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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Estás a preocupar-te demais! Não vês que o bebé está bem?

Nos diversos contactos com mulheres grávidas e no pós-parto, que vou tendo através do blogue, e onde muitas vezes são descritas passagens de vida onde afirmações como a que evidencio no titulo deste texto são bastante comuns, várias vezes me questiono sobre porquê, onde e quando é que as pessoas se deixaram de preocupar com as mulheres e homens nesta fase do ciclo de vida. Ou então, porquê, onde e quando o deixaram de o manifestar. 

 

E reparem que evidencio o papel da mulher e do homem neste texto, e não o da mãe ou o do pai. Pois embora estejam interligados, inseridos num fundo comum a uma mesma pessoa, constituem-se lugares diferentes e que de igual medida, mas de diferente forma, necessitam de ser nutridos e acarinhados. 

 

Os bebés são inquestionavelmente seres que só pela sua imagem apelam ao nosso contacto e dedicação. E há muito que isto é um facto conhecido e amplamente estudado.

Os  bebés precisam muito do amor, carinho, atenção e da envolvência de quem os cuida. E quem os cuida, por norma, são os pais. No entanto, também os pais necessitam de amor, atenção e envolvência de quem os rodeia. Possivelmente, mais do que em muitos momentos de suas vidas. Este, por norma, é o momento em que também os pais, que (por vezes) nascem quando nasce um bebé, precisam de apoio e orientação. Falo de amigos, de família, mas também falo da comunidade que os envolve e onde estão inseridos os profissionais de saúde com quem contactam, assim como, os vizinhos, os senhores dos cafés onde costumam ir, assim como, os do supermercado ou da mercearia, talho, mercado e afins.

 

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Quando digo que precisam, acreditem que muitas vezes não é de forma declarada. Muitas vezes, os pais, precisam lá bem no seu íntimo que essa compreensão, apoio, orientação seja espelhada em diversos detalhes do dia-a-dia, mesmo que eles, não o verbalizem. Imaginem comigo, não acham que é difícil acabar de ter um bebé, e verbalizar que se precisa de ajuda, especialmente a nível emocional, porque não se sentem bem, ou porque não se sentem capazes, ou porque questionam continuamente a sua capacidade de cuidar? 

 

Qual acham que seria a resposta da maioria das pessoas que os rodeiam? 

Como é que acham que estes pais se sentem? A nascerem pais, e com estas dúvidas constantes na cabeça, e possivelmente desesperançados de algum tipo de resposta neste sentido?

 

Eu tenho uma ideia. 

 

Quando vos falo de apoio, compreensão e orientação, também vos posso dar alguns exemplos mais práticos.

Por exemplo:

  • Precisam que os "senhores dos cafés" os recebam como de costume, e não que questionem com frequência se os pais não deviam era estar em casa porque faz frio, ou porque o bebé precisa é de estar em casa e não sair (nos seus pontos de vista) considerando logo à partida que o bebé pode não estar muito confortável porque chora, ou porque simplesmente, assim o consideram (mas como é que eles sabem disto?! Em que é que se baseiam? Numa sabedoria popular? E porque não perguntam diretamente aos pais o que estes acham? Não seria esta uma forma mais simples de se mostrar essa compreensão em vez de se questionar a sensibilidade e o papel dos pais logo à partida? Digo eu...);

 

  • Precisam que as pessoas nos supermercados, na rua, nas lojas e afins, não fiquem fixamente a olhar quando veem um bebé chorar (Sabem... os bebés choram, e por vezes, os pais simplesmente ficam sem saber o que fazer/responder a este bebé naquele momento. Acontece. Ainda por cima quando todos os que os rodeiam resolvem fixar manifestamente o momento, expressando emoções que transmitem pouca confiança/desconforto de alguma forma. Por vezes, até os pais mais confiantes se sentem envergonhados nestes momentos. Mas é assim, na generalidade dos casos, faz parte do "conhecer o bebé", e do "conhecerem-se a si próprios enquanto pais deste bebé" pois este não nasce concomitantemente com livro de instruções na mão e/ou com uma previsibilidade comportamental estampada na testa. Sabiam?);

 

  • Precisam que os amigos e família respeitem a sua preferência de não haver visitas em casa nos primeiros tempos, assim como, que tenham alguma consciência de que se querem efetivamente ir visitá-los que é importante perguntarem a sua opinião, ou até, levarem o almoço/jantar e assim é menos uma refeição que estes pais têm de fazer. Ah! E se alguém ajudasse a passar uma roupinha a ferro? Ou a por uma ou outra máquina a lavar? Ou ajudasse a dar um jeitinho à casa? Ou ficassem, pelo menos, 10 minutos a tomar conta do bebé para estes pais irem tomar um banho, considerando por eles, minimamente decente? São só algumas ideias, mas podia dar-vos muitas mais!

