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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Á conversa com a Laura #2 - Olá tristeza! Olá revolta! Olá cólera! Olá solidão... Vamos conversar?

Após a minha filha nascer, ainda no internamento na maternidade, eu sentia um turbilhão de emoções desconhecidas da Laura. Eu pensava (ou idealizava) ser por isso que eu não entendia nada do que se estava a passar comigo, no meu coração e na minha mente, que eu até então pensava conhecer perfeitamente e profundamente após quase cinco anos de psicoterapia psicodinâmica. Parecia que eu apenas existia através de um corpo físico, de uns olhos, de um cérebro e de uma vida que não eram a Laura que eu pensava (ou queria) ser, e por isso, eu contrariei o mais que pude até quebrar psicologicamente, todas - TODAS - as sensações e emoções que eu considerei menos positivas e não condizentes com a tal Laura sempre feliz, alegre, lindíssima, forte, extraordinária, ativa, inteligente, pioneira, presente, expansiva, livre, descontraída, assertiva, organizada, saudável e extremamente perfeita que eu pensava e queria muito na altura ser. Rejeitei a minha profunda tristeza por ter tido o parto que eu não queria para nós os três; relevei a minha imensa revolta por não ter a rede de apoio familiar e de amigos que eu achava que devíamos ter; escondi a minha intensa cólera por não estar a compreender nem a lidar de forma positiva com a nossa bebé nem com a minha maternidade e a parentalidade no geral; ignorei a minha dorida solidão que eu sentia em todos os meus átomos e em toda a minha alma apesar de pensar intermitentemente "Laura tu tens aqui a tua tão desejada filha e o teu amado marido junto a ti!".
 
Enfim... eu não me permiti um único segundo a ser eu mesma com tudo o que eu sentia naquele momento e que eu "não sabia" que era (e continua a ser) de meu direito. De nosso pleno direito! Das mães e dos pais. E até dos avós ou da família toda!
 
E o resultado de eu não escutar todos estes sentimentos, no meu ponto de vista, não foi positivo nem saudável: resultou numa depressão pós parto muito acentuada e profunda com ansiedade generalizada e um esgotamento nervoso.
 
Por isso, considero que é essencial permitir-mo-nos a nós mesmas, sermos sempre autênticas connosco e com o mundo. Isto não quer dizer que quando aborrecidas, comecemos a disparar pedras em todas as direções ou a isolar-mo-nos entre os lençóis da nossa cama dias ou meses a fio em depressão, não. Isto quer dizer que quando as nossas emoções e sensações surgem, sejam elas quais forem e seja de forma lenta ou abrupta e de repente, devemos olhar para elas sem filtros nem julgamentos e escutar o que as mesmas nos dizem, porque todas as emoções e sensações - TODAS - trazem informação e revelações preciosas para o nosso próprio entendimento e auto conhecimento, bem como o entendimento e o conhecimento do outro e do mundo e isso traz-nos aceitação, compreensão, desenvolvimento, crescimento, gratidão e evolução. E isto não é concordar com tudo o que nos acontece, isto é, apesar de muitas vezes não concordarmos ou não nos fazer sentido, aceitar que é este o sentimento e é necessário senti-lo mesmo, canalizar a sua energia e transformá-la em algo saudável. Isto é "apenas" trazer uma imensa empatia, tolerância, respeito e amor connosco mesmas e com os outros! É preciso abraçar as nossas dores com carinho, reflexão e consciência para as canalizarmos e as transformar em atitudes positivas, saudáveis, firmes, carinhosas, amorosas e pacíficas para nós mesmas e para os demais.
 
E quando não se consegue fazer isto naturalmente e espontaneamente, é necessário solicitar ajuda especializada. Solicitar ajuda é a mais corajosa forma de escutar as nossas dores, quaisquer que estas sejam.
 

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E depois... depois é treinar e praticar com determinação o diálogo com estas energias vindas de toda as nossas emoções e sensações, canalizá-las de forma consciente e assistir à sua transformação em um bem estar nas nossas vidas e nas dos que nós amamos e certamente, um dia, também na vida da humanidade, de uma forma fluida, tranquila e prazerosa.

Á conversa com a Ana #2 - "Curei a cabeça e o coração, agora é o corpo que precisa da minha atenção e energia"

Olhando em retrospetiva para o percurso que tenho vindo a fazer desde o dia em que comecei a tomar a medicação, consigo perceber muito claramente que toda esta experiência da DPP/tratamento trouxe-me mais maturidade, clareza e confiança. Sinto-me a Ana de antes, mas uma Ana ainda melhor, muito melhor.

