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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Uma troca de aprendizagens sobre alterações emocionais na gravidez e pós-parto.

Foi no dia 17 de Fevereiro que tive a excelente oportunidade de ir falar sobre alterações emocionais na gravidez e no pós-parto a uma turma de Técnicos de Ação Educativa no IEFP da Guia. 

 

O desafio foi-me lançado por uma amiga e colega de longa data (Psicóloga Raquel Vaz) que ministra formação nesta área e que considerou que poderia ser pertinente para uma turma desta área aprender mais sobre este tipo de alterações. E assim foi, o sim foi imediato e ainda por cima sabendo de antemão que a turma estava muito interessada nesta temática, a motivação triplicou. 

 

É difícil arranjar uma só palavra para descrever a manhã que passámos juntas, por isso vou ter de arranjar várias palavras, e como tal, foi delicioso sentir o interesse da turma, um orgulho para mim sentir que estava a chegar a muitas das suas questões, um alivio saber que muitas mães com este tipo de vivência vão lidar de perto com técnicas que estão mais sensibilizadas para o tema, reconfortante sentir que levaram este tema dentro delas, até a nível pessoal, e espetacular ter tido a oportunidade de absorver tanto conhecimento empírico junto destas grandes mulheres com quem me cruzei. 

 

Ficaram por responder algumas questões que me colocaram, mas o tempo já não dava para esticar mais... contudo, as questões não estão esquecidas! Ficarão para responder numa próxima publicação. 

 

De qualquer forma, e tendo em conta a autorização das que estavam presentes, aqui ficam alguns momentos que guardarei com muito carinho no meu coração. 

 

Obrigada!!!

 

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Se também tiverem interesse em saber mais sobre o tema, não hesitem em contactar-me através de blog@mulherfilhamae.pt ou em saber mais sobre o projeto que tem como principal objetivo o de sensibilizar para a saúde mental perinatal - o Projeto Mulher, Filha & Mãe

 

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blog@mulherfilhamae.pt

Em rede ou na rede?!

Em conversa constatei um facto dos dias de hoje. Se há umas décadas existiam os diários, nos quais escrevia-se secretamente e muitas discussões eram geradas quando alguém ousava lê-los. Atualmente não só partilhamos o registo de vivências como queremos que seja visto (caso contrário não publicávamos...) e comentado!

Até aqui tudo ok, efetivamente a tecnologia e as redes sociais facilitaram a transmissão de informação e consequentemente a partilha entre todos, o que tem a grande vantagem não só de nos sentirmos mais próximos (quando a distância geográfica é grande), como de criar pontos comuns, informar e até formar e deste modo ajudar a desmistificar ideias e aceitar com mais naturalidade certas situações.

No fundo este espaço é prova disso mesmo!

Então qual é a questão?

Existem várias questões, mas pensando num contexto de saúde mental poderemos reflectir acerca de: isolamento, idealização, expectativa, ansiedade,...

 

Poderá haver um isolamento camuflado atrás de um qualquer dispositivo electrónico, mas mesmo quando não há um isolamento físico, muitas vezes há um “isolamento mental”, muitos de nós esconde nos seus pensamentos um sofrimento, uma desvalorização acerca das próprias capacidades, um mal-estar social causados precisamente pelo bombardear de informação colorida, pela partilha de momentos que sendo reais aparecem de forma perfeita num contexto virtual. E será só em contexto virtual?... Mesmo num contacto directo, vê-se o empenho de muitas pessoas em passar uma imagem que poderá não corresponder ao que realmente estão a sentir. Como diz uma amiga ninguém mostra o seu lado lunar quando está em campanha!

 

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Um exemplo disto mesmo é a vivência da parentalidade, tanto num período pré, peri e pós-natal, como noutras etapas da vida de uma mãe ou de um pai, a idealização colocada nas futuras e presentes experiências, esperando-se um “bebé modelo”, acompanhado pela mãe/pai perfeito, juntamente com a expectativa imposta pelas imagens e pelos relatos transmitidos por pais que muitas vezes escondem as mesmas dúvidas, dão a ilusão da possibilidade de um mundo perfeito, mas o mesmo não existe, nem tem que existir. Direi mesmo não deverá existir! E porquê? Porque quem considera que não erra (ou não lhe é permitido errar) tem muito maior probabilidade de lidar mal com as contrariedades, com a frustração e tornar-se inflexível, intolerante. Será que queremos pais, ou seja crianças assim?!

