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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Resultados do Questionário: Serviços de apoio a pessoas com experiência de Blues, Depressão e Ansiedade Pós-Parto.

Há alguns dias responderam a um questionário que lancei intitulado de "Serviços de apoio especializado a pessoas com experiência de Blues, Depressão e Ansiedade Pós-Parto".
 
Em primeiro lugar, muito agradeço a quem dispensou um pouco do seu tempo para responder ao questionário, embora já tenha tido a oportunidade de o fazer de forma mais particular.
 
De qualquer forma, mesmo para os que gostavam de ter respondido mas não tiveram possibilidade, para os que não repararam, ou para qualquer outro leitor que possa ter interesse, aqui ficam os resultados principais do questionário.
Existem mais resultados para serem trabalhados - e que serão brevemente - mas atualmente trago-vos os gerais e quantitativos.
 
 
Foram 314 as respostas que foram contabilizadas.
 
  • Relativamente às pessoas que responderam ao questionário

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  • Em relação à experiência das 314 pessoas perante o Blues, Depressão e Ansiedade Pós-Parto, chamo a vossa atenção para o facto da quantidade de pessoas que afirma ter passado por um mau momento no pós-parto, adicionada às que afirmam ter passado por uma dessas experiências, ser sempre superior à das pessoas que afirmam que não, no total.  

experiência dpp.png

experiência app.png

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  • Apesar dos dados anteriores, a quantidade de pessoas que afirma ter pedido ajuda é muito pouca, e ao mesmo tempo, muito próxima das que referem ter pensado em pedir ajuda, mas que acabaram por não o fazer, como podem ver de seguida:

 

ajuda dpp e app.png

apoio bpp.png

 
  • As poucas pessoas que afirmaram, em ambas as situações, ter pedido ajuda (46 pessoas), referiram que pediram ajuda aos seguintes profissionais/nos seguintes locais:

 

a quem pediu ajuda.png

 


  • Contudo, a grande maioria das pessoas afirma que se tivesse acesso a um local onde houvesse, quer promoção do bem-estar emocional na gravidez e no pós-parto, quer acompanhamento especializado no caso de desenvolverem um Blues, Depressão e/ou Ansiedade no pós-parto, recorreria a este tipo de serviços:

 


se tivesse acesso acompanhamento.png

se tivesse acesso promoção bem estar emocional.p

 

No final, 74 pessoas deixaram comentários afetos ao tema, na sua grande maioria partilhando experiências menos positivas relativas à gravidez e ao pós-parto, e outras, incentivando o trabalho dentro deste âmbito. 
 
 
Com todos os dados que resultaram das vossas respostas espero ter-vos colocado a refletir sobre o tema, e aproveito para vos convidar a visitar o site do Projeto Mulher, Filha & Mãe, onde também irei publicar os resultados deste questionário brevemente, e caso queiram fazer alguma sugestão e/ou observação com vista ao estabelecimento de parcerias e/ou aperfeiçoamento do respetivo projeto, ou simplesmente para esclarecerem alguma questão, não hesitem em contactar-me! 
 
 
blog@mulherfilhamae.pt

"Há pequenos momentos em que só me apetece fugir"

E quantas vezes é que se começa a falar de forma mais aprofundada sobre o tema e esta opinião acaba por tornar-se um lugar comum?

 

Sim, comum:

Ser mãe.

Apetecer fugir. 

Sentir-se sem paciência.

Culpar-se por isso.

Sentir-se incompreendida.

Ser alvo de comentários sentidos como invasivos.

Sentir que se tem de ser capaz de fazer tudo.

Sentir que não há melhor sensação no mundo do que ser mãe, ao mesmo tempo.

 

Esta leitora descreveu-no na perfeição num comentário no blogue:

 

"Gritar não.. mas há pequenos momentos que só me apetece "fugir um pouco ".. sem paciência .. e culpo me por isso . E bastante difícil ser mãe e só compreende quem é... mas também não há melhor sensação do mundo do que o nosso filho  e concordo com alguns comentários aqui a sociedade está muito centrada no que a mãe tem que ser capaz , nós temos que ser capazes de tudo , tanto que chega um pouco de nós enlouquecer .. eu sinto bastante isso temos que ser mães ser donas de casa e esposas .. basta errar uma vez somos alvos de comentários .. não é fácil ..."

