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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Á conversa com a Ana #7 - "Foste tu que me incentivaste a procurar ajuda e a nunca desistir de cuidar de mim. Obrigada meu amor."

Na semana que passou eu e o meu marido fizemos 13 anos que estamos juntos. E desde aquele primeiro dia em que nos conhecemos até hoje, um mundo de experiências e momentos aconteceram. E um deles foi a minha experiência da depressão pós-parto.

 

Tornarmo-nos pais revelou-se uma experiência mais dura do que havíamos imaginado. A C. foi uma bebé desejada. A gravidez foi muito tranquila. O parto foi difícil e doloroso. Mas o pós-parto superou tudo o que poderíamos esperar. Pela negativa, sublinho. Antevíamos momentos cansativos, mas não imaginávamos a exaustão que nos esperava. Líamos e ouvíamos sobre as possíveis dificuldades que sucedem ao nascimento de um bebé, mas tinhamo-nos como pessoas tranquilas o suficiente para lidar com o quer que fosse. Mas tranquilidade não foi de fato o cenário com que nos deparamos logo após os primeiros dias em casa com a C.

 

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Como disse uma vez o meu marido a um amigo: “na gravidez a Ana começou a correr a maratona. Depois de 9 meses a correr veio o parto e ela continuou a correr, sem poder parar e descansar. E depois nasce a C., voltamos para casa com ela e a Ana não pára de correr. Não pode parar. Continua a correr a maratona. E por muito que eu tente nunca conseguia correr com ela. Foi duro para mim, então para ela…” Estas são, quase na íntegra, porque não me lembro palavra por palavra, as suas palavras. E a ele só posso agradecer por tudo.

 

Celebramos 13 anos, e a ti quero agradecer por seres um companheiro de viagem maravilhoso. Foste a minha força quando ela não existiu. Foste a estrutura emocional para a nossa filha quando eu não estava capaz. Deste-lhe colo, tanto colo. Eu tinha medo de pegar nela. Mas tu pegavas, colavas-a a ti, ao teu peito, falavas-lhe baixinho, dizendo que estava tudo bem, que o pai estava ali. Amaste-a desde sempre, quando eu ainda não conseguia. Ficaste horas, sim horas, para adormecê-la para eu poder dormir até à mamada seguinte. Ligavas ao teu pai para vir trazer-me almoço, quentinho, acabo de fazer, para eu ter o que comer. Obrigavas-me a sair de casa, quando chegavas do trabalho, para espairecer. Ofereceste-me livros, um puzzle (que sabes que eu adoro) para me animar.

 

Nunca me apontaste o dedo pela mãe que eu (ainda) não estava a ser para a nossa filha. Não ouvi nenhuma crítica, não senti nenhum julgamento. Pelo contrário, eu tinha em mim mesma um coração cheio de auto-críticas, julgamentos e culpa, e tu acalmavas-me sempre com as tuas palavras serenas e com os teus abraços quentes. Foste tu que me incentivaste a procurar ajuda e a nunca desistir de cuidar de mim.

 

Oh meu amor, dizes que não conseguias correr comigo mas correste! Correste muito! Cuidaste da nossa filha e de mim. Obrigada meu amor.

Á conversa com a Ana #5 - "Depois da depressão pós-parto, voltarei a ser a Ana de antes?"

A semana passada tive a 4ª consulta com a psiquiatra. Saí a fazer um balanço do percurso feito desde a primeira vez que entrei naquele consultório, no Hospital Júlio de Matos. Cada consulta marcou uma etapa diferente no meu processo de cura.

 

A primeira foi no dia 12 de Novembro 2015. Faltava uma semana para a C. fazer dois meses. Mal sabia eu que este dia iria ser o dia D: o dia da rutura total, tanto física, como emocional e psicológica, mas também o dia do recomeço. A minha querida médica foi a mão (a primeira entre muitas outras que se seguiram) que a vida estendeu-me para puxar-me até si.

Não me esquecerei da tranquilidade, da doçura e da paciência com que ela me recebeu, falou e me ouviu. Com ela, nesse dia, comecei a sentir esperança. Esperança de não ficar “maluca” para sempre e de voltar a ser a Ana de antes. Sim, porque estas foram as minhas primeiras perguntas: ficarei maluca para sempre e voltarei a ser quem eu era! Mas voltarei um pouco atrás, para falar um pouco das semanas que antecederam este dia e que mostram a importância deste encontro.

