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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Todos acham que eu já devia saber tudo sobre como cuidar de um bebé porque...

...Sou educadora de infância.

...É o meu segundo filho.

...Sou profissional de saúde. 

...Já sou mãe de três. 

...Trabalho com crianças.

...Sou professora. 

...Já cuidei de todos os meus primos. 

...Sou mulher. 

...Sou mãe.

 

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Estas foram as diversas respostas que eu já ouvi, por parte de mulheres, que sentem que as pessoas que as rodeiam consideram de alguma forma - seja porque o dizem, seja porque o demonstram, seja porque tecem comentários menos apropriados para o momento, seja porque simplesmente o sentem - que elas deviam saber tudo sobre como cuidar de um bebé. 

 

É também nesta pressão, que eu diria social, que nasce em larga escala o sentimento de culpa que muitas destas mulheres também carregam, por sentirem e/ou frequentemente se questionarem, sobre a sua capacidade de cuidar de um bebé. É no seu instinto que brota alguma sensação de alívio e/ou conforto, mas é também nas suas dúvidas, perceção de falta de apoio - incluindo aqui o social também - e na sua relação consigo mesmas que muitas vezes nasce o primeiro sentimento de que falei. 

 

Serei boa mãe o suficiente? 

Estarei a fazer o indicado no cuidado para com o meu filho?

Será que ele está confortável? 

Todos acham que eu já devia saber tudo sobre como cuidar de um bebé, mas não é assim que me sinto. 

 

E por vezes, no espaço do social, não há lugar para este tipo de expressão. Para a expressão de uma mulher, agora mãe, que precisa, que necessita, que muitas vezes grita quase em silêncio, bem baixinho, com vergonha, e com grande necessidade de se expressar, que apoio, compreensão e afeto, são as três palavras mais desejadas, e muitas vezes as três palavras mais caras, que neste momento, alguém lhe pode dar. 

 

E porquê? Porque mais caras, e portanto, menos acessíveis?  

Porque não doadas? Facilmente transmitidas? 

 

Somos frequentemente capazes de doar algo a uma instituição, de dar algo a um sem abrigo que passa na rua, de doar o nosso tempo a famílias e crianças carenciadas de algum tipo de apoio. E porque não, doar algum do nosso apoio, compreensão e afeto, a uma mãe confusa, por vezes desesperada, e desamparada, que carrega um bebé? Uma mãe que pode não dizê-lo, mas que facilmente o transmite através de um olhar, de uma expressão, ou de uma ausência inesperada, por exemplo. 

 

Todos acham que as mães, por serem mães, têm de saber cuidar. E se a mãe considerar que não sabe? E se tiver muito medo? E se o medo a impedir de tentar? E se não estiver disponível para aprender? E se quiser aprender, mas tiver muitas dúvidas? 

 

Será que é contribuindo para sua culpabilização que a vamos fazer sentir melhor? Que ela vai sentir que cuidará melhor do seu bebé? Ou é, fornecendo apoio, compreensão e afeto? Respeitar o seu tempo, estar atento, pedir ajuda especializada quando necessário, falar simplesmente com alguém que possa perceber um pouco mais das suas dificuldades, não pressionar, mostrar-lhe que gosta dela, como ela é. E como ela é, é também sentir dúvidas e ter dificuldades. É também, nem sempre saber.

 

E não é por isso que deixa de ser mãe.

E não é por isso que não faz o melhor que sabe naquele momento e dentro do presente contexto.

 

Todos acham que as mães deviam saber tudo sobre como cuidar de um bebé, mas todos se esquecem que por trás de uma mãe, está uma mulher, está uma pessoa, está um ser humano, e que continua ter, todas as suas características associadas.  

 

E já agora, será mesmo possível saber tudo sobre o que quer que seja?

Será mesmo possível saber tudo sobre como cuidar de um bebé? Sobre como cuidar de alguém? 

 

Fica a questão.

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Estás a preocupar-te demais! Não vês que o bebé está bem?