 

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Bom, exemplos desta índole, não faltam! Mas não é só sobre isto que vos quero falar neste texto. É também, e especialmente, sobre o facto de haverem determinados momentos ao longo da gravidez e/ou no pós-parto onde os pais acabam por sentir maior preocupação em relação ao bebé. Seja porque o desejam há muito tempo e agora vão tê-lo nos seus braços e não querem que "nada corra mal", seja porque houve uma gravidez de risco difícil de se lidar, seja porque houve uma ecografia que demonstrou algumas possíveis alterações que posteriormente se vieram a verificar falsas, seja porque o parto não correu como o esperado, seja porque o temperamento do bebé não é o imaginado, ou por qualquer outro motivo. Seja pelo que for, existe uma preocupação, um motivo de dúvida, algo que poderá causar uma ansiedade crescente neste período, que por si só, já é muito delicado a nível emocional. 

 

A questão é, porque é que as pessoas teimam em desvalorizar este tipo de preocupações, se à partida, e ainda por cima quando declaradas pelos próprios pais, são motivo de ansiedade crescente e/ou até angústia associada em muitos casos? Porque é que optam por desvalorizar, focando-se no facto de bebé estar bem, não dando espaço a estes pais para se expressarem? Dizerem efetivamente o que sentem e porque o sentem? 

 

Porque é que é assim tão complicado? 

 

É difícil lidar com o sofrimento alheio. É difícil lidar com o próprio sofrimento em si. Pode ser verdade para muitos. Mas estes pais precisam deste apoio neste momento. Este bebé precisa que os pais se sintam apoiados neste momento. E daqui a alguns anos, ouvirão, possivelmente, um adulto a verbalizar que outrora, também precisou de se sentir mais apoiado.  

 

Já dizia Dalai Lama uma afirmação com que muito me identifico: 

 

"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um chama-se ontem e o outro chama-se amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."

 

Portanto, o dia ontem já não podemos mudar. Podemos sim, aprender a viver com ele. O dia de amanhã, ainda não sabemos como será. Simplesmente perspetivamos, planeamos. Então, parece-me que o dia de hoje é perfeito para se começar a trabalhar neste sentido. E começando a refletir verdadeiramente sobre o tema, pode ser, definitivamente, um primeiro passo. Um passo muito útil para todos nós. 

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Ao pai do meu filho: Preciso de ti!

És o pai do meu filho, e só por isso preciso de ti! 

 

Optámos por enveredar pelo complexo e maravilhoso mundo da parentalidade, e só por isso, preciso de ti! 

Desejando muito em uníssono, ou nem por isso, este bebé que acolho em mim, implica com todas as certezas que eu precise mesmo muito de ti!

Engravidámos os dois, e projetamos física e emocionalmente, tudo o que poderemos vir a construir em conjunto, e só por isso, preciso de ti!

Fico enjoada, vomito, estou mais irritada, lamechas, com falta de memória, tranquila, feliz, e com todo o tipo de emoções e expectativas à flor da pele, e só por isso, preciso de ti!

Estou quase a parir, e preciso muito de ti! 

Tenho imensas dores, medos, receios, angústias e preciso de mandar tudo à merda, e preciso de ti!

Quero beijar-te, mostrar-te que te amo, dizer-te que tudo poderia ter sido diferente - podendo até nem ter sido - e só por isso, preciso mesmo muito de ti! 

Estou completamente apaixonada pelo nosso filho. Aquele que eu e tu, planeámos, expectamos, imaginámos, e que agora, contemplamos. E só por isso, preciso mesmo muito de ti! 

Doem-me as mamas, dói-me o rabo, doem-me as costas, dói-me a sutura, e acima de tudo, dói-me o peito. Por vezes o coração. A ansiedade aumenta a cada dia que passa depois do nosso filho ter nascido. Será que serei boa mãe? Será que conseguirei educá-lo? Será que? Será? Porra! Como eu preciso de ti... 

 

Preciso de ti para encarares.

Preciso de ti para me ouvires. 

Preciso de ti para me compreenderes. 

Preciso de ti para acreditares comigo que tudo voltará a ser idêntico ao que era, mas agora, bem melhor!

Preciso de ti para me aconchegares.

