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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Conheceu alguém que passou por alterações emocionais na gravidez e/ou pós-parto?

Foi esta a questão que coloquei a várias pessoas com quem contactei na segunda-feira, durante a tarde, pelas ruas de Lisboa. 

 

Desde que abri o Centro Mulher, Filha e Mãe que andava para tirar uma tarde para ir conversar com as pessoas que frequentam as ruas que envolvem o Centro, sobre saúde mental materna, e ontem foi o dia. 

 

Levei uma folha para apontar respostas, uma caneta, flyers, cartões, coragem, alegria e determinação, e assim fui eu, a andar por Lisboa durante horas.

Inicialmente, enquanto andava, fui deixando as minhas inseguranças ganharem expressão no meu coração e na minha mente:

- Mas que loucura é esta? 

- Será que alguém me vai ouvir?

- Vai tudo achar que eu vou pedir alguma coisa... e vou! Vou pedir tempo... 

- Talvez seja melhor só entregar os flyers e pronto... 

 

Mas não! 

O que eu queria era mesmo conversar com as pessoas sobre o tema. De forma livre e descontraída. 

O que eu queria era ler a expressão espontânea que as pessoas faziam quando as abordava. 

O que eu queria era ouvir o que as pessoas tinham para dizer. Mesmo que desvalorizassem. E mesmo se o fizessem, de certo que seria uma boa oportunidade para as sensibilizar para o tema. E assim foi! 

 

Vivi muito nessas horas a andar pelas ruas de Lisboa. 

A maioria das pessoas esteve sempre muito disponível para me ouvir. Ficavam interessadas e muitas desconheciam o tema. Outras, simplesmente expressavam seriedade do inicio ao fim. Preferiam não responder. Outras, identificavam-se de alguma forma. E todas, receberam com agrado um cartão ou flyer do Centro Mulher, Filha e Mãe

 

Para além das pessoas que iam a andar (aparentemente) de forma descontraída, também abordei pessoas em cabeleireiros, papelarias, cafés, centros de estética, jardins, esplanadas, floristas, e afins. O sorriso, a espontaneidade e a presença calorosa, foram sempre as principais ferramentas que levei comigo, assim como, a aceitação. 

 

Aceitar que determinadas pessoas não queriam falar, responder, que coravam, que se interessavam mais, que preferiram ignorar ou que encolhiam os ombros e continuavam a andar, por exemplo.

Aceitar a rejeição é difícil, mas necessário para termos alguma saúde mental. A verdade, é que seja neste, ou em qualquer outro momento da nossa vida, várias poderão ser as vezes em que nos sentiremos rejeitados, ou que, o seremos de facto. Nem sempre vamos ser aceites. Nem sempre as pessoas vão identificar-se com o que somos/fazemos. Mas isso também não significa que estaremos necessariamente no caminho errado. 

 

No final, fui ao café de sempre onde encontro com frequência uma equipa bem-disposta e que, desde que abri o Centro Mulher, Filha e Mãe, muita força me têm dado! Fui à Confeitaria Sá, onde o Sr. Carlos, que não gosta de tirar fotos, e o Diogo, que tanto lhe faz, aceitaram tirar uma foto comigo e registar o momento em que tomaram conhecimento de que amanhã, seria o dia mundial da saúde mental. Mas não foi só isso que aconteceu. Várias pessoas que estavam no café ouviram, e a conversa sobre o tema instaurou-se de uma forma alucinante. Nunca pensei que um "pequeno desabafo" desse origem a uma conversa tão produtiva e à troca de tantos contactos. 

 

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E já agora, têm de provar as queijadas de amêndoa desta confeitaria!

Tenho por certo, que vão querer voltar com frequência!  

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Estás a preocupar-te demais! Não vês que o bebé está bem?

Nos diversos contactos com mulheres grávidas e no pós-parto, que vou tendo através do blogue, e onde muitas vezes são descritas passagens de vida onde afirmações como a que evidencio no titulo deste texto são bastante comuns, várias vezes me questiono sobre porquê, onde e quando é que as pessoas se deixaram de preocupar com as mulheres e homens nesta fase do ciclo de vida. Ou então, porquê, onde e quando o deixaram de o manifestar. 

