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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

E se amanhã fosse o dia, como é que seria?

E se amanhã fosse o dia de pedir ajuda, como é que seria? 

Levantavas-te, vestias-te e recuarias,

Ou simplesmente deixavas-te levar? 

 

E se amanhã fosse o dia de pedir ajuda, como é que seria? 

Os nervos e as fantasias tomariam conta de ti,

Ou intempestivamente corrias para alguém te ajudar? 

 

E se amanhã fosse o dia de pedir ajuda, como é que seria? 

Chegavas a dormir,

Ou a cabeça e o coração unidos não te deixavam os olhos fechar?

 

E se amanhã fosse o dia,

Estaria a chover?

Ou o sol, quente, marcaria esse momento? 

 

Se amanhã fosse o dia,

Talvez a correr, a suar, séria, trémula ou sem pensar

caminharias para alguém te ajudar.

Contudo, será que importa compreender como seria o momento,

ou como seria o dia,

Ou será que importante seria parar de imaginar,

e efetivamente começar a caminhar para pedires ajuda,

e fazeres o teu percurso com maior alegria e bem-estar? 

 

Será que pode ser hoje, o dia?

 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

 

"Tive medo de saber mais sobre depressão pós-parto porque não queria desenvolver uma"

Há poucos dias, num grupo de mães, uma das mulheres referiu que durante o curso de preparação para o nascimento foram-lhe dados vários folhetos sobre depressão pós-parto e alterações emocionais no pós-parto, mas que assim que chegou a casa, os arrumou na gaveta. 

 

Teve medo de ler mais, com medo de ficar a pensar sobre o assunto, e de desenvolver uma depressão pós-parto. 

Teve receio de falar sobre o tema, com medo que tal disputasse algo dentro de si, e que desenvolvesse uma depressão pós-parto. 

Teve medo de pensar sequer, sobre o assunto, pois no seu ponto de vista, quanto mais pensasse, pior poderia ser para si. Não queria ficar triste, nem com "medos irreais na cabeça" para não influenciar o seu bebé.

 

Colocada esta partilha, sugeri que numa próxima sessão trouxesse os tais folhetos que lhe deram no curso, para os lermos em conjunto, e para que ela pudesse esclarecer todas as questões que tinha sobre o tema, acompanhada.

 

Eu apercebi-me da forma como estes receios estavam imbuídos na sua linguagem corporal há medida que ia falando sobre o assunto, assim como, o facto de cada um destes receios ia gerando uma fantasia cada vez maior sobre o tema que se expressava através do seu discurso. Para além disto, sabia que ao falar de forma direcionada e aberta sobre o tema, poderia levar a alguns riscos, tais como, a mulher inibir-se no grupo de expressar emoções, por exemplo.

 

Há sempre riscos que se correm quando se fala mais especifica e particularmente sobre o tema. Contudo, são menores, próximo das vantagens que considero identificar por falar sobre o tema, desta forma, com estas mulheres:

 

- Ficam informadas e a informação que recebem é fidedigna e ajustada;

- Estão num espaço propício para o fazer;

- Estão acompanhadas por um profissional especialista na área, que está atento e com quem podem esclarecer todas as questões sobre o tema;

- Ficam com a referência de um profissional e local onde podem recorrer para pedir apoio, caso se verifique necessário em algum momento;

- O contacto entre mim e estas mulheres mantém-se mesmo após os momentos de encontro do grupo, sabendo elas, que podem obter esse suporte quando necessitarem;

 

Para além desta questão, e nestes grupos, não é só sobre isto que falamos. Tal como costumo dizer, não é que a depressão pós-parto seja o maior problema que podem desenvolver, mas poderá ser um dos. E como tal, não há problema de estarem informadas sobre o tema, tal como não há problema de estarem informadas sobre quais os melhores produtos para dar banho ao bebé, ou sobre amamentação, cuidados com o corpo, etc. Estarem informadas sobre depressão pós-parto, é tão importante, como estarem informadas sobre qualquer questão inerente ao período da gravidez e do pós-parto. 

 

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Contudo, ainda há aquele mito de que falar sobre depressão pós-parto, é quase que contagioso. Mas não é, acreditem. Até porque a depressão pós-parto é uma doença, mas não é contagiosa. Falar, erradica o fator surpresa, e aumenta a consciência sobre o tema. Falar, promove a sensibilização, a informação e a preparação para um momento único na vida de cada mulher, companheiro, casal e família - a maternidade - que tanto pode mostrar o seu lado luminoso, como o seu lado lunar.

 

E o lado luminoso e lunar não estão presentes em qualquer coisa na vida?

Então porque tememos tanto pensá-los (em conjunto) no período da maternidade?

 

Temos de falar sobre isto!

blog@mulherfilhamae.pt  

Quais são as histórias que dão a cara por esta causa?

São histórias de mulheres que se confrontaram com ansiedade e depressão na gravidez, com blues, depressão, ansiedade e/ou psicose pós-parto. 

 

São histórias de homens que se confrontaram com depressão pós-parto, homens que se viram sozinhos a cuidar, com uma mão, dos seus filhos recém-nascidos, e com a outra, das suas mulheres que emocionalmente se encontravam pouco ou nada tranquilas. 

 

São histórias de mães e sogras que se confrontam com histórias de filhas e filhos com depressão na gravidez e/ou no pós-parto, histórias de mães e sogras que se relembram das suas há décadas atrás, e que atualmente congelam, não sabendo como agir, ou que por outro lado, agiram tranquilamente. 

