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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Conheceu alguém que passou por alterações emocionais na gravidez e/ou pós-parto?

Foi esta a questão que coloquei a várias pessoas com quem contactei na segunda-feira, durante a tarde, pelas ruas de Lisboa. 

 

Desde que abri o Centro Mulher, Filha e Mãe que andava para tirar uma tarde para ir conversar com as pessoas que frequentam as ruas que envolvem o Centro, sobre saúde mental materna, e ontem foi o dia. 

 

Levei uma folha para apontar respostas, uma caneta, flyers, cartões, coragem, alegria e determinação, e assim fui eu, a andar por Lisboa durante horas.

Inicialmente, enquanto andava, fui deixando as minhas inseguranças ganharem expressão no meu coração e na minha mente:

- Mas que loucura é esta? 

- Será que alguém me vai ouvir?

- Vai tudo achar que eu vou pedir alguma coisa... e vou! Vou pedir tempo... 

- Talvez seja melhor só entregar os flyers e pronto... 

 

Mas não! 

O que eu queria era mesmo conversar com as pessoas sobre o tema. De forma livre e descontraída. 

O que eu queria era ler a expressão espontânea que as pessoas faziam quando as abordava. 

O que eu queria era ouvir o que as pessoas tinham para dizer. Mesmo que desvalorizassem. E mesmo se o fizessem, de certo que seria uma boa oportunidade para as sensibilizar para o tema. E assim foi! 

 

Vivi muito nessas horas a andar pelas ruas de Lisboa. 

A maioria das pessoas esteve sempre muito disponível para me ouvir. Ficavam interessadas e muitas desconheciam o tema. Outras, simplesmente expressavam seriedade do inicio ao fim. Preferiam não responder. Outras, identificavam-se de alguma forma. E todas, receberam com agrado um cartão ou flyer do Centro Mulher, Filha e Mãe

 

Para além das pessoas que iam a andar (aparentemente) de forma descontraída, também abordei pessoas em cabeleireiros, papelarias, cafés, centros de estética, jardins, esplanadas, floristas, e afins. O sorriso, a espontaneidade e a presença calorosa, foram sempre as principais ferramentas que levei comigo, assim como, a aceitação. 

 

Aceitar que determinadas pessoas não queriam falar, responder, que coravam, que se interessavam mais, que preferiram ignorar ou que encolhiam os ombros e continuavam a andar, por exemplo.

Aceitar a rejeição é difícil, mas necessário para termos alguma saúde mental. A verdade, é que seja neste, ou em qualquer outro momento da nossa vida, várias poderão ser as vezes em que nos sentiremos rejeitados, ou que, o seremos de facto. Nem sempre vamos ser aceites. Nem sempre as pessoas vão identificar-se com o que somos/fazemos. Mas isso também não significa que estaremos necessariamente no caminho errado. 

 

No final, fui ao café de sempre onde encontro com frequência uma equipa bem-disposta e que, desde que abri o Centro Mulher, Filha e Mãe, muita força me têm dado! Fui à Confeitaria Sá, onde o Sr. Carlos, que não gosta de tirar fotos, e o Diogo, que tanto lhe faz, aceitaram tirar uma foto comigo e registar o momento em que tomaram conhecimento de que amanhã, seria o dia mundial da saúde mental. Mas não foi só isso que aconteceu. Várias pessoas que estavam no café ouviram, e a conversa sobre o tema instaurou-se de uma forma alucinante. Nunca pensei que um "pequeno desabafo" desse origem a uma conversa tão produtiva e à troca de tantos contactos. 

 

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E já agora, têm de provar as queijadas de amêndoa desta confeitaria!

Tenho por certo, que vão querer voltar com frequência!  

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Estás a preocupar-te demais! Não vês que o bebé está bem?

Nos diversos contactos com mulheres grávidas e no pós-parto, que vou tendo através do blogue, e onde muitas vezes são descritas passagens de vida onde afirmações como a que evidencio no titulo deste texto são bastante comuns, várias vezes me questiono sobre porquê, onde e quando é que as pessoas se deixaram de preocupar com as mulheres e homens nesta fase do ciclo de vida. Ou então, porquê, onde e quando o deixaram de o manifestar. 

 

E reparem que evidencio o papel da mulher e do homem neste texto, e não o da mãe ou o do pai. Pois embora estejam interligados, inseridos num fundo comum a uma mesma pessoa, constituem-se lugares diferentes e que de igual medida, mas de diferente forma, necessitam de ser nutridos e acarinhados. 

 

Os bebés são inquestionavelmente seres que só pela sua imagem apelam ao nosso contacto e dedicação. E há muito que isto é um facto conhecido e amplamente estudado.

Os  bebés precisam muito do amor, carinho, atenção e da envolvência de quem os cuida. E quem os cuida, por norma, são os pais. No entanto, também os pais necessitam de amor, atenção e envolvência de quem os rodeia. Possivelmente, mais do que em muitos momentos de suas vidas. Este, por norma, é o momento em que também os pais, que (por vezes) nascem quando nasce um bebé, precisam de apoio e orientação. Falo de amigos, de família, mas também falo da comunidade que os envolve e onde estão inseridos os profissionais de saúde com quem contactam, assim como, os vizinhos, os senhores dos cafés onde costumam ir, assim como, os do supermercado ou da mercearia, talho, mercado e afins.

 

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Quando digo que precisam, acreditem que muitas vezes não é de forma declarada. Muitas vezes, os pais, precisam lá bem no seu íntimo que essa compreensão, apoio, orientação seja espelhada em diversos detalhes do dia-a-dia, mesmo que eles, não o verbalizem. Imaginem comigo, não acham que é difícil acabar de ter um bebé, e verbalizar que se precisa de ajuda, especialmente a nível emocional, porque não se sentem bem, ou porque não se sentem capazes, ou porque questionam continuamente a sua capacidade de cuidar? 

 

Qual acham que seria a resposta da maioria das pessoas que os rodeiam? 

