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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

À conversa com a Ana #10 - "A Depressão Pós-Parto colocou tudo em perspectiva e agora sinto que saio sempre a ganhar".

A semana passada a minha filha fez 2 anos. Quanto caminho foi percorrido durante este tempo! O que começou de forma dolorosa e sofrida transformou-se numa relação de um amor puro, único e incondicional.

 

No início da nossa relação predominava o medo, a irritação, a tristeza e a incapacidade de aceitação. Estas emoções foram sendo trabalhadas, sobretudo através do Shiatsu e da psicoterapia e, ao longo dos meses que se foram seguindo, elas foram diminuindo a sua intensidade e frequência. Fui ganhando consciência dessas emoções e do que significavam, e fui ganhando também ferramentas para lidar com elas. E à medida que diminuíam, aumentava a minha capacidade de aceitação, a tolerância e paciência, a alegria. Hoje sou completamente apaixonada pela minha filha.

 

A DPP colocou tudo em perspetiva e, agora, sinto que “saio sempre a ganhar”: o pior dia/momento de hoje não é nada face ao que foi vivido nos 2 primeiros meses. Acho que, por isso, acabo por saborear imensamente o meu papel de mãe e, na verdade, a vida no geral. Como eu digo, por vezes, “a maternidade agora é como andar num carrossel”.

 

Nestes últimos 2 anos tanta coisa mudou, para melhor, na minha vida. Não só a minha relação com a C., como também a relação com o meu marido, com a família e, sobretudo, a minha forma de pensar, estar e sentir.

 

O que desejo a todas as mães (e as suas famílias) que estejam a passar por semelhante, é que encontrem as ajudas certas para vocês, para que consigam enfrentar o problema e usufruir dos vossos filhos, e da vossa vida, de uma forma plena e apaixonada.

 

E já agora eu sou a Ana, esta Ana. Achei que era altura de mostrar quem sou, para que às minhas palavras possam juntar a minha cara. Para que o tabu, a vergonha, o medo possam, de alguma forma, dar lugar à compreensão, à aceitação e ao diálogo aberto sobre o baby blues, a depressão pré e pós parto, a perturbação de ansiedade ou a psicose.

 

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Á conversa com a Laura #3 - "A felicidade de se ser autêntica. E como a maternidade rima com autenticidade."

Um dia eu escrevi que, para mim, ser mãe é andar num monociclo à beira de um precipício e depois descobrir que afinal temos asas. E continuo a sentir isso em todos os momentos da minha ainda jovem maternidade: nos bons, nos muito bons, nos ruins, nos que apenas passam, nos maravilhosos... Em todos. Mesmo.

 

Vou vos contar um pouco da minha história. Sem filtros. Autêntica: quando a minha filha nasceu, naquela belíssima meia noite e um quarto de 13 de Fevereiro, não nasceu mãe nenhuma em mim. Eu detestei ser mãe quando a minha filha nasceu; eu só queria a minha vida "pré mãe": as noites de amor escaldante e carinhoso entre mim e o meu marido - que na altura eu chamava de namorado hehehe - ir jantar fora e depois ir beber copos até de madrugada e ficar a dormir até já não "caber na cama", o brunch numa esplanada solarenga e um mergulho na praia ou um cineminha romântico a dois... Só sei que de repente, a curvilínea e sensual Laura era do tamanho da baleia azul e tinha a graciosidade de um frigorífico combi que tinha a maravilhosa modalidade de servir leite quente de cada peito a uma bebé permanentemente ávida de atenção mas que eu grávida tinha imaginado permanentemente sossegadinha na sua alcofinha macia, o meu amante charmoso transformou-se numa insuportável criatura que me dizia sem parar para eu ter calma - que bom que era termos um interruptor do stresse instalado no nosso corpo!! - e os amigos íntimos e familiares queridos, atenciosos e preocupados tornaram-se numa miragem longínqua a partir desse dia.

 

 

Se houve algo que eu odiei das profundezas das minhas entranhas foi o início da minha maternidade e da nossa vida familiar: era para mim apenas um gigante cenário grotesco de uma mulher e de um homem ambos monstruosos e deformados sempre em guerra e a braços com uma bebé feita de nitroglicerina que eu tinha de estar sempre a pensar como desarmadilhar, numa casa caótica onde não existia mais comida nem banho nem descanso, por isso, sim, eu nesta altura e até cerca dos 4 meses da minha filha, estava sempre a tentar equilibrar-me no tal monociclo à beira do precipício... e caí. Caí numa depressão gigantesca e foi-me apresentada pela vida a mais dura e chorada forma de autenticidade: o ter de olhar para mim mesma sem máscaras nem fugas, num aqui e agora sem paninhos quentes, que só nos conduz a duas portas. A porta da existência em piloto automático e a porta do viver de verdade e na verdade. 