 

São histórias de amigas, amigos, tios e primos que dão de caras com ausências prolongadas, com visitas proteladas, com humores e emoções desviadas do que esperavam e não souberam como agir, ou que por outro lado, agiram tranquilamente. 

 

São histórias de vidas, reais, pouco coloridas, mas que demonstram exatamente como são muitas as vivências de gravidezes e pós-partos que foram tudo, menos o esperado pelos seus protagonistas. Sejam mulheres, companheiros, sogras, mães, primos, amigas, tias, vizinhas, quem for.

 

 

Alguém que se tenha confrontado com uma história menos positiva na gravidez e/ou no pós-parto?

Alguém que tenha uma história menos colorida sobre a maternidade?

Alguém que tenha uma coleção de momentos pouco felizes, muito diferentes do esperado? 

 

Então essas histórias são para serem contadas aqui, na rubrica Histórias que dão a cara por esta causa

 

Uma causa sobre o lado menos positivo da maternidade, que existe, é real, não é único e que precisa de se tornar mais consciente para todos, facilitando, entre outros, a chegada de apoio a quem vive, na primeira e/ou na segunda pessoa, uma maternidade que nem sempre rima com felicidade

 

 

Têm alguma história para contar? Não hesitem! 

blog@mulherfilhamae.pt

 

Histórias que dão a cara por esta causa #25 "Quando ao fim de três anos consegui o que mais desejava entrei em choque e tive depressão pós-parto"

E quando se quer muito ser mãe mas é díficil, e se tem de partir para tratamentos específicos, a carga emocional é mais do que muita associada a este momento. As expectativas constantes, os tratamentos sem resultados, a menstruação que teima em aparecer, e um dia, tudo muda quando este bebé chega. Mas muitas destas questões podem afetar emocionalmente a mulher e o casal, e após tanta luta nesta sentido, instala-se a depressão. 

 

Não é de admirar. No entanto, a Rita partilha connosco a sua história, e como a superou! Sim, porque a depressão pós-parto, para além de ter solução, influência vivências muito próprias de cada mulher. 

 

Leiam a história da Rita, e partilhem as vossas também! 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

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Antes de ser mãe questionei-me mil e uma vezes o motivo pelo qual não conseguia ter filhos. Remoí, deprimi, odiei, chorei, desejei morrer. Quando finalmente, ao fim de três anos e muitos tratamentos falhados, consegui o que mais desejava, o que parecia impossível, entrei em choque. Retenho algumas imagens, vincadas, do meu Gonçalinho, com apenas um mês, a espernear com cólicas e eu, lavada em lágrimas, sem saber o que fazer. Tive depressão pós-parto. Não falava com ninguém. Só com o meu filho. Fechei-me em casa e vivi exclusivamente para ele. Sinceramente, não sei o que esperava. Quer dizer, sei. Tal era a imagem que tinha da maternidade que pensava que um bebé dava menos trabalho do que na realidade dá. Pensava que com o meu seria cor-de-rosa. Chorei durante meses a fio. Seis ou sete no total. Tive de optar várias vezes, sem saber bem se estava certa ou se estava errada. Errar e acertar. Errar e acertar. Era o jogo da tentativa erro.


Mas o Gonçalo criou-se. Com muito amor, muita ansiedade, expectativa. Estava muito em jogo. Era (e é) o meu menino de oiro. Depois veio o mano e tudo mudou. O lugar exclusivo foi alargado ao novo membro da família. Tenho memórias doces e ternas de tudo o que fiz com o Rodriguinho. Aproveitei mais. Diverti-me muito. Nunca chorei. Não tive "baby blues". Nunca me fechei em casa e saí o máximo que pude. Ambos foram crescendo e não me canso de o dizer, já se passaram quatro anos. O Rodrigo imita o mano mais velho. A disputa é uma constante. Tanto que notamos uma alteração no comportamento do Gonçalo.


Não foi de um dia para o outro. Talvez até nem tenha começado nele e sim em nós, por termos outro bebé em casa. Sem que nos tivéssemos dado conta, talvez tivéssemos passado a dar mais atenção ao mais novo, em vários sentidos: desde o dormir, à escolha da roupinha, à hora da mamada, ao ritual de embalar para adormecer, ao pegar ao colo gentilmente. Tudo coisas que o Gonçalo já não tinha ou deixara gradualmente de ter. Sei com todo o meu coração que a vinda do mano o afetou. Até que ponto, nunca vou compreender. Faço o melhor enquanto mãe para o ajudar a entender as frustrações e as neuras dele, as famosas “birras” que por cá são bastante violentas. Errar e acertar. Errar e acertar. Tal como há quatro anos, é o jogo da tentativa erro. Comecei por entender que a reação de um pai face a isso é decisiva. Se um pai se irrita e esperneia como o filho, o filho seguirá o modelo. Se um pai bate ao filho como forma de castigo, o filho bate noutros (ou no progenitor) quando está chateado, pois é o modelo que encontra; se fica com um tempo para pensar, não pensa, porque ainda não consegue entender a causa e a consequência do que faz. Não como um adulto gostaria. Depois passei a agir de forma diferente. Quando se porta mal, digo-lhe que isso não se faz. Digo-lhe o que espero dele. Se esperneia, deixo que se acalme e explico-lhe o que fez de errado. Se estou chateada com ele, explico-lhe o motivo. Digo-lhe para contar até três devagarinho quando quer que lhe traga alguma coisa rapidamente. A mãe não é super-heroína. Comecei a reservar um tempo só para nós. Antes, isso era impensável. Mas agora, que nem sempre quer fazer a sesta, vamos passear os dois. Passar tempo de qualidade. Brincar. Brincar é muito importante, pois ajuda-os a compreenderem o mundo e a entenderem quem são. A sonhar. Um pai que brinca com um filho cria um elo para toda a vida, mesmo que pareça “secante”.