 

A ansiedade e a tristeza constante que sentia levaram-me ao final do 1º mês a enviar um email à médica de família, a comentar tal estado de espírito e a perguntar se me podia indicar algum psicólogo. Recebi resposta a confortar, não conhecia ninguém, mas na próxima consulta da C. falaríamos se ainda sentisse necessidade. Falámos na consulta do 1º mês da C. Tentou ajudar, perguntou se conhecia grupos de mães com quem pudesse estar e falar. Eu não conhecia nenhum e ela também não. Perguntou se tinha uma rede de apoio, disse que sim. Perguntou se saía de casa, se estava com amigas, disse que sim. Aconselhou-me a descansar e marcou consulta para daí a uma semana.

Voltei, uma semana após. Disse-lhe que me sentia um pouco melhor, mas que continuava a abanar a C, e isso inquietava-me muito. Não me revia neste tipo de atitudes. Ela falou pela 1ªvez em tomar medicação, leve, que me ajudasse a relaxar e a dormir (estava com insónias). Mas acordámos em esperar mais 1 semana.

 

Outra semana seguiu-se, nova consulta. Ela quis que eu fizesse o teste para despiste da depressão. Senti que seria um exagero, eu não teria uma depressão. São os primeiros tempos de vida de um bebé que são exigentes, são muitas mudanças, a privação de sono, mas o abanar, o abanar tocava alertas internos. Isso não poderia continuar.

Quando respondi às questões, fiquei admirada com o fato de, em nenhuma delas, eu poder responder pela positiva. Nas escalas que apareciam, de nada feliz a muito feliz, eu responderia nada feliz. Até pensei “mas é possível estar feliz nestes primeiros tempos?” Deu positivo, tinha DPP. Receitou-me um antidepressivo compatível com a amamentação e outro medicamento para relaxar e induzir o sono. Escreveu um relatório para entregar noutro C.Saúde, a prescrever a necessidade de uma consulta de Psicologia. Tempo médio de espera: 4 meses! Saí de lá com um diagnóstico de DPP, com uma receita para os medicamentos e um relatório que me fazia esperar 4 meses por uma consulta. No imediato senti-me aliviada, afinal já havia um diagnóstico e um tratamento.

 

Mas a semana que se seguiu foi a descida ao inferno. Aos poucos comecei a interiorizar que estava com uma depressão. E que imagem tinha eu das pessoas deprimidas? Pessoas apáticas, que ficam neste estado anos e anos a fio, nunca mais voltando a ser a mesma pessoa. Eu ficaria estragada, avariada para sempre. Nessa semana, não dormi nada de jeito todos os dias, o nível de ansiedade crescia, tinha pavor em ficar sozinha com a C, pois não confiava em mim para cuidar dela.

O meu marido, o meu querido marido, já se tinha lembrado de uma amiga cuja mãe é psiquiatra e pediu-lhe para ela ver-me. Marcou-se a consulta. Na noite anterior não consegui adormecer por nada, andei horas às voltas na cama, extremamente agitada. Adormeci. Uma hora depois acordei em sobressalto, a chorar compulsivamente e a dizer que não aguentava mais, que queria morrer. O meu marido tentou acalmar-me, dizendo que iríamos à consulta com a psiquiatra e que tudo ficaria bem. Mas eu já não consegui acalmar. Já estava numa espiral de ansiedade e a parte consciente e racional completamente off.

 

Eu diria que estava numa fase catatónica, só conseguia sentir e dizer que não aguentava e que queria morrer. Ele pegou em mim e na C., não foi trabalhar, e saímos de carro. Lembro-me do dia, de sol, agradável. Ele perguntou-me aonde eu gostaria de ir. Eu respondi “para longe”. E levou-nos para a Comporta. Cuidou da C. e de mim, dentro do possível. Tentou animar-me, fazer-me rir e eu não tinha forças sequer para esboçar um sorriso. Até às 17h00 estive prisioneira da minha ansiedade. Sentia que estava maluca e que não havia uma solução para mim. Não no sentido de voltar a ser quem era. Foram horas horríveis.

