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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Todos acham que eu já devia saber tudo sobre como cuidar de um bebé porque...

...Sou educadora de infância.

...É o meu segundo filho.

...Sou profissional de saúde. 

...Já sou mãe de três. 

...Trabalho com crianças.

...Sou professora. 

...Já cuidei de todos os meus primos. 

...Sou mulher. 

...Sou mãe.

 

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Estas foram as diversas respostas que eu já ouvi, por parte de mulheres, que sentem que as pessoas que as rodeiam consideram de alguma forma - seja porque o dizem, seja porque o demonstram, seja porque tecem comentários menos apropriados para o momento, seja porque simplesmente o sentem - que elas deviam saber tudo sobre como cuidar de um bebé. 

 

É também nesta pressão, que eu diria social, que nasce em larga escala o sentimento de culpa que muitas destas mulheres também carregam, por sentirem e/ou frequentemente se questionarem, sobre a sua capacidade de cuidar de um bebé. É no seu instinto que brota alguma sensação de alívio e/ou conforto, mas é também nas suas dúvidas, perceção de falta de apoio - incluindo aqui o social também - e na sua relação consigo mesmas que muitas vezes nasce o primeiro sentimento de que falei. 

 

Serei boa mãe o suficiente? 

Estarei a fazer o indicado no cuidado para com o meu filho?

Será que ele está confortável? 

Todos acham que eu já devia saber tudo sobre como cuidar de um bebé, mas não é assim que me sinto. 

 

E por vezes, no espaço do social, não há lugar para este tipo de expressão. Para a expressão de uma mulher, agora mãe, que precisa, que necessita, que muitas vezes grita quase em silêncio, bem baixinho, com vergonha, e com grande necessidade de se expressar, que apoio, compreensão e afeto, são as três palavras mais desejadas, e muitas vezes as três palavras mais caras, que neste momento, alguém lhe pode dar. 

 

E porquê? Porque mais caras, e portanto, menos acessíveis?  

Porque não doadas? Facilmente transmitidas? 

 

Somos frequentemente capazes de doar algo a uma instituição, de dar algo a um sem abrigo que passa na rua, de doar o nosso tempo a famílias e crianças carenciadas de algum tipo de apoio. E porque não, doar algum do nosso apoio, compreensão e afeto, a uma mãe confusa, por vezes desesperada, e desamparada, que carrega um bebé? Uma mãe que pode não dizê-lo, mas que facilmente o transmite através de um olhar, de uma expressão, ou de uma ausência inesperada, por exemplo. 

 

Todos acham que as mães, por serem mães, têm de saber cuidar. E se a mãe considerar que não sabe? E se tiver muito medo? E se o medo a impedir de tentar? E se não estiver disponível para aprender? E se quiser aprender, mas tiver muitas dúvidas? 

 

Será que é contribuindo para sua culpabilização que a vamos fazer sentir melhor? Que ela vai sentir que cuidará melhor do seu bebé? Ou é, fornecendo apoio, compreensão e afeto? Respeitar o seu tempo, estar atento, pedir ajuda especializada quando necessário, falar simplesmente com alguém que possa perceber um pouco mais das suas dificuldades, não pressionar, mostrar-lhe que gosta dela, como ela é. E como ela é, é também sentir dúvidas e ter dificuldades. É também, nem sempre saber.

 

E não é por isso que deixa de ser mãe.

E não é por isso que não faz o melhor que sabe naquele momento e dentro do presente contexto.

 

Todos acham que as mães deviam saber tudo sobre como cuidar de um bebé, mas todos se esquecem que por trás de uma mãe, está uma mulher, está uma pessoa, está um ser humano, e que continua ter, todas as suas características associadas.  

 

E já agora, será mesmo possível saber tudo sobre o que quer que seja?

Será mesmo possível saber tudo sobre como cuidar de um bebé? Sobre como cuidar de alguém? 

 

Fica a questão.

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto #10

As condições de vida das famílias têm vindo a mudar de forma radical nos últimos anos. Em quase todas as culturas existem rituais que servem para conferir um estatuto especial à mulher puérpera e que actuam essencialmente no sentido de aumentar a sua autoestima, de diminuir as suas dificuldades na relação conjugal e de clarificar o seu estatuto social. No entanto, esses rituais de passagem estão a desaparecer nas sociedades ocidentais atuais e a falta desses rituais cria um terreno propicio ao proliferar das perturbações relacionadas com a maternidade, nomeadamente porque a função desses rituais era assegurar o apoio social e suster a atuoestima da puerpera, duas circunstancias intrinsecamente reoacionadas com a depressão pós-parto.

