publico com o link de acesso ao local onde poderão encontrar o texto na íntegra (caso haja link). No blog, poderão encontrar toda esta literatura na barra do menu principal:

 

novo item na barra menu literatura.png

 

Se tiverem alguma sugestão sobre textos, artigos, livros, vídeos ou qualquer outro meio de obter informação sobre o tema e que considerem pertinente, não hesitem em enviar-me as vossas sugestões para:

blog@mulherfilhamae.pt

 

Fico à espera!

Vou lançar-vos um desafio. Curiosos?

Quando fundei o blog o meu grande objetivo era conhecer histórias de outras mulheres, homens e famílias que tinham passado por baby blues, depressão pós-parto ou qualquer outra situação semelhante que evidenciasse a já tão debatida frase de que "nem sempre maternidade rima com felicidade" (Macedo & Pereira, 2014). 

 

Muito do percurso que fui traçando foi sempre a pensar nesse objetivo e em outro - o de criar um espaço onde falar sobre experiências menos positivas ligadas à maternidade, especialmente decorrentes deste tipo de realidades, não fosse motivo de julgamento, culpabilização ou vergonha por parte das pessoas que da mesma padeciam, mas sim uma forma de encarar a vida, tal como ela é. 

Não é que todos os momentos que envolvam maternidade e paternidade tenham só este lado mais lunar. Não. Mas, é verdade que também o têm. E sempre me fez muita confusão o facto das pessoas tornarem esse momento um pouco "surreal" quando o floreiam com as possibilidades de uma vivencia totalmente fantástica e rodeada de momentos extraordinariamente quentes e coloridos, sempre. 

 

Sim, também é assim. Mas não é só. E o outro lado também precisa de ser desmistificado. O outro lado da maternidade e da paternidade também precisa de ser falado. O outro lado também precisa de ser transmitido a quem pensa engravidar, aos casais que estão grávidos e aos casais que acabam de ser pais. O outro lado da maternidade e da paternidade também precisa de ser falado com as famílias destes casais. Esta realidade também precisa de ganhar cor, à sua maneira. Pois de outra forma, continuaremos a ter casais e respetivas famílias informados incompletamente sobre uma situação que, embora não floreie tanto o momento da gravidez e da maternidade/paternidade, sem dúvida alguma que lhe dará outra cor, caso esses momentos não rimem de imediato com felicidade. 

 

E é por isso que vos desafio! 

Desafio mulheres, homens e respetivas famílias que já tenham passado por situações semelhantes, que estejam a passar pelas mesmas atualmente e/ou que conheçam casos relacionados a partilharem connosco as vossas reflexões, as vossas vivências. 

Desafio Profissionais e técnicos de saúde que trabalhem na área a transcreverem para o papel as vossas reflexões críticas sobre o tema, ou a escreverem simplesmente sobre o assunto e a partilharem-nas connosco. 

 

Tenho a certeza que juntos gritaremos muito mais alto que esta é uma problemática real e que precisa de ser falada e transmitida, a quem por este tema, pessoal ou profissionalmente, se interessar. 

 

IMG-20160319-WA0010 - montagem blog.jpg

 

 

E então, desafio aceite?

 

blog@mulherfilhamae.pt

 

Ansiedade no pós-parto: Uma patologia que existe e persiste.

Quando se falam em problemas psicológicos no pós-parto, há uma remetência quase imediata para o Baby Blues ou para a Depressão pós-parto. Mesmo aqui no blogue, acabo por falar um pouco mais das últimas duas afeções, por serem também aquelas com maior prevalência atual, conhecida.

 

Contudo, existem outras afeções que ocorrem no pós-parto a nível psicológico e que tenho o objetivo de vos ir relatando aos poucos. Hoje, aquela que vos trago, é a Ansiedade no pós-parto. 

 

 

A ansiedade por si só, é um estado emocional que apresenta manifestações a nível físico e psicológico. Faz parte da experiência humana e é responsável pela adaptação do organismo a situações de perigo. Para determinados autores é considerada um estado emocional aversivo, sem estímulos desencadeantes externos e que não pode ser evitado.


Mas falando especificamente na fase em que a mulher acabou de ser mãe, aqui, a ansiedade é um fenómeno comum, sendo esta fase da vida de uma mulher um período de maior risco para o surgimento ou aumento de sintomas ansiosos. Apesar de existiram poucos estudos que descrevam os efeitos da ansiedade na mulher após o parto, a sua prevalência é de 5% a 20% das mulheres, sendo mais usual em mulheres que tiveram o seu primeiro filho.

A sintomatologia mais comum está relacionada com ataques de pânico, medo de estar em espaços abertos ou no meio da multidão, medo de ficar sozinha com a criança ou hipocondria relativa ao bebé. Até o stresse que envolve o acolhimento e responsabilidade de um recém-nascido poderão precipitar características ansiosas.


Em 2005, Britton realizou um estudo sobre a influência da mulher que sofre de ansiedade no pós-parto, no recém-nascido, numa amostra de 422 mulheres onde avaliou os seus níveis de ansiedade. Os resultados mostraram que cerca de 24% das mulheres que acabaram de ter os seus filhos demonstraram possuir ansiedade. As mesmas, e especialmente aquelas que tiveram o seu primeiro filho, solteiras e com fraco suporte social apresentaram índices superiores de ansiedade total. O mesmo autor ainda concluiu que as mulheres ansiosas tendem a não identificar os cuidados básicos que os recém-nascidos necessitam.

 

Sendo esta, mais uma afeção que acomete mulheres após o parto, é importante ressalvar que a distinção das patologias a que as mesmas podem estar sujeitas é fundamental, de forma a poder-se encaminhar a respetiva mulher para um atendimento adequado. Por exemplo, embora sintomas ansiosos possam estar relacionados com uma depressão pós-parto, os mesmos podem não ser uma manifestação clara de uma depressão pós-parto, mas simplesmente de uma ansiedade pós-parto, e desta forma, o tipo de apoio técnico especializado a consultar, poderá ser diferente. 

 

 

 

Para mais informações, podem consultar esta tese:

"RELAÇÕES ENTRE ANSIEDADE-ESTADO E ANSIEDADE-TRAÇO, SINTOMAS DEPRESSIVOS E SENSIBILIDADE AO STRESSE EM PUÉRPERAS"