 

E reparem que evidencio o papel da mulher e do homem neste texto, e não o da mãe ou o do pai. Pois embora estejam interligados, inseridos num fundo comum a uma mesma pessoa, constituem-se lugares diferentes e que de igual medida, mas de diferente forma, necessitam de ser nutridos e acarinhados. 

 

Os bebés são inquestionavelmente seres que só pela sua imagem apelam ao nosso contacto e dedicação. E há muito que isto é um facto conhecido e amplamente estudado.

Os  bebés precisam muito do amor, carinho, atenção e da envolvência de quem os cuida. E quem os cuida, por norma, são os pais. No entanto, também os pais necessitam de amor, atenção e envolvência de quem os rodeia. Possivelmente, mais do que em muitos momentos de suas vidas. Este, por norma, é o momento em que também os pais, que (por vezes) nascem quando nasce um bebé, precisam de apoio e orientação. Falo de amigos, de família, mas também falo da comunidade que os envolve e onde estão inseridos os profissionais de saúde com quem contactam, assim como, os vizinhos, os senhores dos cafés onde costumam ir, assim como, os do supermercado ou da mercearia, talho, mercado e afins.

 

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Quando digo que precisam, acreditem que muitas vezes não é de forma declarada. Muitas vezes, os pais, precisam lá bem no seu íntimo que essa compreensão, apoio, orientação seja espelhada em diversos detalhes do dia-a-dia, mesmo que eles, não o verbalizem. Imaginem comigo, não acham que é difícil acabar de ter um bebé, e verbalizar que se precisa de ajuda, especialmente a nível emocional, porque não se sentem bem, ou porque não se sentem capazes, ou porque questionam continuamente a sua capacidade de cuidar? 

 

Qual acham que seria a resposta da maioria das pessoas que os rodeiam? 

Como é que acham que estes pais se sentem? A nascerem pais, e com estas dúvidas constantes na cabeça, e possivelmente desesperançados de algum tipo de resposta neste sentido?

 

Eu tenho uma ideia. 

 

Quando vos falo de apoio, compreensão e orientação, também vos posso dar alguns exemplos mais práticos.

Por exemplo:

  • Precisam que os "senhores dos cafés" os recebam como de costume, e não que questionem com frequência se os pais não deviam era estar em casa porque faz frio, ou porque o bebé precisa é de estar em casa e não sair (nos seus pontos de vista) considerando logo à partida que o bebé pode não estar muito confortável porque chora, ou porque simplesmente, assim o consideram (mas como é que eles sabem disto?! Em que é que se baseiam? Numa sabedoria popular? E porque não perguntam diretamente aos pais o que estes acham? Não seria esta uma forma mais simples de se mostrar essa compreensão em vez de se questionar a sensibilidade e o papel dos pais logo à partida? Digo eu...);

 

  • Precisam que as pessoas nos supermercados, na rua, nas lojas e afins, não fiquem fixamente a olhar quando veem um bebé chorar (Sabem... os bebés choram, e por vezes, os pais simplesmente ficam sem saber o que fazer/responder a este bebé naquele momento. Acontece. Ainda por cima quando todos os que os rodeiam resolvem fixar manifestamente o momento, expressando emoções que transmitem pouca confiança/desconforto de alguma forma. Por vezes, até os pais mais confiantes se sentem envergonhados nestes momentos. Mas é assim, na generalidade dos casos, faz parte do "conhecer o bebé", e do "conhecerem-se a si próprios enquanto pais deste bebé" pois este não nasce concomitantemente com livro de instruções na mão e/ou com uma previsibilidade comportamental estampada na testa. Sabiam?);

 

  • Precisam que os amigos e família respeitem a sua preferência de não haver visitas em casa nos primeiros tempos, assim como, que tenham alguma consciência de que se querem efetivamente ir visitá-los que é importante perguntarem a sua opinião, ou até, levarem o almoço/jantar e assim é menos uma refeição que estes pais têm de fazer. Ah! E se alguém ajudasse a passar uma roupinha a ferro? Ou a por uma ou outra máquina a lavar? Ou ajudasse a dar um jeitinho à casa? Ou ficassem, pelo menos, 10 minutos a tomar conta do bebé para estes pais irem tomar um banho, considerando por eles, minimamente decente? São só algumas ideias, mas podia dar-vos muitas mais!