Nos diversos contactos com mulheres grávidas e no pós-parto, que vou tendo através do blogue, e onde muitas vezes são descritas passagens de vida onde afirmações como a que evidencio no titulo deste texto são bastante comuns, várias vezes me questiono sobre porquê, onde e quando é que as pessoas se deixaram de preocupar com as mulheres e homens nesta fase do ciclo de vida. Ou então, porquê, onde e quando o deixaram de o manifestar. 

 

E reparem que evidencio o papel da mulher e do homem neste texto, e não o da mãe ou o do pai. Pois embora estejam interligados, inseridos num fundo comum a uma mesma pessoa, constituem-se lugares diferentes e que de igual medida, mas de diferente forma, necessitam de ser nutridos e acarinhados. 

 

Os bebés são inquestionavelmente seres que só pela sua imagem apelam ao nosso contacto e dedicação. E há muito que isto é um facto conhecido e amplamente estudado.

Os  bebés precisam muito do amor, carinho, atenção e da envolvência de quem os cuida. E quem os cuida, por norma, são os pais. No entanto, também os pais necessitam de amor, atenção e envolvência de quem os rodeia. Possivelmente, mais do que em muitos momentos de suas vidas. Este, por norma, é o momento em que também os pais, que (por vezes) nascem quando nasce um bebé, precisam de apoio e orientação. Falo de amigos, de família, mas também falo da comunidade que os envolve e onde estão inseridos os profissionais de saúde com quem contactam, assim como, os vizinhos, os senhores dos cafés onde costumam ir, assim como, os do supermercado ou da mercearia, talho, mercado e afins.

 

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Quando digo que precisam, acreditem que muitas vezes não é de forma declarada. Muitas vezes, os pais, precisam lá bem no seu íntimo que essa compreensão, apoio, orientação seja espelhada em diversos detalhes do dia-a-dia, mesmo que eles, não o verbalizem. Imaginem comigo, não acham que é difícil acabar de ter um bebé, e verbalizar que se precisa de ajuda, especialmente a nível emocional, porque não se sentem bem, ou porque não se sentem capazes, ou porque questionam continuamente a sua capacidade de cuidar? 

 

Qual acham que seria a resposta da maioria das pessoas que os rodeiam? 

Como é que acham que estes pais se sentem? A nascerem pais, e com estas dúvidas constantes na cabeça, e possivelmente desesperançados de algum tipo de resposta neste sentido?

 

Eu tenho uma ideia. 

 

Quando vos falo de apoio, compreensão e orientação, também vos posso dar alguns exemplos mais práticos.

Por exemplo:

  • Precisam que os "senhores dos cafés" os recebam como de costume, e não que questionem com frequência se os pais não deviam era estar em casa porque faz frio, ou porque o bebé precisa é de estar em casa e não sair (nos seus pontos de vista) considerando logo à partida que o bebé pode não estar muito confortável porque chora, ou porque simplesmente, assim o consideram (mas como é que eles sabem disto?! Em que é que se baseiam? Numa sabedoria popular? E porque não perguntam diretamente aos pais o que estes acham? Não seria esta uma forma mais simples de se mostrar essa compreensão em vez de se questionar a sensibilidade e o papel dos pais logo à partida? Digo eu...);

 

  • Precisam que as pessoas nos supermercados, na rua, nas lojas e afins, não fiquem fixamente a olhar quando veem um bebé chorar (Sabem... os bebés choram, e por vezes, os pais simplesmente ficam sem saber o que fazer/responder a este bebé naquele momento. Acontece. Ainda por cima quando todos os que os rodeiam resolvem fixar manifestamente o momento, expressando emoções que transmitem pouca confiança/desconforto de alguma forma. Por vezes, até os pais mais confiantes se sentem envergonhados nestes momentos. Mas é assim, na generalidade dos casos, faz parte do "conhecer o bebé", e do "conhecerem-se a si próprios enquanto pais deste bebé" pois este não nasce concomitantemente com livro de instruções na mão e/ou com uma previsibilidade comportamental estampada na testa. Sabiam?);

 