Como é que acham que estes pais se sentem? A nascerem pais, e com estas dúvidas constantes na cabeça, e possivelmente desesperançados de algum tipo de resposta neste sentido?

 

Eu tenho uma ideia. 

 

Quando vos falo de apoio, compreensão e orientação, também vos posso dar alguns exemplos mais práticos.

Por exemplo:

  • Precisam que os "senhores dos cafés" os recebam como de costume, e não que questionem com frequência se os pais não deviam era estar em casa porque faz frio, ou porque o bebé precisa é de estar em casa e não sair (nos seus pontos de vista) considerando logo à partida que o bebé pode não estar muito confortável porque chora, ou porque simplesmente, assim o consideram (mas como é que eles sabem disto?! Em que é que se baseiam? Numa sabedoria popular? E porque não perguntam diretamente aos pais o que estes acham? Não seria esta uma forma mais simples de se mostrar essa compreensão em vez de se questionar a sensibilidade e o papel dos pais logo à partida? Digo eu...);

 

  • Precisam que as pessoas nos supermercados, na rua, nas lojas e afins, não fiquem fixamente a olhar quando veem um bebé chorar (Sabem... os bebés choram, e por vezes, os pais simplesmente ficam sem saber o que fazer/responder a este bebé naquele momento. Acontece. Ainda por cima quando todos os que os rodeiam resolvem fixar manifestamente o momento, expressando emoções que transmitem pouca confiança/desconforto de alguma forma. Por vezes, até os pais mais confiantes se sentem envergonhados nestes momentos. Mas é assim, na generalidade dos casos, faz parte do "conhecer o bebé", e do "conhecerem-se a si próprios enquanto pais deste bebé" pois este não nasce concomitantemente com livro de instruções na mão e/ou com uma previsibilidade comportamental estampada na testa. Sabiam?);

 

  • Precisam que os amigos e família respeitem a sua preferência de não haver visitas em casa nos primeiros tempos, assim como, que tenham alguma consciência de que se querem efetivamente ir visitá-los que é importante perguntarem a sua opinião, ou até, levarem o almoço/jantar e assim é menos uma refeição que estes pais têm de fazer. Ah! E se alguém ajudasse a passar uma roupinha a ferro? Ou a por uma ou outra máquina a lavar? Ou ajudasse a dar um jeitinho à casa? Ou ficassem, pelo menos, 10 minutos a tomar conta do bebé para estes pais irem tomar um banho, considerando por eles, minimamente decente? São só algumas ideias, mas podia dar-vos muitas mais!

 

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Bom, exemplos desta índole, não faltam! Mas não é só sobre isto que vos quero falar neste texto. É também, e especialmente, sobre o facto de haverem determinados momentos ao longo da gravidez e/ou no pós-parto onde os pais acabam por sentir maior preocupação em relação ao bebé. Seja porque o desejam há muito tempo e agora vão tê-lo nos seus braços e não querem que "nada corra mal", seja porque houve uma gravidez de risco difícil de se lidar, seja porque houve uma ecografia que demonstrou algumas possíveis alterações que posteriormente se vieram a verificar falsas, seja porque o parto não correu como o esperado, seja porque o temperamento do bebé não é o imaginado, ou por qualquer outro motivo. Seja pelo que for, existe uma preocupação, um motivo de dúvida, algo que poderá causar uma ansiedade crescente neste período, que por si só, já é muito delicado a nível emocional. 

 

A questão é, porque é que as pessoas teimam em desvalorizar este tipo de preocupações, se à partida, e ainda por cima quando declaradas pelos próprios pais, são motivo de ansiedade crescente e/ou até angústia associada em muitos casos? Porque é que optam por desvalorizar, focando-se no facto de bebé estar bem, não dando espaço a estes pais para se expressarem? Dizerem efetivamente o que sentem e porque o sentem? 

 

Porque é que é assim tão complicado? 

 

É difícil lidar com o sofrimento alheio. É difícil lidar com o próprio sofrimento em si. Pode ser verdade para muitos. Mas estes pais precisam deste apoio neste momento. Este bebé precisa que os pais se sintam apoiados neste momento. E daqui a alguns anos, ouvirão, possivelmente, um adulto a verbalizar que outrora, também precisou de se sentir mais apoiado.  

 

Já dizia Dalai Lama uma afirmação com que muito me identifico: 

 

"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um chama-se ontem e o outro chama-se amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."

 

Portanto, o dia ontem já não podemos mudar. Podemos sim, aprender a viver com ele. O dia de amanhã, ainda não sabemos como será. Simplesmente perspetivamos, planeamos. Então, parece-me que o dia de hoje é perfeito para se começar a trabalhar neste sentido. E começando a refletir verdadeiramente sobre o tema, pode ser, definitivamente, um primeiro passo. Um passo muito útil para todos nós. 

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Sou mãe e estou em pânico. Será que sou capaz de cuidar deste filho?

Eis uma questão colocada por muitas pessoas, partilhada com terceiros, por poucas, e julgada socialmente por tantas outras. 

São inúmeras as vezes que as mães partilham comigo que estão em pânico. E a verdade, é que isto não me choca minimamente. Choca-me sim, a indiferença a este problema, como se, pouca ou nenhuma importância se deva dar a esta questão.

 

Deixa estar... não te preocupes, isso há-de passar! 

Não percebo porque estás assim... tens um filho lindo e saudável... que mais poderias querer? 

Nem vale a pena teres medo. Agora tiveste o teu filho, tens de cuidar dele e ponto. 