Agarrando no desafio da nossa querida autora deste blogue Ana Vale “Movimento - O que é que tu sabes sobre depressão pós-parto?”, vamos partilhar sim! Seja em que rede for partilhar dúvidas, angústias, medos,... e conhecimento, tolerância, serenidade.

O maior desafio é acolher e respeitar qualquer convicção e sentimento, tentando desmistificar crenças que em nada ajudam a que o papel de mãe/pai atinja a sua plenitude e equilíbrio. E se temos pais equilibrados, temos crianças equilibradas (seja o que for esse equlíbrio para cada um de nós).

 

 

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Neste sentido é ótimo estar em rede, mas sem cair na rede...

É tão importante reflectir acerca do que é importante para nós e não só para os outros, o que é que eu sinto e não o que é suposto sentir porque os outros o consideram, é fundamental pensarmos acerca das nossas prioridades e, neste sentido, pensarmos sobre a forma como colocamos as “redes sociais” (virtuais e reais) a nosso favor e não colocarmo-nos ao dispor das “redes sociais”, reféns de uma liberdade de expressão muitas vezes prisioneira do “gosto” e de uma avaliação de nós mesmos presa à realidade que nos é mostrada.

Em consulta a mãe de uma criança que acompanho mostrava-se angustiada com o que lhe teria sido aconselhado, perguntei: “E para si, o que lhe faz sentido?”

 

 

Texto da autoria da Psicóloga Clínica Raquel Vaz

Crónicas da nossa Equipa Clínica: "Pára dogmas! Paradigmas..."

Os paradigmas dão-nos força para seguir um caminho, mas também poderão prender-nos...

“Qual a crença que se abrisse mão hoje, me deixaria mais livre para conquistar os meus objetivos e sonhos?”

Esta é a pergunta a fazer.

 

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Todos nós temos determinadas crenças, ou seja ideias ou convicções que consideramos verdadeiras e nos dão segurança para agirmos. Crenças adquiridas e reforçadas ao longo da vida através da educação e influências recebidas e experiências vividas e deste modo assumimos determinadas posições.

Um exemplo disso mesmo são as crenças de saúde. Poderemos considerar que a manutenção da nossa saúde (e o desenvolvimento de uma doença) depende sobretudo de algo externo (“locus de controlo externo”) e nesse sentido pouco depende da nossa atuação, mas sim da sorte, dos médicos, do tratamento,... ou pelo contrário poderemos acreditar (e quando falamos de crenças a palavra-chave é acreditar) que a nossa atuação e postura são determinantes (“locus de controlo interno”) e neste caso a sorte também se faz, as escolhas são nossas e o resultado do tratamento também depende do quanto confiamos nele.

 

O mesmo se passa noutras áreas da vida e, deste modo, integramos na nossa vivência determinados paradigmas, isto é, princípios e modelos que seguimos e que nos levam a ter um padrão de comportamento que repetimos e repetimos de forma muitas vezes inconsciente. E repetimos porque o aprendemos, cremos nele e sentimo-nos “confortáveis” com o mesmo, é o que vulgarmente se chama de “zona de conforto”.

E será que estamos mesmo confortáveis com alguns dos nossos paradigmas?

Dito de outra forma, alguns dos nossos paradigmas poderão estar a prender-nos a um padrão de comportamento que não nos permite evoluir ou até que não é saudável para a relação com o outro e connosco mesmos.

 

Veja o seguinte vídeo:

 

 

Vale a pena parar, reflectir, pôr em causa... pensarmos se estamos a dar o melhor de nós, se estamos a receber o que nos deixa feliz ou se simplesmente estamos a agir porque foi como aprendemos e afinal sempre o fizemos assim.

 

A mudança é um processo complexo, pois um paradigma faz-nos pensar que aquela é a forma certa e a única forma de agir e nesse sentido impede a integração de novas ideias, tornando-nos pouco flexíveis. Um exemplo simples desta resistência é o resultado de uma experiência feita com um baralho de cartas, no qual se colocaram algumas cartas alteradas, como a figura do seis de copas preto em vez de vermelho, curiosamente, as pessoas habituadas a lidar com baralhos são as que apresentam maior dificuldade em detectar as alterações: os seus sentidos distorcem os dados para ajustá-los ao seu “paradigma de baralho de cartas”. Portanto, é sempre muito difícil ver para além do paradigma.

