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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Histórias que dão a cara por esta causa #25 "Quando ao fim de três anos consegui o que mais desejava entrei em choque e tive depressão pós-parto"

E quando se quer muito ser mãe mas é díficil, e se tem de partir para tratamentos específicos, a carga emocional é mais do que muita associada a este momento. As expectativas constantes, os tratamentos sem resultados, a menstruação que teima em aparecer, e um dia, tudo muda quando este bebé chega. Mas muitas destas questões podem afetar emocionalmente a mulher e o casal, e após tanta luta nesta sentido, instala-se a depressão. 

 

Não é de admirar. No entanto, a Rita partilha connosco a sua história, e como a superou! Sim, porque a depressão pós-parto, para além de ter solução, influência vivências muito próprias de cada mulher. 

 

Leiam a história da Rita, e partilhem as vossas também! 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

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Antes de ser mãe questionei-me mil e uma vezes o motivo pelo qual não conseguia ter filhos. Remoí, deprimi, odiei, chorei, desejei morrer. Quando finalmente, ao fim de três anos e muitos tratamentos falhados, consegui o que mais desejava, o que parecia impossível, entrei em choque. Retenho algumas imagens, vincadas, do meu Gonçalinho, com apenas um mês, a espernear com cólicas e eu, lavada em lágrimas, sem saber o que fazer. Tive depressão pós-parto. Não falava com ninguém. Só com o meu filho. Fechei-me em casa e vivi exclusivamente para ele. Sinceramente, não sei o que esperava. Quer dizer, sei. Tal era a imagem que tinha da maternidade que pensava que um bebé dava menos trabalho do que na realidade dá. Pensava que com o meu seria cor-de-rosa. Chorei durante meses a fio. Seis ou sete no total. Tive de optar várias vezes, sem saber bem se estava certa ou se estava errada. Errar e acertar. Errar e acertar. Era o jogo da tentativa erro.


Mas o Gonçalo criou-se. Com muito amor, muita ansiedade, expectativa. Estava muito em jogo. Era (e é) o meu menino de oiro. Depois veio o mano e tudo mudou. O lugar exclusivo foi alargado ao novo membro da família. Tenho memórias doces e ternas de tudo o que fiz com o Rodriguinho. Aproveitei mais. Diverti-me muito. Nunca chorei. Não tive "baby blues". Nunca me fechei em casa e saí o máximo que pude. Ambos foram crescendo e não me canso de o dizer, já se passaram quatro anos. O Rodrigo imita o mano mais velho. A disputa é uma constante. Tanto que notamos uma alteração no comportamento do Gonçalo.


Não foi de um dia para o outro. Talvez até nem tenha começado nele e sim em nós, por termos outro bebé em casa. Sem que nos tivéssemos dado conta, talvez tivéssemos passado a dar mais atenção ao mais novo, em vários sentidos: desde o dormir, à escolha da roupinha, à hora da mamada, ao ritual de embalar para adormecer, ao pegar ao colo gentilmente. Tudo coisas que o Gonçalo já não tinha ou deixara gradualmente de ter. Sei com todo o meu coração que a vinda do mano o afetou. Até que ponto, nunca vou compreender. Faço o melhor enquanto mãe para o ajudar a entender as frustrações e as neuras dele, as famosas “birras” que por cá são bastante violentas. Errar e acertar. Errar e acertar. Tal como há quatro anos, é o jogo da tentativa erro. Comecei por entender que a reação de um pai face a isso é decisiva. Se um pai se irrita e esperneia como o filho, o filho seguirá o modelo. Se um pai bate ao filho como forma de castigo, o filho bate noutros (ou no progenitor) quando está chateado, pois é o modelo que encontra; se fica com um tempo para pensar, não pensa, porque ainda não consegue entender a causa e a consequência do que faz. Não como um adulto gostaria. Depois passei a agir de forma diferente. Quando se porta mal, digo-lhe que isso não se faz. Digo-lhe o que espero dele. Se esperneia, deixo que se acalme e explico-lhe o que fez de errado. Se estou chateada com ele, explico-lhe o motivo. Digo-lhe para contar até três devagarinho quando quer que lhe traga alguma coisa rapidamente. A mãe não é super-heroína. Comecei a reservar um tempo só para nós. Antes, isso era impensável. Mas agora, que nem sempre quer fazer a sesta, vamos passear os dois. Passar tempo de qualidade. Brincar. Brincar é muito importante, pois ajuda-os a compreenderem o mundo e a entenderem quem são. A sonhar. Um pai que brinca com um filho cria um elo para toda a vida, mesmo que pareça “secante”.


