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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

O que a sociedade transmite aos pais.

O que é que acham que transmite?

 

O Psicólogo José Mendes, partilhou connosco a sua reflexão sobre o tema. 

 

Também queres partilhar a tua sobre este, ou sobre outro tema relacionado com a parentalidade e/ou sobre saúde mental perinatal?

Envia-me email para blog@mulherfilhamae.pt.

 

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Na anterior comunicação procurámos desenvolver o conceito de responsabilidade que a nossa vida colectiva encerra, o qual deve permear toda a educação da criança ou da futura criança que os pais vão acolher.

É comum pensarmos que o ser gerado por nós é uma espécie de folha de papel em branco. Todas as ideias que vamos acolhendo sobre o tema da natalidade e da educação, a que se juntam algumas que recebemos dos nossos pais e da sociedade em geral, que nos indicam como devemos ou não proceder, são aplicadas na gestação e educação dos filhos que nascem através de nós. Esse ser, tão pequeno à nascença, tão frágil, é geralmente tido como ignorante e serão os pais a dar-lhe o conhecimento que depois ostentará. De certo modo, os progenitores preocupam-se com a própria imagem e idenficam-se com o seu rebento.

Mas parecem ignorar que a novidade reside apenas no corpo da criança. Isto é que inteiramente novo. Não o ser na sua totalidade. Neste capítulo, é melhor pensarem que aquela alma veio até eles para ser ensinada e para ensinar, para uma experiência entre nós, mas isso não constitui uma novidade para ela. Não é exactamente uma folha em branco. Tem um passado, que desconhecemos e terá o futuro que for escolhendo quando o puder fazer. Depois o seu corpo perecerá, como os demais, e renascerá para outra experiência. Claro que muitos acharão isto estranho e rejeitarão esta perspectiva. Porém, não se trata de uma visão religiosa, nem científica. Tanto uma como outra ensinam-nos de outro modo.

Actualmente, somos ensinados a ver o nosso bebé sobretudo como um “corpo” a quem temos de prestar o maior cuidado, porquanto está dependente. O que é fundamental é vesti-lo, alimentá-lo, dar-lhe o que for necessário para o criar. Esquecemos que o tempo decorre e mais à frente esse ser fár-se sentir como tendo vontade própria e, por vezes até, nos torna escravos dessa determinação, ainda cedo. Portanto, esse ser não é apenas o que vemos ou sentimos. É muito mais.

Enquanto conservarmos esta ideia, tudo ficará praticamente na mesma. Seremos iludidos pelo progresso tecnológico. Há que dar-lhes condições de desenvolvimento, é certo, mas ensinar esses “novos” seres a pensar e a sentir por próprios, mesmo que isso conduza a uma ruptura com o estipulado. Por conseguinte, a verdadeira missão dos pais não se limita a dar aos seus filhos aquilo que a sociedade lhes proporciona. Há que ir mais longe.

 

José Mendes

Um ser humano melhor

O nosso querido amigo e Psicólogo José Mendes decidiu partilhar connosco mais uma das suas reflexões. Desta vez sobre o tentarmos ser melhores seres humanos, a cada dia que passa.

 

E vocês, também têm reflexões sobre parentalidade e saúde mental perinatal que gostassem de partilhar no blog?

Enviem-nas para blog@mulherfilhamae.pt 

 

 

Nas famílias e, mais tarde, nos estabelecimentos de ensino, o assunto mais importante que devemos passar às novas gerações, será as atitudes a ter para nos transformarmos em melhores seres humanos. Partir do pressuposto que isto é do conhecimento geral tem-nos induzido num erro de enormes proporções e numa vastíssima ilusão; basta ver um pouco o que passa ao nível global. Dizer que anda “meio mundo a enganar o outro meio mundo” será tapar o sol com uma peneira. Mais perto da verdade seria dizermos que a maioria anda a enganar uma minoria, em certo aspecto. E quando consideramos que, dado isso ser uma evidência, todos devemos trabalhar nesse sentido e virarmos as costas ao problema, é pura ignorância relativamente às nossas tendências.

 

Isto não significa – como muitos pensam - que o ser humano seja essencialmente “mau”. Esta visão considera apenas metade da realidade. O ser humano encerra em si as duas tendências – positiva e negativa – e, por variados factores, uma delas pode tornar-se preponderante. A tarefa da pedagogia consiste, precisamente, em ajudá-lo a escolher a via que pode ser mais benéfica, tendo em conta que é não vive sozinho.