 

Estas, são só algumas palavras que "terceiros" ou "tantas outras pessoas" dirigem com frequência às mulheres que de alguma forma se manifestam neste sentido. Algumas palavras que as mulheres partilham comigo, muitas vezes com grande angústia associada, e sempre com um grande receio de serem vistas como sendo "más mães", porque é assim que se sentem ao viverem esta realidade (ou achavam que as mães ainda se sentiam felizes por se sentirem assim?!), e que terceiros as fazem sentir quando proclamam o tão comum "deixa estar...isso há-de passar". Ás vezes gostava de ser mosca e ver até onde é que este "deixa estar que isso vai passar" nos leva. Até onde é toda esta forma de lidar e de ver estas questões, leva estas mães? E estes filhos? Será que passa mesmo, ou simplesmente as pessoas aprendem a disfarçar para se enquadrarem numa sociedade onde reina o preconceito, e muita falta de conhecimento sobre esta temática? E... o que é que esse "deixa estar que isso há-de passar" causa à posteriori na família no geral? Todo aquele sofrimento outrora sentido.. para onde foi? O que causou, se efetivamente houve um pedido de ajuda ao qual não houve qualquer tipo de resposta? 

 

Bom... não sairia daqui com tanta pergunta que me inunda o pensamento, mas confesso que penso muito sobre o facto de ter nascido neste estranho mundo que  transmite às mães que não podem ser elas próprias no cuidar, mas que por outro lado, têm de cuidar em pleno e estar constantemente alegres e de sorriso feito na cara para receberem qualquer um, enfrentar qualquer situação e/ou resolver qualquer tipo de problema com elas, com os filhos e com as famílias. Como se fosse só carregar num botão...

Estranho mundo este que prefere o "deixa estar que isso há-de passar" nesta fase de vida, muitas vezes atentando em barda ao sofrimento pelo qual estas mulheres passam.

 

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Exige-se cuidado, mas não se permite que estas mulheres se cuidem. 

Exige-se vínculo, mas não se permite que estas mulheres tenham tempo para si.

Exige-se afeto, mas não se permite que se coloquem dúvidas e questões sobre problemas que surjam pelo caminho, mesmo que complexas do ponto de vista psicossocial. 

 

É mais ou menos assim que eu encaro a realidade atual no que concerne a este assunto, considerando em concreto as centenas de questões que já me chegaram via email, e pessoalmente, desde que fundei este blogue, e a formação que tenho feito em paralelo neste âmbito. 

 

A quem esta realidade de alguma forma possa chocar, a única coisa que posso dizer de momento é... informem-se! Podem sempre contactar-me via email, pois não hesitarei em esclarecer-vos. 

 

A quem esta realidade de alguma forma possa tocar, felizmente, as respostas começam a surgir. Dizer "não percas a esperança" já não é só semelhante à dificuldade severa de se ver a luz ao fundo do túnel numa área onde são raras as respostas concretas neste sentido, mas cada vez mais, se torna uma franca possibilidade. Mesmo quando a maternidade teima em não iniciar da forma como era o esperado, ela pode lá chegar. Portanto, não percam a esperança, mas agarrem-se a um franco pedido de ajuda e iniciem acompanhamento neste sentido porque sim, há solução! 

 

 www.mulherfilhaemae.pt

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Ser mãe

Numa das sessões de um dos grupos de grávidas e recém-mães, um dos temas que se falava era sobre a relação das grávidas e recém-mães com as suas mães. 

 

Foi percetível a forma como havia tanto assunto a desenvolver e que aquela hora não iria dar nem para metade. Contudo, várias foram as questões que se abordaram e os subtemas que se falaram. No sessão posterior a essa, uma das grandes mulheres com quem tenho tido o privilégio de me cruzar nestes grupos que dinamizo, pediu-me para ler uma carta que escreveu após a anterior sessão. Fiquei surpreendida, não estava à espera, e ao mesmo tempo, adorei o facto de o ter feito, e tal, foi expressamente manifesto no meu olhar. Mas não foi só isso que expressei. Há medida que ela foi lendo a carta, houve algumas lágrimas que fui contendo, mas que juntas espelhavam no meu olhar o que a minha alma refletia: gratidão por poder fazer o que faço. 

 

Esta carta representou isto para mim, e representou muito mais. 

 

Pedi-lhe autorização para a publicar, pois embora não a estejam a ver a ler e a verbalizar estas palavras recheadas de emoção e de muita história, de certo que conseguirão compreender o impacto que as mesmas têm. Especialmente, porque muitas das pessoas que estão desse lado, e que leem muito do que publico neste espaço, são mães. 

Para além disto, sei que muitas das mulheres que sofrem em silêncio com alterações emocionais na gravidez e no pós-parto, podem-se identificar com esta carta, que é tão própria da história desta mulher, mas também tão comum a tantas histórias de outras mulheres. 

 

Também querem partilhar algo comigo e/ou no blogue? 

centro@mulherfilhaemae.pt

 

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Ser mãe é uma dádiva.

 

 

Ver a minha filha a crescer, a aprender a andar, a imitar o que dizemos e a descobrir o mundo....

Sinto-me grata por poder ter esta experiência, mas não é fácil. Todos os dias me sinto a improvisar. Todos os dias sinto que falho em alguma coisa, que podia ter dado mais de mim. Devia ter tido mais paciência, devia pensar mais nas comidinhas dela, não a devia ter deixado tanto tempo na creche, devia ter-lhe dado mais mimos, por que me perco eu com outras coisas?

 

Há uns tempos alguém me disse que ser mãe é aprender a viver cheia de arrependimentos. É assim que eu me sinto. Sempre.

Vivo com medo de falhar e de ser uma má mãe. E se a estrago? E se ela cresce e odeia a mãe, como eu tantas vezes odiei a minha? E se não a ensino a ser boa pessoa? Será que ela vai ter orgulho em mim, ou se vai irritar com os meus defeitos? E se eu não lhe conseguir dar tudo o que ela merece? E se dou demais e ela não aprende a lutar por ela própria? Mas eu não queria que ela lutasse, é a minha bebé e eu quero-a no meu colo para sempre. Tenho medo que ela sofra... E se eu for fraca e a deixar fazer de mim o que quer? E se eu for demasiado dura com ela? Saberei dar disciplina e amor? E se eu for uma mãe igual à minha? E não for? Quem sou eu para ensinar alguém? Eu sou só uma miúda...