 

 

Figueiredo, B. (2001). Depressão Pós-Parto: Considerações a propósito da intervenção psicológica. Psiquiatria Clínica, 22, (3), pp. 329-339.

Movimento Depressão Pós-Parto - Testemunho #1

Ontem lancei este Movimento - "O que é que tu sabes sobre Depressão Pós-Parto?" 

 

Já aderiram?

 

Uma das nossas leitoras já!

 

O que ela sabe sobre a Depressão Pós-Parto está relacionado com a sua experiência pessoal sobre o tema. 

Viver este tipo de realidade é uma situação bastante complexa que necessita de intervenção de profissionais especializados na área.

É comum que a mulher sinta uma grande pressão psicológica e social após o parto. Não é só a chegada de um novo membro da família e tudo o que essa nova e complexa realidade envolve, mas é também toda a adaptação do casal a essa nova realidade, assim como a adaptação da mulher a si mesma e a todas as experiências biopsicossociais que integra e que se vão desenvolvendo e maturando em si enquanto Mulher, Filha e Mãe, todos os dias, dia após dia.

Relembro-vos que Baby Blues ou Blues pós-parto e Depressão Pós-Parto são duas condições diferentes. Diferem em muito e é muito importante ter isto em conta para compreendermos o que se passa connosco, ou com terceiros, mas acima de tudo, é muito importante pois se o que sentimos perdura mais do que é 'suposto', então devemos procurar ajuda especializada para nos orientar na resolução do problema que vivemos.  

Já escrevi sobre essa diferença no seguinte artigo: 

Baby blues e Depressão Pós-parto: Duas realidades (muito) diferentes.

 

Deixo-vos de seguida com a partilha da nossa leitora sobre o que sabe sobre Depressão Pós-Parto:

 

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A gravidez ….correu bem, posso dizer-lho assim. Apesar de ser de risco a partir das 26 semanas desenvolveu-se sem problemas até ás 37.
Depois… depois nasceu um bebé. O parto correu bem, sem qualquer problemas, com poucas horas. Das 03:00 as 11:15… ate aqui tudo bem…
Depois… cada vez que olhava para aquele ser precioso, pequenino, indefeso, sentia-me impotente, incapaz, mal preparada para a responsabilidade que assumi - ser mãe. tinha 33 anos de idade, foi há pouco mais de um ano.
mas sinto que o baby blues ainda não passou, por vezes sinto-me num abismo. parece que tudo vai desabar.
no inicio pensava…agora já não sou só eu, este ser precisa de mim para tudo… não posso falhar, não posso errar. Agora sinto que se eu não estiver ninguém está, os horários são apenas ajustados por mim. Muitas vezes peço ao marido que me ajude nas tarefas diárias, mas já pedi tanta vez….Quando peço estou de tal forma desorganizada que sinto que tudo me escapa entre os dedos.
 Com uma criança para cuidar o tempo… ahhh o tempo… voa. Quando se dá conta passou duas horas e olhamos e nada feito… tudo igual, se estava desarrumado, desarrumado continua, o jantar continua por fazer.
Sempre me consegui organizar em termos de tempo, sou metódica, mas organizada, mas com uma criança não consigo, e pior é que não me habituo a que as tarefas não sejam feitas. Há já algumas tarefas domésticas que deixei de fazer mas mesmo assim… o tempo voa…
Para além de tudo isso há algo que agrava este mal estar… o facto do marido se manter descontraído, e nem sequer pensar que temos uma criança em casa. Não vê os perigos ao redor, ai sinto tudo… tudo em cima de mim… e se já não aguentou o pensamento ‘’não posso falhar’’, ai descamba tudo… Porque tenho duas crianças em casa, uma que não sabe o que faz e outra que devia cuidar da inocente e não se lembra, esquece-se de olhar em volta e ver os perigos…
Voltando atrás, ao pós parto imediato, houve ainda a dificuldade na implementação da amamentação, infrutíferas… Embora na minha mente amamentar é maminha… não fui capaz. Essa realidade é muito dura ainda na minha mente. E não fui capaz, porque não consegui organizar o meu tempo, e por consequência a minha mente. Havia sempre algo para fazer, o bebé precisava de horas para mamar, e não tive ninguém que me auxiliasse nas tarefas diariamente.
Quando nasceu cilho sentimos que não podemos falhar, a conjuntura económica familiar é muito importante pelo menos para garantirmos o essencial (alimentação, saúde, educação) e temos medo de perder o nosso trabalho, e nesta altura e ainda mais necessário, não podemos falhar (a nossa mente diz isto a todo o instante ). Então enquanto o marido trabalhava eu estava em casa com a bebe ( durante o período da licença), longe da família, por vivemos a 300km de distância. Era eu… eu que mudava a fralda, eu que fazia o almoço, eu que queria amamentar mas ela não pegava, eu que insistia e ela não pegava, eu que queria mas ela não. Eu que queria manter a casa limpa e arrumada, ter o jantar pronto quando o marido chegava as 20:30 depois de sair as 8:00 ou as vezes mais cedo… eu que muitas vezes nem ao WC conseguia ir, porque o bebe precisa de mim, vou aguentar…. Ficamos em segundo plano, enquanto aguentamos e na esperança que não e depressão , isto vai voltar ao sitio…. Vamos habituarmos uns aos outros e tudo volta a normalidade, mas vezes …. As vezes tudo desaba…. Porque ainda não consigo tomar conta de tudo sozinha, porque o pai também existe, e deve estar atento quando a mãe não esta por algum motivo, seja ele qual for…
De outro modo penso e continuo a pensar… não posso falhar!
 