 

A hora da consulta chegou. Entrei, perguntei se ficaria maluca para sempre e ouvi “não Ana, não vais ficar.” E, logo de seguida, atirei “e voltarei a ser a Ana de antes?” e ouvi, “Sim, claro que sim. Daqui a 2 semanas já te vais sentir um bocadinho melhor” E, a partir daqui, tudo mudou. Foi o recomeço. Voltei a ser a Ana de antes, eu diria até que uma Ana muito melhor. Mais madura, mais confiante, mais serena. E muito feliz.

 

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Ontem, a minha filha, pela primeira vez, por sua iniciativa, fez-me festas na cara e deu-me um beijo. Assim do nada. Ai, como o meu coração se derreteu! Quanta distância foi percorrida entre os abanares e este beijo!

 

 

 

 

 

 

"Tanto ouvi falar em depressão pós-parto mas parecia-me algo difícil de acontecer"

É sempre um alívio e uma alegria para mim quando recebo um email de alguém que dedica algum do seu tempo a refletir sobre temas como a depressão pós-parto. 

Seja a partilhar a sua história, seja a partilhar a sua opinião, a vivência de alguém próximo ou a colocar uma dúvida, o que for. Saber que este assunto é abordado por mais pessoas, e fazer parte desse estímulo, faz parte do meu objetivo!

 

Foi o que aconteceu com a Sandra, que há poucos dias me enviou um email sobre o que sabia sobre depressão pós-parto. A mesma foi mãe há relativamente pouco tempo, não desenvolveu uma depressão pós-parto, mas a verdade, é que tem uma opinião muito bem definida sobre o assunto. 

 

Enviem-me também vocês a vossa opinião. O que é que sabem sobre depressão pós-parto? 

Já alguma vez refletiram sobre o tema? O que diriam num texto (numa frase ou imagem) sobre o assunto? 

blog@mulherfilhamae.pt

 

 

Movimento: O que é que tu sabes sobre Depressão pós-parto?

 

Boa tarde,

 

Obrigado pelo incentivo de falar / escrever sobre este assunto.

 

Acredito que no final sentir-me-ei mais "leve".

 

Fui mãe pela primeira vez, à cerca de um ano.

Foi uma gravidez muito desejada mas demorou um pouco à acontecer. Felizmente quando íamos iniciar as consultas de fertilidade, descobrimos a gravidez.

Que felicidade e que medo de algo menos bom.

Felizmente a gravidez correu sem problemas mas no fundo não estava preparada para toda a mudança que estava prestes a acontecer.

Quando dei por mim, estava no hospital com a minha M prestes a nascer. Que misto de sentimentos... Não estava preparada para tamanha mudança.

Assim que a vi pela primeira vez fiquei muito feliz mas não senti o tão falado "amor à primeira vista".

Passei a primeira noite acordada a olhar para ela e a tentar juntar a parte racional à parte sentimental. Tinha ali um ser tão indefeso, que dependia de mim e eu não sabia se iria ser capaz de cuidar dela e de a proteger.

Foi este o sentimento de partida para o turbilhão de sentimentos que aí vinha...

A insistência por parte dos profissionais de saúde e por todos aqueles que me rodeavam na amamentação que teimava em não correr bem. A menina que passava grande parte do dia a chorar e eu como mãe devia acalmar mas não conseguia, dias a fio sem poder dormir 2h seguidas.... Enfim, era ela a chorar por um lado e eu por outro... Tive a sorte de contactar com duas enfermeiras fantásticas (a do centro de saúde a do curso pós-parto) que me ajudaram a acalmar e a perceber que precisava de falar, expor sentimentos, pedir ajuda e acima de tudo a acreditar que era capaz.

 

E felizmente não "caí" na depressão pós parto mas não desfrutei das primeiras semanas de vida da minha tão desejada e amada filha.

 

Tanto ouvi falar na depressão pós parto no curso de preparação para o parto mas parecia-me algo difícil de acontecer mas, na realidade, é tão simples. A confusão hormonal que temos, por vezes, até parece que nos "empurra" para o abismo.

A própria sociedade que responsabiliza a mulher / mãe por cuidar dos filhos, esquecendo-se do incentivo à mulher para cuidar de si.

Os defensores da amamentação que querem a todo o custo que esta seja por muito tempo e em exclusivo. (Atenção que eu concordo com a amamentação mas acho que neste momento já não é um incentivo mas sim pressão).