Eu escolhi a segunda porta que é por sua vez a mais dolorosa de abrir, aquela por onde passar nela nos rasga a pele e onde a luz que entra por ela nos queima os olhos, mas a que me levou ao caminho de eu ser adequadamente tratada e de conseguir uma rede de apoio com profissionais qualificados e especializados - psicóloga, psiquiatras, terapeutas de bebés, naturopata, Doula pós parto e outras terapeutas de vida - o maravilhoso Kundalini Yoga e meditação, que me fizeram finalmente perceber que afinal eu sempre tive, tenho e terei umas enormes, fortes e maravilhosas asas que me elevam a mim, ao meu amado marido e a minha filha e nos protegem a todos como família. E tanto o meu marido como a minha filha são também dotados dessas asas que os elevam e que me elevam e me protegem tantas vezes e que sabem tão bem! Noutros dias... As asas andam cansadas e fazem greve cá em casa e lá volto eu, o meu amado marido (para mim o melhor pai do universo e arredores!), aos equilibrismos no monociclo à beira do precipício onde a única diferença de há uns meses atrás é que já não caímos: já estamos treinados pelos melhores professores que foram esta rede de apoio e claro, a parentalidade! Esta nossa experiência e a nossa sabedoria entretanto despertada por todo este processo vivido na autenticidade.

 

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Mas o que é isto da autenticidade?

 

Para mim, é aceitarmos e nos responsabilizarmos por quem somos e o que somos, bem como a vida que temos, mas não nos conformarmos que somos "apenas" isso e que a vida não é um rascunho de um livro que nunca será editado. Nós e a vida somos aqui e agora, com as nossas virtudes, forças, frustrações e medos, sem necessidade de máscaras ou armaduras do nosso "modo sobrevivência", pois a vida só é vida, só é vivência em pleno na autenticidade.

 

Por isso na minha opinião, a maternidade só é bem vivida na autenticidade. Sem floreados nem fantasias mágicas, sem bruxas más nem monstros. Apenas sendo como ela é: feminina e flutuante, furiosa e terna, quente e fria, doce e amarga, emocional e potente, empoderadora e infinita... Autêntica. Não dá para fugir da maternidade! E então ela nos transforma, colocando a nossa essência à vista, iluminada e poderosa.

 

E foi através desta autenticidade que desde os 5 meses da minha filha, eu descobri o que é amor incondicional, o que é amor autêntico, por ela, pelo pai dela e por mim. E sim, pela minha filha é simplesmente um amor que de tão infinito que é, dói tanto quando transborda neste corpo humano finito mas cuja alma, também tão infinita, rejubila e que mesmo nos momentos mais complicados, agradece, aceita, se transforma e evolui. 
E é este amor tão autêntico por mim e por nós que me transformou na mulher e na mãe autêntica que eu agora sou. Sem filtros. Uns momentos tão carinhosa e calma e noutros tão feroz e brava, mas sempre de bem comigo mesma.

 

Obrigada maternidade por me teres feito rimar com autenticidade! 

Á conversa com a Laura #2 - Olá tristeza! Olá revolta! Olá cólera! Olá solidão... Vamos conversar?

Após a minha filha nascer, ainda no internamento na maternidade, eu sentia um turbilhão de emoções desconhecidas da Laura. Eu pensava (ou idealizava) ser por isso que eu não entendia nada do que se estava a passar comigo, no meu coração e na minha mente, que eu até então pensava conhecer perfeitamente e profundamente após quase cinco anos de psicoterapia psicodinâmica. Parecia que eu apenas existia através de um corpo físico, de uns olhos, de um cérebro e de uma vida que não eram a Laura que eu pensava (ou queria) ser, e por isso, eu contrariei o mais que pude até quebrar psicologicamente, todas - TODAS - as sensações e emoções que eu considerei menos positivas e não condizentes com a tal Laura sempre feliz, alegre, lindíssima, forte, extraordinária, ativa, inteligente, pioneira, presente, expansiva, livre, descontraída, assertiva, organizada, saudável e extremamente perfeita que eu pensava e queria muito na altura ser. Rejeitei a minha profunda tristeza por ter tido o parto que eu não queria para nós os três; relevei a minha imensa revolta por não ter a rede de apoio familiar e de amigos que eu achava que devíamos ter; escondi a minha intensa cólera por não estar a compreender nem a lidar de forma positiva com a nossa bebé nem com a minha maternidade e a parentalidade no geral; ignorei a minha dorida solidão que eu sentia em todos os meus átomos e em toda a minha alma apesar de pensar intermitentemente "Laura tu tens aqui a tua tão desejada filha e o teu amado marido junto a ti!".
 