 

Tenho tanto medo e não conto a ninguém. Como pode uma mãe ter medo? As mães são fortes, só choram à noite, sozinhas, quando todos já dormem. Sinto que esperam tanto de mim, mas eu esperava tanto que me ajudassem nisto...

Todos esperam que eu saiba tudo, e eu finjo que sei. Finjo tão bem. Finjo que sei o que fazer quando a minha filha chora, quando está doente, que sei o que ela precisa de vestir, comer, quanto deve dormir, finjo que sei como a educar. Ponho a minha cara confiante e finjo que não tenho medo. Mas eu sou só uma miúda...

Como posso eu ser mãe de alguém se, quando a vida me deita abaixo, a primeira coisa que penso é quero a minha mãe?

Acreditar que é possível e lutar para que assim o seja: um novo projeto está a chegar!

Foi com esta convicção que saí da consulta de obstetrícia, seis semanas após ter tido a minha filha. 

Acreditei que fosse possível fazer alguma coisa para me sentir melhor, considerando os confusos, intensos e sofridos primeiros dias e semanas após o parto e as respostas nulas que senti que o sistema nacional de saúde tinha para me oferecer e à minha família. 

 

Foi também com esta convicção que criei este blogue. 

Acreditei que fosse possível conhecer outras mulheres com experiências semelhantes, e acima de tudo, que fosse possível promover a disseminação de informação  e a sensibilização para a saúde mental no período perinatal.

 

Foi exatamente com esta convicção que concorri para ingressar no Mestrado em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria.

Acreditei que fosse possível aproveitar esse tempo e espaço para aprender mais em teoria e na prática e para poder continuar com o trabalho que estava a ser realizado, através do blogue e a nível presencial, com as mulheres e famílias que me contactavam.

Acreditei que fosse possível aumentar a qualidade do trabalho a ser realizado e que fosse possível fazer algo mais. Ainda havia e há tanto para fazer!

 

Foi com esta convicção que terminei o Mestrado.

Havendo tanto para fazer, e havendo caminho para tal, acreditei que fosse possível continuar a lutar para produzir algo mais e de qualidade associada. Não só através do blogue, mas também por outras vias. O Mestrado foi necessário, e tem-se revelado uma grande mais-valia a vários níveis. 

 

É com esta convicção que estou a desenvolver um novo projeto profissional.

Acredito ser possível que este projeto possa dar uma resposta qualificada e estruturada considerando as fortes carências de apoio no âmbito da saúde mental no período perinatal.  

 

Este projeto envolve uma missão, um espaço, várias iniciativas, atividades específicas, e é fruto do trabalho contínuo, apaixonado e dedicado, que tenho vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos. 

 

Brevemente será divulgado em específico no que consiste e que tipo de respostas virá oferecer. 

Até lá, deixo registado alguns momentos que têm marcado esta grande, intensa e transformadora viagem. 

 

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A estudar para a discussão pública do relatório final de mestrado no espaço, e a dar apoio à obra. Feliz :) Aqui, sinto-me em casa.

 

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O chão flutuante que tardou em chegar por tantos motivos... Não gostei do serviço de entregas da Leroy Merlin! 

 

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O espaço que começou a ficar diferente quando o branco se impôs.

 

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E a tão pouco tempo do final das obras ainda havia tanto para fazer... obras! :/

 

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As várias viagens em que a minha princesa teve de me acompanhar para transportar coisas para a obra! Parecia-vos muito chateada? Andou radiante! 

 

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A pouco e pouco o espaço começou a ganhar a cor que havia imaginado... mas estava longe de terminar a tempo.

 

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E ainda hoje eles lá estão, a dar mais cor ao logradouro e a dar os últimos retoques. Mas será que isto não tem fim? Eu só quero que estas obras terminem!! Tenho tanto trabalho pela frente...

 

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Ainda há tanto para limpar... e alguns retoques finais por fazer. Mas... vamos a isto que amanhã está cá a transportadora com os móveis...

 

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Ansiosa por montar tudo isto e continuar a trabalhar neste projeto... agora com espaço específico e adequado para o efeito! ;)

 

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E no meio de tudo isto, de toda esta confusão, de todo este zig zag de voltas, de transportes e decisões, a minha princesa esteve sempre a meu lado com este sorriso maravilhoso que aligeirou qualquer problema e que me fez focar a atenção naquilo que é verdadeiramente importante, e que é a essência deste projeto - que foi completamente estimulado pela chegada deste meu tesouro. 

 

Sem possibilidade de evitar que andasse sempre para trás e para a frente neste rodopio, a verdade é que no meio de tudo isto, associar esta experiência às idas aos baloiços, às brincadeiras no parque, na rua que envolve o espaço, à ajuda, às conversas sobre os porquês das diversas coisas a que assistia, os passeios de "cicleta" (que é como quem diz, o triciclo), e acima de tudo, o estarmos juntas, compensou cada momento menos positivo, embora seja claro que tenha tornado mais complexa toda a logística associada ao apoio à obra. 

 

Adorava abrir o espaço ao público quanto antes, mas parece que vou ter de adiar mais uns dias do que o previsto, pois antes disso, ainda há muito, muito, muito para contar, detalhar e esclarecer neste sentido! 

 

Mais notícias em breve! 

Á conversa com a Laura #1 - O nascer de uma mãe. Ou a transformação de uma mulher?

Passados quase seis meses do nascimento da minha filha, eu agora sei e compreendo que eu senti e vivi - e por vezes ainda sinto e vivo - como se eu tivesse morrido após ela nascer e que eu fiz um profundo luto sobre a minha "morte" ao longo dos meses: o meu tempo pessoal acabou, o meu sono não é contínuo, o meu corpo não é o meu corpo, o meu pensamento não é assertivo, a minha casa não é arrumada, os meus lugares não estão alcançáveis, a minha identidade desapareceu... Quem sou eu? Onde eu estou? A Laura?? A Laura morreu.