 

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Bom, exemplos desta índole, não faltam! Mas não é só sobre isto que vos quero falar neste texto. É também, e especialmente, sobre o facto de haverem determinados momentos ao longo da gravidez e/ou no pós-parto onde os pais acabam por sentir maior preocupação em relação ao bebé. Seja porque o desejam há muito tempo e agora vão tê-lo nos seus braços e não querem que "nada corra mal", seja porque houve uma gravidez de risco difícil de se lidar, seja porque houve uma ecografia que demonstrou algumas possíveis alterações que posteriormente se vieram a verificar falsas, seja porque o parto não correu como o esperado, seja porque o temperamento do bebé não é o imaginado, ou por qualquer outro motivo. Seja pelo que for, existe uma preocupação, um motivo de dúvida, algo que poderá causar uma ansiedade crescente neste período, que por si só, já é muito delicado a nível emocional. 

 

A questão é, porque é que as pessoas teimam em desvalorizar este tipo de preocupações, se à partida, e ainda por cima quando declaradas pelos próprios pais, são motivo de ansiedade crescente e/ou até angústia associada em muitos casos? Porque é que optam por desvalorizar, focando-se no facto de bebé estar bem, não dando espaço a estes pais para se expressarem? Dizerem efetivamente o que sentem e porque o sentem? 

 

Porque é que é assim tão complicado? 

 

É difícil lidar com o sofrimento alheio. É difícil lidar com o próprio sofrimento em si. Pode ser verdade para muitos. Mas estes pais precisam deste apoio neste momento. Este bebé precisa que os pais se sintam apoiados neste momento. E daqui a alguns anos, ouvirão, possivelmente, um adulto a verbalizar que outrora, também precisou de se sentir mais apoiado.  

 

Já dizia Dalai Lama uma afirmação com que muito me identifico: 

 

"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um chama-se ontem e o outro chama-se amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."

 

Portanto, o dia ontem já não podemos mudar. Podemos sim, aprender a viver com ele. O dia de amanhã, ainda não sabemos como será. Simplesmente perspetivamos, planeamos. Então, parece-me que o dia de hoje é perfeito para se começar a trabalhar neste sentido. E começando a refletir verdadeiramente sobre o tema, pode ser, definitivamente, um primeiro passo. Um passo muito útil para todos nós. 

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Ansiedade e depressão na gravidez e pós-parto: Porquê pedir ajuda?

Porque há solução! 

 

Porque o sofrimento não tem de ser uma constante. 

Porque não é necessário suportar tudo em silêncio.

Porque voltar a estar bem consigo mesma, é uma forte possibilidade.

Porque existem vários recursos a que pode recorrer.

Porque vai-se sentir mais tranquila e segura.

Porque tem muitos dos recursos que precisa dentro de si para ultrapassar este momento.

 

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A gravidez e/ou o pós-parto podem não ter começado da forma mais tranquila possível, ou pelo menos, da forma como esperou. Contudo, não tem de permanecer assim. Há profissionais que a podem apoiar, existem recursos a que pode ter acesso, e com o tratamento e acompanhamento adequado pode voltar a encontrar o equilíbrio que procura. 

 

Considerando o meu percurso pessoal e profissional, desenvolvi um projeto de apoio a mulheres com alterações emocionais na gravidez e no pós-parto. 

 

Brevemente avançarei com mais informações sobre o projeto. Contudo, se até lá considerar que lhe posso ser útil em algo dentro desta temática, aqui ficam os meus contactos:

 

E-mail:
centro@mulherfilhaemae.pt

Telemóvel:
(+351) 936 180 928

Porque é que o nosso cérebro se torna ansioso?

A ansiedade está presente numa grande fatia da população portuguesa, e o mesmo aplica-se quando falamos sobre saúde mental perinatal

 

Há pouco tempo li um livro sobre algumas técnicas para controlar a ansiedade, de Margaret Wehrenberg, e de uma forma bastante simples e objetiva a autora leva-nos a compreender o lado mais técnico da ansiedade. Achei curiosa a forma como fez a ponte entre a neurociência e o comportamento humano para o leitor (mesmo podendo ser o útimo leigo na questão) para que este pudesse aceder de forma mais simples a este tipo de informação. Desta forma, e tendo em conta que a ansiedade é um tema que muitas vezes é abordado quando falamos de gravidez e pós-parto, resolvi trazer aqui um pequeno resumo para responder à questão: Porque é que o nosso cérebro se torna ansioso? 