 

O marido/pai tem um papel tão importante. Felizmente o meu foi espetacular. A ele um muito obrigado não só pela ajuda nas rotinas mas acima de tudo pelo apoio moral/sentimental.

 

 

A depressão pós parto é algo tão pessoal mas precisa de ser falado sem ser criticado. Os cursos pós parto têm um papel tão importante. Permite-nos contactar com outras mulheres que vivem a mesma realidade e deixamo-nos de sentir tão "sós".

 

O texto (minha história) já vai longa.

 

Parabéns pelo incentivo à discussão sobre este "tabu".

Histórias que dão a cara por esta causa #15 - "triste por não ter tido o apoio de quem tinha a obrigação de dar...."

A Gabriela, uma leitora que encontrou há pouco tempo o nosso blogue, decidiu partilhar connosco a sua experiência no pós-parto da sua segunda filha, que hoje tem 2 anos e 6 meses. Uma filha que veio oito anos depois da primeira. 

 

Tal como muitas leitoras têm vindo a referir, sentiu que poderia ter tido mais apoio de quem estava a seu lado, e hoje, após o diagnóstico da sua depressão, fala-nos na primeira pessoa, sobre um pedaço da sua história. 

 

E vocês, de certeza que também têm uma vivência para partilhar!

Enviem-na para blog@mulherfilhamae.pt

 

 

Olá!


Não conhecia este blogue e gostei imenso do que acabei de ler da sua pp experiência.


Tenho 42 anos, uma filha de 10 anos e 5 meses e outra com 30 meses.
Na primeira filha ela nasceu após um mês do meu sogro falecer, claro está q o meu marido esteve tudo menos ao meu lado e sempre visitas atrás de visitas sem puder descansar e após uma cesariana. A sorte é q ela era um sossego, uma doçura mm. Foi-me mantendo rija com mt apoio dos meus pais e irmãs.


Na segunda filha tinha uma de 8 q começou a exigir o triplo da atenção q já tinha e uma bebé q nunca dormiu uma noite seguida (só agora recentemente é q temos uma ou outra noite seguidinha).


Aí fui eu q disse q não queria tantas visitas, mas no inicio chorei mt pq a recém-nascida ocupava-me mt tempo e sentia-me impotente e tb sentia q não dava a atenção q a mais velha precisava. O meu marido chegava sempre tarde por norma pois trabalha por conta pp.


Tive uma depressão qd a mais velha tinha dois anos, e hj é o dia q tomo ansiolítico de manha e vitaminas para me manter rija. Claro q tou mt feliz com as minhas riquezas mas qd penso em alguns pormenores do pós-parto a nostalgia apodera-se de mim e de certa forma triste por não ter tido o apoio de quem tinha a obrigação de dar....


Felicidades!


Gabriela

Histórias que dão a cara por esta causa #14 - "cheguei a um ponto de ansiedade tal que sentia que só queria morrer"

Uma leitora do blog enviou-nos a sua história via email, relatando de forma bastante clara e objetiva muito do que passou antes, durante e após lhe ter sido diagnosticada uma depressão pós-parto. 

 

Um relato com o qual, eu acredito, que muitas pessoas se identificarão. Ou porque passaram pela situação descrita de forma semelhante, ou porque a observaram de perto. 

 

Tenho a certeza que por aí existem muitas outras histórias semelhantes, ou mesmo que pouco semelhantes, que merecem ser partilhadas para que todos nós, de uma forma geral, possamos ficar mais alerta para o problema em questão e que se insere na esfera da Saúde Mental Perinatal

Enviem-me as vossas histórias sobre o tema para blog@mulherfilhamae.pt

 

Conto convosco!

 

 

Há 5 meses atrás, percebi que precisava de ajuda porque tinha entrado numa espiral de ansiedade, medo, angústia, desespero. Sentia-me quase sempre infeliz, muitas vezes pensava que não queria ter tido a minha filha e queria a minha vida de volta. Não estava a estabelecer ligação emocional com ela. Cuidava dela por responsabilidade e obrigação. Evitava olhar para ela. Estava em piloto automático: era mamar, por arrotar, mudar fralda, por (tentar) a dormir. Achava que era normal sentir-me assim, todos diziam que ia passar, que faz parte, que não é fácil ter um filho, que todas as mães passam por isso. Que eu devia sair de casa, estar com pessoas, falar, evitar andar de pijama e eu fazia isso tudo. Saia sozinha, com amigas, com o meu marido, falava ao telefone com amigas mães para procurar companhia e conselhos, vestia-me todos os dias, tive ajuda dos avós, do meu marido e mesmo assim cheguei a um ponto de ansiedade tal que sentia que só queria morrer. 
 
