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Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Mulher, Filha & Mãe.

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

"Tenho receio de partilhar a minha história pois tenho medo que me tirem a minha filha"

Na última semana várias foram as mulheres que me abordaram com alguma questão através do email, e três delas, recearam partilhar a sua história, por receio que alguém considerasse que não fossem boas mães, e que lhes pudessem retirar os filhos. 

 

Rápido compreendi, na medida em que, este é, de facto, um receio muito comum nas mulheres que são mães e que não começam a viver a maternidade da forma mais feliz e tranquila quanto o esperado. 

 

E este receio prende-se com muitas questões, sendo que, algumas delas já abordei neste texto. Contudo, existem outras igualmente importantes, e aqui, lá vamos nós (outra vez) bater no estigma face à saúde e doença mental. Mas a verdade, é que assim o é. Ele existe, arde entre nós, e cada um à sua maneira, enquanto fizer deste tipo de assuntos um tabu, alimentará a sua chama. 

 

Como é que queremos que a maternidade seja vivida de forma plena, se consideramos que o natural se prende em exclusivo com a felicidade e o recheio de momentos cheios de cor e de vida?

Como é que queremos que a maternidade seja vivida de forma tranquila, se não aceitamos que os momentos mais ansiosos e menos positivos também dela fazem parte? Que não é tudo floreado, nem tudo divertido?

Como é que queremos que a maternidade seja percecionada como integrando no seu todo uma forma natural de vida, se não aceitamos que a vida em si, não é sempre, e nem num todo simplesmente, feliz?

 

E assim sendo, considerando que, para muitos a busca incessante pela vivência absolutamente feliz terá de ser uma constante, muitas pessoas desiludem-se e cedo verificam que o naturalmente decorrente da vivência da maternidade, por vezes é feliz, e por vezes, é ruindade. Assim o é, e é-o sem maldade. É assim que o natural se acrescenta ao todo de um forte processo de desenvolvimento pessoal e conjunto, que é a maternidade. 

 

A maternidade é cor! Mas nem sempre é amarelo, azul ou rosa. Por vezes é acinzentado, outras vezes é branco e/ou preto. 

A maternidade é luz! Mas nem sempre brilha, por vezes está mais apagada. 

A maternidade é vida! Mas nem sempre tem a mesma vitalidade. 

 

E por vezes, deixa de ser tão natural nem sempre ser amarelo, nem sempre brilhar e nem sempre ter vitalidade, passando a ser uma constante incapacitante, e verifica-se que o processo de doença ocorre, e aí o sofrimento é atroz para todos! 

 

Não há exceção que se aplique, e todos os que estão envolvidos, confrontam-se com este tipo de vivência: não esperada, nem desejada. Ignora-se de inicio, discute-se muito após, e continua-se, por vezes, numa bolha ténue entre a realidade do que se é, e a realidade do que se gostaria que fosse. A sofrer, quase sempre, a perder a paciência constantemente, e a culpabilizar-se com frequência. Todos. Cada um à sua maneira. 

 

E se até aqui, se estarmos preparados para esta problemática era fundamental, aqui, torna-se premente que assim o seja. Não há volta a dar. E mesmo a sofrer, mesmo a perderem-se de dentro para (e por) fora, muitas mulheres vivem numa ambivalência sem fim à vista. 

 

Querem procurar ajuda, mas temem ser julgadas. 

Querem ser mães em pleno, mas sofrem por tentar sê-lo.

Querem voltar a sentir-se mulheres, mas não sabem onde estão, nem para onde ir. 

Querem (ou não) amar o seu rebento sem obstáculo, mas temem ficar a sós com ele, por exemplo. 

 

Consideram não haver solução, sentem um medo de morte, uma dor profunda, e o mais incrível, é que muitas continuam a cuidar o melhor que podem, o melhor que sabem, temendo constantemente serem julgadas em praça pública só por assumirem a alguém que poderão ter uma depressão pós-parto, por exemplo. 

Mas por vezes a dor não passa, só o tempo. E há medida que o tempo passa, por vezes a dor piora e eleva-se a necessidade de tratamento e acompanhamento. E este é necessário, é fulcral, é fundamental. E há que compreender porquê. 

 

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Quando lemos sobre o assunto, verificamos que provavelmente milhões de mulheres já passaram por uma depressão pós-parto, que possivelmente milhares de mulheres já tentaram fazer mal a si e/ou aos seus bebés, vários profissionais têm investigado sobre o tema a nível mundial, e vários são os recursos que florescem todos os dias a nível mundial na tentativa de apoiar estas mulheres e respetivas famílias, vários divórcios já ocorreram, várias famílias com marcas ficaram, várias pessoas recusam-se a voltar a passar pela experiência da maternidade/paternidade com receio de voltarem a viver uma experiência destas, sendo que, provavelmente, completamente sozinhos num estado que pouca importância oferece ao assunto. E mesmo assim (mesmo assim!) em pleno século XXI, ainda existem mulheres que têm receio de partilhar a sua história, com receio de serem consideradas más mães, e que lhe retirem os seus bebés. 