 

 

Não é preciso ter um diagnóstico de Depressão Pós-Parto, para alguém se sentir assim.

Também não significa que todas as mulheres se sintam assim.

Mas a verdade, é que muitas se sentem.  

 

E então? 

 

blog@mulherfilhamae.pt

Conseguem dizer que alguém tem uma depressão pós-parto pela sua expressão?

A fundadora da PostPartumProgress.org - Katherine Stone - pediu à comunidade que a segue e que já passou por algum problema relacionado com a saúde mental perinatal para que partilhassem fotos relativas ao período em que foram diagnosticadas e que combatiam algum problema do mesmo âmbito. Ao partilharem a foto tinham de preencher os espaços em branco da seguinte frase: 

 

"Quando esta foto foi tirada eu estava a sofrer de ___________________. Não consegues aperceber-te pela foto, mas eu senti/estava a passar por______________________."

 

Uma iniciativa extremamente interessante e que apelou à partilha de uma série de mulheres que ao mostrarem as várias fotos e ao preencherem a respetiva frase, mostraram como é contraindicado avaliar a presente problemática de forma parca, superficial e ligeira, olhando simplesmente para alguém. É muito mais para além disso, sendo que o sofrimento vai muito mais para além do que o nosso olhar (muitas vezes) consegue alcançar. 

 

Ganhem alguns minutos do vosso dia e vejam algumas dessas fotos aqui. De certo que vão ficar surpreendidos! 

 

 

Da minha parte, dou também o meu contributo! E vocês, querem dar o vosso? 

blog@mulherfilhamae.pt

 

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Quando esta foto foi tirada eu estava a sofrer de um forte baby blues. Não consegues aperceber-te pela foto, mas eu sentia um grande vazio e só me apetecia estar isolada. Minutos antes de tirar esta fotografia a Madalena estava a dormir, e a mim, só me apetecia chorar.

Sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto #11

Segundo Bowlby (1969), a relação de vinculação entre a mãe e a criança orienta todas as relações futuras da criança e portanto, influencia o seu desenvolvimento social e cognitivo. Entre as características principais das relações de vinculação seguras, a harmonia e a sincronia afectiva entre a mãe e a criança podem favorecer o desenvolvimento de estilos particulares de comunicação por parte da criança. Por outro lado, as crianças identificadas como tendo uma relação de vinculação segura exploram mais activamente o ambiente, um facto que pode potencialmente implicar diferenças no modo de comunicar. 

 

 

 

Veríssimo, M., Blicharsky, T., Strayer, F. & Santos, A. (1995). Vinculação e estilos de comunicação da criança. Análise Psicológica 1-2 (XIII), p. 145-155.

"Fiquei em pânico, tenho um bebé em casa e não sei o que fazer!"

Há poucos dias, uma leitora partilhou uma reflexão comigo onda constava a frase que coloquei no titulo. E a questão que vos coloco depois de conversar com ela, é: Quantos de nós, pais, já não sentimos isto? 

 

A parentalidade não é uma condição fácil, simples, padronizada ou estanque, com a qual se viva confortavelmente, sem grandes ondas ou desafios. Muito pelo contrário! 

Ser pai e ser mãe é um desafio constante, veloz, profundo e que não pára só porque nos damos conta que, de facto, em determinadas situações não sabemos mesmo o que fazer. Não sabemos - mesmo! - como agir. 

 

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Ficar em "pânico", com um bebé em casa, e sentir que não se sabe o que fazer, não é, de todo, um lugar incomum! 

 

A questão é que:

  • Quando estamos em pânico e não sabemos o que fazer, raramente este tipo de reflexão nos incorre de imediato! 
  • Ter um bebé e cuidar do mesmo, especialmente pela primeira vez, pode mesmo ser assustador e desorganizador para alguns pais.
  • Quando nos sentimos em pânico, respirar fundo e acreditar no nosso instinto parental, funciona. Contudo, pedir ajuda, por vezes, também poderá ser o melhor caminho. 
  • Quando estamos em pânico e sentimos que não temos ajuda, dar-mos o melhor de nós, é sem dúvida o melhor remédio.