isto e o que sinto neste pós parto com pouco mais de um ano…..

Vou lançar-vos um desafio. Curiosos?

Quando fundei o blog o meu grande objetivo era conhecer histórias de outras mulheres, homens e famílias que tinham passado por baby blues, depressão pós-parto ou qualquer outra situação semelhante que evidenciasse a já tão debatida frase de que "nem sempre maternidade rima com felicidade" (Macedo & Pereira, 2014). 

 

Muito do percurso que fui traçando foi sempre a pensar nesse objetivo e em outro - o de criar um espaço onde falar sobre experiências menos positivas ligadas à maternidade, especialmente decorrentes deste tipo de realidades, não fosse motivo de julgamento, culpabilização ou vergonha por parte das pessoas que da mesma padeciam, mas sim uma forma de encarar a vida, tal como ela é. 

Não é que todos os momentos que envolvam maternidade e paternidade tenham só este lado mais lunar. Não. Mas, é verdade que também o têm. E sempre me fez muita confusão o facto das pessoas tornarem esse momento um pouco "surreal" quando o floreiam com as possibilidades de uma vivencia totalmente fantástica e rodeada de momentos extraordinariamente quentes e coloridos, sempre. 

 

Sim, também é assim. Mas não é só. E o outro lado também precisa de ser desmistificado. O outro lado da maternidade e da paternidade também precisa de ser falado. O outro lado também precisa de ser transmitido a quem pensa engravidar, aos casais que estão grávidos e aos casais que acabam de ser pais. O outro lado da maternidade e da paternidade também precisa de ser falado com as famílias destes casais. Esta realidade também precisa de ganhar cor, à sua maneira. Pois de outra forma, continuaremos a ter casais e respetivas famílias informados incompletamente sobre uma situação que, embora não floreie tanto o momento da gravidez e da maternidade/paternidade, sem dúvida alguma que lhe dará outra cor, caso esses momentos não rimem de imediato com felicidade. 

 

E é por isso que vos desafio! 

Desafio mulheres, homens e respetivas famílias que já tenham passado por situações semelhantes, que estejam a passar pelas mesmas atualmente e/ou que conheçam casos relacionados a partilharem connosco as vossas reflexões, as vossas vivências. 

Desafio Profissionais e técnicos de saúde que trabalhem na área a transcreverem para o papel as vossas reflexões críticas sobre o tema, ou a escreverem simplesmente sobre o assunto e a partilharem-nas connosco. 

 

Tenho a certeza que juntos gritaremos muito mais alto que esta é uma problemática real e que precisa de ser falada e transmitida, a quem por este tema, pessoal ou profissionalmente, se interessar. 

 

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E então, desafio aceite?

 

blog@mulherfilhamae.pt

 

Uma visita guiada ao blog.

Caso tenham chegado há pouco tempo, ou caso já cá estejam há algum, recordo-vos dos espaços que foram sendo construídos no blog para transmitir a quem nos lê o máximo de informação útil sobre temas relacionados com a Parentalidade, especialmente com a Saúde Mental Perinatal.