  • Precisam que os amigos e família respeitem a sua preferência de não haver visitas em casa nos primeiros tempos, assim como, que tenham alguma consciência de que se querem efetivamente ir visitá-los que é importante perguntarem a sua opinião, ou até, levarem o almoço/jantar e assim é menos uma refeição que estes pais têm de fazer. Ah! E se alguém ajudasse a passar uma roupinha a ferro? Ou a por uma ou outra máquina a lavar? Ou ajudasse a dar um jeitinho à casa? Ou ficassem, pelo menos, 10 minutos a tomar conta do bebé para estes pais irem tomar um banho, considerando por eles, minimamente decente? São só algumas ideias, mas podia dar-vos muitas mais!

 

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Bom, exemplos desta índole, não faltam! Mas não é só sobre isto que vos quero falar neste texto. É também, e especialmente, sobre o facto de haverem determinados momentos ao longo da gravidez e/ou no pós-parto onde os pais acabam por sentir maior preocupação em relação ao bebé. Seja porque o desejam há muito tempo e agora vão tê-lo nos seus braços e não querem que "nada corra mal", seja porque houve uma gravidez de risco difícil de se lidar, seja porque houve uma ecografia que demonstrou algumas possíveis alterações que posteriormente se vieram a verificar falsas, seja porque o parto não correu como o esperado, seja porque o temperamento do bebé não é o imaginado, ou por qualquer outro motivo. Seja pelo que for, existe uma preocupação, um motivo de dúvida, algo que poderá causar uma ansiedade crescente neste período, que por si só, já é muito delicado a nível emocional. 

 

A questão é, porque é que as pessoas teimam em desvalorizar este tipo de preocupações, se à partida, e ainda por cima quando declaradas pelos próprios pais, são motivo de ansiedade crescente e/ou até angústia associada em muitos casos? Porque é que optam por desvalorizar, focando-se no facto de bebé estar bem, não dando espaço a estes pais para se expressarem? Dizerem efetivamente o que sentem e porque o sentem? 

 

Porque é que é assim tão complicado? 

 

É difícil lidar com o sofrimento alheio. É difícil lidar com o próprio sofrimento em si. Pode ser verdade para muitos. Mas estes pais precisam deste apoio neste momento. Este bebé precisa que os pais se sintam apoiados neste momento. E daqui a alguns anos, ouvirão, possivelmente, um adulto a verbalizar que outrora, também precisou de se sentir mais apoiado.  

 

Já dizia Dalai Lama uma afirmação com que muito me identifico: 

 

"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um chama-se ontem e o outro chama-se amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."

 

Portanto, o dia ontem já não podemos mudar. Podemos sim, aprender a viver com ele. O dia de amanhã, ainda não sabemos como será. Simplesmente perspetivamos, planeamos. Então, parece-me que o dia de hoje é perfeito para se começar a trabalhar neste sentido. E começando a refletir verdadeiramente sobre o tema, pode ser, definitivamente, um primeiro passo. Um passo muito útil para todos nós. 

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Á conversa com a Laura #1 - O nascer de uma mãe. Ou a transformação de uma mulher?

Passados quase seis meses do nascimento da minha filha, eu agora sei e compreendo que eu senti e vivi - e por vezes ainda sinto e vivo - como se eu tivesse morrido após ela nascer e que eu fiz um profundo luto sobre a minha "morte" ao longo dos meses: o meu tempo pessoal acabou, o meu sono não é contínuo, o meu corpo não é o meu corpo, o meu pensamento não é assertivo, a minha casa não é arrumada, os meus lugares não estão alcançáveis, a minha identidade desapareceu... Quem sou eu? Onde eu estou? A Laura?? A Laura morreu.

O meu coração pulsava, os meus pulmões oxigenavam e a minha vida corria à velocidade da luz, escorregadia como a fina areia que nos desaparece entre os dedos das mãos quanto mais a queremos agarrar, mas eu não estava aqui. Eu não estava em lado nenhum. Sentia-me as cinzas de uma árvore, outrora enorme, esbelta, poderosa e repleta de flores, agora queimada após um terrível incêndio, feita louca à procura das minhas raízes, mas preferindo deixar o que restava de mim, voar. Voar para o infinito e para sempre.