O meu coração pulsava, os meus pulmões oxigenavam e a minha vida corria à velocidade da luz, escorregadia como a fina areia que nos desaparece entre os dedos das mãos quanto mais a queremos agarrar, mas eu não estava aqui. Eu não estava em lado nenhum. Sentia-me as cinzas de uma árvore, outrora enorme, esbelta, poderosa e repleta de flores, agora queimada após um terrível incêndio, feita louca à procura das minhas raízes, mas preferindo deixar o que restava de mim, voar. Voar para o infinito e para sempre.

Um misto de querer controlar e fugir, um misto de existir e desaparecer, um misto de euforia e de horror; uma bipolaridade permanente que tanto caracteriza as minhas inúmeras máscaras com que eu disfarço as minhas latejantes feridas emocionais, mais antigas que o universo, a que se dá o pomposo nome de transtorno bipolar, mas que é muito mais que um transtorno neurológico: é morar no mais rápido elevador alguma vez criado entre o céu e o inferno.

Sentia que não tinha nascido raio de mãe nenhuma em mim!!! Eu sentia era que eu tinha morrido!

E depois?

Depois, eu não morri. Eu transformei-me.
Através da consciência do meu amado marido e maravilhoso pai da nossa bebé, da minha força de vontade e determinação em querer viver e não apenas existir em negação e juntamente com uma indispensável rede de apoio de profissionais e entidades competentes que me ajudaram e me continuam a ajudar e muito, Kundalini Yoga e meditação, o conhecimento "sem filtros" de mim mesma e a tomada da minha consciência pessoal, foi como que acordar de um longo sonho - ou pesadelo? - e percebi: Eu não morri nem sou apenas a mãe da minha bebé. Eu sou Eu. Com todas as minhas plenas virtudes e os meus plenos defeitos. Eu acertei e errei. Eu adorei e detestei. Eu consegui e desisti.
Eu sou.
Eu sou uma mulher, sou a mãe da minha amada bebé, sou uma filha - a minha mãe guarda-me onde quer que ela esteja para lá da Terra e eu estou em vias de perdoar o meu pai, onde quer que ele esteja aqui na Terra - sou uma amiga, sou a amante do meu amado marido, sou uma pessoa, sou luz, sou alma, sou coração, sou o meu corpo, sou consciente, sou poderosa, sou sábia, sou honesta, sou sincera, sou linda, sou sim, sou não, tenho a certeza que sou, não sei bem se sou, sou verdadeira, sou força da natureza e sou amor. Sou nada e sou tudo. Tudo e nada o que eu quiser.

Que liberdade!

 

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Isto é o nascer de uma mãe.

De eu ser mãe. De tu seres mãe. De ela ser mãe e de elas serem mães. Da tua mãe. Da mãe da tua mãe. De tu como mãe de ti mesma - e por vezes também pai.

Eu não sei bem quem era e agora sou uma mulher plena. Agora eu sou uma mãe. Foi e é tão duro e tão maravilhoso.

Que bom que eu "morri"! Que bom que eu me tornei mãe.

Á conversa com a Ana #8 - "A depressão pós-parto mostrou-me um novo caminho"

Porquê uma Depressão? Porquê um início de viagem na maternidade assim? Porquê é que não senti felicidade, amor e alegria pela chegada de uma filha desejada? O que isto dizia de mim? Estas questões andaram dentro de mim, à espera de respostas que pudessem acalmar a minha mente e o meu coração.

 

Quando grávida li sobre a ocorrência do Baby Blues e da DPP e achei que a depressão seria algo que não me aconteceria e o baby blues, é descrito como algo tão comum e passageiro, que a minha mente não se preocupou. Se acontecesse, passaria. Pensava mais no parto. Assustava-me, creio que dentro do normal, com as dores. Preparei-me para elas (dentro do que seria possível). Fiz o curso de preparação. Treinei as técnicas de respiração. Recebi shiatsu durante toda a gravidez para aliviar os incómodos físicos e sossegar os receios.

 

Chegou o dia do parto. Tive uma receção no hospital S.Francisco Xavier que eu chamaria de pouco sensível/humana. Houve um primeiro choque. Estava com contrações de 5 em 5 minutos, já muito dolorosas e, em vez de receber orientação, mandaram-me para casa, para “voltar daqui a uma semana”. Uma falha de comunicação gigantesca! E acredito que um dos fatores que contribuíram para o pós-parto que experienciei.

 

Voltamos para casa, eu cheia de dores, os dois sem saber o que fazer. Se os médicos dizem que ainda não é tempo, o que fazer?! Mas as dores eram cada vez maiores. Acabamos por ir parar ao Hospital de Cascais e a C. nasceu. Lembro-me que não fui inundada por emoções de felicidade e amor. Estava exausta. Foram muitas horas de dor e sensação de estarmos perdidos, sem saber o que fazer, mais a experiência do processo lento da dilatação e da expulsão…lembro-me que a C. nasceu, as enfermeiras tratavam dela e eu andava ali a flutuar, entre o rescaldo daquela experiência de dor sobre-humana e o fato dela estar ali, fora de mim.

 

Os dias que estivemos no hospital cuidei dela. Não sentia receio de ir para casa. Pelo contrário, queria ir. Fiz um edema muito grande e estava cheia de dores. Não tinha posição para nada. Esperei que me medicassem. Esperei horas. E quando a médica foi finalmente ao quarto, pedi para que não tocasse porque doía-me imenso. E ela mexeu. Gritei que nem um animal ferido. Gritei para que não me tocasse. Ela pensava que eu já estava medicada. Chamou o meu marido para me acalmar. Eu chorava, tremia e assim fiquei durante uma hora. A partir daí não deixei que ninguém me tocasse.