Depois digo-lhe que o amo, e que sempre o vou amar. Digo-lhe que é muito importante para mim, que é especial e que tenho orgulho dele e em ser sua mãe. É preciso dizê-lo. Não basta sentir. Aos poucos, vou construindo um caminho. Com algumas vitórias e alguns fracassos. Não faz mal. O que interessa é o percurso. É árduo. Às vezes choro. Mas 90% das vezes é de felicidade.

"Tenho receio de partilhar a minha história pois tenho medo que me tirem a minha filha"

Na última semana várias foram as mulheres que me abordaram com alguma questão através do email, e três delas, recearam partilhar a sua história, por receio que alguém considerasse que não fossem boas mães, e que lhes pudessem retirar os filhos. 

 

Rápido compreendi, na medida em que, este é, de facto, um receio muito comum nas mulheres que são mães e que não começam a viver a maternidade da forma mais feliz e tranquila quanto o esperado. 

 

E este receio prende-se com muitas questões, sendo que, algumas delas já abordei neste texto. Contudo, existem outras igualmente importantes, e aqui, lá vamos nós (outra vez) bater no estigma face à saúde e doença mental. Mas a verdade, é que assim o é. Ele existe, arde entre nós, e cada um à sua maneira, enquanto fizer deste tipo de assuntos um tabu, alimentará a sua chama. 

 

Como é que queremos que a maternidade seja vivida de forma plena, se consideramos que o natural se prende em exclusivo com a felicidade e o recheio de momentos cheios de cor e de vida?

Como é que queremos que a maternidade seja vivida de forma tranquila, se não aceitamos que os momentos mais ansiosos e menos positivos também dela fazem parte? Que não é tudo floreado, nem tudo divertido?

Como é que queremos que a maternidade seja percecionada como integrando no seu todo uma forma natural de vida, se não aceitamos que a vida em si, não é sempre, e nem num todo simplesmente, feliz?

 

E assim sendo, considerando que, para muitos a busca incessante pela vivência absolutamente feliz terá de ser uma constante, muitas pessoas desiludem-se e cedo verificam que o naturalmente decorrente da vivência da maternidade, por vezes é feliz, e por vezes, é ruindade. Assim o é, e é-o sem maldade. É assim que o natural se acrescenta ao todo de um forte processo de desenvolvimento pessoal e conjunto, que é a maternidade. 

 

A maternidade é cor! Mas nem sempre é amarelo, azul ou rosa. Por vezes é acinzentado, outras vezes é branco e/ou preto. 

A maternidade é luz! Mas nem sempre brilha, por vezes está mais apagada. 

A maternidade é vida! Mas nem sempre tem a mesma vitalidade. 

 

E por vezes, deixa de ser tão natural nem sempre ser amarelo, nem sempre brilhar e nem sempre ter vitalidade, passando a ser uma constante incapacitante, e verifica-se que o processo de doença ocorre, e aí o sofrimento é atroz para todos! 

 

Não há exceção que se aplique, e todos os que estão envolvidos, confrontam-se com este tipo de vivência: não esperada, nem desejada. Ignora-se de inicio, discute-se muito após, e continua-se, por vezes, numa bolha ténue entre a realidade do que se é, e a realidade do que se gostaria que fosse. A sofrer, quase sempre, a perder a paciência constantemente, e a culpabilizar-se com frequência. Todos. Cada um à sua maneira. 

 

E se até aqui, se estarmos preparados para esta problemática era fundamental, aqui, torna-se premente que assim o seja. Não há volta a dar. E mesmo a sofrer, mesmo a perderem-se de dentro para (e por) fora, muitas mulheres vivem numa ambivalência sem fim à vista. 

 

Querem procurar ajuda, mas temem ser julgadas. 

Querem ser mães em pleno, mas sofrem por tentar sê-lo.

Querem voltar a sentir-se mulheres, mas não sabem onde estão, nem para onde ir. 

Querem (ou não) amar o seu rebento sem obstáculo, mas temem ficar a sós com ele, por exemplo. 

 

Consideram não haver solução, sentem um medo de morte, uma dor profunda, e o mais incrível, é que muitas continuam a cuidar o melhor que podem, o melhor que sabem, temendo constantemente serem julgadas em praça pública só por assumirem a alguém que poderão ter uma depressão pós-parto, por exemplo. 

Mas por vezes a dor não passa, só o tempo. E há medida que o tempo passa, por vezes a dor piora e eleva-se a necessidade de tratamento e acompanhamento. E este é necessário, é fulcral, é fundamental. E há que compreender porquê. 