 

Na barra do Menu podem sempre consultar:

 

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  • A Nossa História (Onde poderão ler o nosso testemunho detalhado sobre a nossa passagem pelo babyblues e como tudo originou a criação deste blog);
  • Saúde Mental Perinatal (Onde poderão consultar todos os artigos que escrevo sobre saúde mental na gravidez e no período do pós-parto);
  • Movimento Depressão Pós-Parto (Onde poderão consultar tudo o que é publicado dentro do respetivo movimento - testemunhos, opiniões, esclarecimento de dúvidas e questões, etc.);
  • Literatura sobre Saúde Mental Perinatal (onde poderão consultar artigos, textos e livros que li e analisei sobre o tema).

 

Ah! E se quiserem consultar alguns artigos mais recentes que fui publicando no blog, podem aceder diretamente aos mesmos por aqui:

 

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Na barra lateral podem encontrar evidenciados vários tipos de itens:

 

  • Podem estar sempre atualizados sobre o que escrevemos se nos subscreverem por email, aqui:

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  • Podem seguir-nos pelo facebook, e caso queiram ter acesso direto à nossa página pelo blog, é só fazer click aqui:

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  • Podem saber mais informações sobre a autora do blog e subscreverem-nos pela plataforma da sapo, por aqui:

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  • Podem comunicar comigo via email e o nosso contacto está sempre expresso aqui:

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  • Podem ter acesso a todos os testemunhos reais que nos vão chegando, de mulheres e respetivas famílias que vivenciaram situações de babyblues, depressão pós-parto, ansiedade puerperal e psicose pós-parto, aqui:

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  • Podem ter acesso a todos os eventos que promovemos, entrevistas que nos realizaram e outros artigos/momentos nos media em que participámos, acedendo por aqui:

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  • Podem consultar vários textos que já escrevi e que outros autores escreveram sobre o que é o Reiki e a Meditação e sobre o seu beneficio para a gravidez e para o pós-parto)

 

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  • Podem consultar os vários textos que já escrevemos desde o inicio do blog, aqui:

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Na nossa página principal estará sempre o texto mais recente que foi publicado.

Qualquer questão que nos queiram colocar, nunca hesitem!

Contactem-me via email por: blog@mulherfilhamae.pt

 

Até jáá!

Tenho tanto para vos contar!!!

E confesso que nem sei por onde começar...

 

Vão demorar dias (ou talvez, semanas...) a descrever por aqui todas as novidades que tenho para vos transmitir. 

Os últimos meses que passaram foram marcados pela ausência da vertente escrita neste blog. É verdade! Algo que não previa acontecer, mas que por força de vários acontecimentos na minha vida, acabou por se verificar.

No entanto, eu não estive, nem nunca me senti, totalmente ausente deste nosso espaço. Estive atenta e fui respondendo a todas as questões que me iam colocando - e que eu consegui - via email, e acima de tudo, fui observar, aprender e integrar um conjunto de novas perspetivas, e novos conhecimentos sobre Saúde Mental, especialmente, sobre Saúde Mental Perinatal. Seja através da leitura, da prática e/ou da observação, a verdade é que nos últimos meses me tenho dedicado a absorver o máximo de informação possível sobre a área em questão. Um caminho que iniciei quando fundei este blog, que tenho mantido com grande motivação e avidez de conhecimento e que pretendo continuar.

Hoje, absorvendo um pouco mais do mundo académico, tenho-me confrontado com frequência com uma diversidade de novas questões relacionadas com o tema e que sei que será também do vosso interesse terem acesso. 

 

Tantas vezes me apeteceu pegar no bloco e começar a escrever sem parar.

Tantas vezes me apeteceu passar a tarde a refletir, a ler e/ou a escrever. Seja para desabafar, pesquisar ou simplesmente a atualizar-me quanto ao foco principal deste nosso espaço, tantas vezes me apeteceu passar tudo o que ia refletindo, observando e aprendendo para aqui.

No entanto, os vários compromissos e desafios que se foram colocando no meu dia-a-dia de Mulher, Filha e Mãe (e agora, também de volta aos estudos...) acabaram por me ir consumindo, e o tempo voou, até hoje. 

 

Sei que muitos de vós se poderão identificar. Outros, talvez nem por isso. Mas para mim, o importante é dizer-vos que aqui me encontro de novo, com uma nova energia e muito para partilhar! 

 

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E vocês, prontos para me acompanharem neste novo ciclo?

Maternidade? Nem tudo são rosas!

Estava sentada no cadeirão cinzento quando tudo, efetivamente, começou.