 

Mas existem assim uns senãos! Certas coisas que vieram com a experiência, mais concretamente com a desregulação emocional e a toma da medicação. Falo do peso. Tal como a maturidade que floresceu em mim, também os quilos multiplicaram-se. Consegui atingir a proeza de estar a pesar mais do que o que estava a pesar no final da gravidez.

 

O peso da gravidez perdi-o logo nos primeiros 2 meses. Mas claro havia uma depressão, ainda não diagnosticada, e o meu apetite flutuava tanto, quanto o meu humor. Ou não comia nada, ou atacava tudo o que aparecia à frente. Com o diagnóstico, em Novembro, e o começar a tomar os antidepressivos o apetite deixou de flutuar tanto, mas apenas para ir para o extremo do excesso. Comecei a ter fome emocional.

 

Os meses seguintes foram meses em que ainda havia muita ansiedade e culpa, e a comida era o escape fácil (e saboroso) para lidar com essas emoções. Sabia que estava a comer demasiado, que a roupa estava primeiro a apertar, para depois deixar de servir, mas não tinha energia para lidar com isso. O meu foco era curar a cabeça e o coração. O corpo, pensava, fica para depois. E ficou.

No final do Verão passado deixei de tomar o antidepressivo que me fez engordar, comer que nem uma louca e inchar! Desinchei, perdi volume, regulei o apetite para o que era habitual, acabou a fome emocional.

 

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Em Dezembro comecei a ir a consultas de acompanhamento no Centro de Saúde com o fim de emagrecer. Prescrição médica: alguns ajustes na alimentação (quantidades menores, adeus pão alentejano e manteiga) e exercício físico. Os ajustes na alimentação foram mais fáceis. O exercício físico, nem tanto. Consegui começar a fazer abdominais, pranchas quase todos os dias. Sinto-me um bocadinho mais em forma (tendo em conta que estava em 0% boa forma), mas não chega.

 

Hoje saí da consulta de acompanhamento no Centro de Saúde com o resultado de 0 quilos perdidos desde Dezembro. Prescrição médica: suar! Fazer exercício que faça o coração bater mais rápido. Ai, é mesmo desse tipo de exercício que eu tento sempre fugir. Mas vai ter que ser. Curei a cabeça e o coração, agora é o corpo que precisa da minha atenção e energia.

"Pedi ajuda quando já não dormia há várias noites e já tinha perdido 14kg"

Tive poucas palavras para devolver a esta leitora, quando comentou o texto "Depressão Pós-Parto: Quando é que pediram ajuda?".

 

Contudo, uma coisa é certa, o pedido de ajuda que aclamou por iniciativa revelou muita da sua coragem e vontade de tratar o que a andava a fazer sofrer, aparentemente, há alguns anos. 

 

Já não é a primeira vez que são partilhadas por aqui, vivências de mulheres que levam meses e/ou anos a conseguirem assumir o sofrimento que sentem neste âmbito, sem que qualquer um à sua volta compreenda o que se passa. Pois tal como abordei há pouco tempo, não é pela expressão, ou por um ou outro encontro, que se percebe facilmente se alguém está a vivenciar uma depressão pós-parto. Portanto, para além das poucas frases que escreveu e que muito revelam em termos emocionais, eu também só lhe posso agradecer por ter tido a coragem de partilhar connosco parte do que sentiu contribuindo para aumentar a sensibilização das pessoas que consultam o blogue para o tema. 

 

E vocês, quando é que pediram ajuda?

blog@mulherfilhamae.pt

 

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"Pedi ajuda quando já nada importava para mim.. nem eu nem os meus dois filhos.
Pedi ajuda quando já não dormia há várias noite e já tinha perdido 14kg.
Pedi ajuda quando vi que sozinha não conseguia.


E passados quase dois anos e com a vida composta e até uma vida que se pode dizer normal.. e feliz (sim.. feliz) continuo a precisar de ajuda porque ainda não consigo desligar-me, controlar e evitar remexer com os pensamentos sobre tudo o que passei e senti e vivi."

Um Bootcamp cheio de inspiração: Causas, efeitos e soluções identificadas!

Já alguma vez ouviram falar do Bootcamp?

Eu nunca tinha ouvido falar até conhecer uma determinada amiga que me falou do conceito, e sabendo as várias ideias que tinha para projetos dentro da área da saúde mental perinatal, aconselhou-me a participar no mesmo. 

 

A ideia foi ruminando na minha cabeça e entrelaçou-se com alguns dos meus pensamentos e acabei por me inscrever. 

Na publicidade diziam "Faz o Bootcamp da tua vida", e na altura, não compreendi. Questionei-me algumas vezes sobre como é que um fim-de-semana de formação se poderia tornar em tamanha transformação. Li vários conteúdos e alguns testemunhos, e a expectativa foi crescendo, até que o fim-de-semana chegou.

