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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Á conversa com a Ana #5 - "Depois da depressão pós-parto, voltarei a ser a Ana de antes?"

A semana passada tive a 4ª consulta com a psiquiatra. Saí a fazer um balanço do percurso feito desde a primeira vez que entrei naquele consultório, no Hospital Júlio de Matos. Cada consulta marcou uma etapa diferente no meu processo de cura.

 

A primeira foi no dia 12 de Novembro 2015. Faltava uma semana para a C. fazer dois meses. Mal sabia eu que este dia iria ser o dia D: o dia da rutura total, tanto física, como emocional e psicológica, mas também o dia do recomeço. A minha querida médica foi a mão (a primeira entre muitas outras que se seguiram) que a vida estendeu-me para puxar-me até si.

Não me esquecerei da tranquilidade, da doçura e da paciência com que ela me recebeu, falou e me ouviu. Com ela, nesse dia, comecei a sentir esperança. Esperança de não ficar “maluca” para sempre e de voltar a ser a Ana de antes. Sim, porque estas foram as minhas primeiras perguntas: ficarei maluca para sempre e voltarei a ser quem eu era! Mas voltarei um pouco atrás, para falar um pouco das semanas que antecederam este dia e que mostram a importância deste encontro.

 

A ansiedade e a tristeza constante que sentia levaram-me ao final do 1º mês a enviar um email à médica de família, a comentar tal estado de espírito e a perguntar se me podia indicar algum psicólogo. Recebi resposta a confortar, não conhecia ninguém, mas na próxima consulta da C. falaríamos se ainda sentisse necessidade. Falámos na consulta do 1º mês da C. Tentou ajudar, perguntou se conhecia grupos de mães com quem pudesse estar e falar. Eu não conhecia nenhum e ela também não. Perguntou se tinha uma rede de apoio, disse que sim. Perguntou se saía de casa, se estava com amigas, disse que sim. Aconselhou-me a descansar e marcou consulta para daí a uma semana.

Voltei, uma semana após. Disse-lhe que me sentia um pouco melhor, mas que continuava a abanar a C, e isso inquietava-me muito. Não me revia neste tipo de atitudes. Ela falou pela 1ªvez em tomar medicação, leve, que me ajudasse a relaxar e a dormir (estava com insónias). Mas acordámos em esperar mais 1 semana.

 

Outra semana seguiu-se, nova consulta. Ela quis que eu fizesse o teste para despiste da depressão. Senti que seria um exagero, eu não teria uma depressão. São os primeiros tempos de vida de um bebé que são exigentes, são muitas mudanças, a privação de sono, mas o abanar, o abanar tocava alertas internos. Isso não poderia continuar.

Quando respondi às questões, fiquei admirada com o fato de, em nenhuma delas, eu poder responder pela positiva. Nas escalas que apareciam, de nada feliz a muito feliz, eu responderia nada feliz. Até pensei “mas é possível estar feliz nestes primeiros tempos?” Deu positivo, tinha DPP. Receitou-me um antidepressivo compatível com a amamentação e outro medicamento para relaxar e induzir o sono. Escreveu um relatório para entregar noutro C.Saúde, a prescrever a necessidade de uma consulta de Psicologia. Tempo médio de espera: 4 meses! Saí de lá com um diagnóstico de DPP, com uma receita para os medicamentos e um relatório que me fazia esperar 4 meses por uma consulta. No imediato senti-me aliviada, afinal já havia um diagnóstico e um tratamento.

 

Mas a semana que se seguiu foi a descida ao inferno. Aos poucos comecei a interiorizar que estava com uma depressão. E que imagem tinha eu das pessoas deprimidas? Pessoas apáticas, que ficam neste estado anos e anos a fio, nunca mais voltando a ser a mesma pessoa. Eu ficaria estragada, avariada para sempre. Nessa semana, não dormi nada de jeito todos os dias, o nível de ansiedade crescia, tinha pavor em ficar sozinha com a C, pois não confiava em mim para cuidar dela.

O meu marido, o meu querido marido, já se tinha lembrado de uma amiga cuja mãe é psiquiatra e pediu-lhe para ela ver-me. Marcou-se a consulta. Na noite anterior não consegui adormecer por nada, andei horas às voltas na cama, extremamente agitada. Adormeci. Uma hora depois acordei em sobressalto, a chorar compulsivamente e a dizer que não aguentava mais, que queria morrer. O meu marido tentou acalmar-me, dizendo que iríamos à consulta com a psiquiatra e que tudo ficaria bem. Mas eu já não consegui acalmar. Já estava numa espiral de ansiedade e a parte consciente e racional completamente off.