Enfim... eu não me permiti um único segundo a ser eu mesma com tudo o que eu sentia naquele momento e que eu "não sabia" que era (e continua a ser) de meu direito. De nosso pleno direito! Das mães e dos pais. E até dos avós ou da família toda!
 
E o resultado de eu não escutar todos estes sentimentos, no meu ponto de vista, não foi positivo nem saudável: resultou numa depressão pós parto muito acentuada e profunda com ansiedade generalizada e um esgotamento nervoso.
 
Por isso, considero que é essencial permitir-mo-nos a nós mesmas, sermos sempre autênticas connosco e com o mundo. Isto não quer dizer que quando aborrecidas, comecemos a disparar pedras em todas as direções ou a isolar-mo-nos entre os lençóis da nossa cama dias ou meses a fio em depressão, não. Isto quer dizer que quando as nossas emoções e sensações surgem, sejam elas quais forem e seja de forma lenta ou abrupta e de repente, devemos olhar para elas sem filtros nem julgamentos e escutar o que as mesmas nos dizem, porque todas as emoções e sensações - TODAS - trazem informação e revelações preciosas para o nosso próprio entendimento e auto conhecimento, bem como o entendimento e o conhecimento do outro e do mundo e isso traz-nos aceitação, compreensão, desenvolvimento, crescimento, gratidão e evolução. E isto não é concordar com tudo o que nos acontece, isto é, apesar de muitas vezes não concordarmos ou não nos fazer sentido, aceitar que é este o sentimento e é necessário senti-lo mesmo, canalizar a sua energia e transformá-la em algo saudável. Isto é "apenas" trazer uma imensa empatia, tolerância, respeito e amor connosco mesmas e com os outros! É preciso abraçar as nossas dores com carinho, reflexão e consciência para as canalizarmos e as transformar em atitudes positivas, saudáveis, firmes, carinhosas, amorosas e pacíficas para nós mesmas e para os demais.
 
E quando não se consegue fazer isto naturalmente e espontaneamente, é necessário solicitar ajuda especializada. Solicitar ajuda é a mais corajosa forma de escutar as nossas dores, quaisquer que estas sejam.
 

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E depois... depois é treinar e praticar com determinação o diálogo com estas energias vindas de toda as nossas emoções e sensações, canalizá-las de forma consciente e assistir à sua transformação em um bem estar nas nossas vidas e nas dos que nós amamos e certamente, um dia, também na vida da humanidade, de uma forma fluida, tranquila e prazerosa.

Á conversa com a Ana #9 - "Após a redução da medicação... corpo, mente e coração tranquilos"

Em Abril passado fui a mais uma consulta com a psiquiatra e concordamos em reduzir a dosagem do comprimido que tomo todos os dias religiosamente. A médica avisou-me de que, dentro de 2 meses, poderiam manifestar-se sintomas semelhantes aos que senti no início da depressão, bem antes do começo do tratamento. Ou seja, insónias, cansaço extremo, irritabilidade, descontrolo emocional, fome emocional, só para falar dos mais evidentes.

 

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Em Agosto passado quando deixei de tomar um dos comprimidos, passei duas semanas em plena ressaca. Foi horrível, mas passou. O corpo reajustou-se, encontrou um novo equilíbrio. Por isso, desta vez, não me preocupei. O que vier virá, pensei eu.

 

E, dois meses depois, a ressaca chegou. Um dia estou bem, para no dia a seguir, e durante uma semana, o corpo viver sob uma tensão física e emocional enorme. Parece que o corpo está no limite. Dores de cabeça, náuseas, dores musculares, variações muito grandes no apetite, sono mais leve, com muitos sonhos, intensos, acordando com a sensação de que não descansei o devido, facilidade em comover-me, ficar sentida e com a lágrima do canto do olho e uma sensação constante de cansaço e falta de energia. Estive em modo de sobrevivência, conseguindo apenas fazer o mínimo, o essencial, o indispensável.

 

Conseguia apenas ir trabalhar, cuidar da C., jantar e atirar-me para cima da cama. E já isto foi feito com muito esforço. Sentia que só me apetecia ficar encolhida na cama. Cada ação que realizava parecia que consumia todas as minhas energias. O que me ajudou foi saber que iria passar. Que era apenas o corpo em privação e que, daí a algum tempo, ele iria encontrar uma nova normalidade.

 

Agarrava-me a esse pensamento sempre que sentia que estava no limite, sempre que me sentia miserável, com todo o meu corpo a reagir violentamente à redução.