 

 

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A quebra de um paradigma está ligada ao grau de motivação. Imagine a seguinte situação: Era colocada uma trave de madeira a ligar dois prédios altos, no último andar. Conseguia passar de um lado ao outro? A resposta poderia ser não por ser demasiado perigoso e ter-se medo. Oferecia-se uma quantia de dinheiro elevada, passava? A resposta poderia continuar a ser não, justificando-se que não compensava o prémio pelo risco elevado. E se se pedisse para imaginar que tinha o seu(sua) filho(a) no meio da trave a pedir socorro? Eventualmente não hesitaria e ia!

A motivação tem que ser forte para existir a quebra de paradigma.

 

Claro que há fases na vida que por vezes parece mesmo impossível (ou até é)... e é nesses momentos que a ajuda é o caminho.

 

Se queremos uma mudança de comportamento duradoura e consistente, tem que existir mudança de paradigma e para tal é necessário primeiro motivação que é o que nos faz avançar e depois o hábito (persistência) que é o que nos faz continuar, pois caso contrário, voltamos às velhas rotinas.

Para tal é fundamental tomarmos consciência dos valores que são prioritários para cada um de nós, como reflectimos no post “O que nos (co)move”, valores estes que são os pilares das nossas crenças e por sua vez dos nossos paradigmas. E só após este trabalho de identificação e hierarquização de valores é que estaremos preparados para “sair da caixa”, isto é, só após chegar à raiz do paradigma é que poderemos alterá-lo.

 

Portanto, passos a seguir para mudança de paradigma:

Reflectir acerca dos meus valores, daquilo que é realmente importante para mim e que influencia diretamente as minhas escolhas e o meu agir;

Compreender de que forma os valores que são para mim prioritários interferem com a relação comigo e com os outros;

Motivar-me para a mudança, poderá ser individual, poderei precisar do apoio da minha rede (família, amigos) ou poderei até perceber que preciso de apoio profissional;

Experimentar fazer de forma diferente, pensar noutras soluções e pô-las em prática, mesmo que sejam pequenos gestos;

Acreditar que é possível mudar, que eu mereço melhor, que mereço ser feliz!

 

Ao fazê-lo poderá acontecer ver o que me rodeia sobre outras perspectivas, que haja uma mudança de paradigma.

Convido-vos a olhar para a imagem abaixo à esquerda e de seguida para a do lado. Agora experimentem deitar a cabeça para o lado direito.

 

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Qual a vossa resposta para a pergunta inicial? Já pensaram nisso?...

 

 

* Texto escrito por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

Educar também é ensinar a dizer adeus...

Sendo este um espaço de crónicas e por isso de reflexão e partilha... é incontornável a minha partilha convosco. E partilho por necessidade, confesso, no sentido individual, mas também, como testemunho, para que esta possa ser outra forma de chegar até vós.

 

Nas últimas semanas fui obrigada a despedir-me de duas pessoas que fazem (pois continuarão sempre a fazer) parte da minha vida. Duas pessoas que tinham ainda muito para viver. Não foram as primeiras despedidas... Já vi partir outras pessoas também precocemente e já perdi algumas que amava, como os meus queridos avós.

Mas desta vez foi diferente, pois desta vez tinha que lidar com o papel de mãe.

 

 

Desta vez para além de ter que gerir a minha dor, a dor do meu marido, tive (tivemos) que pensar na melhor forma de chegar a dois meninos extraordinários de 6 e 2 anos...

Tivemos que explicar o inexplicável, dizer que a avó agora era uma estrelinha no céu. Também explicámos (da forma mais simples possível) que quando alguém morre há um sítio onde todas as pessoas que a amam se despedem e podem lá ir sempre que quiserem. E que já não vamos poder estar mais com a avó, mas que fica no nosso coração e nas nossas memórias. Também dissemos que é natural ficar triste e chorar (e até ficarmos zangados...) que podemos chorar o quanto nos apetecer.

 

O Tiago de 6 anos ficou sério a ouvir, arregalou os olhos, quis saber pormenores (alguns que até nos desconcertam e espelham a sua inocência... “Mas como é que os ossos se transformam em estrelas?”) e só ao deitar-se partilhou emocionado (uma emoção contida) “Mamã, lembro-me de ir ao largo com a avó...”, memórias que reforçam o amor que vai ficar para sempre.