O ponto de ruptura foi perceber que passados 2 meses eu continuava a abanar a minha filha, gritava com ela com frequência, cheguei a gritar que a detestava. A seguir chorava imenso pelo mal que sabia que lhe estava a fazer, que ela não tinha culpa nenhuma. Custou-me muito admitir que fazia isto à minha filha, custou-me admitir a mim mesma, ao meu marido, ao resto das pessoas. Pensei que iria conseguir ultrapassar sozinha, mas não consegui. Decidi pedir ajuda médica e foi me diagnosticada depressão pós-parto. Comecei a tomar medicação e, aos poucos, as coisas foram melhorando. Já me sinto mais a Ana de antes, com o plus de ter uma filha com a qual já tenho um prazer imenso em estar :) E a filha que eu achava que tinha dias muitos difíceis, por estar muito irritada passou a ser um bebé mais calmo. A mãe está mais calma e feliz, por isso...
 
Sinto que se fala muito pouco sobre este tema. Espero contribuir um bocadinho para desmistificar e ajudar outras mulheres a terem força para procurarem ajuda. Faz toda a diferença! Temos que cuidar de nós acima de tudo. Se estivermos bem e felizes os nossos filhotes também estarão.
 
Obrigada!

O comportamento de companheiros de mulheres com depressão pós-parto.

O género de artigos que sempre captaram muito a minha atenção desde que iniciei este percurso, são os que abordam a temática do apoio social à pessoa com Depressão Pós-Parto. Algo que tenho vindo constantemente a evidenciar, tendo já escrito alguns textos sobre o tema. Como por exemplo,  "O Apoio da família é fundamental". 

 

Hoje, acrescento a este novo espaço no blog - Literatura sobre Saúde Mental Perinatal - um artigo que li há pouco tempo, e que me fez muito sentido, tanto a nível pessoal como profissional - "O comportamento parental de companheiros de mulheres com depressão pós-parto". Um artigo bastante objetivo, elucidativo e que capta a nossa atenção do inicio ao fim, pela quantidade de informação robusta que contém. 

 

Vários são os estudos acerca da Depressão Pós-Parto (DPP) que parecem concluir que o apoio do companheiro tem um impacto muito favorável na forma como a nova mãe se adapta à maternidade. Descobrir e compreender de que forma é que os companheiros vivem a DPP das suas esposas e a influência que isso tem no comportamento do casal e na relação com o bebé foi o objetivo deste estudo. Embora não possa ser considerado representativo, foram analisados qualitativamente, 7 casos de DPP.

 

Após a análise das entrevistas e relatos que foram obtidos pode-se concluir que a DPP das mães é descrita como um "Tempo difícil", altura de grande sofrimento para ambos os membros do casal, tendo o condão de se transformar rapidamente num tempo de dor e confusão também para o pai, que se vê apanhado de surpresa numa situação que não previa, não controla e nem sabe como resolver.

 

Os companheiros relatam ainda não terem saudades desse tempo descrevendo a vivência familiar da altura como um verdadeiro caos, pautado pelo cansaço e desespero, especialmente caracterizado para os respetivos pela indisponibilidade materna e por um bebé problemático. A Indisponibilidade materna, pois passando por uma DPP, a tristeza que as mulheres sentem leva a que se sintam extremamente frágeis. O cansaço acumulado das noites sem dormir, deixa-as extenuadas e causa-lhes um sentimento de incapacidade relativa ao que quer que seja, nomeadamente de cumprir tarefas da maternidade, diminuindo-lhes a tolerância e aumentado a irritabilidade e o distanciamento afetivo, com tendência para o isolamento social.  O bebé problemático surge muitas vezes associado à DPP, sendo este um bebé que pelas suas características físicas ou de temperamento se torna difícil de cuidar. Insatisfeito, exigente, irritável, inconsolável, prematuro ou doente, parece impossível de o acalmar ou de satisfazer as suas necessidades. Consequência ou causa da DPP, ainda não se sabe.