 

Houve um dia, o mais duro, em que a tensão atingiu o limite máximo. Nesse dia nem sequer consegui cuidar da C. Às 18h00 fui para a cama, exausta, nauseada, a tremer. Encolhi-me e ali fiquei. Pensei que iria passar, para aguentar só mais um bocadinho.

Nessa noite dormimos todos mal, incluindo a C. No dia seguinte acordei, sentia-me cansada por ter dormido mal, mas a tensão que o meu corpo vinha a sentir desapareceu. Já não sentia mais nada. A tempestade foi-se formando durante dias, atingiu o ponto máximo para, de seguida, desaparecer. Nesse dia deitei-me cedo, logo a seguir à C. E no outro dia estava tudo bem, tudo normal. O corpo, uma vez mais, encontrou um novo equilíbrio. Corpo, mente e coração tranquilos.

 

Caramba, a medicação mexe com o corpo cá de uma maneira! E eu, sempre tão avessa a medicamentos, há quase dois anos que eles fazem parte de mim. Quando iniciei o tratamento tomava 3 medicamentos diferentes. Hoje tomo 1 e, mesmo este, já é em menor dosagem. Durante esta redução progressiva da medicação, e os sintomas de privação, o meu amparo tem sido a minha querida psicóloga e a minha terapeuta de Shiatsu. A minha gratidão para as duas!

 

Joana Nogueira: uma jovem artista que está a sensibilizar para a depressão pós-parto!

A Joana, estudante do Mestrado de Design da Imagem da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, encontra-se na fase na realização do seu projeto de investigação e contactou-me há já alguns meses para saber se seria possível colaborar na realização do seu projeto com alguma orientação quanto ao tema que queria trabalhar. Quando me contactou referiu que no que concerne à depressão pós-parto "O que pretendo é desestigmatizar esta problemática através de estratégias visuais, alertando e consciencializando a sociedade para a sua seriedade e gravidade" (sic), o que me deixou desde logo muito atenta à sua proposta. 

 

Quanto à colaboração, é óbvio que não hesitei, pois através da sua abordagem, do trabalho que já tem vindo a desenvolver (e que podem consultar aqui) e do grande interesse manifestado, ficou claro para mim que este trabalho mútuo só poderia integrar mais um forte contributo para a área a vários níveis. E não me enganei! 

 

Ao longo dos últimos meses, muito tem sido o esforço da Joana, ao qual tenho assistido, para tentar compreender alguns conceitos clínicos (o que para quem não é da área é muito difícil...) para os conseguir integrar na esfera da depressão pós-parto, e acima de tudo, no mundo das mulheres que por ela passam, na tentativa de o representar através do seus trabalhos de design de imagem e de vídeo. 

 

Os trabalhos que precisa de realizar ainda não estão todos terminados, mas já tenho tido a oportunidade de ver alguns, fruto da sua pesquisa e estudo sobre o tema, da leitura de alguns testemunhos que se encontram na rubrica Histórias que dão a cara por esta causa, de algum diálogo que vamos mantendo, e acima de tudo, da sua grande motivação e esforço para representar esta problemática da forma mais adequada e profissional possível. 

 

Um grande bem-haja à Joana! 

 

De seguida, mostro-vos um dos primeiros trabalhos de imagem que partilhou comigo, onde representou algumas das manifestações da depressão pós-parto, baseado na leitura de alguns testemunhos de mulheres que partilham pedaços das suas vivências neste período, na rubrica Histórias que dão a cara por esta causa:

 

 

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Atualmente, a Joana precisa da colaboração de uma senhora, preferencialmente da região do Porto, que já tenha passado por esta experiência e que queira contribuir também com a sua história para o desenvolvimento do seu trabalho de investigação. O seu anonimato será totalmente preservado, se assim pretender. 

 

Alguém está interessada? 

 

blog@mulherfilhamae.pt 

Á conversa com a Ana #8 - "A depressão pós-parto mostrou-me um novo caminho"

Porquê uma Depressão? Porquê um início de viagem na maternidade assim? Porquê é que não senti felicidade, amor e alegria pela chegada de uma filha desejada? O que isto dizia de mim? Estas questões andaram dentro de mim, à espera de respostas que pudessem acalmar a minha mente e o meu coração.

 

Quando grávida li sobre a ocorrência do Baby Blues e da DPP e achei que a depressão seria algo que não me aconteceria e o baby blues, é descrito como algo tão comum e passageiro, que a minha mente não se preocupou. Se acontecesse, passaria. Pensava mais no parto. Assustava-me, creio que dentro do normal, com as dores. Preparei-me para elas (dentro do que seria possível). Fiz o curso de preparação. Treinei as técnicas de respiração. Recebi shiatsu durante toda a gravidez para aliviar os incómodos físicos e sossegar os receios.