 

Por isso, a educação começa na máxima: “não faças aos outros o que não pretendes que te façam”, apesar de nos estar a apetecer fazer o que nos convém. E como o que nos apetece nem sempre é o que apetece a todos os outros, temos de aprender a reflectir e a ver bem as consequências dos nossos actos.

 

Um hábito bastante enraizado na maioria, consiste em calar as nossas intenções e, desde que ninguém nos veja, proceder independentemente daquilo que a nossa consciência nos dita. É assim que quase todos vimos agindo ao longo dos anos e, até, das idades. E quando descobrimos um erro, ou algo incorrecto, numa pessoa ou num grupo, consideramos que actuaríamos de outro modo, eventualmente bem, logo “descobrimos” os “culpados” da anomalia e não pensamos mais no assunto. Porém, não é por existirem esses “culpados” que a anomalia de verifica. O motivo desta existir prende-se com o facto de todos termos que nos aperfeiçoar constantemente e não considerar que tudo se resolve caso um conjunto de pessoas se modifique.

 

Mais difícil de encontrarmos são as nossas incorrecções, imperfeições ou faltas. Com facilidade vimos que algo não está bem em nosso redor, mas dificilmente detectamos o que temos aperfeiçoar em nós mesmos. Estamos tão “perto” de nós que os outros são capazes de ver primeiro algo que nos compete modificar. O comum será chegarmos a uma certa idade já “completos” ou com pouco a aperfeiçoar.

 

 Consideramos que a vida nos “ensinou” - o que é certo – logo pouco temos de aprender a partir de certa altura. Ignoramos, porém, que tudo se renova e, com as sucessivas ondas de vida, a aprendizagem não é definitiva. Cada nova geração contém novas perspectivas, inerentes à sua criatividade. É assim que a evolução é possível ao longo dos tempos. Há coisas que se parecem manter, outras que acabam e outras que começam, mas nada fica como antes, tudo se renova.

 

Consciencializemo-nos, pois, de que um “homem novo” apenas surgirá quando o desejarmos, se o engendrarmos e o realizarmos. Nunca irá “cair do céu” já feita. Por consequência, a sociedade humana não crescerá, caso não surjam instrumentos para que isso aconteça, isto é, pessoas em número suficiente para proceder a essa alteração, que adquiram capacidade de viver de acordo com as Leis universais e não apenas utilizando as leis humanas para os seus fins pessoais.

 

Ciclicamente, as sociedades sucedem-se, com novas características e aperfeiçoamentos, obedecendo a um plano que foi gizado desde o começo. Cabe-nos tentar percebê-lo e fomentar nas gerações vindouras esse interesse e essa maturidade. No fundo, temos de decidir, de uma vez por todas. Ou transformamos a nossa consciência ou continuamos a ser influenciados pelo que nos é transmitido  diariamente.

 

José Mendes 

Quem somos nós?

Mais tarde ou mais cedo, as crianças começam a interrogar-se (e a interrogar-nos) acerca de quem são. Será vantajoso termos uma resposta para dar, no mínimo desmitificando a sua identificação com o corpo. Claro que também “somos” corpo, mas dizer que nos resumimos a isso é muito fraco.

 

A educação que lhes damos passa também pela estruturação da sua personalidade e, quase sempre, somos levados a acreditar que nos resumimos a essa vertente, deixando de fora a nossa identidade real. Mas não de fica por aí. A sociedade em que vivemos acredita na balela de que quase tudo se resume ao que vemos e, sem a verificar, vai transmitindo-a sucessivamente, de modo que a mentira passou a ser “verdade”. Ensinamos os seres mais pequenos a usar os seus sentidos, mas raramente lhes transmitimos que o seu conhecimento vai muito para além disso, porquanto o ser humano é muito vasto e não se limita apenas ao que vê ou escuta, por exemplo. Raramente estimulamos a pesquisa interior. Também há pessoas que acham ser verdadeiro tudo o que pensam ou sentem. Raramente lhes passa pela cabeça que essa pode ser a sua “verdade”, mas não a dos outros.