 

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Quando lemos sobre o assunto, verificamos que provavelmente milhões de mulheres já passaram por uma depressão pós-parto, que possivelmente milhares de mulheres já tentaram fazer mal a si e/ou aos seus bebés, vários profissionais têm investigado sobre o tema a nível mundial, e vários são os recursos que florescem todos os dias a nível mundial na tentativa de apoiar estas mulheres e respetivas famílias, vários divórcios já ocorreram, várias famílias com marcas ficaram, várias pessoas recusam-se a voltar a passar pela experiência da maternidade/paternidade com receio de voltarem a viver uma experiência destas, sendo que, provavelmente, completamente sozinhos num estado que pouca importância oferece ao assunto. E mesmo assim (mesmo assim!) em pleno século XXI, ainda existem mulheres que têm receio de partilhar a sua história, com receio de serem consideradas más mães, e que lhe retirem os seus bebés. 

 

Só pode mesmo estar tudo muito errado connosco, cidadãos de uma sociedade onde a maternidade, é tudo menos uma novidade, e que, ainda hoje, direta ou indiretamente, julga e incompreende na sua profunda totalidade, mulheres com (por exemplo) uma depressão pós-parto, sem vislumbrar por um momento sequer, que estamos a falar de uma doença, e não de uma pessoa, ou daquilo que essa pessoa é, ou será capaz de ser. Sem compreender que precisamos que estas mulheres se sintam confortáveis para falar, em prol do si, e do seu bebé. Que precisamos de compreender, de saber aceitar e de saber reencaminhar, para lhes dar, a todos, a maior segurança possível. Que é de um bebé que estamos a falar, mas que um bebé estará muito incompleto se a sua mãe ausente se sentir ou se demonstrar. Que estamos a falar de uma pessoa, para além de uma mãe.

 

Uma pessoa, que é mulher, uma mulher que é mãe, uma mãe que é pessoa. 

Portanto, fixem esta equação:

[Mulheres com experiência de depressão pós-parto] não é igual (de todo!) [a depressão pós-parto]. 

 

Dúvidas?

blog@mulherfilhamae.pt

Não te sentes boa mãe? Então este texto é para ti!

Não te sentes boa mãe mas esqueces-te que ser mãe não se define por um momento, mas sim por uma vida de momentos, ou várias. 

 

Não te sentes boa mãe, mas esqueces-te que ser mãe também envolve ter dúvidas, não saber o que fazer, e por vezes ir em frente, mesmo com o coração envolto em profundo receio e ansiedade. 

 

Não te sentes boa mãe, mas lembras-te de quando te sentes orgulhosa do teu filho? Quando observas na primeira fila as suas pequenas evoluções, os detalhes das primeiras palavras todas baralhadas mas com grande esforço de dicção, os pormenores no seu empenho em aprender as primeiras letras na escola, as primeiras dúvidas sobre si que partilhou contigo e onde pudeste dar-lhe alguns dos teus sábios conselhos. Todos estes momentos, e tantos outros, são fruto da tua dedicação diária, constante. Sentes isto?

 

Não te sentes boa mãe, mas espera... lembras-te de quando o teu filho te sorriu a primeira vez? E a segunda? E a décima? O que sentiste? O que sentes quando o faz, hoje?

 

Não te sentes boa mãe, mas o teu filho abraça-te todos os dias.

 

 

Não te sentes boa mãe, mas o teu filho vê-te tal como és, e devolve-te, mesmo sem te aperceberes, muita da tua dedicação. E não é só quando chega a casa com boas notas, ou com uma observação de um "tal de" bom comportamento. É quando demonstra compaixão, humildade, atenção, responsabilidade, entre tantas outras competências. Essas também são trabalhadas por ti. Todos os dias, a todas as horas. Mesmo quando, também tu, não tens paciência, e ou capacidade para estar sempre lá com toda a vitalidade que gostavas. Mesmo quando, também tu estás cansada, esgotada, por um qualquer motivo. Mesmo quando assim estás, estás lá, mesmo que, nem sempre com a resiliência que gostarias. E assim, também muitas vezes está o teu filho. A demonstrar o quanto é humano, e o quanto, nem sempre é responsável, compassivo ou humilde, e que também se irrita, se zanga, e faz birra. Não te sentes boa mãe nestes momentos, mas lidar com eles, faz parte da evolução do teu papel. 

 

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Não te sentes boa mãe, mas esqueces-te que não existem livros de instruções, que cada uma é tal como é, e faz o que sabe, como pode, de acordo com os recursos que tem e com as circunstâncias que a envolve naquele momento. Ninguém é perfeito. 

 

Não te sentes boa mãe porque gritas-te. Então, tenta não o fazer da próxima vez. Não conseguiste? Volta a tentar. O teu filho também não começou a caminhar de forma fluída a primeira vez que se pôs de pé! Ser mãe é um percurso interno, que cada uma vai fazendo à sua medida. É uma aprendizagem diária e constante. E também tu estás a aprender.

 

Não te sentes boa mãe e culpas-te com frequência pelo que querias ter feito e não conseguiste. É natural. Queres dar o melhor ao teu filho. Mas o que tentas, com o máximo de amor e honestidade, é suficiente. Ele sabe-o, mesmo que por agora, não o demonstre. És humana, lembraste?

 

Não te sentes boa mãe porque não conseguiste dar ao teu filho o que ele queria. Então, penso que também te podes questionar se esse bem material é assim tão importante. E se o que não conseguiste dar não era material, mas sim emocional, então, é porque ainda não estavas preparada para dar. É porque precisas de olhar mais para dentro de ti e trabalhar algumas sombras internas que ainda te perseguem. Quando estiveres preparada, vai em frente. Se não estiveres, o que podes fazer por isso? Contudo, e independentemente desta resposta, não te culpes. Ter essa consciência já é bom e...és humana, lembraste?