Um misto de querer controlar e fugir, um misto de existir e desaparecer, um misto de euforia e de horror; uma bipolaridade permanente que tanto caracteriza as minhas inúmeras máscaras com que eu disfarço as minhas latejantes feridas emocionais, mais antigas que o universo, a que se dá o pomposo nome de transtorno bipolar, mas que é muito mais que um transtorno neurológico: é morar no mais rápido elevador alguma vez criado entre o céu e o inferno.

Sentia que não tinha nascido raio de mãe nenhuma em mim!!! Eu sentia era que eu tinha morrido!

E depois?

Depois, eu não morri. Eu transformei-me.
Através da consciência do meu amado marido e maravilhoso pai da nossa bebé, da minha força de vontade e determinação em querer viver e não apenas existir em negação e juntamente com uma indispensável rede de apoio de profissionais e entidades competentes que me ajudaram e me continuam a ajudar e muito, Kundalini Yoga e meditação, o conhecimento "sem filtros" de mim mesma e a tomada da minha consciência pessoal, foi como que acordar de um longo sonho - ou pesadelo? - e percebi: Eu não morri nem sou apenas a mãe da minha bebé. Eu sou Eu. Com todas as minhas plenas virtudes e os meus plenos defeitos. Eu acertei e errei. Eu adorei e detestei. Eu consegui e desisti.
Eu sou.
Eu sou uma mulher, sou a mãe da minha amada bebé, sou uma filha - a minha mãe guarda-me onde quer que ela esteja para lá da Terra e eu estou em vias de perdoar o meu pai, onde quer que ele esteja aqui na Terra - sou uma amiga, sou a amante do meu amado marido, sou uma pessoa, sou luz, sou alma, sou coração, sou o meu corpo, sou consciente, sou poderosa, sou sábia, sou honesta, sou sincera, sou linda, sou sim, sou não, tenho a certeza que sou, não sei bem se sou, sou verdadeira, sou força da natureza e sou amor. Sou nada e sou tudo. Tudo e nada o que eu quiser.

Que liberdade!

 

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Isto é o nascer de uma mãe.

De eu ser mãe. De tu seres mãe. De ela ser mãe e de elas serem mães. Da tua mãe. Da mãe da tua mãe. De tu como mãe de ti mesma - e por vezes também pai.

Eu não sei bem quem era e agora sou uma mulher plena. Agora eu sou uma mãe. Foi e é tão duro e tão maravilhoso.

Que bom que eu "morri"! Que bom que eu me tornei mãe.

Sim, VIVA o dia da saúde mental materna!

VIVA, porque é preciso falar sobre isto. 

VIVA, porque é preciso apostar nisto. 

VIVA, porque é preciso investigar sobre isto. 

VIVA, porque é preciso divulgar isto. 

VIVA, porque é preciso trabalhar em prol de melhores recursos para todas as mulheres que, na busca do seu sentido materno, se confrontam com desequilíbrios ao nível da saúde mental. 

 

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E apesar de todos os dias serem dias em que devemos atentar na saúde mental materna, eu diria que VIVA haver um trabalho a ser realizado a nível mundial que se debata para que neste dia, em todo o mundo, os focos se voltem para as mulheres enquanto mães, e para a necessidade que existe de se falar, apostar, investigar, divulgar e trabalhar mais arduamente em prol de todas elas, e consequentemente, dos seus bebés e das suas famílias. 