 

Rumámos ao Porto, e de sexta-feira até domingo, vivemos - eu e o meu marido - dias alucinantes, cheio de energia, partilha, reflexão, confronto, emoções, novos laços, e muita, muita, muita aprendizagem!

 

Começamos por manifestar a nossa vontade em trabalhar o tema que nos levou até lá - Saúde Mental Perinatal - encontramos elementos dispostos a trabalharem este tema connosco e formámos assim, equipa.

 

A equipa que desde o primeiro minuto se envolveu na problemática identificada, que foi composta por quatro visões completamente diferentes do tema, mas que encontrou o seu ponto de complemento. A equipa que desde o primeiro momento compreendeu, de corpo e alma, aquilo que nos levou até ali. E foi absolutamente incrível, a forma como nos fomos deixando levar uns pelos outros de forma autêntica e eficaz durante todo o processo, mesmo com todos os neurónios que fomos fritando, todos os conflitos que fomos gerindo e todas as emoções que fomos vivendo.

 

Delineámos o nosso projeto, e embora ainda não esteja totalmente finalizado e pronto a ser implementado, contemplo-o com traços de missão, robustez e sustentabilidade. Será que um tipo de resposta para as várias problemáticas inerentes aos problemas relacionados com a saúde mental perinatal estará para vir?

 

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Tão bom como a equipa, foi o grupo, o acompanhamento e toda a orientação dos mentores - que foi magnífica e absolutamente fundamental para colocar o projeto de pé - e todas as aprendizagens que fomos fazendo ao longo do percurso. 

 

Tendo o conhecimento prévio de que o nosso projeto seria apresentado no final a um painel de jurados implicados tecnicamente na área do empreendedorismo social, e já conhecidos pelo IES - O instituto onde realizámos o curso - o fim-de-semana terminou com a elaboração e prática do pitch, associado àquela pressão individual e da equipa que também será inesquecível. 

Correu tudo pelo melhor, e no final ainda ganhámos uma menção honrosa após a apresentação do projeto. 

 

Trouxemos para casa uma pasta cheia de conteúdos, uma bagagem cheia de perspetivas e o coração cheio de motivação, amor, recordações, abraços, palavras de força e carinho, e um grande respeito e consideração por todas as pessoas que através do seu trabalho e dedicação nos proporcionaram, sem dúvida alguma, um dos melhores fins-de-semana da nossa vida.

 

E agora?

Sim! É para continuar, e espero sinceramente, trazer-vos novidades em breve sobre o assunto ;)

Crónicas da nossa Equipa Clínica - "O que nos (co)move?"*

O que entendemos por valores? Sabemos quais são os nossos valores?

Podendo parecer que nada tem a ver com o tema, muito tem a ver com a reflexão pretendida para este post, pois os valores influenciam o nosso comportamento. Todas as nossas decisões são guiadas pelos nossos valores.

 

É fundamental termos a noção de quais são os nossos valores e qual a nossa hierarquização de valores para podermos compreender as nossas ações.

Ter a noção de quais são os valores que nos motivam ou retraem, que estão por trás das crenças que construímos, as quais moldam a nossa visão.

Aqueles valores que determinam a emoção que associamos a uma determinada ação e que no momento de optar/decidir nos fazem seguir um ou outro caminho. No fundo os valores que nos (co)movem...

 

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Existem várias teorias e que haja registos existem estudos feitos por filósofos desde a Grécia Antiga. Mas poderemos dizer que os valores são conceitos que justificam as nossas ações, sendo algo subjetivo, ou seja duas pessoas poderão atribuir significados diferente a um mesmo valor.

Exemplos de valores são: solidariedade, honestidade, lealdade, justiça, cidadania, liberdade ou ainda reconhecimento, amizade, família, respeito, segurança, humildade, responsabilidade,...

 

Veja-se o seguinte exemplo:

Certo indivíduo cujo objetivo era o de conseguir um ordenado melhor, foi questionado a respeito dos seus valores. Como resposta ele definiu que esta valorização financeira lhe traria mais segurança junto da sua família, um maior conforto, estabilidade para usufruir dos seus gastos em família sem preocupações, entre outras coisas.

Neste pequeno discurso é possível ver quais são os seus valores (família, tranquilidade, segurança) e a importância que o mesmo atribui à sua família e como isso torna a Família um valor positivo que irá auxiliá-lo na execução do seu objetivo.