 

Não te sentes boa mãe, mas estás sempre a tentar ultrapassar-te, a tentar ser melhor de alguma forma em tantos momentos, a tentar dar o máximo de ti, a dar o que sabes, o que viste, o que vês, o que imaginas, o que pretendes... o que consegues e o que é possível! 

 

Não te sentes boa mãe, e assim cresces enquanto mãe. Atenta a ti própria. Ao que queres ser, onde queres melhorar. E ser mãe, também é isto. Ter dúvidas sobre o que se faz, sobre o que se é em determinados momentos, sobre o que se diz, sobre o que se transforma, sobre tantas opções no dia-a-dia.

 

Não te sentires boa mãe faz parte, mas também faz parte perceberes que ser mãe não se esgota na felicidade e satisfação constante, no amor permanente e eterno, na alegria total e na perfeição de todos os comportamentos e atitudes. Ser mãe, é mesmo isso, é ser pessoa, é ser mulher, é ser alguém que, com tudo o que é, um dia torna-se mãe e vai-se envolvendo e desenvolvendo, também assim, num todo tão vasto que é o percurso de uma vida.

Grupos de Mães: quando, onde e como?

Já há vários meses que dei inicio à integração de uma área específica, afeta ao desenvolvimento e dinamização de grupos de mães, no âmbito do Projeto Mulher, Filha & Mãe, considerando os seus objetivos e metodologia. 

 

Não me foi de imediato possível aprofundar a sua prática, uma vez que, o tempo era cada vez mais escasso, e me encontrava a realizar a Especialidade e Mestrado em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. Contudo, esta, é uma área de grande interesse que pretendo desenvolver e onde pretendo apostar. 

 

Terminada a fase de estudos e práticas associadas, emerge a necessidade de iniciar o desenvolvimento destes grupos, e é ótimo ainda antes de ter começado com estas divulgações, já ter pessoas interessadas não só em integrar estes grupos, como em disseminá-los para outros pontos do País. Estamos a trabalhar nisso, mas por agora fica a questão: quando, onde e como é que estes grupos de mães se vão desenvolver?

 

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Onde? 

 

Os grupos de mães vão ocorrer, por agora, em dois centros distintos: 

- Árvore dos bebés (centro de atividades para grávidas, bebés, família - Loures);

- Passo a Passo (centro de desenvolvimento para a criança e família - Lisboa)

- Cantinho do Mimo (centro de desenvolvimento, reabilitação e bem-estar da criança e família - Almada)

 

 

Quando?

 

Árvore dos bebés

4ªfeiras (a partir do dia 10 de Maio)

16h00 - 17h00

 

Passo a Passo

Sábados (a partir de 13 de Maio)

11h30 - 12h30

 

Cantinho do Mimo

3ªfeiras (a partir de 23 de Maio)

11h00 - 12h00

 

 

Como?

 

Os grupos terão inicio com um mínimo de 3 pessoas e um máximo de 8 pessoas e são abertos à participação de grávidas e mães interessadas em participar, sendo que as últimas, podem trazer os seus bebés.

 

Com a realização destes grupos pretende-se criar um espaço propício para conversarmos sobre os vários temas que vão sendo abordados ao longo da sessão, e que acima de tudo, são do principal interesse e/ou iniciados pelas participantes. Não se pretendem tabus, julgamentos, dúvidas por esclarecer ou qualquer outro tipo de questões que deixem qualquer uma desconfortável. Pretende-se sim, muita descontração, informalidade, colocação de questões e envolvimento, com rumo ao bem-estar e tranquilidade possível, nesta fase de vida. 

 

A grande mais-valia destes grupos, para além de tudo o que descrevi anteriormente, e que considero importante também salientar, é o facto de estar sempre presente uma enfermeira com conhecimentos e competências aprofundados no âmbito da saúde mental materna, podendo esclarecer qualquer questão desta índole, trabalhar em parceria qualquer desequilíbrio identificado (no grupo e/ou individualmente) e poder referenciar outros profissionais competentes na área da maternidade, no mesmo âmbito, caso se verifique necessário. 

 

Lembrem-se que não existem fórmulas mágicas para se ser mãe. Contudo, existe a intuição e a sabedoria materna, assim como, muitas experiências para partilhar, e sobre as quais, juntas podemos refletir. Por isso... vamos conversar? 

 

 

Inscrições:

- Árvore dos bebésgeral@arvoredosbebes.pt ou 211 930 127 | 927 316 365

 

- Passo a passo geral@passoapasso.pt ou 217 524 155 | 968 746 266

 

- Cantinho do Mimo - geral@cantinhodomimo.com ou 212 740 543 / 926 630 158

 

 

Questões sobre os grupos:

blog@mulherfilhamae.pt

Ansiedade e depressão na gravidez e pós-parto: Porquê pedir ajuda?

Porque há solução! 

 

Porque o sofrimento não tem de ser uma constante. 

Porque não é necessário suportar tudo em silêncio.

Porque voltar a estar bem consigo mesma, é uma forte possibilidade.

Porque existem vários recursos a que pode recorrer.

Porque vai-se sentir mais tranquila e segura.

Porque tem muitos dos recursos que precisa dentro de si para ultrapassar este momento.

