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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

E se o tempo voltasse atrás, também voltariam a ser mães?

Nos últimos dias tenho recebido inúmeros emails de mulheres, que para além de partilharem as suas histórias, integram um traço em comum: referem não querer voltar a ser mães de um segundo filho. 

 

"Para mim bastou esta experiência" - referiram. 

 

E quando dizem que esta experiência bastou, não se referem ao filho que geraram e que acolheram como lhes foi possível. Referem-se à experiência traumática que consistiu na experiência de uma depressão pós-parto, inicialmente vivida em silêncio, e mesmo depois de assumida e tratada, com um fraco apoio sentido por elas, em relação às pessoas que as rodeavam. 

 

Este fraco apoio assentou essencialmente na falta de compreensão alheia, especialmente por parte do companheiro e/ou da família próxima - "diziam que era frescura da minha parte, que eu era muito mimada e que agora tinha deixado de ter todas as atenções para mim e que tinha de aprender a lidar com isso" - referiu uma delas. Fraco apoio este que assentou no sentimento de culpa interno que não sabiam como ultrapassar, sendo que não possuíam meios para recorrer a apoio psicoterapêutico em privado, e o apoio fornecido através dos centros de saúde, tardou (muito) em chegar, "e quando chegou, a consulta não passava dos 20 minutos, quinzenalmente. Acabei por desistir e ficar só a tomar a medicação, que ainda hoje tomo." - referiu uma delas. Fraco apoio este que as fez deixar de ir a determinadas consultas (por exemplo) onde já eram seguidas porque não tinham onde/com quem deixar os bebés, e tinham medo de sair e de não serem capazes de tomar conta deles, e acima de tudo, medo que alguém achasse que não eram boas mães, ou que a depressão fosse farejada por alguém que pudesse por em causa o seu papel, o seu amor, e só se focasse no medo (gigante) e que transparecia em cada movimento descoordenado, em cada segundo de insegurança, e em cada respiração acelerada, em cada momento de stress constante. Este fraco apoio assentou em determinados detalhes como sentirem que não tinham ninguém que as incentivasse a saírem de casa, a arranjarem-se, a doarem um pouco do seu tempo para ficarem com os seus bebés, ou as acompanhassem, e "especialmente quando algumas pessoas da minha família souberam que tive depressão pós-parto, afastaram-se. Uma chegou a dizer que para tragédias, já bastava as da casa dela." - referiu uma delas. 

 

O fraco apoio sentido por estes mulheres, e acredito eu que por tantas outras nesta fase, deu expressão a sentimentos de solidão, de desamparo, de irritação, de culpa e fez ressaltar o sentido de responsabilidade perante os seus bebés, assim como, aumentar o receio de não serem capazes de estar à altura. Tudo isto ao mesmo tempo que vivenciavam uma depressão pós-parto e eram tratadas para esse efeito.

 

Não me admira nada que estas feridas não saradas originem pensamentos e emoções que estejam na base de atitudes como a de não quererem voltar a ter filhos. Faz-me é questionar com frequência a porra do olhar vago da sociedade em que estamos inseridas, e que não contempla experiências como a destas mulheres e que em tanto influenciam, de tantas formas e feitios, o mundo que estamos a criar.

 

Tal como é referido no Relatório Mundial de Saúde escrito pela OMS (2005),  "as crianças são o futuro da sociedade, e as mães, são as guardiãs desse futuro". Então eu pergunto-me, o que é que nos inibe de começarmos a olhar para elas com maior profundidade enquanto cidadãos e/ou profissionais de saúde?

 

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Eu conheço algumas das respostas à anterior questão, mas nenhuma delas sacia a premente necessidade que se verifica e que continua a aumentar. E já agora, considerando todas estas circunstâncias, e se o tempo voltasse atrás, também voltariam a ser mães?

 

Fica a questão.