Eram 21h00 do dia 31 de Dezembro, e tinha acabado de chegar a casa após duas belas noites na maternidade.

E lá estava eu, com a minha pequena nos meus braços. 

Ela a dormir, suspirava. E eu, pensativa, de repente, me consciencializava profundamente, do que poderia significar toda esta nova corrente de vida. Toda esta nova vertente do sentir.

Sem perceber bem como ou porquê, subitamente começo a aperceber-me da abertura de uma agressiva cratera num local, por mim, fisicamente desconhecido, mas emocionalmente, bastante sentido: o mais intimo de mim.

Seria nostalgia do momento? Seria medo? Cansaço? Fadiga? Dor? Não!

Comecei aperceber-me que angustia, vazio e tristeza, eram as palavras que melhor se encaixavam.

Mas porquê? Porquê?

Porquê, se agora, finalmente me sentia mais completa do que nunca!

Porquê, se agora sim!

Porquê, se agora sentia que tinha nos meus braços a fonte da minha realização enquanto mulher, a fonte do meu mais profundo desejo de ser, a fonte de metade do que eu sou conjugada com a minha, tão amada, cara-metade.

Porquê? Foi a pergunta que mais me quebrou durante quatro intensas semanas.

Semanas essas, que me assolaram de fraqueza, irritação, fragilidade, tristeza, constante angustia, necessidade de isolamento frequente e desvios constantes da minha mente. Mente essa, que preferia vaguear por entre os meus constantes e perturbadores pensamentos acerca do meu passado, do que, pela minha mais intima presente vontade de viver o meu amor incondicional, fomentando assim, a nossa cumplicidade, a nossa vinculação.

Não lhe virei as costas, mas muitas vezes fiquei parada a olhar p'ra ela, ali, pura e serena, colocando frequentemente em dúvida a minha capacidade de ser quem a cuida. De ser quem a protege. Embora nunca, a de ser quem incondicionalmente a ama. 

Culpa? Muita a senti! Muita me percorreu, pois sem compreender o que se passava ou o que aconteceu para chegar até ali, muito me culpava, dado que o desejo de a ter, antes d'ela existir, ultrapassava o tamanho do céu. 

Numa palavra? Assolador!

Sim, é verdade!

E perdoem-me, a quem futuramente poderá vir a viver a maternidade, mas este meu testemunho, não mostra mais nada, do que a crua realidade, de quem foi na onda do alheio floreado e pura ingenuidade, e se deixou apanhar na curva desta dura e muito intima veracidade.

Agradeço, sinceramente, a quem teve a coragem de enfrentar os seus fantasmas do passado e de me ajudar a identificar os meus do presente. Conseguem imaginar a importância que isto tem na vida de alguém?

 

Há quem chame isto de babyblues, há quem o denomine por melancolia ou tristeza pós-parto.

Tenha o nome que tiver, sabem o que mais me revoltou quando tudo isto passou? 

O facto de não haver em pleno século XXI, informação adequada, profissionais devidamente informados e interessados sobre esta temática, e acima de tudo, a existência de uma geral aceitação da situação como se de algo normal se tratasse, e pelo qual, quase que, necessariamente todas as mulheres têm de passar (e sozinhas) após um parto, por parte de uma sociedade supostamente evoluída, sem se provir a devida validação e abordagem à situação. 

Aceito que me digam que é naturalmente decorrente de uma gestação.

Não aceito que me façam engolir a normalidade de uma situação que altera por completo o íntimo, pessoal e social de uma vida comum, sem nada se fazer, e sem se agir de forma realista numa sociedade que em muito romântiza o que duro (de uma forma ou de outra), é logo à partida. 

 

Maternidade? Nem tudo são rosas!

 

 

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Como tudo começou

Tudo começou há algum tempo atrás quando iniciei a minha viagem por este caminho que tanto desejei: ser mãe.

Acreditem! Foi uma viagem e tanto.

Sem mala, e só com a roupa que tinha no corpo, de mão dada com o meu marido, comprámos um bilhete com um sorriso gigante nos lábios, mas completamente ausentes de conhecimentos sobre o local para onde iríamos. Quer dizer, previamente considerávamos ser detentores de alguns conhecimentos, mas quando a viagem efetivamente começou, verificámos que estávamos um pouco enganados...

Muitas vezes me perguntei, como seria, como reagiria, se seria capaz, mas, no fundo, no fundo, sabia lá eu o que me esperava. 