 

De seguida apresento-vos todas as organizações que trabalham, atualmente, para que a atenção nas mulheres e mães, e na sua saúde mental, seja uma prioridade de atenção/intervenção:

 

Postpartum Support International, Estados Unidos da América

Maternal Mental Health Alliance, Reino Unido

Maternal Mental Health Awareness Alliance, Bakirkoy Women Mental Health Center, Turquia

Center of Perinatal Excellence, Austrália

National Coalition for Maternal Mental Health, Estados Unidos da América

Perinatal Mental Health Project, Africa do Sul

Maternal Wellness Clinic, Canada

Mother First, Canada

La Teppe Medical Centre, França

Post & Ante- Natal Distress Support Group, Nova Zelândia

Reproductive Mental Health Programme, Canada

The Marce Society for Perinatal Mental Health, International (França)

Marce Society (Mares), Espanha

Marce Gesellschaft, Alemanha

Postpartum Support Network (PSN), Nigéria

 

 

Um grande bem-haja a todos eles! 

 

Mais informações? Consultem o site:

http://wmmhday.postpartum.net/about/

"Já gritei com o meu filho e já me senti a pior mãe por isso"

Este foi o comentário que uma leitora deixou no facebook do blogue, após a publicação deste texto.

 

"É msm verdade, já gritei e já me senti a pior mãe por isso...mas sei que a tarefa mais difícil é mesmo conseguir o malabarismo de todas as tarefas e ainda desfrutar da maravilha que é ser mãe, é um misto constante de cansaço e alegria...pena que muitas de nós tenhamos pouco apoio num papel tão importante que desempenhamos. Parabéns a todas porque é uma luta diária que com amor por um filho vencemos todos os dias "

 

Acredito que várias mulheres gritem, e que posteriormente, sofram em silêncio por isso. 

Acredito até que muitas sejam invadidas por pensamentos/emoções angustiantes, que não esperavam, que não querem, que temem, mas que se instalam sem pedir, ou mesmo, sem avisar. E pior. Têm crítica sobre isso, e mesmo assim, continuam a sofrer em silêncio com medos, muitos medos. Medo de que possam ficar sem os seus bebés, do que quem as rodeia possa pensar de si, de considerarem que está a ficar "maluca", e pior de tudo, de se confrontarem pessoalmente com todos eles, com todos esses pensamentos e emoções, e terem de viver, sozinhas, lado a lado, por muito tempo com toda essa culpa maldita que lhes está associada, que teima em ficar, e que é difícil de desaparecer. 

 

Começar a maternidade com o coração amarrado ao que deveria ter sido e não foi, ao que queria que se fosse e não é, não é um bom presságio para ninguém. É amargo de se saborear, duro de roer, e muito angustiante de se sentir. Mas é a realidade de muitos.

 

Imagino só, esta minúscula possibilidade, ínfima entre tantas, sobre como é que todas estas sensações convivem no dia-a-dia de cada uma, dia após dia. Com todos os malabarismos, todas as lutas, todas as opiniões alheias, todas as expectativas, todas. Imagino, só.

Imagino, e arrepia-me, só de imaginar, as que convivem com tudo isto, sem se sentirem apoiadas por ninguém, ou mesmo sem ninguém. Sem pai, sem mãe, sem marido, sem amigos, sem família. Imagino... sozinhas... com todos os desafios do dia-a-dia, como é que será? Ou mesmo acompanhadas, mas mal. Vai dar ao mesmo: sozinhas. 

 

 

Imagino as noites mal dormidas, mas sem ninguém, ou com muito poucos, a quem recorrer para ajudar. Imagino as várias vezes que pediram para sair mais cedo do trabalho, que cansadas percorrem quilómetros para a tempo chegar, e que chegando a casa, têm tudo para fazer. Depois de um dia de trabalho comum e/ou bastante extenuante, pensar que às sete ou às oito da noite, esta ainda é uma criança, e que ainda muita paciência, dedicação e trabalho há para fazer. Compreendo que muitas se possam sentir atacadas por esta vida, por esta realidade, por estes percursos e que juntando as noites mal dormidas, ao fraco apoio que sentem, à confusão do dia-a-dia, às dúvidas que emergem em todos os momentos, à sensação de insegurança, às incertezas económicas, à sensação de se estar só, entre tantas outras possibilidades, não me é muito difícil imaginar uma mãe a gritar com um filho. 

 

Imagino tudo isto junto, ou mesmo só e simplesmente, uma ou outra coisa em uníssono dia após dia e não me é muito difícil imaginar esta realidade partilhada.