Depois digo-lhe que o amo, e que sempre o vou amar. Digo-lhe que é muito importante para mim, que é especial e que tenho orgulho dele e em ser sua mãe. É preciso dizê-lo. Não basta sentir. Aos poucos, vou construindo um caminho. Com algumas vitórias e alguns fracassos. Não faz mal. O que interessa é o percurso. É árduo. Às vezes choro. Mas 90% das vezes é de felicidade.

Infertilidade: E quando o corpo não responde como nós gostaríamos?

Há pouco tempo tive com uma amiga que me confidenciou que está com algumas dificuldades para conseguir engravidar. 

Assim que começou a falar sobre o assunto, algumas lágrimas começaram a espreitar e outras teimaram mesmo em percorrer-lhe o rosto rápida e espontaneamente. 

Enquanto a abraçava com toda a amizade e compreensão, determinadas recordações começaram a emergir na minha mente e o meu coração não ficou indiferente. A velocidade do batimento quase duplicou, tornando todas essas memórias e emoções associadas, bem físicas e presentes.

 

Parecia que tinha sido ontem. Voltei aquela fase da minha vida em que também eu tive algumas dificuldades para engravidar. Não tantas como ela e como tantas outras mulheres que passam anos a tentar, mas o tempo em que eu tentei, pareceu uma eternidade. E penso que o parece a qualquer um que desejar muito ter um filho e que passados alguns meses/anos a tentar, verifica que não é tão fácil assim.

 

  • Lembrei-me perfeitamente daquela sensação de tanto querer que chegasse aquele dia, em que a menstruação não aparecesse, e o teste de gravidez confirmasse o seu motivo.
  • Lembrei-me perfeitamente daquela sensação de desilusão profunda, cada vez que chegava o tal dia do mês, e o meu corpo teimava em mostrar-me que ainda não tinha sido desta vez, ao longo de vários meses seguidos. 
  • Lembrei-me também que foi exatamente, em dois desses grandes momentos de desilusão, que duas grandes amigas me comunicaram com toda a alegria e felicidade típica do momento que estavam grávidas.
  • Lembrei-me de não ter conseguido demonstrar-lhes a minha felicidade como desejava, como demonstraria em qualquer outro momento da minha vida, e de me sentir (muito) mal comigo mesma por isso.
  • Lembrei-me de quando não aguentei sentir tudo isto para mim e resolvi deitar tudo cá para fora
  • Lembrei-me de quando comecei a não acreditar que tal fosse possível, e que nem queria imaginar a minha vida, se assim fosse. 

 

Também me passou pela cabeça que por necessidade, obrigação ou simples vontade, muitos adiam a chegada de um filho (tal como eu fiz) e que chegada a altura, os corpos fazem tremer as certezas e aí brotam as dúvidas, de se essas foram as melhores opções.

 

Todas estas memórias ressuscitaram, permaneceram, emocionaram-me e desvaneceram enquanto nos abraçamos. Assim sendo, aproveitei o calor do momento para partilhar tudo isto com ela e fazer-lhe ver e sentir que muitas histórias têm finais felizes, e (re)começos ainda melhores!

Mas sim, é verdade. Sei que enquanto vivemos esta realidade, a mesma é crua e torna-se cada vez mais desconfortável de sentir há medida que o tempo passa e que a ausência de resultados pretendidos, relacionados com o desejo de ter um filho, grita e ecoa.

 

Também sei que os outros não ajudam. Sejam eles quem forem. Que perguntarem sempre que nos vêem "se já conseguimos", "quando é que o bebé vem", que "já adiamos muito e qualquer dia estamos velhos para ter filhos", não são (de todo!) os melhores comentários para se ouvir, nem nesta, nem em qualquer outra fase da nossa vida. Embora como é obvio, ouvi-los nesta fase, seja ainda pior!

 

Nesta mesma semana, em que revivi muito sobre algumas das dificuldades que tive para ter a Madalena, recebi no meu email esta infografia sobre A verdade sobre a infertilidade e senti que seria um bom momento para partilhar ambas: O meu testemunho, e esta informação complementar e com autores que considero fidedignos. 

 

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Partilhem esta informação com quem considerem que seja pertinente, pois desejar ser Mãe e ser Pai, e verificar que o processo é muito mais complicado, demorado, e por vezes, impossível de conseguir, é um sofrimento que vem de fininho, instala-se e vai-nos decompondo devagarinho ao longo de meses, e muitas vezes, anos de tentativas, tornando este florescente desejo, numa realidade escura e vazia de se viver. 

 

Um abraço bastante sentido a todos estes Pais de coração! *