 

Portanto, para além da noção dos nossos valores, é fundamental perceber qual a importância que atribuimos a cada valor. Isto porque de uma forma geral, numa mesma sociedade, poderemos ter os mesmos valores, mas em hierarquias diferentes. É esta hierarquização de valores que leva a que tenhamos resultados diferentes, porque vamos ter ações, comportamentos, decisões diferentes consoante o que mais valorizamos ou menos...

 

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Para termos a noção de quais são os nossos valores temos que nos questionar. O que é mais importante na minha vida? Qual o sentimento que me traz? Porque é importante para mim? De seguida, fazer uma lista de pelo menos 5 valores importantes.

 

Quando tomamos consciência dos nossos valores e da nossa ordem de valores conseguimos, não só compreender muito melhor os nossos comportamentos e reações e deste modo muda a forma como nos vemos, como também esse nível de consciência permite melhorar os nossos relacionamentos.

Veja-se o seguinte exemplo:

Um elemento de um casal compreendeu a origem das piores discussões entre ambos ao tomar consciência de que o seu valor mais importante era o reconhecimento. Um dia foram os dois a um ginásio e a mulher disse ao monitor “Olhe, trago mais um”, no sentido de propor um desconto, o marido ficou zangado “Mais um, como assim, eu sou o marido!”. Ao ganhar esta consciência pôde não só compreender as suas reações e moderá-las, como também resolver melhor o conflito explicando à mulher o que sentia nestas situações, passando assim a relação para outro patamar.

 

Os valores são o resultado da nossa genética, educação, sociedade, cultura e moldam a nossa personalidade, a qual vai mudando ao longo da vida...

Neste sentido outro aspeto importante na tomada de consciência da nossa ordem de valores é podermos trabalhar e ajustar esses valores de modo a alcançar objetivos traçados e atingir resultados pretendidos, o que implica uma mudança de paradigmas... mas esta será uma reflexão para um futuro post.

 

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*Crónica por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

Um encontro inesperado com uma pessoa especial: Uma leitora do blog!

Ontem tive a oportunidade de falar pessoalmente com uma leitora do blog que me deu um forte abraço e me demonstrou em gestos e palavras o seu agradecimento por este espaço existir. 

 

Vou contar-vos o que lhe disse depois do sentido abraço que partilhámos:

 

1º - Se este espaço reproduz em alguém tamanha sensação de bem-estar, de refúgio, alivio, conforto, emoção, ou qualquer outro tipo de sensação positiva, então, o agradecimento é todo meu. 

Quando o idealizei e o concretizei, sempre tive como principal objetivo um dia poder vir a fazer por outras pessoas, o que um dia fizeram por mim, quando me apoiaram enquanto passei pela história que muitos de vós já devem ter conhecimento.

Não sei se algum dia vou conseguir demonstrar ou sequer traduzir na íntegra a felicidade que sinto e/ou o alívio que é saber que alguém se pode sentir melhor no seu dia-a-dia, nem que seja só por um momento, por ler o que escrevo, o que pesquiso, o que estudo, e acima de tudo, o que sinto e que tento passar para o papel. Espero ir traduzindo isso aos poucos através das várias conquistas e partilhas que vou realizando por aqui.

Também sei que já o disse algumas vezes, mas no fundo eu não me canso: MUITO OBRIGADA! Muito obrigada, eu. 

 

2º - Tenho a certeza que tal como eu, como esta leitora e como todas as mulheres que me têm enviado os seus testemunhos, existem muitas mais por aí. Umas já orientadas face às questões que frequentemente abordamos por aqui e outras ainda a precisarem de orientação, apoio e suporte. Em qualquer um dos casos este espaço é pensado não só à sua medida, como à medida dos respetivos companheiros e familiares.

 

3º - Não só porque o refiro várias vezes, mas especialmente pela missão que assumi neste sentido, estou disponível para esclarecer qualquer questão, assim como para aceitar sugestões, ou falar sobre qualquer outro assunto que considerem pertinente. Assim sendo, nunca hesitem em contactar-me seja em que momento for. Sim! Eu estou mesmo aqui e à distância de um click.

(blog@mulherfilhamae.pt ou ana.vale@mulherfilhamae.pt).

 

 

No final: 

Ela sorriu, deixou cair uma lágrima, conversámos mais um pouco e voltou abraçar-me. 

Eu sorri, não deixei cair uma lágrima (por acaso) mas fui devorada por um conjunto de emoções e mais uma vez continuei o meu caminho com a sensação de "dever" (momentaneamente) cumpridomas com um caminho gigante ainda pela frente. 

 

Não podia sentir-me mais feliz. 

Obrigada!

 

Ana Vale - Autora Blog Mulher Filha e Mãe.jpg

 

 

Ana Vale.