 

Fomos para casa. Estava muito dorida, não conseguia sentar-me, deitar-me só em determinadas posições. Mas estava medicada e pensei que tudo passaria. Não sei como as coisas foram sucedendo, mas lembro-me do meu primeiro sonho, creio que passadas poucas semanas. Ia no carro com a C. e despistei-me intencionalmente…

No fundo, a minha cabeça já dava sinais de que algo não estava bem. As semanas foram decorrendo, eu a sentir-me cada vez mais ansiosa, exausta e desesperada.

 

Se pegar naquelas listas que abundam na internet, com dicas para escapar a uma depressão, eu consigo dizer que reuni tudo:

  • Foi uma bebé desejada, não tive problemas em engravidar e a gravidez foi tranquila
  • Não existe historial de doenças mentais na família
  • A C. nasceu saudável, não tive problemas com o processo de amamentação e ela dormia períodos de tempo longos, para uma bebé recém-nascida
  • Tenho um companheiro fantástico, com quem partilho todas as tarefas da casa e do cuidar da C. (e tivemos a ajuda de uma pessoa que limpava a casa 2x por mês)
  • Conversava com ele, com a médica de família, com amigas
  • Saía de casa, sozinha, com ele, com amigas
  • Contava com uma rede de apoio sólida (avós que ficavam com a C. para sairmos, que nos preparavam refeições, etc.)

 

Mas ela aconteceu ainda assim. Percebi que esta experiência, como em tudo na nossa vida, acontece por uma série de fatores. Compreendê-la significa olhar para vários ângulos e perspetivas.

 

Existe a causa fisiológica. As hormonas andam num rebuliço enorme durante a gravidez e caiem abruptamente após o parto. O corpo pode precisar de uma ajuda (química) para voltar ao seu equilíbrio.

Existem as causas circunstanciais, relacionadas com as condições em que o casal vive (as tais ajudas da família, o apoio do companheiro, etc.).

E existe a nossa mochila, que trazemos connosco ao longo da vida e que vai guardando as nossas experiências, memórias e emoções. O nascimento da C. foi um acontecimento que pôs a descoberto tudo isto. Pôs a nu as minhas fragilidades e os meus medos. Mostrou aquilo que eu já conhecia de mim e muito do que eu não conhecia inteiramente. Foi buscar o meu passado, o período conturbado do fim da minha infância, da adolescência e o início na vida adulta. Evidenciou a falta de amor (digo amor incondicional) suporte e segurança com que cresci.

 

 

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Ao longo da minha vida já passei por algumas daquelas experiências, extremamente dolorosas, que abanam todo o nosso centro. Que nos mandam à grande para o chão. Eu diria que existiram 3 momentos deste tipo. Cada um deles abanou todo o meu mundo, mudou tudo na minha vida. Mas também me mostraram um novo caminho. Foram lições de crescimento. A depressão trouxe-me muito. Trouxe mais resiliência e capacidade de relativizar. Trouxe-me mais calma e tolerância. Trouxe-me mais compreensão e consciência. Trouxe-me mais amor por mim e por aqueles que me rodeiam.

"Tive medo de saber mais sobre depressão pós-parto porque não queria desenvolver uma"

Há poucos dias, num grupo de mães, uma das mulheres referiu que durante o curso de preparação para o nascimento foram-lhe dados vários folhetos sobre depressão pós-parto e alterações emocionais no pós-parto, mas que assim que chegou a casa, os arrumou na gaveta. 

 

Teve medo de ler mais, com medo de ficar a pensar sobre o assunto, e de desenvolver uma depressão pós-parto. 

Teve receio de falar sobre o tema, com medo que tal disputasse algo dentro de si, e que desenvolvesse uma depressão pós-parto. 

Teve medo de pensar sequer, sobre o assunto, pois no seu ponto de vista, quanto mais pensasse, pior poderia ser para si. Não queria ficar triste, nem com "medos irreais na cabeça" para não influenciar o seu bebé.

 

Colocada esta partilha, sugeri que numa próxima sessão trouxesse os tais folhetos que lhe deram no curso, para os lermos em conjunto, e para que ela pudesse esclarecer todas as questões que tinha sobre o tema, acompanhada.

 

Eu apercebi-me da forma como estes receios estavam imbuídos na sua linguagem corporal há medida que ia falando sobre o assunto, assim como, o facto de cada um destes receios ia gerando uma fantasia cada vez maior sobre o tema que se expressava através do seu discurso. Para além disto, sabia que ao falar de forma direcionada e aberta sobre o tema, poderia levar a alguns riscos, tais como, a mulher inibir-se no grupo de expressar emoções, por exemplo.

 

Há sempre riscos que se correm quando se fala mais especifica e particularmente sobre o tema. Contudo, são menores, próximo das vantagens que considero identificar por falar sobre o tema, desta forma, com estas mulheres:

 

- Ficam informadas e a informação que recebem é fidedigna e ajustada;

- Estão num espaço propício para o fazer;

- Estão acompanhadas por um profissional especialista na área, que está atento e com quem podem esclarecer todas as questões sobre o tema;

- Ficam com a referência de um profissional e local onde podem recorrer para pedir apoio, caso se verifique necessário em algum momento;

- O contacto entre mim e estas mulheres mantém-se mesmo após os momentos de encontro do grupo, sabendo elas, que podem obter esse suporte quando necessitarem;

 

Para além desta questão, e nestes grupos, não é só sobre isto que falamos. Tal como costumo dizer, não é que a depressão pós-parto seja o maior problema que podem desenvolver, mas poderá ser um dos. E como tal, não há problema de estarem informadas sobre o tema, tal como não há problema de estarem informadas sobre quais os melhores produtos para dar banho ao bebé, ou sobre amamentação, cuidados com o corpo, etc. Estarem informadas sobre depressão pós-parto, é tão importante, como estarem informadas sobre qualquer questão inerente ao período da gravidez e do pós-parto. 