 

Chegou o dia do parto. Tive uma receção no hospital S.Francisco Xavier que eu chamaria de pouco sensível/humana. Houve um primeiro choque. Estava com contrações de 5 em 5 minutos, já muito dolorosas e, em vez de receber orientação, mandaram-me para casa, para “voltar daqui a uma semana”. Uma falha de comunicação gigantesca! E acredito que um dos fatores que contribuíram para o pós-parto que experienciei.

 

Voltamos para casa, eu cheia de dores, os dois sem saber o que fazer. Se os médicos dizem que ainda não é tempo, o que fazer?! Mas as dores eram cada vez maiores. Acabamos por ir parar ao Hospital de Cascais e a C. nasceu. Lembro-me que não fui inundada por emoções de felicidade e amor. Estava exausta. Foram muitas horas de dor e sensação de estarmos perdidos, sem saber o que fazer, mais a experiência do processo lento da dilatação e da expulsão…lembro-me que a C. nasceu, as enfermeiras tratavam dela e eu andava ali a flutuar, entre o rescaldo daquela experiência de dor sobre-humana e o fato dela estar ali, fora de mim.

 

Os dias que estivemos no hospital cuidei dela. Não sentia receio de ir para casa. Pelo contrário, queria ir. Fiz um edema muito grande e estava cheia de dores. Não tinha posição para nada. Esperei que me medicassem. Esperei horas. E quando a médica foi finalmente ao quarto, pedi para que não tocasse porque doía-me imenso. E ela mexeu. Gritei que nem um animal ferido. Gritei para que não me tocasse. Ela pensava que eu já estava medicada. Chamou o meu marido para me acalmar. Eu chorava, tremia e assim fiquei durante uma hora. A partir daí não deixei que ninguém me tocasse.

 

Fomos para casa. Estava muito dorida, não conseguia sentar-me, deitar-me só em determinadas posições. Mas estava medicada e pensei que tudo passaria. Não sei como as coisas foram sucedendo, mas lembro-me do meu primeiro sonho, creio que passadas poucas semanas. Ia no carro com a C. e despistei-me intencionalmente…

No fundo, a minha cabeça já dava sinais de que algo não estava bem. As semanas foram decorrendo, eu a sentir-me cada vez mais ansiosa, exausta e desesperada.

 

Se pegar naquelas listas que abundam na internet, com dicas para escapar a uma depressão, eu consigo dizer que reuni tudo:

  • Foi uma bebé desejada, não tive problemas em engravidar e a gravidez foi tranquila
  • Não existe historial de doenças mentais na família
  • A C. nasceu saudável, não tive problemas com o processo de amamentação e ela dormia períodos de tempo longos, para uma bebé recém-nascida
  • Tenho um companheiro fantástico, com quem partilho todas as tarefas da casa e do cuidar da C. (e tivemos a ajuda de uma pessoa que limpava a casa 2x por mês)
  • Conversava com ele, com a médica de família, com amigas
  • Saía de casa, sozinha, com ele, com amigas
  • Contava com uma rede de apoio sólida (avós que ficavam com a C. para sairmos, que nos preparavam refeições, etc.)

 

Mas ela aconteceu ainda assim. Percebi que esta experiência, como em tudo na nossa vida, acontece por uma série de fatores. Compreendê-la significa olhar para vários ângulos e perspetivas.

 

Existe a causa fisiológica. As hormonas andam num rebuliço enorme durante a gravidez e caiem abruptamente após o parto. O corpo pode precisar de uma ajuda (química) para voltar ao seu equilíbrio.

Existem as causas circunstanciais, relacionadas com as condições em que o casal vive (as tais ajudas da família, o apoio do companheiro, etc.).

E existe a nossa mochila, que trazemos connosco ao longo da vida e que vai guardando as nossas experiências, memórias e emoções. O nascimento da C. foi um acontecimento que pôs a descoberto tudo isto. Pôs a nu as minhas fragilidades e os meus medos. Mostrou aquilo que eu já conhecia de mim e muito do que eu não conhecia inteiramente. Foi buscar o meu passado, o período conturbado do fim da minha infância, da adolescência e o início na vida adulta. Evidenciou a falta de amor (digo amor incondicional) suporte e segurança com que cresci.