 

Dizem que existe um instinto maternal e paternal que devemos seguir, e eu acredito. Acredito que acima de qualquer opinião alheia, certificada academicamente e/ou simplesmente de confiança, não há ninguém que saiba o que é melhor para a sua cria, do que os próprios pais. Mesmo nos momentos de pânico. Porque eles existem, e continuarão assim - a existir - desde a gravidez até aos dias de hoje, e inerentemente a todos os que futuramente virão. 

 

Os momentos de pânico são momentos de crise, que mesmo de curta, média ou longa duração, como momentos de crise que são, constituem-se fortes catalisadores de mudança. E é muitas vezes nesses mesmos momentos de crise, em que pensamos não saber como agir, que aprendemos com a forma como agimos. Querendo ou não, com um bebé nos braços, em casa e em família, considero que praticamente todos os momentos gritam por si só uma atitude da nossa parte. E há pais que se sentem mais preparados, há pais que o estão efetivamente, e outros que se sentem mais inseguros em determinadas situações. E quando o estão, como costumam agir? Por instinto? Depois da resposta a um pedido de ajuda? Ou nem sequer refletem sobre o assunto?

 

Na prática, aquilo que considero ser verdade é que nós, pais, vamos ter dúvidas todos os dias!

E há dias em que vamos estar mais confiantes. E outros em que vamos estar mais inseguros. 

E depois de tudo isto, acredito que mesmo aqueles pais que já tenham vários filhos ou filhos mais velhos, ao final de tantos anos continuam, muitas vezes com dúvidas, e por vezes, sem saberem como agir.

 

Sentir que não se sabe como agir, não me parece ser o problema. Não refletir sobre isso, não questionar, não aprender com os erros, não querer saber e/ou nem sequer procurar a melhor forma de atuar, é que me parece não ser o mais adequado nesta, ou em qualquer outra situação. Envolva filhos, ou não. 

 

Corrijam-me se eu estiver errada, mas haverá aqui alguém que já nasceu ensinado? 

Eu, não!

Vem aí a Semana do Bebé dos Olivais...e há novidades!

Caros leitores,

 

Brevemente irá começar a semana do bebé dos Olivais. Uma semana que já é dinamizada pela Junta de Freguesia dos Olivais há já alguns anos e que conta com o apoio de vários parceiros.

 

Ocorrerá de 14 a 22 de Maio no espaço interior e jardim da biblioteca dos Olivais, e contará com a presença de uma série de profissionais de várias áreas para completarem uma semana dedicada à mãe e ao bebé.

 

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Uma das grandes novidades desta semana, será a presença de parte da equipa da Unidade de Primeira Infância (UPI) do Hospital D. Estefânia dia 19 de Maio (5ª feira) pelas 10h00. 

 

Para mim, esta é uma grande novidade, pois promove-se um momento na semana em que profissionais muito experientes e competentes na área, dedicarão o seu tempo a falar com e a ouvir as recém-mamãs. Estarão disponíveis para ouvir várias das suas questões em relação a si próprias, ao seu dia-a-dia consigo e com o seu bebé. Será, sem dúvida alguma, um momento imperdível para vocês que estão ai por casa a viver os primeiros dias, semanas e/ou meses mais agitados que caracterizam o inicio do período da maternidade, após o parto.

 

 

Por isso, desafio-vos a ir e a passarem a mensagem às vossas amigas e/ou a quem considerem que possa ter interesse neste momento do evento.

 

Até lá, qualquer dúvida ou questão não hesitem em contactar-me!

blog@mulherfilhamae.pt 

Depressão Pós-Parto ou Depressão Perinatal?

Qual dos conceitos melhor traduz a depressão nesta fase da vida da mulher?

 

Dizer 'Pós-Parto' ou 'Perinatal', reporta-nos para períodos diferentes. Tal como o nome indica, 'Pós-Parto' reporta-nos para o momento a seguir ao parto e 'Perinatal' remete-nos para o momento desde a conceção até ao primeiro ano do bebé.

 

 

Classificar a Depressão como Depressão Pós-Parto, acaba por ser o conceito maioritariamente falado e escrito, contudo acaba também por ser mais limitativo do ponto de vista do desenvolvimento da doença, chegando até, a alimentar o mito de que "a Depressão só acontece depois do parto". O que não é verdade. 