O André de 2 anos e meio, parecendo não ligar, não foi indiferente à tristeza dos pais distribuindo os seus abraços reconfortantes e notou-se que ficou mais sensível. Alertando a nossa consciência para a importância do nosso comportamento.

Apesar da sua noção de morte ser ainda muito vaga, sou de opinião que não é saudável omitir ou não mostrar a tristeza que sentimos. É discutível a participação nas cerimónias em família, não vejo um contra evidente, cada caso é um caso e até pode ajudar a lidar de forma mais natural com a morte.

No nosso caso decidimos que os miúdos não iriam (há pouco tempo começou uma nova etapa, a primária, e não quisemos arriscar, e se não ia um, não ia o outro), mas fizemos a nossa “cerimónia”, um desenho e um girassol que era a flor preferida da avó, os quais dissemos que iríamos colocar junto dela e assim o fizemos.

 

 

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E quando esta dor ainda estava em processo veio outra... o meu tio, meu querido tio... de uma forma igualmente inesperada e brusca.

Não foi possível esconder a tristeza profunda e, mais uma vez digo, nem acho que seja essa a melhor forma de lidar com a situação.

O meu filho mais novo deu-me um abraço e o mais velho (que dei por mim a ter a necessidade de justificar... pois estava a receber a segunda notícia de morte em tão pouco tempo) disse: “Mãe, há algumas pessoas que morrem, outras não morrem”, não o contrariei ou corrigi, terá muito tempo.

Educar também é ensinar a dizer adeus... e para isso aceitar emoções mais cinzentas e permitir falar, falar de tudo, das memórias, da dor, da morte... pois a morte também faz parte da vida.

 

 

Texto escrito por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

Crónicas da nossa Equipa Clínica - "O que nos (co)move?"*

O que entendemos por valores? Sabemos quais são os nossos valores?

Podendo parecer que nada tem a ver com o tema, muito tem a ver com a reflexão pretendida para este post, pois os valores influenciam o nosso comportamento. Todas as nossas decisões são guiadas pelos nossos valores.

 

É fundamental termos a noção de quais são os nossos valores e qual a nossa hierarquização de valores para podermos compreender as nossas ações.

Ter a noção de quais são os valores que nos motivam ou retraem, que estão por trás das crenças que construímos, as quais moldam a nossa visão.

Aqueles valores que determinam a emoção que associamos a uma determinada ação e que no momento de optar/decidir nos fazem seguir um ou outro caminho. No fundo os valores que nos (co)movem...

 

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Existem várias teorias e que haja registos existem estudos feitos por filósofos desde a Grécia Antiga. Mas poderemos dizer que os valores são conceitos que justificam as nossas ações, sendo algo subjetivo, ou seja duas pessoas poderão atribuir significados diferente a um mesmo valor.

Exemplos de valores são: solidariedade, honestidade, lealdade, justiça, cidadania, liberdade ou ainda reconhecimento, amizade, família, respeito, segurança, humildade, responsabilidade,...

 

Veja-se o seguinte exemplo:

Certo indivíduo cujo objetivo era o de conseguir um ordenado melhor, foi questionado a respeito dos seus valores. Como resposta ele definiu que esta valorização financeira lhe traria mais segurança junto da sua família, um maior conforto, estabilidade para usufruir dos seus gastos em família sem preocupações, entre outras coisas.

Neste pequeno discurso é possível ver quais são os seus valores (família, tranquilidade, segurança) e a importância que o mesmo atribui à sua família e como isso torna a Família um valor positivo que irá auxiliá-lo na execução do seu objetivo.

 

Portanto, para além da noção dos nossos valores, é fundamental perceber qual a importância que atribuimos a cada valor. Isto porque de uma forma geral, numa mesma sociedade, poderemos ter os mesmos valores, mas em hierarquias diferentes. É esta hierarquização de valores que leva a que tenhamos resultados diferentes, porque vamos ter ações, comportamentos, decisões diferentes consoante o que mais valorizamos ou menos...

 

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Para termos a noção de quais são os nossos valores temos que nos questionar. O que é mais importante na minha vida? Qual o sentimento que me traz? Porque é importante para mim? De seguida, fazer uma lista de pelo menos 5 valores importantes.

 

Quando tomamos consciência dos nossos valores e da nossa ordem de valores conseguimos, não só compreender muito melhor os nossos comportamentos e reações e deste modo muda a forma como nos vemos, como também esse nível de consciência permite melhorar os nossos relacionamentos.