 

 

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Ao longo da minha vida já passei por algumas daquelas experiências, extremamente dolorosas, que abanam todo o nosso centro. Que nos mandam à grande para o chão. Eu diria que existiram 3 momentos deste tipo. Cada um deles abanou todo o meu mundo, mudou tudo na minha vida. Mas também me mostraram um novo caminho. Foram lições de crescimento. A depressão trouxe-me muito. Trouxe mais resiliência e capacidade de relativizar. Trouxe-me mais calma e tolerância. Trouxe-me mais compreensão e consciência. Trouxe-me mais amor por mim e por aqueles que me rodeiam.

Histórias que dão a cara por esta causa #26 "Desliguei de mim e odiei cada momento na maternidade após o parto"

A Laura, uma mulher com grande força interior e coragem, decidiu partilhar connosco a sua história e revelar alguns dos detalhes mais sombrios do inicio do seu pós-parto. Algo que não se orgulha, mas que conscientemente sabe que fizeram parte de um momento da sua vida em que, tal como refere, "desligou dela própria".

Passa-nos várias mensagens absolutamente necessárias de considerar aquando da passagem por um momento semelhante, das quais evidencio o facto de, ser impreterível pedir ajuda o quanto antes.

 

Tal como a Laura, existem muitas outras mulheres que passam por situações semelhantes. Não hesitem e enviem-nos a vossa história! Temos de falar sobre este assunto. Histórias como estas são cada vez mais comuns e o movimento tem de ser, com cada vez maior frequência, no sentido da partilha e da sensibilização. 

 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

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Olá Ana,

 
Sou a Laura e tenho uma história de maternidade para contar e sei que mais histórias terei, pois sei conscientemente e aceito que a minha e a nossa viagem é longa, aventurosa, complexa e maravilhosa, que uns dias serão de tempestade e muita chuva e outros de muito sol e amena brisa.
Primeiro que tudo, quero agradecer ao nosso parto por ter corrido tudo ao contrário do que eu queria para nós os três: eu, a minha amada filha e o meu amado marido. Por causa deste parto, que eu queria natural, tranquilo, acompanhada e sem qualquer intervenção, mas que acabou numa cesariana sem o meu marido presente por proibição do hospital, eu hoje sou uma mulher e mãe caminhante mais consciente e forte na minha longa viagem pessoal.
Após o nosso parto não ter corrido como eu queria e tinha idealizado e eu ter deixado de ter controlo e de ser atriz do mesmo, eu desliguei. Eu desliguei de mim, da minha desejada e recém nascida filha e do meu amado marido e recém pai. Odiei cada momento na maternidade após o nosso parto. Eu só sentia solidão, medo, angústia, dor física e psicológica e muito, muito desespero e quando a minha filha chorava eu só pensava em fugir, em começar uma nova vida sem ela nem o meu marido lá muito longe onde ninguém soubesse quem eu era nem de onde vinha. Ainda na maternidade, no dia seguinte ao nascimento da minha bebé, fiquei inválida fisicamente e descobriu-se que a aplicação da epidural, que eu não queria mas que foi a minha salvação às tremendas dores de um parto induzido, tinha me feito uma fissura numa membrana, o que fez com o que o meu marido ficasse a cuidar da nossa bebé sozinho em casa durante 24h e a sustentá-la a leite artificial em biberão, mais uma vez conforme tudo o que nós não queríamos, enquanto eu era submetida a mais intervenções clínicas e picadas nas minhas veias já ressequidas de dor e tristeza.
O meu regresso a casa e também o primeiro momento desta nova família na nossa casa foi horrível. Eu e o meu marido discutimos imenso devido a tanto stresse acumulado, tanto medo e ansiedade mal geridos e a nossa filha chorou imenso. Tudo o que me recordo desses primeiros dias e semanas com ela em casa, dos nossos primeiros dias como família, é de uma névoa cinzenta, pesada e sufocante onde reinavam em mim o pânico, o medo, a culpa, a ansiedade, a tristeza, o arrependimento, a raiva, a revolta e o total descontrolo emocional, psicológico e mental. Chamava-me a mim mesma de gorda e de deformada e gritava vezes sem conta a chorar que eu não era mulher, não era mãe, eu não era nada. Não tínhamos qualquer apoio familiar ou de amigos íntimos, fosse com um par de braços extra ou uma sugestão criativa e empoderadora, uma panela de sopa, comida pronta ou roupa lavada. Lembro-me de não tomarmos banho durante mais de uma semana, de fazermos turnos a cuidar da nossa pequena bebé para dormirmos o suficiente para não enlouquecermos os dois, de termos de ir à pressa ao café mais perto de casa buscar uma porcaria qualquer para o nosso corpo sobreviver, da amamentação ser extremamente dolorosa e lembro-me de chorar muito, gritar muito, de me doer tudo muito e de odiar tudo muito. Principalmente de me odiar a mim própria. Muito.
Foi quando o meu amado marido e pai da nossa amada bebé me disse que eu precisava de ajuda médica, tendo começado medicação adaptada à amamentação e continuado psicoterapia, que eu já fazia antes por ser a fiel portadora de um transtorno bipolar e de uma história de vida muito turbulenta e conturbada, que eu pensava bem controlados - oh ingenuidade!
Ficou tudo melhor? Não. Quis fugir novamente, insisti várias vezes com o meu marido que a nossa melhor hipótese de sobrevivência e o melhor para a nossa bebé era a deixarmos numa instituição de acolhimento - ainda hoje passados quase três meses, revolvem-se-me as entranhas ao escrever esta realidade - ou eu ir embora e cheguei mesmo a fugir de casa. Voltei passadas horas de tormento para o meu marido e a nossa filha e o da minha constatação verídica: se eu não pedir ajuda, eu suicido-me, porque eu descobri nessas horas de ausência, que o que eu mais queria era morrer, já que não conseguia ser mãe e esposa mas também era insuportável estar longe. E novamente fomos em busca de ajuda médica, foi ajustada a medicação e isso levou-me a abrandar a velocidade frenética de corrida numa espiral negativa que me ia levar ao suicídio, para começar a conseguir pensar com mais clareza, consistência e consciência e eu corajosamente criar, construir e firmar uma rede de apoio através de entidades e profissionais especializados em apoiar mães, pais e bebés, que estão a substituir a família e amigos íntimos que nós não temos e que não valem a pena chorar por isso e que me está a colocar num enorme e bem recebido caminho de auto conhecimento consciente e desenvolvimento pessoal, onde já encontrei e estou com pessoas fantásticas e isto tudo fez trazer novamente ao topo a minha essência, o amor pelo meu marido e o amor pela minha amada filha bebé, enquanto desfruto do prazer de amar a família que criámos, conectar-me com a minha bebé e amamentá-la sem dores nem dificuldades, apaixonar-me novamente pelo meu marido e amar-me a mim mesma, meditar, aprender, crescer, acalmar e evoluir.
Felizes para sempre? Claro que não!! Há dias horríveis e outros maravilhosos, uns que se passam apenas e outros bons e este é o verdadeiro desafio da maternidade: equilibrar este nosso jogo de luz e sombra interno de forma consciente, sintonizada e sentida.
Hoje sei que o meu futuro é paz, carinho e amor e que daqui a pouco serei uma Mãe que ama incondicionalmente.
 