 

A Depressão pode ocorrer em qualquer fase da vida, mas a Depressão que tem como foco subjacente as alterações biopsicossociais decorrentes da conceção até ao primeiro ano do bebé, é aquela que se denomina como Depressão Perinatal. 

Como referi neste texto, dado que quando se começou a investigar mais profundamente sobre o tema se incidiu maioritariamente no pós-parto, devido às consequências nefastas que se começaram a atentar mais na época como o suicídio da mãe e/ou o infanticídio, a depressão começou a ser denominada frequentemente como "Depressão Pós-Parto". Não é que esteja errada, no entanto, dizer Depressão Perinatal tendo em conta a sua caracterização, não só é mais correto, como também desmistifica por si só o período provável de ocorrência da respetiva patologia. 

 

Na DSM IV e na CID - 10 - dois livros que identificam vários critérios de diagnóstico para as doenças do foro mental - a depressão e outras patologias que ocorrem no mesmo período aparecem sempre indicadas como no "pós-parto", o que também a nível médico pouco tem contribuído para a clarificação destes conceitos. 

No entanto, sendo a Psiquiatria Perinatal uma área em constante desenvolvimento e que tem ganho uma visibilidade cada vez maior, é provável que a clarificação deste e de outros conceitos, vá sendo cada vez mais preconizada e concretizada.

 

Aqui no blog utilizo muitas vezes o termo Depressão Pós-Parto, uma vez que, sendo o mais conhecido dos dois acaba por mais facilmente chamar à atenção de quem lê os artigos sobre o tema. Contudo, muitas vezes já tenho utilizado o termo Depressão Perinatal para o ir começando a tornar familiar também.

 

E vocês, já alguma vez se tinham questionado sobre esta questão?

 

Entrevistaram-nos para o Jornal da SIC.

E fica desde já, aqui, ali e acolá, o meu gigantesco agradecimento à Jornalista Catarina por ter agarrado neste tema, e nos ter dado a oportunidade de o difundir, promovendo assim, uma maior preparação para tantas pessoas, que, tal como eu e muitas outras mulheres [e homens] foram "na onda do alheio floreado e pura ingenuidade, e se deixaram apanhar na curva desta dura e muito intima veracidade" - O Babyblues. 

 

Querem ver?

 

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Maternidade? Nem tudo são rosas!

Estava sentada no cadeirão cinzento quando tudo, efetivamente, começou.

Eram 21h00 do dia 31 de Dezembro, e tinha acabado de chegar a casa após duas belas noites na maternidade.

E lá estava eu, com a minha pequena nos meus braços. 

Ela a dormir, suspirava. E eu, pensativa, de repente, me consciencializava profundamente, do que poderia significar toda esta nova corrente de vida. Toda esta nova vertente do sentir.

Sem perceber bem como ou porquê, subitamente começo a aperceber-me da abertura de uma agressiva cratera num local, por mim, fisicamente desconhecido, mas emocionalmente, bastante sentido: o mais intimo de mim.

Seria nostalgia do momento? Seria medo? Cansaço? Fadiga? Dor? Não!

Comecei aperceber-me que angustia, vazio e tristeza, eram as palavras que melhor se encaixavam.

Mas porquê? Porquê?

Porquê, se agora, finalmente me sentia mais completa do que nunca!

Porquê, se agora sim!

Porquê, se agora sentia que tinha nos meus braços a fonte da minha realização enquanto mulher, a fonte do meu mais profundo desejo de ser, a fonte de metade do que eu sou conjugada com a minha, tão amada, cara-metade.

Porquê? Foi a pergunta que mais me quebrou durante quatro intensas semanas.

Semanas essas, que me assolaram de fraqueza, irritação, fragilidade, tristeza, constante angustia, necessidade de isolamento frequente e desvios constantes da minha mente. Mente essa, que preferia vaguear por entre os meus constantes e perturbadores pensamentos acerca do meu passado, do que, pela minha mais intima presente vontade de viver o meu amor incondicional, fomentando assim, a nossa cumplicidade, a nossa vinculação.