 

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A gravidez e/ou o pós-parto podem não ter começado da forma mais tranquila possível, ou pelo menos, da forma como esperou. Contudo, não tem de permanecer assim. Há profissionais que a podem apoiar, existem recursos a que pode ter acesso, e com o tratamento e acompanhamento adequado pode voltar a encontrar o equilíbrio que procura. 

 

Considerando o meu percurso pessoal e profissional, desenvolvi um projeto de apoio a mulheres com alterações emocionais na gravidez e no pós-parto, sendo que, atualmente posso ajudá-la através de três vias: através dos grupos de mães, através da consulta individual (online e presencial) e através da formação.

 

  • Grupos de mães 

 

A realização dos grupos de mães surgiu com o objetivo de criar um espaço propício para conversarmos sobre vários temas relativos à maternidade, que vão sendo sugeridos sessão a sessão, e que acima de tudo, sejam do interesse das que participam. Neste espaço não se pretendem tabus, julgamentos, dúvidas por esclarecer ou qualquer outro tipo de questões que deixem qualquer uma desconfortável, mesmo que discretamente. Pretende-se sim, muita descontração, informalidade, colocação de questões, envolvimento e um rumo em direção ao bem-estar e à tranquilidade possível, nesta fase da sua vida. 

 

Os grupos são para grávidas e recém-mães (até ao primeiro ano após o nascimento), e são momentos em que podem levar os vossos bebés, conversar com mulheres e mães que estão na mesma fase de vida, colocar as vossas questões, descontrair e usufruir da mais-valia de ter sempre presente, no mínimo, uma enfermeira com conhecimentos e competências específicas no âmbito da saúde mental no período da gravidez e do pós-parto. 

 

Os grupos são realizados na região de Lisboa e existem dois tipos de grupos, pelo que, caso esteja interessada contacte-me para conversarmos sobre qual o que se ajusta melhor ao que procura. 

 

  • Consulta individual (online e presencial)

 

Esta consulta surge com o propósito de ser um acrescento em termos de apoio e acompanhamento nesta fase da vida da mulher e respetiva família (grávidas e recém-mães), especialmente, quando a mesma sente que está a passar por um momento menos positivo a nível emocional durante a gravidez e no pós-parto, sentindo-se, por exemplo, mais tensa, irritada, ansiosa, preocupada, triste, com vontade de chorar constantemente, entre outros.

 

Os objetivos específicos em termos de acompanhamento individual serão traçados para cada mulher, em parceria com a mesma, após a primeira consulta. Os objetivos gerais da consulta são os seguintes:

 

 

- Executar uma avaliação global de saúde mental da mulher e respetiva família, nesta fase específica de vida;

- Executar uma avaliação das capacidades internas da mulher e respetiva família e recursos externos para manter e recuperar a saúde mental;

- Avaliar o impacto que o problema de saúde mental tem na qualidade de vida e bem-estar da mulher e respetiva família, com ênfase na sua funcionalidade e autonomia;

- Identificar os problemas e as necessidades específicas da mulher e respetiva família no âmbito da saúde mental perinatal;

- Avaliar o impacto na saúde mental de múltiplos fatores de stresse relacionados com a transição para a maternidade; 

- Conceber estratégias de empoderamento que permitam à mulher e respetiva família desenvolver conhecimentos, capacidades e fatores de protecção;

- Orientar a mulher e respetiva família no acesso aos recursos comunitários mais apropriados, tendo em conta o seu problema de saúde mental;

- Fornecer orientações às mulheres e respetivas famílias para promover a saúde mental e prevenir ou reduzir o risco de doença mental no período perinatal;

- Promover adesão ao tratamento em mulheres com doença mental;

- Implementar intervenções psicoeducativas e técnicas psicoterapêuticas para promover o conhecimento, compreensão e gestão dos problemas relacionados com a saúde mental, assim como, para promover a consciencialização face à atual problemática, e que facilitem as respostas adaptativas que permitam à mulher recuperar a sua saúde mental e que a permitam libertar tensões emocionais e vivenciar experiências gratificantes nesta fase de vida;

 

  • Formação 

 

A formação surge para facilitar a sensibilização para a área da saúde mental perinatal nos seus mais variados e amplos aspetos, assim como para esclarecer qualquer questão relacionada com o tema. Esta formação pode ocorrer no seio da família, numa associação, numa instituição de saúde, num centro clínico, ou em qualquer outro local onde se verifique esta necessidade. Os temas podem ser sugeridos por mim, ou selecionados pelos interessados, e as datas são definidas consoante a disponibilidade de ambos. 

 

 

Para mais informações (preços, datas, locais, etc.):

blog@mulherfilhamae.pt

Histórias que dão a cara por esta causa #24 "Senti muitas vezes que me tinha perdido no meio desta imensidão que é a maternidade"

Incrível a partilha desta leitora sobre a sua vivência da maternidade. 

Uma mãe que se sente perdida, que por muito sofrimento passou, e que continua a lutar por um futuro melhor para si, e para a sua família, ao mesmo tempo que sente que mantém a "convivência" com a depressão pós-parto que teima em acompanhá-la. 

 

Mais uma história de referência, de uma mulher coragem, e de um exemplo que nos mostra que ainda muito há a fazer neste sentido! 

 

Partilhem também as vossas histórias. Vamos dar a cara por esta causa, mesmo sem a mostrar. 