 
Um grande beijinho com um terno abraço!

E se amanhã fosse o dia, como é que seria?

E se amanhã fosse o dia de pedir ajuda, como é que seria? 

Levantavas-te, vestias-te e recuarias,

Ou simplesmente deixavas-te levar? 

 

E se amanhã fosse o dia de pedir ajuda, como é que seria? 

Os nervos e as fantasias tomariam conta de ti,

Ou intempestivamente corrias para alguém te ajudar? 

 

E se amanhã fosse o dia de pedir ajuda, como é que seria? 

Chegavas a dormir,

Ou a cabeça e o coração unidos não te deixavam os olhos fechar?

 

E se amanhã fosse o dia,

Estaria a chover?

Ou o sol, quente, marcaria esse momento? 

 

Se amanhã fosse o dia,

Talvez a correr, a suar, séria, trémula ou sem pensar

caminharias para alguém te ajudar.

Contudo, será que importa compreender como seria o momento,

ou como seria o dia,

Ou será que importante seria parar de imaginar,

e efetivamente começar a caminhar para pedires ajuda,

e fazeres o teu percurso com maior alegria e bem-estar? 

 

Será que pode ser hoje, o dia?

 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

 

"Tive medo de saber mais sobre depressão pós-parto porque não queria desenvolver uma"

Há poucos dias, num grupo de mães, uma das mulheres referiu que durante o curso de preparação para o nascimento foram-lhe dados vários folhetos sobre depressão pós-parto e alterações emocionais no pós-parto, mas que assim que chegou a casa, os arrumou na gaveta. 

 

Teve medo de ler mais, com medo de ficar a pensar sobre o assunto, e de desenvolver uma depressão pós-parto. 

Teve receio de falar sobre o tema, com medo que tal disputasse algo dentro de si, e que desenvolvesse uma depressão pós-parto. 

Teve medo de pensar sequer, sobre o assunto, pois no seu ponto de vista, quanto mais pensasse, pior poderia ser para si. Não queria ficar triste, nem com "medos irreais na cabeça" para não influenciar o seu bebé.

 

Colocada esta partilha, sugeri que numa próxima sessão trouxesse os tais folhetos que lhe deram no curso, para os lermos em conjunto, e para que ela pudesse esclarecer todas as questões que tinha sobre o tema, acompanhada.