 

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Contudo, ainda há aquele mito de que falar sobre depressão pós-parto, é quase que contagioso. Mas não é, acreditem. Até porque a depressão pós-parto é uma doença, mas não é contagiosa. Falar, erradica o fator surpresa, e aumenta a consciência sobre o tema. Falar, promove a sensibilização, a informação e a preparação para um momento único na vida de cada mulher, companheiro, casal e família - a maternidade - que tanto pode mostrar o seu lado luminoso, como o seu lado lunar.

 

E o lado luminoso e lunar não estão presentes em qualquer coisa na vida?

Então porque tememos tanto pensá-los (em conjunto) no período da maternidade?

 

Temos de falar sobre isto!

blog@mulherfilhamae.pt  

Histórias que dão a cara por esta causa #25 "Quando ao fim de três anos consegui o que mais desejava entrei em choque e tive depressão pós-parto"

E quando se quer muito ser mãe mas é díficil, e se tem de partir para tratamentos específicos, a carga emocional é mais do que muita associada a este momento. As expectativas constantes, os tratamentos sem resultados, a menstruação que teima em aparecer, e um dia, tudo muda quando este bebé chega. Mas muitas destas questões podem afetar emocionalmente a mulher e o casal, e após tanta luta nesta sentido, instala-se a depressão. 

 

Não é de admirar. No entanto, a Rita partilha connosco a sua história, e como a superou! Sim, porque a depressão pós-parto, para além de ter solução, influência vivências muito próprias de cada mulher. 

 

Leiam a história da Rita, e partilhem as vossas também! 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

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Antes de ser mãe questionei-me mil e uma vezes o motivo pelo qual não conseguia ter filhos. Remoí, deprimi, odiei, chorei, desejei morrer. Quando finalmente, ao fim de três anos e muitos tratamentos falhados, consegui o que mais desejava, o que parecia impossível, entrei em choque. Retenho algumas imagens, vincadas, do meu Gonçalinho, com apenas um mês, a espernear com cólicas e eu, lavada em lágrimas, sem saber o que fazer. Tive depressão pós-parto. Não falava com ninguém. Só com o meu filho. Fechei-me em casa e vivi exclusivamente para ele. Sinceramente, não sei o que esperava. Quer dizer, sei. Tal era a imagem que tinha da maternidade que pensava que um bebé dava menos trabalho do que na realidade dá. Pensava que com o meu seria cor-de-rosa. Chorei durante meses a fio. Seis ou sete no total. Tive de optar várias vezes, sem saber bem se estava certa ou se estava errada. Errar e acertar. Errar e acertar. Era o jogo da tentativa erro.


Mas o Gonçalo criou-se. Com muito amor, muita ansiedade, expectativa. Estava muito em jogo. Era (e é) o meu menino de oiro. Depois veio o mano e tudo mudou. O lugar exclusivo foi alargado ao novo membro da família. Tenho memórias doces e ternas de tudo o que fiz com o Rodriguinho. Aproveitei mais. Diverti-me muito. Nunca chorei. Não tive "baby blues". Nunca me fechei em casa e saí o máximo que pude. Ambos foram crescendo e não me canso de o dizer, já se passaram quatro anos. O Rodrigo imita o mano mais velho. A disputa é uma constante. Tanto que notamos uma alteração no comportamento do Gonçalo.


Não foi de um dia para o outro. Talvez até nem tenha começado nele e sim em nós, por termos outro bebé em casa. Sem que nos tivéssemos dado conta, talvez tivéssemos passado a dar mais atenção ao mais novo, em vários sentidos: desde o dormir, à escolha da roupinha, à hora da mamada, ao ritual de embalar para adormecer, ao pegar ao colo gentilmente. Tudo coisas que o Gonçalo já não tinha ou deixara gradualmente de ter. Sei com todo o meu coração que a vinda do mano o afetou. Até que ponto, nunca vou compreender. Faço o melhor enquanto mãe para o ajudar a entender as frustrações e as neuras dele, as famosas “birras” que por cá são bastante violentas. Errar e acertar. Errar e acertar. Tal como há quatro anos, é o jogo da tentativa erro. Comecei por entender que a reação de um pai face a isso é decisiva. Se um pai se irrita e esperneia como o filho, o filho seguirá o modelo. Se um pai bate ao filho como forma de castigo, o filho bate noutros (ou no progenitor) quando está chateado, pois é o modelo que encontra; se fica com um tempo para pensar, não pensa, porque ainda não consegue entender a causa e a consequência do que faz. Não como um adulto gostaria. Depois passei a agir de forma diferente. Quando se porta mal, digo-lhe que isso não se faz. Digo-lhe o que espero dele. Se esperneia, deixo que se acalme e explico-lhe o que fez de errado. Se estou chateada com ele, explico-lhe o motivo. Digo-lhe para contar até três devagarinho quando quer que lhe traga alguma coisa rapidamente. A mãe não é super-heroína. Comecei a reservar um tempo só para nós. Antes, isso era impensável. Mas agora, que nem sempre quer fazer a sesta, vamos passear os dois. Passar tempo de qualidade. Brincar. Brincar é muito importante, pois ajuda-os a compreenderem o mundo e a entenderem quem são. A sonhar. Um pai que brinca com um filho cria um elo para toda a vida, mesmo que pareça “secante”.


Depois digo-lhe que o amo, e que sempre o vou amar. Digo-lhe que é muito importante para mim, que é especial e que tenho orgulho dele e em ser sua mãe. É preciso dizê-lo. Não basta sentir. Aos poucos, vou construindo um caminho. Com algumas vitórias e alguns fracassos. Não faz mal. O que interessa é o percurso. É árduo. Às vezes choro. Mas 90% das vezes é de felicidade.

"Tenho receio de partilhar a minha história pois tenho medo que me tirem a minha filha"

Na última semana várias foram as mulheres que me abordaram com alguma questão através do email, e três delas, recearam partilhar a sua história, por receio que alguém considerasse que não fossem boas mães, e que lhes pudessem retirar os filhos. 