 

O cérebro integra uma rede complexa de células cerebrais chamadas de neurónios, todas interligadas entre si.

Há muito ainda para conhecer sobre o funcionamento do cérebro, contudo, algo que se sabe até agora é que todos os pensamentos que temos e todas as emoções que sentimos, são resultado da atividade cerebral, e da mesma maneira que não nos sentimos bem quando algum órgão não está a funcionar adequadamente, os nossos pensamentos e emoções podem sofrer perturbações se o cérebro não estiver a funcionar bem.

 

 

Os neurónios comunicam entre si através de mensageiros específicos, os chamados neurotransmissores. Quando há problemas ao nível da sua quantidade - podem ser insuficientes, ou suficientes, mas não conseguirem passar a mensagem de um neurónio para outro, ou estarem presentes em excesso - e qualidade - no que toca ao local do cérebro onde são recebidos, ou, por exemplo, se houverem dificuldades no recebimento da mensagem no ponto de chegada, podendo haver neurónios que não as recebem com facilidade - a pessoa pode desenvolver ansiedade, ficando preocupada, reagindo excessivamente ao stress, ficando em pânico, ou até dando demasiado importância a coisas que não a merecem.

 

O tipo de sintoma que sentimos depende do tipo de neurotransmissores que tem problemas num determinado local do cérebro.

 

Estes sintomas podem ir desde o negativismo, à preocupação, a uma maior sensibilidade à ameaça, à perda de controlo emocional, a preocupações recorrentes, à demonstração de uma atitude inflexível, à agitação geral, à inquietação interior, tensão física e mental, ataques de pânico, sensação de desespero, concentração excessiva nos pormenores, entre outros. 

 

Durante o período perinatal (que vai desde a conceção até ao pós-parto), muitas pessoas referem sentir ansiedade de uma forma geral, com vários tipos de manifestações como as supracitadas, tal como, em parte, já abordei aqui

Seja neste período, ou em qualquer outro da vida, aprender e praticar algumas técnicas de meditação e relaxamento pode ajudar a atenuar este tipo de sintomatologia. Nesta fase, o controlo da ansiedade ganha um maior relevo tendo em conta o período em questão, e a influência do comportamento materno sobre o feto/bebé.

 

Em breve falarei mais sobre algumas técnicas de meditação e relaxamento, e divulgarei algumas datas para as podermos aprender e realizar em grupo, tal como aconteceu aqui. 

 

Interessados? 

blog@mulherfilhamae.pt

Workshop: Alterações emocionais na Gravidez e no Pós-Parto

No dia 17 de Fevereiro (6ªfeira), entre as 18h00 e as 19h30, estarei no Centro de atividades para grávidas, bebés e crianças - Árvore dos bebés - a falar sobre Alterações emocionais na Gravidez e no Pós-Parto

 

Podem consultar o evento no facebook, aqui.

 

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Gostavam de esclarecer dúvidas sobre o tema?

Querem conhecer outras pessoas na mesma fase da gravidez/pós-parto?

Gostavam simplesmente de trocar algumas ideias ou aprender um pouco mais sobre o tema?

 

Então não hesitem e inscrevam-se

 

Para mais informações:

geral@arvoredosbebes.pt    |     211930127

 

 

Conto convosco?

Sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto #9

 

O que diferencia a Perturbação da Ansiedade Generalizada (PAG) da preocupação normal são, sobretudo, os aspetos quantitativos, isto é,  a quantidade de tempo e os recursos psicológicos consumidos em preocupação e na tentativa do controlo da mesma. Adicionalmente, mulheres com PAG têm demonstrado utilização excessiva dos recursos  de saúde, menor qualidade de vida e maior disfunção conjugal

 

 

Macedo, A.F. & Pereira, A. T. (Coords) (2014). Saúde Mental Perinatal: Maternidade nem sempre rima com felicidade. Lousã: Lidel.

Socorro! Preciso de ajuda, mas ainda não me apercebi. Está alguém por aí?