Preciso de ti para me pedires aconchego e para compreenderes, que por momentos, os meus braços podem estar ocupados, mas que o meu coração mantém o mesmo espaço reservado em exclusivo para ti. 

Preciso de ti para me mostrares que me amas. Que me queres. Que percebes que por agora o sexo não é uma prioridade, mas que o tempo faz com que tudo volte a ser como era, ou quem sabe, bem melhor!

Preciso de ti para me olhares enquanto mulher. Para puxares por esse meu lado também. 

Preciso de ti para me confrontares com o que achas que não está bem, mas para saberes ouvir o que sinto e que poderá estar em discórdia também. 

Preciso de ti para pedires ajuda a alguém, caso eu não me sinta mesma nada bem, e não reconheça, não compreenda.

 

No fundo, preciso de ti para vivermos a vida que idealizámos, e que agora foi completamente abanada pelo nascimento de quem muito esperámos. 

 

Preciso de ti para tudo isto, e quem sabe, até para muito mais. 

Mas se por agora não puderes estar e sentir comigo esta fase que vivemos, e que pode não estar a ser tão feliz como expectámos, sabe que sozinha (é bem provável que) também conseguirei. Mas é bem mais difícil e doloroso também. 

 

 

Saúde Mental Perinatal: Sabem o que significa?

Vários são os momentos em que utilizo este termo nos meus textos, assim como existe um separador no menu e na barra lateral que o evidencia. 

Dado que muitas são as pessoas que vão entrando neste espaço, alguns possivelmente pela primeira vez, parece-me que é bom relembrar no que consiste. 

A Saúde Mental Perinatal caracteriza-se pela saúde mental da mulher desde a conceção até ao primeiro ano após o parto, e desta forma, engloba qualquer temática que integre este período e que esteja relacionado com a saúde mental.

Por sua vez, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) a saúde mental caracteriza-se como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere“.

Nesta definição, a “saúde mental” é entendida como um aspeto relacionado ao bem-estar, à qualidade de vida, à capacidade de amar, trabalhar e de se relacionar com os outros. Com esta perspetiva positiva, a OMS convida-nos a refletir sobre a saúde mental muito para além das doenças e das deficiências mentais.

 

Dentro da área da saúde mental perinatal podemos falar em inúmeros aspetos relacionados com a promoção da saúde, a prevenção das doenças, sobre as doenças que se podem desenvolver, sobre o tratamento e sobre a reabilitação das pessoas que desenvolvem as respetivas doenças, seja de que âmbito for. 

É por isso que também muito valorizo os testemunhos que me enviam sobre o tema, pois permitem-me, e a quem nos lê, compreender de uma forma mais ampla como é que cada pessoa, e respetiva família, vivência as problemáticas que a afetam, como se sente e que tipo de estratégias utiliza para ultrapassar o presente momento. Algo que considero bastante pertinente de publicar, e consequentemente transmitir a quem nos lê e procura informação deste tipo.

 

Quando se fala em Saúde Mental Perinatal, rápido se pensa em depressão pós-parto, mas quando se fala em saúde mental perinatal fala-se em muito mais do que a depressão pós-parto. Falamos de blues pós-parto, de psicose pós-parto, de ansiedade pós-parto, de depressão na gravidez, de fobias na gravidez e no pós-parto, de problemas na relação mãe-bebé, problemas de sono específicos neste período, de stress pós-traumático na gravidez e no pós-parto, de sintomas específicos deste período, entre muitos (mesmo muitos...) outros temas cujo foco é a mãe e o bebé. 

A saúde mental perinatal integra uma esfera de conteúdos sobre uma série de aspetos e problemáticas que confrontam a mulher e respetiva família num período de grande transição e expectativa (a conceção, a maternidade, a parentalidade...) paralelo a uma série de equilíbrios e desequilíbrios que daí possam surgir. 

 

É essa esfera que, neste espaço, pretendo fazer girar, sendo sobre a mesma que pretendo falar e aprofundar conhecimentos, espelhando-os no item da página principal do blogue que identifica "Saúde Mental Perinatal".

E já agora...já exploraram este espaço? 

 

Têm questões, sugestões, ideias?  

Não hesitem em enviar-me email sobre as mesmas! 

blog@mulherfilhamae.pt

Baby blues e Depressão Pós-parto: Duas realidades (muito) diferentes.

Como temos vindo a falar consecutivamente, existe um momento após o parto que pode vir a ser muito stressante não só para a mãe, como para o pai e toda a família envolvente e presente.