Gostava de ter começado por aqui (pelo inicio) quando fundei este blog, mas ainda não era o momento.

Hoje, mais desperta, segura e à vontade, falo um pouco da forma como tudo começou. Não só como tudo começou, por ter sido mãe, mas como tudo começou por me estimular a voltar ao mundo blogueiro e partilhar, observar, registar, e acima de tudo, aprender, com tudo o que aqui pretendo colocar, e de quem quer participar, ver e ouvir o que poderão querer partilhar e sentir.

 

Convido-vos a ler um pequeno registo sobre a minha inspiração que fiz nos primeiros momentos da sua vida. 

Vai-se lá saber porquê, mas há coisas que, simplesmente nos surgem. Esta, foi uma delas.

 

"Eram 21h11 do dia 29 de Dezembro

E gritou bem alto para toda a gente ouvir

o som que impunha o começo da sua vida.

O seu nome era Madalena,

e a sua força de vida,

embora que tão pequenina,

sem dúvida que bastante plena.

Veio logo de olho bem aberto e dedo na boca,

já cheia de fome e ainda nem minuto de vida tinha,

veio logo sentir a pele da sua mãe,

que tanto desejava sentir a sua também!

Não haviam palavras para descrever o momento,

não haviam palavras para definir

o sentido que uma pequena e vulgar vida ganha

ao inserir no seu sentido uma nova e pequena grande alma.

Um novo ser. Uma nova vida. Um novo amor. Um novo caminho.

A tal viagem, e a sede de descoberta era agora maior do que nunca,

e o amor disparava em todos o sentidos

dando força e velocidade, a todo o rumo que poderia tomar,

mais do que qualquer uma, esta nova realidade.

O Pai agarra a mão da mãe, a mãe agarra a mão do pai,

ambos seguram e sentem o resultado de uma soma que só se multiplica e não se subtrai.

E após alguns momentos que ficarão guardados na nossa memória a longo prazo,

respiramos fundo e abrimos os braços para abraçar todos os momentos que virão,

que sejam mais ou menos positivos,

serão sempre definidos por o inicio de grande paixão.

Engraçado como uma grande paixão, cedo se tornou num grande amor,

e hoje,contra todas as alheias expectativas,

um mais um, deixou de ser dois e passou a três, 

sendo, no mínimo, interessante, como a lógica e a matemática se tornam redundantes,

comparativamente à força do amor, que nos torna loucos e, inconscientemente, ignorantes."

 

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"Ai estão elas, uma com menos de um minuto de vida e a outra com mais de trinta segundos de plena felicidade"

 

 

Desabafo de uma vítima de violência doméstica.

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É cultural e deve acabar!

É transversal, e está a tornar-se banal.

É doente e aterroriza muita gente.

Não é fácil dizer não.

Não é fácil fugir, nem é fácil admitir.

Gente alheia não compreende e a sociedade pouco nos defende.

Gostava de me revoltar, gostava de poder falar, mas com quem?

As suas palavras são cruéis e as suas mãos são como pincéis que pintam duras marcas, principalmente na minha alma.

Sorri! Mente! Trabalha! Mantém-te perto! Pensares por ti, não está certo! Não olhes, não ouças, simplesmente, faz! - Ordena. E eu cumpro. Até quando?

Até quando esta dor?

Até quando este odor?

Até quando esta vida varrida?

Até quando esta mentira?

No inicio era princesa, ontem não tinha a certeza, hoje sou uma puta, e amanhã?

Primeiro uma festa, depois uma ofensa em flecha, hoje foi um estalo, e amanhã, o que será?

O amanhã é incerto. O amanhã não está certo, enquanto esta vida continuar.

Há pânico, pavor, dor, terror, e um, completamente nulo amor, que outrora foi a base da esperança de uma vida a dois. Não passou disso. De uma esperança. E hoje, é nada. É apatia. É vergonha. É a matança de uma auto-estima, que já pouco existia, e da qual alguém se aproveitou. Felicidade à parte, cada vez mais sinto que ser amado é uma arte, que não posso contemplar.

Se, de facto, um Deus existir, só espero que me oriente para um mundo de gente, que verdadeiramente, me saiba fazer surgir e por fim, só me resta agradecer-te amor. Hoje a minha vida é um completo e profundo terror onde reina o medo e não há espaço para construir terreno para alguém entrar.

Se é a este teatro que chamam violência doméstica, então parece-me que caí nesta dura peça da vida, e que as cortinas, estão prestes a fechar.