 

Eu diria que estava numa fase catatónica, só conseguia sentir e dizer que não aguentava e que queria morrer. Ele pegou em mim e na C., não foi trabalhar, e saímos de carro. Lembro-me do dia, de sol, agradável. Ele perguntou-me aonde eu gostaria de ir. Eu respondi “para longe”. E levou-nos para a Comporta. Cuidou da C. e de mim, dentro do possível. Tentou animar-me, fazer-me rir e eu não tinha forças sequer para esboçar um sorriso. Até às 17h00 estive prisioneira da minha ansiedade. Sentia que estava maluca e que não havia uma solução para mim. Não no sentido de voltar a ser quem era. Foram horas horríveis.

 

A hora da consulta chegou. Entrei, perguntei se ficaria maluca para sempre e ouvi “não Ana, não vais ficar.” E, logo de seguida, atirei “e voltarei a ser a Ana de antes?” e ouvi, “Sim, claro que sim. Daqui a 2 semanas já te vais sentir um bocadinho melhor” E, a partir daqui, tudo mudou. Foi o recomeço. Voltei a ser a Ana de antes, eu diria até que uma Ana muito melhor. Mais madura, mais confiante, mais serena. E muito feliz.

 

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Ontem, a minha filha, pela primeira vez, por sua iniciativa, fez-me festas na cara e deu-me um beijo. Assim do nada. Ai, como o meu coração se derreteu! Quanta distância foi percorrida entre os abanares e este beijo!

 

 

 

 

 

 

Desde quando se fala em Depressão pós-parto?

Devem-se a Hipócrates os primeiros relatos de perturbações psiquiátricas associadas ao momento do pós-parto.

Numa das suas obras descreveu o caso de uma mulher que, após o nascimento do primeiro filho, começou a manifestar alguns delírios, fenómeno que veio a repetir-se no pós-parto dos seus sete filhos seguintes.

 

Quanto à Depressão na Gravidez e no Pós-parto (Perinatal), pensa-se que a primeira vez que foi reconhecida terá sido por uma mulher italiana, Tortula de Salerno (1040-1097), considerada como a primeira ginecologista e urologista da história da Medicina. Pouco se sabe da sua vida, apenas que era filha de um médico, que exerceu medicina no século XI e que escreveu um livro que descrevia muitas das "doenças da mulher", para instruir os médicos da época sobre o corpo feminino e dos sintomas típicos da gravidez, do puerpério e do período menstrual. 

 

 

Curiosamente, a primeira descrição pormenorizada da doença foi feita por um médico português - João Rodrigues de Castelo Branco - conhecido como Amantus Lusitanus - que em 1547, se encontrava a trabalhar em Roma.

Alguns anos mais tarde, apareceu uma nova descrição realizada por  Rodriguez de Castro - um discípulo de Lusitanus - outro português que se encontrava a exercer em Hamburgo. Na mesma época são descritos vários casos de mulheres com choro compulsivo e que tinham ideação suicida e de cometer infanticídio com inicio nas gravidezes. Desde então multiplicaram-se as descrições inerentes à temática e a depressão, quer na gravidez ou no pós-parto, assumiram um interesse crescente na comunidade médica e cientifica. 

 

Na escola da psiquiatria francesa, o tema também foi alvo de grande interesse, tendo Esquirol, em 1818, observado uma mulher que teve episódios depressivos em todas as sua cinco gravidezes. Um dos alunos de Esquirol, Louis Victor Marcé, apresentou num dos seus livros o resultado de uma investigação na qual verificou que a maioria das mulheres deprimidas durante a gravidez assim continuavam depois do parto.

Por esse contributo, Marcé é considerado atualmente como o Pai da Psiquiatria Perinatal e Channi Kumar, Ian Brockington e James Hamilton criaram em 1980 a Marcé Society, a primeira associação internacional dedicada ao estudo multidisciplinar desta área.

 

Embora Marcé tenha dado esse grande contributo, a verdade é que nos dois séculos seguintes, a depressão na gravidez suscitou muito menos interesse na comunidade médica e cientifica, do que a depressão pós-parto, motivo pelo qual, esta última é muito mais estudada, abordada e falada do que a primeira, atualmente.

 

Portanto, como podemos constatar, a resposta correta à questão que foi colocada é que "desde há séculos" que se fala, estuda e explora sobre Saúde Mental Perinatal, nomeadamente sobre Depressão Perinatal. 

 

Sabiam? 

Fonte