Quantas mais histórias forem partilhadas, mais força esta problemática terá. 

 

blog@mulherfilhamae.pt 

 

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"Não sei bem quantas vezes tentei iniciar este email... acho que pelo menos umas 5... começava a escrever e depois ou surgia alguma coisa e ficava a meio... e pensava amanhã com mais calma envio... espero que hoje seja o dia....

 

Fui mãe faz hoje precisamente 23 meses... e mesmo já tendo passado todos estes meses a verdade é que desde essa altura nunca mais fui a mesma....

Descobri que estava grávida numa suposta consulta de ginecologia de rotina, o período estava atrasado mas já havia feito um teste de gravidez que havia dado negativo... portanto logo nessa altura foi um misto de emoções de alegria e medo ao mesmo tempo... a altura na minha cabeça não era a melhor, a situação profissional era complicada, mas pensei tudo se consegue..


Depois veio a ecografia do primeiro trimestre e o rastreio bioquímico e acho que foi nessa ai nessa altura que eu mudei enquanto pessoa ... um rastreio bioquímico positivo com uma probabilidade muito grande para uma trissomia 21... nada nos prepara para estas situações e acho que efetivamente esse terá sido o pior dia da minha vida se não mesmo o pior... o dia em que me senti mais frágil e perdida...as expectativas, as tramadas das expectativas, nunca estamos preparados para que as coisas possam eventualmente correr mal... ou que possam não ser da forma como imaginamos... o chão foi-me tirado nesse dia. O que era suposto ser uma primeira ecografia, quem sabe até para saber o sexo do bebé, tornou-se um dia que me iria marcar para sempre e que efetivamente ainda hoje passado este tempo todo ainda é algo que me perturba e sempre que me vejo a falar no assunto seja com profissionais de saúde, amigos, familiares é impossível recordar essa altura sem que os olhos não se encham de lágrimas.


Depois de todo um processo de explicações sobre o que são efetivamente estes rastreios bioquímicos, os falsos positivos, etc., e de muita pesquisa minha no mundo da Internet, informação essa, que se por um lado, alguma me descansava outra ainda me deixava mais preocupada... veio a altura de realizar a amiocentese. A verdade é que da altura da primeira eco conjugada com o rastreio bioquímico até a realização da mesma, foram cerca de 2 semanas de espera, duas semanas essas onde vivenciei momentos de elevado stress emocional, de angustia de medo de revolta... era a minha primeira gravidez... não foi assim que eu idealizei as coisas... não era isto que tinha imaginado para mim... mais uma vez as expectativas...


Felizmente os resultados da amiocentese foram negativos e felizmente estava tudo bem com o meu bebé... mas a verdade é que já tinha vivenciando momentos muito angustiantes que tal como disse me marcaram e apesar de sarados a marca da ferida continua lá...


O restante percurso da gravidez também não foi fácil, entrei de baixa muito cedo com contrações sendo que tinha que fazer muito repouso, passei muito tempo sozinha, apesar de todo o suporte familiar e de um marido espetacular... foram tempos difíceis e depois um bebé que acabou por nascer de 37 semanas, muito pequenino e magrinho, pois a minha placenta não correspondia as necessidades nutricionais que o meu bebé necessitava, tendo o mesmo nascido de cesariana.


Os primeiros dias na maternidade também não foram fáceis, o meu bebé não pegava bem na mama foi introduzido no 1º dia de vida suplemento pois os níveis de glicémia estavam a baixar... mais uma vez as minhas expectativas tinham saído furadas... sonhei tanto amamentar, era algo que queria muito por todos os motivos e mais alguns mas sobretudo porque sabia que o meu leite seria sempre o melhor para o meu bebé ... mas infelizmente não consegui passar de 1 mês, sendo que nesse mês conheci um novo eu, um eu animalesco que gemia de dor e frustração por não conseguir alimentar a sua cria, como se me tivessem ferido das piores formas e essa dor não tivesse fim e durante largos meses não teve...

 

Era impossível falar ou ler alguma coisa sobre amamentação sem que não me sentisse culpada por não ter conseguido amamentar o meu bebé... depois um bebé que desde a primeira semana de vida até mais ou menos aos 5 meses que sofreu muito com cólicas... ou talvez agora refletindo todo o meu percurso, um bebé que absorveu muito do meu stress e que tinha como sua mãe e cuidadora uma jovem, inexperiente, assustada e cansada mãe, muito sofrida de todo o percurso que tinha antecedido o seu nascimento e agora a sua nova condição de mãe com um bebé completamente dependente de si e que se sentia perdida, impotente, exausta e muito assustada principalmente por não conseguir acalmar o seu choro.


Os primeiros meses de vida do meu bebé foram de um grande isolamento, não consegui ganhar forças para sair fazer passeios, ir a praia.... como via tantas amigas e famosas fazerem com os seus bebés nas redes sociais... Tinha um bebé que chorava muito durante grande parte do dia, que não se acalmava facilmente, nem com colo... e opiniões de todo o mundo, que era sede que era fome que era manha que era isto que era aquilo... não foi fácil... senti muitas vezes que me tinha perdido, que tinha perdido a minha essência no meio desta imensidão que é a maternidade... senti-me também muitas vezes sozinha e incompreendida e senti acima de tudo que não estava a conseguir dar conta do recado...