Socorro! 

Grito em silêncio quando compulsivamente choro, e o peito rasga de tanta dor. 

 

Socorro!

Grito em expressão quando passo noites e dias a fio sem dormir, quando perco por completo o apetite, ou quando nada me move à exceção do automatismo interno que me impulsiona a cuidar de quem acolhi. 

 

Socorro!

Diz-me o coração, por tudo o que penso não saber fazer e por tudo o que sinto que concomitante sei e ainda não descobri. 

 

Socorro!

Olho para os olhos do meu filho e não faço ideia se estarei à altura da responsabilidade de o cuidar. 

 

Socorro!

Leio o que é suposto, ouço o que dizem ser certo, mas nem sempre o impulso para o fazer é genuíno. Com o meu filho, sinceramente, por vezes não me apetece ir por aí. 

 

Socorro!

Sozinha me vejo quando olho à minha volta e estão todos contra mim. Ninguém, no fundo, compreende o que sinto, mesmo quando me abraçam e dizem que se precisar de alguma coisa qualquer um estará aqui. 

 

Socorro!

É demasiada opinião para quem acabou de parir. 

 

Socorro!

Preciso de alguém que me ensine sem impor, de alguém que esteja lá sem eu notar, e de alguém que me relembre constantemente da mulher que sou, sem que em mim queira mandar. 

 

Socorro!

Não foi isto que eu idealizei. Não foi nada disto que eu planeei. 

 

Socorro!

Preciso de ajuda, mas ainda não me apercebi. Está alguém por aí?

 

 

Depressão Pós-Parto ou Depressão Perinatal?

Qual dos conceitos melhor traduz a depressão nesta fase da vida da mulher?

 

Dizer 'Pós-Parto' ou 'Perinatal', reporta-nos para períodos diferentes. Tal como o nome indica, 'Pós-Parto' reporta-nos para o momento a seguir ao parto e 'Perinatal' remete-nos para o momento desde a conceção até ao primeiro ano do bebé.

 

 

Classificar a Depressão como Depressão Pós-Parto, acaba por ser o conceito maioritariamente falado e escrito, contudo acaba também por ser mais limitativo do ponto de vista do desenvolvimento da doença, chegando até, a alimentar o mito de que "a Depressão só acontece depois do parto". O que não é verdade. 

 

A Depressão pode ocorrer em qualquer fase da vida, mas a Depressão que tem como foco subjacente as alterações biopsicossociais decorrentes da conceção até ao primeiro ano do bebé, é aquela que se denomina como Depressão Perinatal. 

Como referi neste texto, dado que quando se começou a investigar mais profundamente sobre o tema se incidiu maioritariamente no pós-parto, devido às consequências nefastas que se começaram a atentar mais na época como o suicídio da mãe e/ou o infanticídio, a depressão começou a ser denominada frequentemente como "Depressão Pós-Parto". Não é que esteja errada, no entanto, dizer Depressão Perinatal tendo em conta a sua caracterização, não só é mais correto, como também desmistifica por si só o período provável de ocorrência da respetiva patologia. 

 

Na DSM IV e na CID - 10 - dois livros que identificam vários critérios de diagnóstico para as doenças do foro mental - a depressão e outras patologias que ocorrem no mesmo período aparecem sempre indicadas como no "pós-parto", o que também a nível médico pouco tem contribuído para a clarificação destes conceitos. 

No entanto, sendo a Psiquiatria Perinatal uma área em constante desenvolvimento e que tem ganho uma visibilidade cada vez maior, é provável que a clarificação deste e de outros conceitos, vá sendo cada vez mais preconizada e concretizada.

 

Aqui no blog utilizo muitas vezes o termo Depressão Pós-Parto, uma vez que, sendo o mais conhecido dos dois acaba por mais facilmente chamar à atenção de quem lê os artigos sobre o tema. Contudo, muitas vezes já tenho utilizado o termo Depressão Perinatal para o ir começando a tornar familiar também.

 

E vocês, já alguma vez se tinham questionado sobre esta questão?

 

O apoio da família é fundamental! - artigo publicado na plataforma Maria Capaz.

Mais um artigo publicado na plataforma Maria Capaz que poderão consultar aqui, ou ler de seguida. 