Veja-se o seguinte exemplo:

Um elemento de um casal compreendeu a origem das piores discussões entre ambos ao tomar consciência de que o seu valor mais importante era o reconhecimento. Um dia foram os dois a um ginásio e a mulher disse ao monitor “Olhe, trago mais um”, no sentido de propor um desconto, o marido ficou zangado “Mais um, como assim, eu sou o marido!”. Ao ganhar esta consciência pôde não só compreender as suas reações e moderá-las, como também resolver melhor o conflito explicando à mulher o que sentia nestas situações, passando assim a relação para outro patamar.

 

Os valores são o resultado da nossa genética, educação, sociedade, cultura e moldam a nossa personalidade, a qual vai mudando ao longo da vida...

Neste sentido outro aspeto importante na tomada de consciência da nossa ordem de valores é podermos trabalhar e ajustar esses valores de modo a alcançar objetivos traçados e atingir resultados pretendidos, o que implica uma mudança de paradigmas... mas esta será uma reflexão para um futuro post.

 

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*Crónica por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

Crónicas da nossa Equipa Clínica: "O Silêncio é de... Evitar!"

“Sinto um nó na garganta, uma pressão no peito... parece que tenho dificuldade em inspirar, sinto uma inquietação constante, um mal estar... (...)”

 

Identifica-se ou já se identificou com esta situação?

 

Nem sempre a própria pessoa consegue reconhecer determinados sinais... Pode não estar disponível, pode não estar informado, pode considerar que é normal

 

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Em várias situações e, em particular, o contexto da gravidez e do pós-parto (como é visível em vários testemunhos publicados na rubrica Histórias que dão a cara por esta causa), por todas as mudanças que acarreta, é muitas vezes considerado natural e aceitável existir alguma dose de stress, mesmo de stress patológico.

E abrindo um parênteses: o stress resulta da interação entre o meio e a pessoa e pressupõe uma reação ou resposta, como forma de existir uma adaptação e nesse sentido é positivo! Mas se a situação for demasiado intensa, prolongada ou intimidadora para a pessoa, o stress pode tornar-se patológico, provocando um desequilíbrio… ou seja em vez de promover uma vitalidade que leve à ação, poderá manifestar-se irritabilidade, depressão, pessimismo, baixa resistência imunológica, mau humor,...

 

Portanto, até poderá ser comum (frequente) e nesse sentido considerar-se natural, pois existe algo que se identifica como desencadeador da mudança de comportamento (a pessoa tem um motivo!), mas será que deveremos considerar aceitável? E passo a explicar. Deveremos colocar a pessoa (ou o próprio colocar-se) numa posição em que deverá aceitar viver esse stress porque simplesmente faz parte, é suposto?

 

Eventualmente alguns de vós pensarão que quem se sente assim deverá ser apoiado e orientado, permitindo que encontre o seu reajustamento emocional. Mas como fazê-lo se o próprio não reconhecer essa necessidade?

E é nestes momentos que o ditado popular é invertido. O silêncio é de... evitar, e não é de ouro!

 

A partilha facilita e promove uma auto-consciência, isto é o reconhecimento das próprias emoções, das necessidades individuais e de sinais de que o equilíbrio emocional do próprio poderá estar comprometido.

Este reconhecimento é o primeiro passo para chegar ao EU.

 

“(...) As palavras começam a sair... e a primeira lágrima escorre, num desabafo e choro. Há um alívio acompanhado por uma libertação no respirar.”

 

 

*Crónica por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

 

Crónicas da nossa Equipa Clínica: "Chegar ao EU do OUTRO"

E se por um dia nos pudéssemos colocar no lugar do outro?

 

Muitas vezes no nosso dia a dia rapidamente nos apressamos a fazer determinados juízos de valor, sem saber o que estará por trás daquele comportamento, daquele rosto...

 

 

 

Este vídeo retrata bem a quantidade de vivências e sentimentos diversos e até antagónicos que poderão conviver num mesmo espaço. E o quanto é importante fazermos o exercício de colocarmo-nos no lugar do outro, pois caso contrário poderemos cometer erros de percepção.

Isto porque não só temos percepções diferentes da mesma realidade e logo diferentes interpretações, como temos a tendência para avaliar o outro consoante a nossa cabeça, ou seja os nossos valores e o nosso estado de espírito...