 

 

Também não aprendemos, nem ensinamos, que existem meios de identificar e controlar os nossos instintos, apetites, emoções, pensamentos, apegos, etc., na maioria por que não os vemos ou porque acontecem dentro de nós. A isto se acrescenta que os “outros” também podem não se aperceber disso, o que “ajuda” à ilusão de que “não há problema”.

 

Tudo isto conduz a uma progressiva identificação com aquilo que é a imagem física da nossa pessoa, aquilo que vemos ao espelho. Apesar de um ditado muito popular dizer: “quem vê caras não vê corações”, a nossa tendência não é para perceber a sabedoria que encerra, mas, quanto muito, para nos prendermos aos “corações”, sem entender que a máxima não se refere aos órgãos do nosso sistema circulatório, mas a esse tal lado mais “profundo” de todos os seres, como é neste caso, o que sentimos .

 

Sentimentos que normalmente são secundarizados, dando-se ênfase à “esperteza”, como na vida comercial, defendendo-se que não dão “de comer” a quem quer que seja. Ou seja, quando ensinamos as nossas crianças a primazia vai para esse lado mais palpável e não para um equilíbrio entre ambas as perspectivas, que depois achamos incorrecto não existir na nossa sociedade.

 

Mas como pode a “sociedade” evoluir se ensinarmos sempre o mesmo aqueles que a constituirão? Eis um argumento incontornável, que vem provar a nossa irreflexão acerca da influência que uma educação assente em outros valores, mais nobres e impessoais, pode ter sobre o futuro da humanidade.

O nosso desenvolvimento passa, inicialmente, por possuir uma personalidade bem estruturada, mas a partir de uma certa altura, os parâmetros pelos quais esta se rege devem ser modificados. Não nos podemos ver sempre como “crianças”, senão o nosso crescimento fica limitado. Por conseguinte, é imperioso um processo pedagógico mais completo, que nos prepare igualmente para a fase adulta.

 

José Mendes

O sentimento de amor.

 O tema de hoje levanta imensas interrogações, porque é bastante controverso, apesar de estarmos certos de que amamos.

Claro que gostamos das pessoas que nos são mais queridas, mas amar é outra coisa. A esmagadora maioria das pessoas acha que o seu sentimento pelo parceiro, pela família, pelos amigos e pelos filhos é de amor. Mas que amor é esse? Ignoram essas pessoas que a energia que rege o universo é, precisamente, a do Amor, algo bastante diferente do que sentimos habitualmente por essas pessoas. De facto, existe uma diferença entre aquilo que denominamos “amor” e esta energia universal.

 

 

O sentimento a que damos o nome de “amor”, na maioria das vezes, é ínfimo comparado com essa energia que tudo permeia. E denota um comportamento de interesse por parte de quem o tem. Se a outra pessoa tem qualidades semelhantes às nossas (é muito parecida connosco), se nos apoia, se nos obedece, se é “bonita”, se tem palavras agradáveis, se pertence ao nosso grupo, etc., temos tendência para gostar dela, considerá-la “amiga” e “facilitar” certas coisas. Caso contrário, a nossa atitude é de desconfiança, pelo menos temporariamente, e não é raro ficarmos com um “pé atrás”. Ora o Sol quando nasce ou se põe, é para todos. Mesmo que haja nuvens, isso não o impede de distribuir a sua luz e o seu calor a todas as formas de vida. Não “pensa”, como nós, se a pessoa é simpática ou não. Independentemente da postura desta (até pode ter cometido um crime) existem sempre dias e noites. O Sol não nos julga. Nós é que determinamos o nosso futuro de acordo com as nossas opções a todo o momento.

Portanto uma educação esclarecida conduz os nossos filhos a opções muito mais amplas do que um amor somente pessoal, o qual é apenas um preliminar, um “ensaio”, desse sentimento muito mais amplo que denominamos de “amor”.

 

 

Para muitos, este conceito é manifestamente estranho, dado nunca terem experimentado mais do que uma fugaz paixão e a ideia de um amor mais amplo, continuado, de características universais, que não obedeça ao tempo e às convenções estabelecidas, nem sequer lhes passa pela cabeça.