Não lhe virei as costas, mas muitas vezes fiquei parada a olhar p'ra ela, ali, pura e serena, colocando frequentemente em dúvida a minha capacidade de ser quem a cuida. De ser quem a protege. Embora nunca, a de ser quem incondicionalmente a ama. 

Culpa? Muita a senti! Muita me percorreu, pois sem compreender o que se passava ou o que aconteceu para chegar até ali, muito me culpava, dado que o desejo de a ter, antes d'ela existir, ultrapassava o tamanho do céu. 

Numa palavra? Assolador!

Sim, é verdade!

E perdoem-me, a quem futuramente poderá vir a viver a maternidade, mas este meu testemunho, não mostra mais nada, do que a crua realidade, de quem foi na onda do alheio floreado e pura ingenuidade, e se deixou apanhar na curva desta dura e muito intima veracidade.

Agradeço, sinceramente, a quem teve a coragem de enfrentar os seus fantasmas do passado e de me ajudar a identificar os meus do presente. Conseguem imaginar a importância que isto tem na vida de alguém?

 

Há quem chame isto de babyblues, há quem o denomine por melancolia ou tristeza pós-parto.

Tenha o nome que tiver, sabem o que mais me revoltou quando tudo isto passou? 

O facto de não haver em pleno século XXI, informação adequada, profissionais devidamente informados e interessados sobre esta temática e acima de tudo, a existência de uma geral aceitação da situação como se de algo normal se tratasse, e pelo qual, quase que, necessariamente todas as mulheres têm de passar depois de parirem, por parte de uma sociedade supostamente evoluída. 

Aceito que me digam que é naturalmente decorrente de uma gestação.

Não aceito que me façam engolir a normalidade de uma situação que altera por completo o íntimo, pessoal e social de uma vida comum, quando, em pleno século XXI o que não falta são ciências humanas e sociais investigadas, estudadas, aprendidas e repetidamente, praticadas.

 

Maternidade? Nem tudo são rosas!

Mas como diria alguém que conheço:

 

"É a dor proveniente dos espinhos, que nos faz saber dar valor ao brilho e aroma dessa mesma flor"

 

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Rolar, Sentar, Rastejar, Gatinhar, e finalmente, Andar.

"O meu filho não rolou nem gatinhou, começou logo a andar"

 

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Eis uma frase que me pôs a pensar bastante, após uma longa conversa com algumas amigas.

Será que não existe nenhum problema em começar logo a andar sem gatinhar primeiro? Será, tal comportamento, tão demonstrativo das grandes capacidades de uma criança? Ou, na prática, teremos sido inconscientes cúmplices de uma falha no longo percurso do desenvolvimento normal dessa mesma criança?

 

Aproveitei todas estas questões para pesquisar e aprofundar os meus conhecimentos e também para conversar com quem sabe um pouco mais sobre esta temática. No final, consegui sacar uma boa tarde de trabalho e aprendizagem com a inicial aprendiz, e hoje, minha formadora, de que vos falei aqui.

 

De acordo com a mesma, parece que a ordem normal do desenvolvimento de um ser racional de quatro membros é:

 

1º - Rolar

2º - Sentar

3º - Rastejar

4º - Gatinhar

5º - Andar

 

E que não convém passar "por cima" de qualquer uma das fases. Contudo, haverá algum problema em passar alguma delas? E se sim, onde, como e porquê?

 

Ela é, (quase quase quase) licenciada em terapia ocupacional, há anos, formada em terapia da Alma, recentemente tia, há muito, estudante e desde que nasceu, gira (e um pouco resmungona também) bastante interessada pela área do desenvolvimento da criança, tendo desenvolvido já vários tipos de trabalhos académicos dentro do mesmo tema. Hoje, finalmente, veio aqui responder-nos a esta questão. 

 

O que acham? Fico a aguardar a vossa opinião no final! 

 

(Sim, é verdade! O texto é um pouco extenso, mas sem dúvida alguma, que vale a pena ler!)

 

Quando os pais se vêem com um bebé recém-nascido, uma das coisas que ouvem dizer desde cedo (aproximadamente desde os 2 meses) é que se deve colocar o bebé de barriga para baixo. Esta posição torna-se fundamental pois promove o desenvolvimento da musculatura no pescoço, braços e pernas, necessária para permitir a passagem do bebé por fases importantes do seu desenvolvimento normal como o rolar, sentar, rastejar, gatinhar e andar.