E se tal é “legítimo” para quem não está tão próximo de nós e naturalmente não conhecemos bem, qual a desculpa para o caso de quem está mesmo ao nosso lado e nos acompanha numa vida?

 

Ah! Mas aquela pessoa que está ao nosso lado “mudou”, não correspondeu à “expectativa”! Então talvez seja importante perceber o motivo, a motivação.

 

Quando realmente queremos compreender e até apoiar o outro, mais do que simpatia, o melhor que podemos dar é a nossa empatia...

 

 

 

Empatia é sentir com as pessoas.”

 

Considerarmos as reações e os sentimentos do OUTRO tão válidos e importantes como os nossos é um dos maiores desafios para o EU.

 

 

Crónica por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

Crónicas da nossa Equipa Clínica - "Libertarmos Nós"*

Não estás bem? Não estejas assim”, “Porque é que estás assim?”, “Não tens razão para estar assim”, “Não penses mais nisso”, “É um disparate sentir isso”, ...

 

Ao longo da nossa vida muitas vezes este é o feedback que recebemos quando estamos tristes, zangados, ansiosos,... No fundo quando demonstramos uma emoção que não seja alegria.

Parece quase que é proibido não estar feliz! Como se fosse possível estar sempre feliz.

 

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Muitas pessoas, na educação transmitida pelos pais não aprendeu a lidar com a tristeza ou mesmo com a frustração, não aprendeu a “deprimir-se”, reprimindo sentimentos negativos, em vez de tentar compreendê-los e ao longo da vida apresenta dificuldades em lidar com tais sentimentos.

 

No contexto da gravidez e do pós parto esta dificuldade poderá tornar-se visível, conforme já foi expresso num post publicado aqui “(...) é "suposto" que as mulheres devam sentir-se felizes pelo facto de que tudo o que gira à volta da maternidade serem acontecimentos dotados de grande felicidade, alegria e bem-estar. As mulheres que não sentem essa "suposta" felicidade podem desenvolver sentimentos de vergonha, culpa, fracasso ou medo de serem estigmatizadas ou que lhes sejam retirados os filhos com receio de serem vistas como "más mães", não reconhecendo determinadas manifestações como sendo de valorizar para recorrer a apoio técnico especializado.”

 

Atualmente cada vez mais se compreende a importância de saber lidar com todo o tipo de emoções (um bom exemplo da mudança dos tempos é o filme “Divertida Mente”, o qual recomendo!). Cada vez mais tomamos consciência da importância do desenvolvimento da inteligência emocional e não apenas da intelectual.

Entenda-se inteligência emocional como a “capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos” (David Goleman, 1998).

 

Ninguém deseja estar triste ou ter ao seu lado alguém que esteja triste, porque possivelmente não sabe lidar com essa emoção ou tem receio de lidar, tem receio de ser “contagiado” ou de reforçar esse estado. Mas na realidade é tão importante estar triste, como estar alegre.

É não só importante saber lidar com cada emoção, como deixar que se sinta cada emoção e não negá-la ou minimizá-la, pois ao fazê-lo só vamos “adormecer” a emoção, mas a mesma um dia vai acordar e teremos de olhá-la de frente e abraçá-la.

Sim, abraçá-la! Pois é preciso receber qualquer que seja a emoção de braços abertos, ser compreensivo e sem juízos de valor escutá-la e aceitá-la, pois cada emoção tem o seu papel e só assim conseguiremos desenrolar os nós da vida.

 

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 *Crónica por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

Crónicas da nossa Equipa Clínica - "Vamos ser pais! Ou vou deixar de ser grávida..."*

Há pouco tempo uma recém mamã dizia “tive saudades da barriga” e realmente isto pode acontecer... É como se ser mãe se tivesse congelado naquele momento, naquela fase em que há um conjunto de possibilidades e fantasias...

 

Iniciei esta nossa reflexão com o tema saúde mental e o conceito de normal, pois considero que a nossa necessidade de partilha passa muitas vezes por perceber se o que estamos a viver e a sentir é experienciado e compreendido por outras pessoas. E deste modo sentirmo-nos aceites.

Esta aceitação começa no nosso grupo social (ou é esperado que aconteça), ou seja aquele grupo no qual estamos inseridos e do qual fazemos parte. Aquele grupo que exerce em nós uma forte influência.

E é dentro deste grupo que surge aquela palavra: Expectativa!