E a verdade é que ainda hoje, por mais que as coisas tenham acalmado... ainda há dias em que sinto isto tudo e que o medo mais uma vez toma conta de mim e que sei no fundo e por mais que eu tente não valorizar todos estes sentimentos, que sim que tive e tenho uma depressão pós parto e que apesar de já ter tentado algumas coisas, parece que ainda não encontrei aquela que me possa verdadeiramente ajudar... já fiz hipnoterapia, já dediquei mais tempo a mim mesma enquanto mulher, já passei fins de semana fora a dois, mas a verdade é que sei que ainda tenho aqui muita coisa mal resolvida e que preciso desesperadamente resolver para me voltar a encontrar e para desfrutar na sua plenitude deste bebé que não será eternamente bebé e que não tem culpa nenhuma e que precisa de mim!


Comecei acompanhar a sua página no facebook muito cedo, talvez nos primórdios da página e sempre  li muito atentamente não só o seu testemunho em relação a sua depressão pós parto como os testemunhos de outras mães que partilharam as suas histórias consigo ... e a verdade é que infelizmente neste mundo da maternidade as mães ainda são muito esquecidas no pós parto... e este tema apesar de já ser muito abordado ainda esta longe de conseguir alcançar todos os profissionais de saúde que lidam diariamente com mães e futuras mães... ainda há uma preocupação muito grande centrada no bebé que é válida e legitima, mas a verdade é que é preciso ter uma mãe tranquila e bem para que a mesma possa desempenhar na sua plenitude a bênção de ser mãe."

Á conversa com a Ana #4 - "Nos primeiros 2 meses da minha filha evitava olhar para ela, estava em piloto automático"

"Há 2 semanas percebi que precisava de ajuda porque tinha entrado numa espiral de ansiedade, medo, angústia, desespero. Sentia-me quase sempre infeliz, muitas vezes pensava que não queria ter tido a C. e queria a minha vida de volta. Não estava a estabelecer ligação emocional com ela.”

 

Assim começa o texto do meu primeiro desabafo.

Dia 25 de Novembro de 2015, pouco mais de dois meses depois de ter nascido a minha filha, e duas semanas após o início do meu tratamento, enviei um e-mail às minhas amigas a fim de partilhar o que estava a acontecer.

Ao enviar o e-mail, procurando resumir dois meses tão intensos, apercebi-me de algo que, até então, não tinha percebido. Nos primeiros 2 meses de vida da minha filha, eu cuidava dela por responsabilidade e obrigação. Evitava olhar para ela. Estava em piloto automático: era mamar, pôr a arrotar, mudar a fralda, pôr a dormir. Não havia qualquer vínculo emocional.

 

Nessa altura, eu estava tão cansada (e doente) que não me apercebi que ainda não havia acontecido o clique, aquele momento em que olhamos ou pensamos nos nossos filhos e somos inundados de puro amor. Não, eu ainda não amava a minha filha, não como eu hoje sei que é amar. Não a amava incondicionalmente. Amava-a nos dias bons, nos dias em que ela estava calma e em que dormia bem.

Nos outros, a maioria, eu não sentia qualquer empatia por ela, pelas suas necessidades. Sentia-me irritada, frustrada, mesmo zangada com ela. Pensava “porque é que fui ter uma filha assim, tão difícil, que chora tanto?!” Pensava que ela dava muito trabalho, que era uma bebé exigente, que chorava muito, que era um tormento para dormir. Ficava até admirada, às vezes mesmo aborrecida, quando alguém mostrava carinho e preocupação com ela. 

 

Aqueles dois meses foram mesmo uma verdadeira loucura para mim. A pessoa que eu conhecia em mim, até então, tinha desaparecido. Eu, uma pessoa calma, pouco ansiosa, compreensiva, parecia que vivia em constante reatividade, sempre pronta a rebentar à mais pequena situação. Abanei a minha filha porque ela não parava de chorar, gritei com ela, disse-lhe que a detestava, virei-lhe as costas muitas vezes por não suportar o choro, evitava pegar-lhe ao colo, não queria ficar sozinha com ela.

 

Tantos mas tantos sinais de que as coisas não corriam nada bem! Mas, estando no meio da tempestade, com o cansaço característico do pós-parto, pela inevitável privação de sono, não consegui ter o discernimento para ver mais do que o meu sofrimento no dia-a-dia. Nem eu, nem o meu marido. Claro que sentíamos que havia qualquer coisa errada, mas achávamos que passaria, que era uma fase, que era o cansaço a falar mais alto. Que, algum dia, as coisas iriam acalmar.

 

Com a medicação e, sobretudo com a psicoterapia e o shiatsu, a tal ligação emocional começou a aparecer. Nos primeiros dias após o início da medicação o meu marido tirou uma foto de mim e da C. A primeira em que eu sorria verdadeiramente para ela. Poucas semanas depois, pela primeira vez, acordei e em vez de sentir um peso enorme no coração, e uma vontade de fugir, senti amor pela minha filha. Senti que a Amava. Foi tão poderoso para mim. Foi mesmo bonito. Fico emocionada ao recordar. Foi um momento muito importante para mim. Depois de tudo o que aconteceu naqueles dois meses, eu comecei a sentir que não estava estragada, que não era um monstro.

 

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Ao longo deste ano e meio de vida da minha filha, a nossa relação cresceu, cresceu muito, alargou-se para nela caber tudo. Os dias maravilhosos, os dias cansativos, os choros, os sorrisos. Amo incondicionalmente a minha filha.