 

Só pode mesmo estar tudo muito errado connosco, cidadãos de uma sociedade onde a maternidade, é tudo menos uma novidade, e que, ainda hoje, direta ou indiretamente, julga e incompreende na sua profunda totalidade, mulheres com (por exemplo) uma depressão pós-parto, sem vislumbrar por um momento sequer, que estamos a falar de uma doença, e não de uma pessoa, ou daquilo que essa pessoa é, ou será capaz de ser. Sem compreender que precisamos que estas mulheres se sintam confortáveis para falar, em prol do si, e do seu bebé. Que precisamos de compreender, de saber aceitar e de saber reencaminhar, para lhes dar, a todos, a maior segurança possível. Que é de um bebé que estamos a falar, mas que um bebé estará muito incompleto se a sua mãe ausente se sentir ou se demonstrar. Que estamos a falar de uma pessoa, para além de uma mãe.

 

Uma pessoa, que é mulher, uma mulher que é mãe, uma mãe que é pessoa. 

Portanto, fixem esta equação:

[Mulheres com experiência de depressão pós-parto] não é igual (de todo!) [a depressão pós-parto]. 

 

Dúvidas?

blog@mulherfilhamae.pt

Ansiedade e depressão na gravidez e pós-parto: Porquê pedir ajuda?

Porque há solução! 

 

Porque o sofrimento não tem de ser uma constante. 

Porque não é necessário suportar tudo em silêncio.

Porque voltar a estar bem consigo mesma, é uma forte possibilidade.

Porque existem vários recursos a que pode recorrer.

Porque vai-se sentir mais tranquila e segura.

Porque tem muitos dos recursos que precisa dentro de si para ultrapassar este momento.

 

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A gravidez e/ou o pós-parto podem não ter começado da forma mais tranquila possível, ou pelo menos, da forma como esperou. Contudo, não tem de permanecer assim. Há profissionais que a podem apoiar, existem recursos a que pode ter acesso, e com o tratamento e acompanhamento adequado pode voltar a encontrar o equilíbrio que procura. 

 

Considerando o meu percurso pessoal e profissional, desenvolvi um projeto de apoio a mulheres com alterações emocionais na gravidez e no pós-parto, sendo que, atualmente posso ajudá-la através de três vias: através dos grupos de mães, através da consulta individual (online e presencial) e através da formação.

 

  • Grupos de mães 

 

A realização dos grupos de mães surgiu com o objetivo de criar um espaço propício para conversarmos sobre vários temas relativos à maternidade, que vão sendo sugeridos sessão a sessão, e que acima de tudo, sejam do interesse das que participam. Neste espaço não se pretendem tabus, julgamentos, dúvidas por esclarecer ou qualquer outro tipo de questões que deixem qualquer uma desconfortável, mesmo que discretamente. Pretende-se sim, muita descontração, informalidade, colocação de questões, envolvimento e um rumo em direção ao bem-estar e à tranquilidade possível, nesta fase da sua vida. 

 

Os grupos são para grávidas e recém-mães (até ao primeiro ano após o nascimento), e são momentos em que podem levar os vossos bebés, conversar com mulheres e mães que estão na mesma fase de vida, colocar as vossas questões, descontrair e usufruir da mais-valia de ter sempre presente, no mínimo, uma enfermeira com conhecimentos e competências específicas no âmbito da saúde mental no período da gravidez e do pós-parto. 

 

Os grupos são realizados na região de Lisboa e existem dois tipos de grupos, pelo que, caso esteja interessada contacte-me para conversarmos sobre qual o que se ajusta melhor ao que procura. 

 

  • Consulta individual (online e presencial)

 

Esta consulta surge com o propósito de ser um acrescento em termos de apoio e acompanhamento nesta fase da vida da mulher e respetiva família (grávidas e recém-mães), especialmente, quando a mesma sente que está a passar por um momento menos positivo a nível emocional durante a gravidez e no pós-parto, sentindo-se, por exemplo, mais tensa, irritada, ansiosa, preocupada, triste, com vontade de chorar constantemente, entre outros.

