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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

À conversa com a Ana #1 - "Pensava que ter a minha filha nos braços e amá-la seria algo automático. Não foi."

Conhecer a Ana, autora deste blogue, foi muito importante para mim. Foi a primeira vez que falei com alguém que passou por um pós-parto turbulento, tal como eu. Desde esse dia, tenho pensado quase diariamente na Ana, na sua experiência, na minha experiência, em todas as outras mulheres/casais/bebés que possam ter passado ou que estejam a passar por momentos difíceis.

 

Uma experiência assim pode marcar-nos duramente para a vida se nada for feito, no sentido de assumir, procurar e encontrar as ajudas certas. São mulheres, pais, filhos que ficam com marcas.

 

Pelo contrário, quando as ajudas certas chegam aquilo que podem fazer por todos os envolvidos é profundamente incrível. Para mim, foi a diferença entre uma relação turbulenta ou uma relação rica em significado e afetos com a minha filha. Foi a diferença entre o perpetuar de um sofrimento muito recalcado do passado, o qual eu julgava ultrapassado, e o começar a libertar-me de medos e inseguranças e sentir-me mais livre, tranquila e viva do que nunca!

 

Mas, e que ajudas têm sido essas?:

 

  • Medicação - foi o começo do processo de cura. Estava num tal ponto de ansiedade, angústia e exaustão que precisa de algo que parasse de imediato a espiral descendente em que me encontrava. Decorreram várias semanas até acertar na dosagem mas, ao final de apenas 15 dias de toma, já sentia melhorias. Prometi a mim mesma que seguiria religiosamente o que a psiquiatra dizia. Queria ficar boa e não queria recaídas. 10 meses depois, começamos a reduzir a medicação.

 

  • Psicoterapia e Shiatsu - ao fim de 6 meses com os antidepressivos, sentia que o meu organismo já se tinha reequilibrado. O sono, o apetite, as hormonas, a menstruação, todos esses processos fisiológicos estavam a entrar num ritmo “normal”. Mas a nível emocional, o coração pesava chumbo.

 

A recordação constante dos momentos vividos, a culpa por ter feito mal à minha bebé, por não tê-la tratado nos seus primeiros meses de vida com o amor e o carinho que ela merecia e o não encontrar ninguém que tivesse passado por semelhante e com quem pudesse falar, levou-me à psicoterapia e ao Shiatsu (massagem terapêutica). E aí tudo mudou! Tenho redescoberta a Ana e apaixonei-me pela minha filha! E, muito importante, tenho conseguido arrumar a minha experiência da depressão pós-parto sem que fiquem traumas. Para o que passou, fique mesmo lá atrás.

 

  • Rede de suporte - para mim é de longe uma das ajudas mais preciosas. Para me curar, tem sido preciso canalizar tempo e energia para descansar, alimentar-me bem, fazer exercício físico, ir às consultas ou às terapias, entre outras coisas. E, para isso, preciso de alguém que esteja para tudo o resto. A família, os amigos e, sobretudo, o meu marido têm sido o meu apoio. Sem eles, não conseguiria ter chegado onde estou hoje.

 

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E assim se tem feito o meu percurso de superação de algo que eu achava que nunca me aconteceria. Pensava que ter a minha filha nos braços e amá-la seria algo automático, natural, simples. Não foi. O nosso começo foi muito doloroso. Muito. Mas, hoje, eu, ela e o pai somos uma Família, feita de muito Amor.

Nasceram mais bebés em 2016! E mais apoio emocional...também houve?

De acordo com esta notícia nasceram mais bebés em 2016, e este crescimento tem sido progressivo desde 2014. 

 

É uma ótima notícia!

Precisamos que a taxa de natalidade aumente, precisamos que a base da pirâmide demográfica volte a ficar mais consistente, que cresça. Mas na minha opinião, também precisamos que determinadas condições acompanhem esse crescimento.

Podia fazer uma rubrica só "com aquilo que precisamos" enquanto pais, ou futuros pais, para que muitos pudessem sentir integrar as condições necessárias para ter mais filhos, sendo que até acredito que muitas famílias gostassem de os ter, mas que não privam com as condições que consideram ser as necessárias para poderem aumentar o respetivo núcleo familiar.

 

Mas para além de tudo "aquilo que precisamos" enquanto pais, quando vi esta notícia rápido me perguntei: E o apoio emocional durante a gravidez e no pós-parto, também aumentou? 

 

Claro que não é o foco central da notícia e muito menos a única coisa que os casais precisam para que a decisão de terem filhos seja muito mais facilitada, mas a verdade é que também é muito - mas mesmo muito - importante, como temos vindo a debater por aqui.

 

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Muitos casais quando pensam em ter filhos, e especialmente se forem pais pela primeira vez, poderão não ter de imediato a consciência da importância deste apoio emocional, mas não preciso de apresentar muitos mais argumentos que o demonstrem. Muitos acabam por ganhar esta consciência, e espero que caminhemos para que a ganhem através da sensibilização para o problema por algum profissional de saúde, familiar ou amigo, ao revés de a ganharem por passarem por situações mais complicadas como o desenvolvimento de um blues, ou de uma depressão pós-parto, por exemplo.

 

Portanto, que nasçam mais bebés, sim! Que nasçam muitos e cada vez mais! Que a curva da taxa de natalidade se eleve e que muitos casais possam concretizar o sonho de acolherem um filho em suas vidas. Mas acima de tudo, que nasçam mais profissionais sensibilizados para a saúde mental perinatal, que se criem mais projetos que fomentem o apoio emocional aos pais e futuros pais e respetivas famílias, que a curva da depressão pós-parto decresça, e que todos os casais e respetivas famílias que se confrontem com a realidade de problemas do foro da saúde mental na gravidez e no pós-parto, possam encontrar formas de acompanhamento mais eficazes e eficientes e que não incluam por si só e em exclusividade absoluta medidas farmacológicas associadas, ou pior, o silêncio dos que sofrem durante semanas, meses e anos, sem se pronunciarem por medos, dúvidas e vergonhas, ou por qualquer outro motivo que os iniba de se expressarem.

 

No fundo, que se valorize este aumento de bebés (sim!), que se atente na prevenção de problemas do foro da saúde física e mental (sim!), mas que se aposte em igualdade na sinalização, assim como no acompanhamento destes casos, não só a nível físico, mas a nível emocional também.