 

Perante este quadro, a maior parte dos pais entrevistados confessa ter sentido uma certa 'perplexidade' face ao comportamento da companheira. A mesma, surge associada a sentimentos de choque, incompreensão, confusão ou desilusão, tendo os respetivos companheiros verbalizado nas entrevistas frases como: "Não estava à espera", "Não percebo porque é que ela está assim", "Não é suposto que uma mãe rejeite, recuse ou se sinta incapaz de cuidar do seu filho".

 

O bebé problemático e a indisponibilidade materna parecem também reativar conflitos anteriores nestes homens que acabam por reviver nesse período a relação precoce com a própria mãe, família, irmãos ou outros significativos. 

 

A qualidade das vivencias anteriores destes homens parece influenciar a capacidade de adaptação que revelam nesta situação. As vivências passadas vão determinar o tipo de "expectativas face à companheira". Assim, percebe-se que homens com estruturas mais depressivas e experiências de desamparo ou que sofreram negligencias anteriores, sem expectativas nem modelos maternais pré-definidos, acabam por ser mais compreensivos face à DPP das companheiras, demonstram maior preocupação com a mãe, ajudam-nas nas tarefas domésticas e partilham os cuidados com o bebé. Por outro lado, homens com modelos maternais pré-definidos, acabam por se revelar mais intolerantes e críticos, expressando um 'ressentimento' face à companheira que consideram não ter cumprido a sua parte. São comuns nestes homens sentimentos de tristeza, zanga e de traição face ao projeto da maternidade concebido por ambos, tais como o sentimento de rejeição e abandono provocado pelo isolamento a que elas os devotam, queixando-se essencialmente de falta de tempo para o casal. 

 

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Independentemente dos diferentes afetos e atitudes face às mães com DPP, todos estes homens  assumem um comportamento comum relativamente aos filhos: assumem o papel maternal. Ou seja, vêm-se na eminência de assumirem este papel, no cuidado com os filhos, para que as necessidades básicas do bebé sejam satisfeitas. 

 

Importa salientar que os comportamentos paternos, sejam eles quais forem, parecem ter um impacto na recuperação da mãe. Quando os pais decidem assumir o papel maternal, as mães sentem-se espoliadas, reforçando assim o seu sentimento de incapacidade. Como se o facto da ajuda que os companheiros providenciam e da relação especial que criaram com os filhos as tivesse expropriado do seu papel maternal, fazendo-as sentir ainda mais frustradas por não conseguirem acalmar o bebé, inseguras na sua competência maternal, culpabilizando-se pela falta de disponibilidade em relação aos filhos e isolando-se por rejeitarem ajuda de terceiros. 

O ressentimento dos companheiros relativamente a estas mulheres, agrava assim, os seus sentimentos depressivos e a sua baixa auto-estima. As mães demasiado rígidas e controladoras são aquelas que pior reagem porque a sua exigência e perfeição acabam por colidir com as necessidades e comportamentos sempre imprevisíveis do bebé durante os primeiros meses de vida.

A DPP é vivida como uma dor imensa por estas mulheres, sendo algo que as envergonha e as atormenta. Ao sentirem-se colocadas em causa por um pai mais exigente, que as questiona e ocupa o seu lugar, não suportam o sentimento de culpa e de fracasso, porque vêem refletido o que sentem como uma falha irreparável e deixam-se afundar cada vez mais na depressão.

 

"Mais do que os outros, a sua consciência grita-lhes a sua indisponibilidade, incapacidade e distanciamento, daí ficam tão reativas aos comentários vindos do exterior" (p.112).

 

Para além destes resultados, algo que também me chamou muito à atenção foi o facto dos autores evidenciarem no texto que quando questionados relativamente às atitudes face às mães e aos filhos, quase todos os pais consideraram prioritário ocupar-se dos bebés pois consideram que são mais delicados, indefesos e dependentes enquanto que as companheiras são adultas e devem ser capazes de tomar conta de si. No entanto, quando os Pais têm uma atitude mais compreensiva, uma preocupação também para com a companheira e as ajudam no dia-a-dia, a sua recuperação é muito mais rápida e a depressão é ultrapassada sem grandes traumas ou consequências. 

A partilha de sentimentos, sem culpas nem recriminações, a ajuda nos cuidados ao bebé e na arrumação da casa permite-lhes descansar, dormir, reparar energias que as noites mal dormidas e o stress de um bebé exigente lhes roubaram. 