 

Os objetivos específicos em termos de acompanhamento individual serão traçados para cada mulher, em parceria com a mesma, após a primeira consulta. Os objetivos gerais da consulta são os seguintes:

 

 

- Executar uma avaliação global de saúde mental da mulher e respetiva família, nesta fase específica de vida;

- Executar uma avaliação das capacidades internas da mulher e respetiva família e recursos externos para manter e recuperar a saúde mental;

- Avaliar o impacto que o problema de saúde mental tem na qualidade de vida e bem-estar da mulher e respetiva família, com ênfase na sua funcionalidade e autonomia;

- Identificar os problemas e as necessidades específicas da mulher e respetiva família no âmbito da saúde mental perinatal;

- Avaliar o impacto na saúde mental de múltiplos fatores de stresse relacionados com a transição para a maternidade; 

- Conceber estratégias de empoderamento que permitam à mulher e respetiva família desenvolver conhecimentos, capacidades e fatores de protecção;

- Orientar a mulher e respetiva família no acesso aos recursos comunitários mais apropriados, tendo em conta o seu problema de saúde mental;

- Fornecer orientações às mulheres e respetivas famílias para promover a saúde mental e prevenir ou reduzir o risco de doença mental no período perinatal;

- Promover adesão ao tratamento em mulheres com doença mental;

- Implementar intervenções psicoeducativas e técnicas psicoterapêuticas para promover o conhecimento, compreensão e gestão dos problemas relacionados com a saúde mental, assim como, para promover a consciencialização face à atual problemática, e que facilitem as respostas adaptativas que permitam à mulher recuperar a sua saúde mental e que a permitam libertar tensões emocionais e vivenciar experiências gratificantes nesta fase de vida;

 

  • Formação 

 

A formação surge para facilitar a sensibilização para a área da saúde mental perinatal nos seus mais variados e amplos aspetos, assim como para esclarecer qualquer questão relacionada com o tema. Esta formação pode ocorrer no seio da família, numa associação, numa instituição de saúde, num centro clínico, ou em qualquer outro local onde se verifique esta necessidade. Os temas podem ser sugeridos por mim, ou selecionados pelos interessados, e as datas são definidas consoante a disponibilidade de ambos. 

 

 

Para mais informações (preços, datas, locais, etc.):

blog@mulherfilhamae.pt

Á conversa com a Ana #5 - "Depois da depressão pós-parto, voltarei a ser a Ana de antes?"

A semana passada tive a 4ª consulta com a psiquiatra. Saí a fazer um balanço do percurso feito desde a primeira vez que entrei naquele consultório, no Hospital Júlio de Matos. Cada consulta marcou uma etapa diferente no meu processo de cura.

 

A primeira foi no dia 12 de Novembro 2015. Faltava uma semana para a C. fazer dois meses. Mal sabia eu que este dia iria ser o dia D: o dia da rutura total, tanto física, como emocional e psicológica, mas também o dia do recomeço. A minha querida médica foi a mão (a primeira entre muitas outras que se seguiram) que a vida estendeu-me para puxar-me até si.

Não me esquecerei da tranquilidade, da doçura e da paciência com que ela me recebeu, falou e me ouviu. Com ela, nesse dia, comecei a sentir esperança. Esperança de não ficar “maluca” para sempre e de voltar a ser a Ana de antes. Sim, porque estas foram as minhas primeiras perguntas: ficarei maluca para sempre e voltarei a ser quem eu era! Mas voltarei um pouco atrás, para falar um pouco das semanas que antecederam este dia e que mostram a importância deste encontro.

 

A ansiedade e a tristeza constante que sentia levaram-me ao final do 1º mês a enviar um email à médica de família, a comentar tal estado de espírito e a perguntar se me podia indicar algum psicólogo. Recebi resposta a confortar, não conhecia ninguém, mas na próxima consulta da C. falaríamos se ainda sentisse necessidade. Falámos na consulta do 1º mês da C. Tentou ajudar, perguntou se conhecia grupos de mães com quem pudesse estar e falar. Eu não conhecia nenhum e ela também não. Perguntou se tinha uma rede de apoio, disse que sim. Perguntou se saía de casa, se estava com amigas, disse que sim. Aconselhou-me a descansar e marcou consulta para daí a uma semana.

Voltei, uma semana após. Disse-lhe que me sentia um pouco melhor, mas que continuava a abanar a C, e isso inquietava-me muito. Não me revia neste tipo de atitudes. Ela falou pela 1ªvez em tomar medicação, leve, que me ajudasse a relaxar e a dormir (estava com insónias). Mas acordámos em esperar mais 1 semana.

 

Outra semana seguiu-se, nova consulta. Ela quis que eu fizesse o teste para despiste da depressão. Senti que seria um exagero, eu não teria uma depressão. São os primeiros tempos de vida de um bebé que são exigentes, são muitas mudanças, a privação de sono, mas o abanar, o abanar tocava alertas internos. Isso não poderia continuar.