O rolar é a primeira fase do bebé que está relacionado com o desenvolvimento do controlo postural e que será relevante para todas as fases que se seguem, como por exemplo, a função da escrita, que ocorre alguns anos mais tarde. É também importante uma vez que o cérebro do bebé começa a ganhar a sensação da existência de dois lados (esquerdo e direito) e de como funciona a coordenação entre ambos.

Depois de rolar o bebé começa a assumir a posição de sentado. Claro! É muito mais interessante ter uma visão nitidamente mais ampla do "Mundo" ao seu redor, nestes primeiros meses, nesta posição. É também, uma posição muito mais proactiva para tocar, brincar e interagir. Entre os 3-5 meses o bebé não consegue sentar-se sozinho, no entanto, começa a desenvolver as estruturas necessárias para construir uma base de suporte, necessária para o mesmo.

Depois da postura de sentado estar adquirida autonomamente e de o bebé conseguir brincar junto ao tronco (a chamada linha média) começa a ser-lhe interessante chegar aos brinquedos que estão mais longe, nomeadamente ao seu lado! Assim, a dissociação dos movimentos do tronco superior (ombros e peito) dos do tronco inferior (anca) começa a ser muito maior, permitindo ao bebé chegar a muitos mais brinquedos. Nesta idade, como já consegue colocar-se de barriga para baixo sozinho, o chegar a brinquedos que estão mais longe começa a ser um desafio. Isto torna-se possível pela extensão dos braços (que posteriormente começa a não ser suficiente). Aí surge o rastejar, uma etapa que permite a continuação do desenvolvimento da dissociação de movimentos entre tronco superior e tronco inferior, desenvolvendo a força muscular nos braços e pernas, e permitindo uma maior movimentação por parte destes bebés!

Quando os brinquedos começam a ficar realmente longe e o rastejar já se torna "chato e cansativo" torna-se fisiológicamente necessário o desenvolvimento de uma maior estabilidade, força e coordenação entre cabeça, tronco e membros, começando assim a fase do gatinhar. Esta fase é importante porque desenvolve o controlo postural, equilíbrio, locomoção, coordenação e manipulação de várias partes do corpo. 

Apesar de ainda parecer uma etapa longínqua, os possíveis futuros problemas escolares, começam exatamente nesta etapa.

Estas duas últimas etapas (rastejar e gatinhar) também são de extrema importância para a ativação dos dois hemisférios cerebrais, promovendo, por exemplo, a dissociação do movimento dos olhos, do movimento da cabeça, facilitando a aprendizagem e desenvolvimento da escrita, anos mais tarde.

Depois de gatinhar e chegar aos móveis, sofás, cadeiras entre outros, e uma vez que a força muscular dos braços está muito mais desenvolvida, começa o apoio para a posição de pé. Apresar de não dar de imediato os primeiros passos, começa a adquirir força, equilibrio e coordenação nesta mesma posição e posteriormente sente-se mais confortável para repetir estes movimentos e começar então, a andar.

Para que todas estas fases aconteçam existem dois sistemas que são de extrema importância! Se não forem desenvolvidos corretamente, mais tarde, principalmente, numa idade escolar (5-7 anos) começam a surgir problemas como escrever da direita para a esquerda, escrita em espelho, escrita das letras ao contrário, letras que se sobrepõem, falta de noção espacial durante a escrita, não conseguir ler, entre outros. Estes sistemas são denominados por sistema vestibular e propriocetivo.

Finalmente, gostaria só de fazer uma ressalva: Apesar da importância da passagem por todas as fases descritas, é também fundamental recordar que o "saltar" uma destas fases do desenvolvimento não significa necessariamente que o bebé venha a desenvolver um problema futuro. No entanto, se encararmos estas fases do desenvolvimento como etapas de desenvolvimento do cérebro do bebé, conseguimos perceber que, quando não atingidos estes marcos, fica a existência de uma lacuna no seu desenvolvimento que terá de ser colmatada numa fase mais avançada e, talvez, com uma maior dificuldade.

 

 

Ficaram esclarecidos?