 

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Sim, é verdade! Em qualquer fase da nossa vida, ter uma família que nos apoie é fundamental! E por família identifico  @ companheir@, filh@, mãe, pai, sogr@, irmã,  ti@, o irmão, amig@, prim@ enfim, todos e/ou qualquer um, que nos sejam verdadeiramente significativos.

 

Contudo, após alguns anos de existência confesso que nunca senti tanto a necessidade de apoio, suporte, (verdadeira) compreensão, tolerância e afeto, como senti na fase do pós-parto, enquanto viajava pelo mundo da recém-maternidade.  O turbilhão de emoções que nos envolve a cada novo dia que passa, as múltiplas adaptações que o nosso corpo comporta diariamente, e toda a interpretação e integração das mais variadas experiências e memórias que nos vão surgindo enquanto vamos construindo lenta e intensamente o nosso papel de mãe, não só justifica como consolida em simultâneo a necessidade de apoio por parte da família neste momento da nossa vida.

 

Precisamos de espaço, mas também precisamos de quem compreenda quando queremos um abraço. Precisamos de tempo, mas também precisamos de quem saiba identificar o adequado momento. Precisamos de ajuda para cuidar, mas também precisamos de quem não nos deite abaixo. Precisamos de quem limpe, organize, escute, observe, não julgue e compreenda que nem sempre vamos estar prontas para sorrir, ouvir, falar, ser ou simplesmente, estar.

Pensem que é das hormonas, das dores, das adaptações, das noites sem dormir, do cansaço, da confusão ou da desorganização psicoafetiva que para aqui vai. Pensem o que quiserem.

Pensem que antes dávamos tudo e que hoje dispomos de pouco ou quase nada para quem nos visita. Mas depois de acharem, pensarem, suporem, imaginarem, julgarem e refletirem, lembrem-se que diante de vós está a mulher de sempre. Ciclotímica ou não. Com um humor mais ou menos deprimido, está, por detrás deste cinzento véu que muitas vezes persiste em ficar, a mulher, filha, sobrinha, irmã, neta, prima, amiga e agora mãe, que precisa (talvez até, mais do que nunca) da vossa profunda reflexão sobre o conceito de apoio e compreensão, para concomitantemente tornarem o mais confortável possível, esta estreita fase que nos alberga, e por vezes, nos cega.

 

Se este tipo de apoio é comummente praticado? Talvez não, talvez sim. Mas já há muito que este fator é altamente estudado pelos conhecedores destas matérias, e quer aceitem, contestem, duvidem e/ou acreditem, a verdade é que o apoio da família nesta fase é fundamental!

E no fim – ou mesmo no início e durante a viagem – quando existe e persiste, faz frente, e teima solidamente com as suas emoções, atenuando, ou até mesmo prevenindo o desenvolvimento de perturbações como o Baby Blues e a Depressão Pós-Parto, transformando as típicas alterações que caracterizam a tão peculiar fase do início do pós-parto, em pequenas crostas emocionais, que pela sua desenvoltura cairão, deixando uma subtil, ou mesmo nula marca.

 

 

 Espero que tenham gostado, e que acima de tudo, vos faça refletir.

Crónicas da nossa Equipa Clínica - "Sexualidade na gravidez e no pós-parto – Mitos e Realidades!"*

Comecemos por definir o que é a sexualidade. Segundo o conceito da Organização Mundial de Saúde, a sexualidade é: uma energia que nos motiva a procurar amor, contacto, ternura, intimidade, que se integra no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados. É ser-se sensual e ao mesmo tempo sexual; a sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações, e por isso influência também a nossa saúde física e mental.

 

Esta definição de sexualidade é extremamente completa e integra toda a realidade da sexualidade em qualquer fase da vida adulta – inclusive – durante a gravidez e no pós-parto, fases que vamos abordar neste texto.

 

Assim que uma mulher engravida aparecem sempre uns “velhos do Restelo” com teorias sobre o sexo na gravidez, muitas delas baseadas unicamente em mitos. Vamos hoje desmistificar algumas ideias, sim? Vamos lá!

 

Mito: O orgasmo pode afetar o desenvolvimento fetal.