 

 

Para não ir mais atrás no tempo (pois desde que nascemos, até antes, esta expectativa acompanha-nos), a altura em que o casal passa para o plano “Vamos ser pais?” é por excelência uma fase de expectativas e de GRANDES expectativas, mesmo nas mais “pequenas” coisas.

 

Expectativa acerca de como seremos como pais (e se esse será o nosso caminho), expectativa se conseguimos engravidar, expectativa se estaremos mesmo grávidos, expectativa se está tudo bem com o bebé, expectativa se é menino ou menina, expectativa como vamos ser enquanto mãe, pai e casal, expectativa de como vão agir os vários elementos da família, expectativa de que tudo serão “rosas”...

Enfim, muitas e muitas e muitas expectativas.

 

Algumas (ou muitas) destas expectativas nem são nossas ou não começam em nós...

E se com estas expectativas vem o imaginar, preparar, aproximar, amar... Também vem o idealizar, aquele ideal que boicota o real. E pode acontecer fugirmos das nossas prioridades, das nossas pedras grandes.

É importante pensar: “Porque é que somos pais?”

Qual a resposta? Quais as expectativas?

 

 

 

 

*Crónica por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

Crónicas da nossa Equipa Clínica - "Normal?! Como definir normal?"*

O que é a saúde mental? Como sabemos que estamos sãos mentalmente? Será normal o que estou a pensar?

São algumas questões que por vezes em algumas fases da vida não saem da nossa cabeça e pensamos precisamente “não devo estar bem da cabeça!”.

 

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A saúde mental não se resume simplesmente à ausência de doença, não basta estarmos “livres de diagnósticos” para concluirmos que estamos sãos mentalmente. Então será que precisamos de atingir um completo bem-estar para nos considerarmos sãos mentalmente? E será possível atingir esse completo bem-estar?! Por outro lado um equilíbrio é possível atingir, o equilíbrio de cada um de nós, o seu equilíbrio. Nem sempre todas as áreas (biológica, psicológica e social) da nossa vida estão a 100% e apesar de se influenciarem mutuamente, podemos sentir bem-estar, sem estar efetivamente TUDO bem.

 

Primeira ideia:

A definição de saúde mental é subjetiva, ou seja, cada indivíduo sente o (tal) equilíbrio de forma diferente.

A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) refere que não existe uma definição oficial de saúde mental, referindo que a saúde mental está ligada a um “estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere” (OMS, 2002). Isto é, o indivíduo sente-se bem consigo próprio e com os outros, e é capaz de lidar de forma positiva com as adversidades, sem temer o futuro.

Deste modo, o primeiro sensor de que algo pode “não estar bem” somos nós próprios ou deveremos ser! Sem censuras ou álibis.

 

Segunda ideia:

Considera-se normal o comportamento mais frequente e concordante com os valores estabelecidos e aceites em determinada sociedade.

Na realidade, a delimitação entre o normal e o patológico é, por  vezes, extremamente  difícil de estabelecer, existindo não só uma progressão entre um estado e o outro, como também uma forte influência do fator cultural, dos costumes e das crenças do grupo e crenças individuais. As próprias crenças dos profissionais de saúde poderão influenciar a avaliação sobre o comportamento.

 

Terceira ideia:

Todos nós podemos ser afetados por problemas de saúde mental.

Podemos perceber que não estamos nesse estado de equilíbrio ou ser percebido pela nossa rede social. Pode ainda existir um diagnóstico que confirme a suspeita. Mas existindo maior ou menor “gravidade”, a nossa qualidade de vida deve ser levada a sério. E existe qualidade de vida quando uma pessoa ou grupo sente que as suas necessidades são satisfeitas e não lhes são negadas oportunidades para alcançar um estado de felicidade e de realização pessoal em busca de uma qualidade de existência acima da simples sobrevivência.

 

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No fundo, o que pretendo com este artigo é desmontar mitos acerca da doença mental e do que se considera ser normal e ser suposto...

 

 É “obrigatório” respeitar os próprios sentimentos e ser-se respeitado, não julgar apenas que “é uma forma de chamar a atenção” que “vai passar com o tempo”.

Se algo chama a atenção então a mesma deve ser dada. Não é o tempo que muda o sentimento é o que se faz com esse tempo.

Se é normal?! Talvez não seja... Mas mais que normal o importante é ser feliz!

 

 

*Crónica por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)