 

De facto, uma mãe deprimida poderá ser uma mãe que provoca sentimentos de rejeição e desamparo quer no pai ou no bebé, no entanto, é também uma mulher aflita na maior parte das vezes e muito casada, que necessita de amparo e de um porto seguro para se reencontrar.

 

"Ajudar os homens a entender estes fenómenos sem se sentirem traídos, zangados, abandonados ou postos em causa, auxiliando-os na compreensão face às fragilidades maternas de uma mulher com depressão pós-parto e ao impacto que o seu comportamento pode ter na mãe, no bebé, no casal e em toda a família parece-nos fundamental uma vez que ele, o pai, é o elemento mais apto para devolver o equilíbrio à mãe sem a desestruturar nem colocar em causa o lugar desta no coração dos filhos. (...) É muito importante que o pai compreenda que não pode e não deve ocupar o lugar da companheira na relação com o filho, deve sim, e caso ela rejeite o bebé, ajudá-la a estabelecer com ele uma nova relação descontaminada de fantasmas e dores internas que inscientemente se projetam. Acordá-las sem as pressionar vai ajudá-las a recuperar a mulher e a amante adormecidas, necessárias para o redescobrimento da identidade e para o equilíbrio do casal e da família." (p.114)

Histórias que dão a cara por esta causa #9 - "Com tratamento, melhorei e estou no bom caminho."

Na sequência do texto que escrevi sobre o Porquê da desvalorização da Depressão na Gravidez e no Pós-Parto, foram algumas, as mulheres que falaram sobre as suas experiências e opiniões relativamente ao tema. 

 

Uma delas foi a Ana, que também nos permitiu publicar aqui um pouco da sua história dando ênfase a um aspeto fundamental no que toca à passagem por qualquer afeção no âmbito da Saúde Mental no pré e no pós-parto, e que já muito se falou por aqui - A importância do apoio do companheiro e restante família nesta fase. Foi este apoio que amparou em muito a Ana, e foi este apoio que a mesma aqui também evidência como fundamental. 

 

Hoje, trago-vos um testemunho curto, mas muito elucidativo sobre a vergonha que persiste quando se passa por uma situação como uma depressão pós-parto, sobre a importância do apoio do companheiro nesta fase, e acima de tudo, sobre mais uma mulher que se encheu de coragem para dar a cara e demonstrar como situações destas existem e persistem e como se torna fundamental a expressão escrita e prática de mais uma realidade menos positiva no inicio da maternidade. 

 

Hoje trago-vos o testemunho da nossa querida Ana. E vocês, também se querem encher de coragem e enviarem-me o vosso testemunho? Não hesitem!

 

blog@mulherfilhamae.pt

 

 

"Acho que vergonha é um sentimento sempre presente na depressão pós parto. Pelo menos foi assim no meu caso. Tinha vergonha de dizer a alguém que não estava a aguentar, afinal, tínhamos tudo para estar felizes, uma bebé saudável que dormia e comia bem, condições sociais e económicas fora de serie. Não tinha coragem de falar sequer nisso, com pessoas que eu sabia terem passado bem pior que eu. Quando falei, comecei por minimizar os sintomas, mais uma vez por vergonha e por medo de me rotularem má mãe. Já estava no ponto de rotura e ainda assim não queria expor a verdadeira dimensão da depressão. Com tratamento, que ainda continua, melhorei e estou no bom caminho. Fui eu que em ultima instancia desvalorizei a minha depressão. Aqui o papel do pai, dos avós, do circulo mais chegado foi muito importante para me tirar da espiral descendente. Estarmos todos bem informados e preparados, porque acontece (e não é raro), é essencial.
O meu marido demorou a perceber a situação. Também ele teve de lidar com a avalanche de sentimentos que é trazer uma criança ao mundo. Mas quando percebeu, transformou-se no meu rochedo, e hoje lutamos juntos contra a minha depressão e contra os comentários, opiniões e influencias menos felizes que vão aparecendo. 
Hoje, o meu marido é um verdadeiro advogado da causa, com amigos pais ou futuros pais para que as suas famílias não passem pelo mesmo. Estou tão grata e tão orgulhosa, espero que estes pequenos passos possam fazer diferença. Não faz mal falar disto. Pode não ser confortável mas faz bem, faz parte do processo. Não tem de ser tabu, nem para Mães nem para Pais."