A verdade é que ter um bebé é por si só stressante! Não interessa o quanto se desejou este momento ou o quanto se ama esse filho.

 

 

 

Existe uma fase que se inicia cerca de 2 a 5 dias após o parto denominada por Baby Blues. É uma fase perfeitamente natural decorrente de um pós-parto, mas se os sintomas não desaparecem após algumas semanas ou se se intensificam, poderá estar presente uma depressão pós-parto. Este tipo de depressão pode interferir com a capacidade para cuidar do bebé, por isso é extremamente importante que se tenha ajuda imediata.

Com apoio familiar e profissional adequado, a mãe, poderá voltar com confiança ao seu papel maternal.

 

 

Baby Blues

 

Já falámos muito por aqui sobre este tema e iremos continuar a falar muito mais!

 

Acabamos de ter o nosso filho e de acordo com o que nos transmitem verbal e não verbalmente, é suposto que estejamos a celebrar a chegada deste novo membro da família com os nossos amigos e família. Mas ao contrário de grandes festejos, só nos apetece chorar. Estávamos preparadas para a alegria e celebração, e não exaustão, ansiedade e choro. Certo? Estávamos preparadas para a construção de um novo amor isento de significativas problemáticas subjacentes, mas em vez disso, iniciamos essa construção quebradas numa realidade hostil e nulamente confortável.

Embora possamos não estar preparadas, estas repentinas e frequentes mudanças de humor são comuns nas mães que deram à luz recentemente.

O Baby blues não tem ainda uma tradução consensual. Trata-se de uma condição benigna que se inicia nos primeiros dias após o parto, com duração de alguns dias a poucas semanas. É de leve intensidade e não requer, normalmente, o uso de medicação.

 

A grande maioria das mães numa fase recente da maternidade experimenta pelo menos alguns sintomas decorrentes deste, nomeadamente, tristeza, dificuldade em dormir, irritabilidade, alterações do apetite e problemas de concentração. 

Para terem uma noção, entre as mulheres que acabam de ser mães, aproximadamente de 50 a 85%, experienciam esta condição após o parto (Mehta e Sheth, 2006).

Desta forma, tenham a noção de que, se passarem por esta fase não é caso para alarme, pois é provável que virão a sentir-se melhores assim que as hormonas equilibrarem, sendo que, o apoio dos que a rodeiam, especialmente do seu companheiro, é essencial e suficiente para ultrapassar esta fase.

Contudo, convém estar atenta ao tempo que este período predomina na sua vida. Pois se demorar mais do que 2-4 semanas, então convém procurar apoio especializado (Psicólogo/Psiquiatra/Médico de Família). Poderá estar perante uma Depressão pós-parto.

 

Depressão Pós-Parto

 

A Depressão pós-parto é um problema sério que não deverá ser ignorado. Contudo nem sempre é fácil distinguir entre Baby Blues e Depressão pós-parto.

No início, uma depressão pós-parto pode ser semelhante ao Baby Blues. Afinal ambas as situações partilham muitos sinais e sintomas, incluindo as alterações do humor, choro frequente, tristeza, insónia e irritabilidade. A diferença está na severidade e maior duração da sintomatologia no caso da depressão pós-parto.

 

Exemplo de alguns sinais e sintomas típicos da depressão pós-parto são:

• Falta de interesse no bebé;
• Sentimentos negativos para com o bebé;
• Grande preocupação relativamente à incapacidade de cuidar do bebé;
• Falta de interesse em si própria;
• Falta de energia e motivação;
• Sentimentos de inutilidade e culpa;
• Alterações no apetite ou peso;
• Dormir mais ou menos do que o habitual;
• Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio.

 

A depressão pós-parto surge normalmente pouco depois do nascimento do bebé e desenvolve-se num período de vários meses. Mas também pode surgir repentinamente, e em algumas mulheres os primeiros sinais só aparecem após vários meses de terem sido mães. Para além disso, as causas da depressão pós-parto ainda permanecem pouco claras, no entanto, são apontadas vários tipos de alterações a nível físico, psicológico e social.

 

 

 

Querem ter acesso a mais bibliografia sobre o tema?

http://www.pandasfoundation.org.uk/

http://www.panda.org.au/

http://americanpregnancy.org/first-year-of-life/baby-blues/

 

Em conversa com... Um homem que (sobre)viveu aos tais Baby Blues. Já ouviram falar?

Baby Blues ou Melancolia pós-parto é uma "perturbação do humor" transitória, com sintomatologia intensa, mas de pouca durabilidade, comparativamente a outras perturbações pós-parto.