 

Rápido compreendi, na medida em que, este é, de facto, um receio muito comum nas mulheres que são mães e que não começam a viver a maternidade da forma mais feliz e tranquila quanto o esperado. 

 

E este receio prende-se com muitas questões, sendo que, algumas delas já abordei neste texto. Contudo, existem outras igualmente importantes, e aqui, lá vamos nós (outra vez) bater no estigma face à saúde e doença mental. Mas a verdade, é que assim o é. Ele existe, arde entre nós, e cada um à sua maneira, enquanto fizer deste tipo de assuntos um tabu, alimentará a sua chama. 

 

Como é que queremos que a maternidade seja vivida de forma plena, se consideramos que o natural se prende em exclusivo com a felicidade e o recheio de momentos cheios de cor e de vida?

Como é que queremos que a maternidade seja vivida de forma tranquila, se não aceitamos que os momentos mais ansiosos e menos positivos também dela fazem parte? Que não é tudo floreado, nem tudo divertido?

Como é que queremos que a maternidade seja percecionada como integrando no seu todo uma forma natural de vida, se não aceitamos que a vida em si, não é sempre, e nem num todo simplesmente, feliz?

 

E assim sendo, considerando que, para muitos a busca incessante pela vivência absolutamente feliz terá de ser uma constante, muitas pessoas desiludem-se e cedo verificam que o naturalmente decorrente da vivência da maternidade, por vezes é feliz, e por vezes, é ruindade. Assim o é, e é-o sem maldade. É assim que o natural se acrescenta ao todo de um forte processo de desenvolvimento pessoal e conjunto, que é a maternidade. 

 

A maternidade é cor! Mas nem sempre é amarelo, azul ou rosa. Por vezes é acinzentado, outras vezes é branco e/ou preto. 

A maternidade é luz! Mas nem sempre brilha, por vezes está mais apagada. 

A maternidade é vida! Mas nem sempre tem a mesma vitalidade. 

 

E por vezes, deixa de ser tão natural nem sempre ser amarelo, nem sempre brilhar e nem sempre ter vitalidade, passando a ser uma constante incapacitante, e verifica-se que o processo de doença ocorre, e aí o sofrimento é atroz para todos! 

 

Não há exceção que se aplique, e todos os que estão envolvidos, confrontam-se com este tipo de vivência: não esperada, nem desejada. Ignora-se de inicio, discute-se muito após, e continua-se, por vezes, numa bolha ténue entre a realidade do que se é, e a realidade do que se gostaria que fosse. A sofrer, quase sempre, a perder a paciência constantemente, e a culpabilizar-se com frequência. Todos. Cada um à sua maneira. 

 

E se até aqui, se estarmos preparados para esta problemática era fundamental, aqui, torna-se premente que assim o seja. Não há volta a dar. E mesmo a sofrer, mesmo a perderem-se de dentro para (e por) fora, muitas mulheres vivem numa ambivalência sem fim à vista. 

 

Querem procurar ajuda, mas temem ser julgadas. 

Querem ser mães em pleno, mas sofrem por tentar sê-lo.

Querem voltar a sentir-se mulheres, mas não sabem onde estão, nem para onde ir. 

Querem (ou não) amar o seu rebento sem obstáculo, mas temem ficar a sós com ele, por exemplo. 

 

Consideram não haver solução, sentem um medo de morte, uma dor profunda, e o mais incrível, é que muitas continuam a cuidar o melhor que podem, o melhor que sabem, temendo constantemente serem julgadas em praça pública só por assumirem a alguém que poderão ter uma depressão pós-parto, por exemplo. 

Mas por vezes a dor não passa, só o tempo. E há medida que o tempo passa, por vezes a dor piora e eleva-se a necessidade de tratamento e acompanhamento. E este é necessário, é fulcral, é fundamental. E há que compreender porquê. 

 

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Quando lemos sobre o assunto, verificamos que provavelmente milhões de mulheres já passaram por uma depressão pós-parto, que possivelmente milhares de mulheres já tentaram fazer mal a si e/ou aos seus bebés, vários profissionais têm investigado sobre o tema a nível mundial, e vários são os recursos que florescem todos os dias a nível mundial na tentativa de apoiar estas mulheres e respetivas famílias, vários divórcios já ocorreram, várias famílias com marcas ficaram, várias pessoas recusam-se a voltar a passar pela experiência da maternidade/paternidade com receio de voltarem a viver uma experiência destas, sendo que, provavelmente, completamente sozinhos num estado que pouca importância oferece ao assunto. E mesmo assim (mesmo assim!) em pleno século XXI, ainda existem mulheres que têm receio de partilhar a sua história, com receio de serem consideradas más mães, e que lhe retirem os seus bebés. 

 

Só pode mesmo estar tudo muito errado connosco, cidadãos de uma sociedade onde a maternidade, é tudo menos uma novidade, e que, ainda hoje, direta ou indiretamente, julga e incompreende na sua profunda totalidade, mulheres com (por exemplo) uma depressão pós-parto, sem vislumbrar por um momento sequer, que estamos a falar de uma doença, e não de uma pessoa, ou daquilo que essa pessoa é, ou será capaz de ser. Sem compreender que precisamos que estas mulheres se sintam confortáveis para falar, em prol do si, e do seu bebé. Que precisamos de compreender, de saber aceitar e de saber reencaminhar, para lhes dar, a todos, a maior segurança possível. Que é de um bebé que estamos a falar, mas que um bebé estará muito incompleto se a sua mãe ausente se sentir ou se demonstrar. Que estamos a falar de uma pessoa, para além de uma mãe.

 

Uma pessoa, que é mulher, uma mulher que é mãe, uma mãe que é pessoa. 

Portanto, fixem esta equação:

[Mulheres com experiência de depressão pós-parto] não é igual (de todo!) [a depressão pós-parto]. 

 

Dúvidas?

blog@mulherfilhamae.pt