 

É-me sim, muito difícil de compreender, como é que ainda tão poucos dos que deveriam, se focam e agem sobre isto. Porque gritar, pode não ser o caminho mais adequado, mas onde se verifica um pedido de ajuda, mesmo que não declarado, deveria haver, para lá dos incentivos atuais, uma capacidade de prestação de apoio emocional nestas circunstâncias que, infelizmente, não há! 

 

Portanto, antes de julgarmos mães que gritam com os seus filhos, sabendo de antemão que este (até) poderá ser dos primeiros impulsos latentes a um pedido de ajuda não declarado, porque não refletirmos mais aprofundadamente sobre isto? 

Resultados do Questionário: Serviços de apoio a pessoas com experiência de Blues, Depressão e Ansiedade Pós-Parto.

Há alguns dias responderam a um questionário que lancei intitulado de "Serviços de apoio especializado a pessoas com experiência de Blues, Depressão e Ansiedade Pós-Parto".
 
Em primeiro lugar, muito agradeço a quem dispensou um pouco do seu tempo para responder ao questionário, embora já tenha tido a oportunidade de o fazer de forma mais particular.
 
De qualquer forma, mesmo para os que gostavam de ter respondido mas não tiveram possibilidade, para os que não repararam, ou para qualquer outro leitor que possa ter interesse, aqui ficam os resultados principais do questionário.
Existem mais resultados para serem trabalhados - e que serão brevemente - mas atualmente trago-vos os gerais e quantitativos.
 
 
Foram 314 as respostas que foram contabilizadas.
 
  • Relativamente às pessoas que responderam ao questionário

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  • Em relação à experiência das 314 pessoas perante o Blues, Depressão e Ansiedade Pós-Parto, chamo a vossa atenção para o facto da quantidade de pessoas que afirma ter passado por um mau momento no pós-parto, adicionada às que afirmam ter passado por uma dessas experiências, ser sempre superior à das pessoas que afirmam que não, no total.  

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  • Apesar dos dados anteriores, a quantidade de pessoas que afirma ter pedido ajuda é muito pouca, e ao mesmo tempo, muito próxima das que referem ter pensado em pedir ajuda, mas que acabaram por não o fazer, como podem ver de seguida:

 

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  • As poucas pessoas que afirmaram, em ambas as situações, ter pedido ajuda (46 pessoas), referiram que pediram ajuda aos seguintes profissionais/nos seguintes locais:

 

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  • Contudo, a grande maioria das pessoas afirma que se tivesse acesso a um local onde houvesse, quer promoção do bem-estar emocional na gravidez e no pós-parto, quer acompanhamento especializado no caso de desenvolverem um Blues, Depressão e/ou Ansiedade no pós-parto, recorreria a este tipo de serviços:

 


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No final, 74 pessoas deixaram comentários afetos ao tema, na sua grande maioria partilhando experiências menos positivas relativas à gravidez e ao pós-parto, e outras, incentivando o trabalho dentro deste âmbito. 
 
 
Com todos os dados que resultaram das vossas respostas espero ter-vos colocado a refletir sobre o tema, e aproveito para vos convidar a visitar o site do Projeto Mulher, Filha & Mãe, onde também irei publicar os resultados deste questionário brevemente, e caso queiram fazer alguma sugestão e/ou observação com vista ao estabelecimento de parcerias e/ou aperfeiçoamento do respetivo projeto, ou simplesmente para esclarecerem alguma questão, não hesitem em contactar-me! 
 
 
blog@mulherfilhamae.pt

Depressão Pós-Parto: Quando é que pediram ajuda?

Há quem tenha pedido quando sentiu que a angústia rasgava a vontade de viver num momento em que uma nova vida havia florescido.

 

 

E vocês, quando é que pediram ajuda? 

 

Partilhem connosco! 