Surge entre o terceiro e o sétimo dia pós-parto, persistindo por uma a duas semanas, podendo no entanto, prolongar-se por mais tempo, e abrange cerca de 80% das puérperas (mulheres que se encontram numa fase pós-parto até às 6 semanas, a partir do nascimento do bebé) de acordo com a OMS (2007).

 

Os sintomas mais comuns inserem-se na labilidade emocional, irritabilidade, ansiedade, insónia, fadiga, perda de apetite, alterações de humor, falta de confiança em si própria, crises de choro, hiperemotividade, sentimentos de incapacidade. Porém, para muitos autores que se dedicaram ao estudo deste estado, é a labilidade de humor e as crises de choro que são fontes de evidência do surgimento da melancolia pós-parto, para a maioria dos casais.

Muitos autores consideram ainda que este, não é um estado patológico, mas sim, um estado essencial para promover a adaptação da mãe ao bebé, favorecendo o alivio do stress e ansiedade que acomete o puerpério.

 

As variações hormonais, a forma como se viveu a gravidez, o apoio do conjugue, dos familiares mais próximos, amigos, etc., pode estar na origem do seu aparecimento e/ou favorecer uma melhor ou pior gestão do Baby Blues.

 

Aproveitando a chegada do dia do Pai, e tendo em conta a alta percentagem de casos estimados,  Mulher, Filha & Mãe esteve à conversa com um amigo, um Homem que viveu de perto um caso de Baby Blues, e tentou captar a prespetiva masculina da questão.

Ele preferiu manter o anonimato, pelo que o retratei por V.

 

Ora, vejam lá o resultado.

 

 

 

MF&M: Sabias o que era o Baby Blues?

V: Não. Nunca tinha ouvido falar. Já tinha ouvido qualquer coisa (mas nada especifico) sobre depressão pós-parto, mas nem sequer sabia se tinha muito, pouco ou nada a ver com o babyblues.  

 

MF&M: Quando a tua esposa começou a vivenciar esta situação, apercebeste-te logo do que se estava a passar?

V: Logo, logo, não. Demorou alguns dias até perceber que o que se estava a passar não era uma simples tristeza momentânea. Mas notei que algo não estava bem na sua forma de estar, ser, pensar.

Lembro-me do primeiro dia em que chegámos a casa da maternidade, de vê-la sentada no cadeirão no quarto da nossa filha, e de alguma forma o olhar vago, e triste que ela transmitia, o facto de se estar sempre a querer isolar do resto da família, me deixou um pouco desconfiado a pensar que alguma coisa se passava, mas não dei logo a devida importância.

 

MF&M: O que sentiste quando presenciaste um "primeiro episódio"?

V: Eu não lhe chamaria episódio. Eu chamar-lhe-ia estado. Isto, porque não há um episódio de vez em quando e depois a pessoa está bem ou normal. Existe uma mudança de estado global da própria pessoa. Ou pelo menos, foi isso que senti, que observei. 

Mas respondendo à tua pergunta, inicialmente senti receio do que o que quer que se estivesse a passar, pudesse fazer à nossa relação, mas como te disse, ao mesmo tempo, inicialmente, também pensei que fosse algo momentâneo. Posteriormente é que comecei a perceber que não.

 

MF&M: Como classificarias então, esse estado?

V: Ela andava muito mais irritada, mais triste, mais nervosa, chorava facilmente por qualquer coisa, mais insegura em relação a tudo, não queria sair (o que não era nada comum na pessoa que estamos a falar), nem estar com ninguém conhecido. Queria estar só comigo e com a filha e às vezes, sozinha.

 

MF&M: O que fazias nesses momentos para a ajudar?

V: Sinceramente, em alguns momentos sinto que não fiz nada porque era tão difícil lidar com isto...

Em primeiro lugar temos de ter em conta que nenhum de nós os dois, inicialmente, sabia classificar o que se estava a passar, depois isto não aconteceu por fases, aconteceu tudo muito depressa, ao mesmo tempo que nos habituávamos às rotinas de um novo membro na família e toda a adaptação emocional e estrutural que isso traz, e depois andava super cansado, porque tentávamos dividir todas as tarefas para não estar nenhum sobrecarregado. Ou seja, inicialmente não me apercebi e reagi mais do que agi, pensava que era o feitio dela, ou que estava a descarregar o stress em cima de mim, e depois quando nos apercebemos que algo não estava bem, a minha postura mudou. Tentei ser o mais compreensivo possível, não reagir logo à forma agressiva com que muitas vezes falava comigo, e tentava fazer com que sentisse sempre o meu apoio, fazia tudo o que podia em casa, no cuidar da nossa filha, fazia-lhe massagens, tentava ser sempre otimista, tentei dar-lhe algum espaço e ao mesmo tempo mantinha-me sempre por perto para o que fosse necessário.