Realidade: Os orgasmos são positivos em qualquer fase e está provado que quando a mulher grávida vivencia um orgasmo o feto tem - igualmente – uma sensação de bem-estar.  

 

Mito: Ter relações sexuais no primeiro semestre pode causar um aborto?

Realidade: Não há qualquer impedimento do casal manter a sua vida sexual exceto se houver expressas contraindicações médicas.

 

Mito: As grávidas não sentem prazer.

Realidade: O prazer sexual sentido pela mulher não está diretamente relacionado com a gravidez. No entanto, algumas mulheres grávidas afirmam que conseguem sentir mais prazer sexual na gravidez devido a uma maior sensibilidade sensorial. Outras sentem uma maior inibição devido às mudanças corporais e a sua influência emocional. Não podemos – de forma alguma – generalizar.

 

Mito: A penetração pode magoar o/a bebé.

Realidade: O/A bebé está protegido pelo útero e a penetração não magoa o/a bebé. O nosso corpo é inteligente e está preparado para a atividade sexual mesmo durante a gravidez, se esse for o desejo do casal. Contudo, relembro que caso existam expressas contraindicações médicas para não terem relações sexuais com penetração as mesmas devem ser cumpridas.

 

É importante que a realidade seja conhecida por tod@s!

 

Na gravidez a mulher sofre imensas alterações hormonais, físicas e emocionais que tem de gerir da melhor forma e nem sempre (ou quase nunca) é uma tarefa fácil. Muitas vezes as alterações que ocorrem no corpo da mulher durante o período de gestação e no pós-parto podem provocar sentimentos de diminuição de autoestima que, por consequência, provocam uma imagem de menor beleza e capacidade de sedução que pode culminar no decrescimento do desejo sexual. Também há fases da gravidez e do pós-parto que provocam alguma diminuição do apetite sexual, nomeadamente os enjoos e o cansaço intrínseco. Outras vezes as alterações são positivas para as mulheres que se sentem mais femininas e atraentes com as novas curvas corporais e por consequência mantêm ou elevam a sua autoestima. Não há um padrão rígido, depende das mulheres, da gravidez, da relação de casal, de muitos elementos que podem influenciar estas fases.

 

 

Não nos podemos esquecer dos homens pois também eles lidam de forma diferente com a gravidez e com o pós-parto da mulher, o que influencia direta ou indiretamente o desejo e atividade sexual do casal. Por exemplo, há homens que se sentem mais atraídos pelas formas do corpo da mulher gestante e há outros homens que – muitas vezes influenciados pelos mitos em cima identificados – diminuem a sua libido. Não há uma postura certa ou errada nesta realidade, depende sempre das pessoas, do casal. O importante é que haja sempre diálogo entre os dois pois é uma regra fundamental na relação de casal, conforme já foi referido aqui.

 

Deste modo, é visível que a gravidez e o pós-parto são fases que o casal é obrigado a gerir com muito tato. Atualmente o tema da atividade sexual nestas fases ainda é considerado tabu. É muito importante que os casais não tenham receio de solicitar informações desta natureza e que dialoguem muito sobre o que querem e o que sentem, juntos enfrentam obstáculos e encontram soluções. A falta de diálogo e compreensão nestas fases pode originar situações mais complexas, entre elas, a depressão pós-parto. Neste ponto saliento também a retoma da atividade sexual no pós-parto que deve ser controlada pela mulher em parceria com o homem. A mulher é que deve reconhecer se se sente preparada – física e psicologicamente - para retomar a atividade sexual plena, não nos esquecendo das alterações hormonais que a mulher continua a sofrer no pós-parto e durante todo o período de amamentação. Mais uma vez relembro que o diálogo é crucial no casal e a partilha de todas as questões que existam.

 

O casal deve procurar sentir-se bem com as mudanças que ocorrem e não viver com dúvidas ou receios. Por exemplo, um casal que tenha contraindicação médica para praticar sexo deve perguntar ao/à especialista se está a especificar sexo com penetração pois é importante distinguir e relembrar que – caso o casal queira manter a sua intimidade sexual nestas fases – existem muitas formas de explorarem a sexualidade sem penetração e de forma prazerosa para ambos.

A prescrição nestes casos é simples: criatividade!

 

 

*Crónica por Isabel Sofia Pires (Terapeuta Familiar)