 

No entanto, é indubitável que os seres maiores que passaram pelo planeta e deixaram a sua marca em processos sociais que alteraram a nossa maneira de pensar, de sentir e os nossos procedimentos, viveram um sentimento muito mais alargado do que o amor por uma só pessoa. Já não nos referimos aos grandes avataras, mas, por exemplo, aos nossos conhecidos Mandela, King ou Gandhi, para já não apontarmos do exemplo de Madre Teresa. Todas estas pessoas foram capazes, nos últimos tempos, de sobrepor o interesse da comunidade ao seu próprio interesse, dilatando a ideia de amor pessoal. E há já mais de 2 milénios veio um ser dizer à humanidade, para amar-nos uns aos outros. O mesmo ser falava em amar mesmo os nossos inimigos.

 

Quer isto significar que os nossos sentimentos podem abranger apenas daqueles que nos rodeiam ou ir até à colectividade onde estamos inseridos, e mais além, sem que se extinga por isso. Caso eduquemos as crianças numa atitude sectária relativamente ao mundo, de amor limitado, de consciência curta, tanto em termos de poder financeiro, como de dogmas religiosos ou ideológicos, como de cor da pele ou de raça, etc., jamais poderemos aspirar a um mundo melhor. E isto começa bem cedo, porquanto os nossos medos, a nossa incompreensão relativamente às diferenças, a nossa ausência de solidariedade, impregnam a vida daqueles que convivem de perto connosco, sobretudo os mais pequenos. Está na altura de ensinarmos algo mais vasto, impessoal.

 

 

Amar não se resume, pois, a sentir a falta de alguém ou a acharmos “queridos” certos gestos da pessoa. É bastante mais do que isso. Implica um dar sem aguardar determinado procedimento em contrapartida, aliás sem estar à espera de nada, é por isso existe um “amor desinteressado” e um outro que não o é.

Habituemos então as crianças, desde que as concedemos, à possibilidade de um sentimento amoroso cada vez mais alargado. Isto é altamente positivo para a seu desenvolvimento e proporcionará uma sociedade integrativa que todos beneficiará. Quando o nosso sentimento de amor se limita aos familiares, ou ao pequeno círculo das nossas amizades, é a maior parte dos seres humanos que fica excluída. Esta redução da nossa família humana é fictícia.

 

 

Texto escrito por José Mendes

Os pais como mediadores.

Como eu já calculava, este texto do nosso querido amigo José Mendes, foi um sucesso! 

 

Como tal, hoje, trago-vos a continuação da sua reflexão. Curiosos?

 

 

Na sequência da anterior sugestão, em que lembrávamos que os pais podem olhar para os filhos como um serviço à sociedade, e não como uma propriedade exclusiva, vamos dilatar mais essa perspectiva.

 

Todos nós integramos um colectivo, que é o meio onde vivemos. Este presta-nos determinados serviços e nós fazemos o mesmo. Sempre existiu uma grande interdependência. O que implica uma responsabilidade mútua que, no caso da gravidez, tende a ser esquecida, tanto pelos pais, como pela sociedade. Geralmente, olhamos com simpatia para uma grávida, mas quando estão em causa questões laborais, o mais comum é pensarmos na vertente financeira, relegando as condições do desenvolvimento da criança para outro plano.

Porém, todos somos afectados por essas decisões. Os pais devem ser encarados como mediadores e responsabilizados pela sua actuação, tanto na vertente física como psicológica. O todo social deve proporcionar-lhe os meios adequados a um correcto desenvolvimento, mas isso não pode ser encarado como uma obrigação sem retorno. Esta atitude, por vezes displicente, por parte dos pais, tem implicações que importa aprofundar. Desde logo, poderá querer dizer que as nossas responsabilidades sociais são muito limitadas, pois os filhos são “nossos” e a maneira como os educamos só a nós diz respeito.

 

Esta visão antiquada da educação em geral e, em particular, da gravidez, gera uma sociedade defeituosa e reflecte-se no nosso progresso. Dá origem a seres mimados e ego centrados, que irão reproduzir essa perspectiva nas gerações futuras.

Muitas vezes, caímos na tentação de olhar para os nossos rebentos como se estes não crescessem. Mas crescem! São eles os futuros homens e mulheres que darão corpo a este país e a este mundo! Há que pôr os olhos neles não como futuros bebés ou crianças mas como seres, que devemos ajudar a aperfeiçoar tendo em vista a sua maturidade. Como tal, convém orientá-los desde cedo nessa óptica, em vez de os educar como seres cuja responsabilidade é muito limitada. Ao fazê-lo estaremos a condicionar-nos e prestar um serviço deficiente a todos nós.