 

MF&M: Em algum momento sentiste que já não sabias o que fazer?

V: Sim. Várias vezes. Farto. Exausto. Cansado. Cansado. Cansado.

Sentir que me estava a esforçar ao máximo e de repente parecia que nada do que estava a fazer era suficiente e a única coisa que queria era vê-la bem. E ela estava tudo, menos bem. Não era nada fácil. Senti-me várias vezes sem norte, mas ao mesmo tempo, também não podia quebrar. Não foi nada fácil...

 

MF&M: Ironicamente falando, o que fazias nessa altura, quando não sabias o que fazer?

V: Pensava na nossa filha, e em como sempre a desejamos tanto, juntos. Pensava no amor que tenho pela minha mulher e em como queria que tudo resultasse e que estes momentos menos bons parassem. Tentava parar para refletir, engolir o orgulho (que é extremamente difícil...), descansar sempre que podia para depois com as ideias mais frescas, ser mais positivo.

 

MF&M: Alguma vez pensaste em recorrer a outro tipo de ajuda, juntamente com a tua esposa?

V: Não. Porque para mim recorrer a outro tipo de ajuda só mesmo em último caso e eu sempre senti que a muito ou pouco custo, juntos íamos conseguir ultrapassar isto. Que tínhamos a capacidade mental para o fazer. Sentimo-nos desamparados, é verdade! Mas também, juntos seríamos mais fortes. 

E sinceramente, pensando hoje, juntamente com a minha mulher, percebemos que este assunto ainda é muito tabú na nossa sociedade. Muitas vezes associado à ingratidão da mulher por não estar feliz com a sua própria vida e vinda de um filho e não tem nada, mas mesmo nada a ver com isso! Esta forma de pensar, faz com que muitas mulheres não falem, ou ignorem o assunto, o que é bastante prejudicial para elas e para com quem vivem, podendo trazer problemas pessoais a curto ou a longo prazo, como tivemos oportunidade de ler em alguns (poucos) artigos portugueses que encontrámos sobre o assunto.

 

MF&M: O que pensas que ajudou a tua esposa a superar esta fase?

V: Uma das coisas que mais a ajudou (e a mim também) foi a conversa com um casal amigo, que concludentemente, também já tinha passado pelo mesmo. Passámos algum tempo a falar sobre isto, eles deram-nos alguns conselhos, apoiaram-nos, e isso foi muito importante para nós. Depois, também o facto da minha esposa estar sempre a pesquisar sobre o assunto, tentar informar-se ao máximo e acima de tudo, o amor que temos pela nossa família, o nosso foco, manter o nosso foco, foi muito importante.

 

MF&M: Gostavas de deixar alguma mensagem a outros homens que possam estar a viver o mesmo que tu, ou que poderão vir a vivê-lo?

V: Sim! Tentem ler o máximo sobre isto, mas de preferência, antes do parto. Infelizmente, os profissionais de saúde com que contactamos nunca falaram sobre isto, e pior, quando os confrontámos com esta situação, desvalorizaram. Falem com amigos e familiares, tentem perceber como viveram cada situação. Não é que nos sintamos bem com o "mal" dos outros, mas as experiências alheias ajudam-nos a compreender a nossa e consequentemente a orientarem-nos num caminho interno e conjunto. Sei que nem sempre será fácil, por isso não se castiguem por isso, mas tentem ao máximo ajudar a vossa mulher a cuidar do(s) filho(s), da casa, insistam para saírem de casa e irem passear sempre que possível, façam com que a mesma saiba o quanto gostam e se importam com ela! Mais do que nunca, este é o momento. E nos piores momentos, tentem respirar, refletir, descansar e mentalizem o vosso foco. E se esse for para estarem juntos, então lembrem-se sempre disso. 

 

 

 

Tal como este Pai disse: "Juntos somos mais fortes". Por isso, divulguem esta palavra, especialmente, se conhecerem alguém que passa, já passou ou poderá vir a passar por esta situação. 

 

Se também vocês querem dar força a esta questão e partilharem alguma sugestão, testemunho ou questão enviem-nos email para blog@mulherfilhamae.pt