#eupediajuda

 

blog@mulherfilhamae.pt

Histórias que dão a cara por esta causa #21 - "Depressão Pós-Parto é sentirmo-nos más mães por estarmos a passar por tudo isto "

Hoje trago-vos um relato na primeira pessoa associado a uma vivência pessoal de depressão pós-parto sobre a qual esta leitora muito tem refletido, transmitindo-nos através de um contacto via email, uma uma mensagem muito objetiva, emocionante e realista, que me autorizou a publicar.
 
Partilhem também a vossa história, as vossas vivências, seja na primeira pessoa, ou não, sobre blues, depressão, ansiedade e/ou psicose pós-parto, por exemplo.
 
Vamos dar continuidade a esta partilha, demonstrando e relatando sem medos e/ou preconceitos, que maternidade nem sempre rima com felicidade.
 
blog@mulherfilhamae.pt
 

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"Boa tarde,
 
O que eu sei da depressão pós-parto é que é muito difícil quem nos rodeia entender aquilo que se passa na realidade. Pensam que a mãe está assim porque deixou de ter as atenções sobre ela porque passaram a ser sobre o bebé, pelo menos é o que mais tenho ouvido... Na realidade é um sofrimento em silêncio e uma dor inexplicável. É incontrolável o choro, a angustia e a culpabilização que se sente.
 
É não entender como se desejou este ser tanto e se sofreu tanto para o ter que agora que está aqui sentimos que é um fardo porque não nos conseguimos ligar a ele. É sentir-se culpada por ter estes sentimentos. É querer se refugiar num buraco e que nos deixem em paz e querer que este ser não seja tão dependente de nós para podermos ter um pouco de descanso. É não entender porque estamos a sofrer tanto quando devíamos era estar felizes - até porque é o que toda a gente nos diz e é o que esperam de nós. É sentir que somos 'escravas' deste ser e não conseguimos desfrutar dele como os outros porque o cansaço nos ultrapassa. É chorar de forma incontrolável sem saber ao certo o porquê. É olharmos-nos ao espelho e não nos reconhecermos pois tal foi a forma que o nosso corpo modificou.
E finalmente é sentirmo-nos más mães por estarmos a passar por tudo isto e a sentir o que estamos a sentir.
Este descontrolo hormonal leva-nos a um estado extremo numa altura em que mais precisávamos de estar bem.
É uma verdadeira depressão como qualquer outra e requer ajuda e apoio.
 
Admiro as mães que tiveram que passar por tudo isto sozinhas." 

Sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto #11

Segundo Bowlby (1969), a relação de vinculação entre a mãe e a criança orienta todas as relações futuras da criança e portanto, influencia o seu desenvolvimento social e cognitivo. Entre as características principais das relações de vinculação seguras, a harmonia e a sincronia afectiva entre a mãe e a criança podem favorecer o desenvolvimento de estilos particulares de comunicação por parte da criança. Por outro lado, as crianças identificadas como tendo uma relação de vinculação segura exploram mais activamente o ambiente, um facto que pode potencialmente implicar diferenças no modo de comunicar. 

 

 

 

Veríssimo, M., Blicharsky, T., Strayer, F. & Santos, A. (1995). Vinculação e estilos de comunicação da criança. Análise Psicológica 1-2 (XIII), p. 145-155.

Sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto #10

As condições de vida das famílias têm vindo a mudar de forma radical nos últimos anos. Em quase todas as culturas existem rituais que servem para conferir um estatuto especial à mulher puérpera e que actuam essencialmente no sentido de aumentar a sua autoestima, de diminuir as suas dificuldades na relação conjugal e de clarificar o seu estatuto social. No entanto, esses rituais de passagem estão a desaparecer nas sociedades ocidentais atuais e a falta desses rituais cria um terreno propicio ao proliferar das perturbações relacionadas com a maternidade, nomeadamente porque a função desses rituais era assegurar o apoio social e suster a atuoestima da puerpera, duas circunstancias intrinsecamente reoacionadas com a depressão pós-parto.

 

 

Figueiredo, B. (2001). Depressão Pós-Parto: Considerações a propósito da intervenção psicológica. Psiquiatria Clínica, 22, (3), pp. 329-339.