 

Eu apercebi-me da forma como estes receios estavam imbuídos na sua linguagem corporal há medida que ia falando sobre o assunto, assim como, o facto de cada um destes receios ia gerando uma fantasia cada vez maior sobre o tema que se expressava através do seu discurso. Para além disto, sabia que ao falar de forma direcionada e aberta sobre o tema, poderia levar a alguns riscos, tais como, a mulher inibir-se no grupo de expressar emoções, por exemplo.

 

Há sempre riscos que se correm quando se fala mais especifica e particularmente sobre o tema. Contudo, são menores, próximo das vantagens que considero identificar por falar sobre o tema, desta forma, com estas mulheres:

 

- Ficam informadas e a informação que recebem é fidedigna e ajustada;

- Estão num espaço propício para o fazer;

- Estão acompanhadas por um profissional especialista na área, que está atento e com quem podem esclarecer todas as questões sobre o tema;

- Ficam com a referência de um profissional e local onde podem recorrer para pedir apoio, caso se verifique necessário em algum momento;

- O contacto entre mim e estas mulheres mantém-se mesmo após os momentos de encontro do grupo, sabendo elas, que podem obter esse suporte quando necessitarem;

 

Para além desta questão, e nestes grupos, não é só sobre isto que falamos. Tal como costumo dizer, não é que a depressão pós-parto seja o maior problema que podem desenvolver, mas poderá ser um dos. E como tal, não há problema de estarem informadas sobre o tema, tal como não há problema de estarem informadas sobre quais os melhores produtos para dar banho ao bebé, ou sobre amamentação, cuidados com o corpo, etc. Estarem informadas sobre depressão pós-parto, é tão importante, como estarem informadas sobre qualquer questão inerente ao período da gravidez e do pós-parto. 

 

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Contudo, ainda há aquele mito de que falar sobre depressão pós-parto, é quase que contagioso. Mas não é, acreditem. Até porque a depressão pós-parto é uma doença, mas não é contagiosa. Falar, erradica o fator surpresa, e aumenta a consciência sobre o tema. Falar, promove a sensibilização, a informação e a preparação para um momento único na vida de cada mulher, companheiro, casal e família - a maternidade - que tanto pode mostrar o seu lado luminoso, como o seu lado lunar.

 

E o lado luminoso e lunar não estão presentes em qualquer coisa na vida?

Então porque tememos tanto pensá-los (em conjunto) no período da maternidade?

 

Temos de falar sobre isto!

blog@mulherfilhamae.pt  

Quais são as histórias que dão a cara por esta causa?

São histórias de mulheres que se confrontaram com ansiedade e depressão na gravidez, com blues, depressão, ansiedade e/ou psicose pós-parto. 

 

São histórias de homens que se confrontaram com depressão pós-parto, homens que se viram sozinhos a cuidar, com uma mão, dos seus filhos recém-nascidos, e com a outra, das suas mulheres que emocionalmente se encontravam pouco ou nada tranquilas. 

 

São histórias de mães e sogras que se confrontam com histórias de filhas e filhos com depressão na gravidez e/ou no pós-parto, histórias de mães e sogras que se relembram das suas há décadas atrás, e que atualmente congelam, não sabendo como agir, ou que por outro lado, agiram tranquilamente. 

 

São histórias de amigas, amigos, tios e primos que dão de caras com ausências prolongadas, com visitas proteladas, com humores e emoções desviadas do que esperavam e não souberam como agir, ou que por outro lado, agiram tranquilamente. 

 

São histórias de vidas, reais, pouco coloridas, mas que demonstram exatamente como são muitas as vivências de gravidezes e pós-partos que foram tudo, menos o esperado pelos seus protagonistas. Sejam mulheres, companheiros, sogras, mães, primos, amigas, tias, vizinhas, quem for.

 

 

Alguém que se tenha confrontado com uma história menos positiva na gravidez e/ou no pós-parto?

Alguém que tenha uma história menos colorida sobre a maternidade?

Alguém que tenha uma coleção de momentos pouco felizes, muito diferentes do esperado? 

 

Então essas histórias são para serem contadas aqui, na rubrica Histórias que dão a cara por esta causa

 

Uma causa sobre o lado menos positivo da maternidade, que existe, é real, não é único e que precisa de se tornar mais consciente para todos, facilitando, entre outros, a chegada de apoio a quem vive, na primeira e/ou na segunda pessoa, uma maternidade que nem sempre rima com felicidade

 

 

Têm alguma história para contar? Não hesitem! 

blog@mulherfilhamae.pt