Quando respondi às questões, fiquei admirada com o fato de, em nenhuma delas, eu poder responder pela positiva. Nas escalas que apareciam, de nada feliz a muito feliz, eu responderia nada feliz. Até pensei “mas é possível estar feliz nestes primeiros tempos?” Deu positivo, tinha DPP. Receitou-me um antidepressivo compatível com a amamentação e outro medicamento para relaxar e induzir o sono. Escreveu um relatório para entregar noutro C.Saúde, a prescrever a necessidade de uma consulta de Psicologia. Tempo médio de espera: 4 meses! Saí de lá com um diagnóstico de DPP, com uma receita para os medicamentos e um relatório que me fazia esperar 4 meses por uma consulta. No imediato senti-me aliviada, afinal já havia um diagnóstico e um tratamento.

 

Mas a semana que se seguiu foi a descida ao inferno. Aos poucos comecei a interiorizar que estava com uma depressão. E que imagem tinha eu das pessoas deprimidas? Pessoas apáticas, que ficam neste estado anos e anos a fio, nunca mais voltando a ser a mesma pessoa. Eu ficaria estragada, avariada para sempre. Nessa semana, não dormi nada de jeito todos os dias, o nível de ansiedade crescia, tinha pavor em ficar sozinha com a C, pois não confiava em mim para cuidar dela.

O meu marido, o meu querido marido, já se tinha lembrado de uma amiga cuja mãe é psiquiatra e pediu-lhe para ela ver-me. Marcou-se a consulta. Na noite anterior não consegui adormecer por nada, andei horas às voltas na cama, extremamente agitada. Adormeci. Uma hora depois acordei em sobressalto, a chorar compulsivamente e a dizer que não aguentava mais, que queria morrer. O meu marido tentou acalmar-me, dizendo que iríamos à consulta com a psiquiatra e que tudo ficaria bem. Mas eu já não consegui acalmar. Já estava numa espiral de ansiedade e a parte consciente e racional completamente off.

 

Eu diria que estava numa fase catatónica, só conseguia sentir e dizer que não aguentava e que queria morrer. Ele pegou em mim e na C., não foi trabalhar, e saímos de carro. Lembro-me do dia, de sol, agradável. Ele perguntou-me aonde eu gostaria de ir. Eu respondi “para longe”. E levou-nos para a Comporta. Cuidou da C. e de mim, dentro do possível. Tentou animar-me, fazer-me rir e eu não tinha forças sequer para esboçar um sorriso. Até às 17h00 estive prisioneira da minha ansiedade. Sentia que estava maluca e que não havia uma solução para mim. Não no sentido de voltar a ser quem era. Foram horas horríveis.

 

A hora da consulta chegou. Entrei, perguntei se ficaria maluca para sempre e ouvi “não Ana, não vais ficar.” E, logo de seguida, atirei “e voltarei a ser a Ana de antes?” e ouvi, “Sim, claro que sim. Daqui a 2 semanas já te vais sentir um bocadinho melhor” E, a partir daqui, tudo mudou. Foi o recomeço. Voltei a ser a Ana de antes, eu diria até que uma Ana muito melhor. Mais madura, mais confiante, mais serena. E muito feliz.

 

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Ontem, a minha filha, pela primeira vez, por sua iniciativa, fez-me festas na cara e deu-me um beijo. Assim do nada. Ai, como o meu coração se derreteu! Quanta distância foi percorrida entre os abanares e este beijo!

 

 

 

 

 

 

Onde está a minha mulher?

Acredito que seja este o pensamento de muitos homens que acabam de ser pais. Que num dia têm no olhar de quem está há anos a seu lado, uma ternura e uma vontade de estar sem fim, e que no outro, atentam que no olhar não se encontra nem por perto o carinho que também os embalava e os fazia reconhecer que estava ali a mulher que os amava. 

 

Acredito de igual forma que este pensamento seja fruto de muitas emoções que muitas vezes preferem esconder. Que produza ao mesmo tempo uma série de confusões e de zangas internas que se perdem, na tentativa de as resolver. Que instiga a desilusão de quem muito ou pouco expectava por um novo futuro cheio de amor e harmonia.

 

Imagino que para muitos, seja simples refletir sobre o facto de que de um pequeno rebento, isento de ação, mas cheio de ligação com ambos, pudesse nascer tamanha alteração, tamanha adaptação, tamanha confusão, tamanho amor. 

 

É difícil compreender para alguns onde fica a mulher que outrora os olhava com uma expressão exclusiva de amor e cuidado. Que outrora só tinha espaço para si nos seus braços, no seu peito, no seu corpo. Que outrora só o desejava. Que outrora só em si pensava, especialmente quando a casa chegava. 

 

É difícil para outros, ou até para os mesmos, aceitar que as rotinas mudam, que os humores também, que a família não alarga só em número, que o espaço não se ajusta só em mobílias e que as visitas deixam de vir somente por si.  

 

No fundo, é difícil compreender o impacto da chegada de um bebé quando ele ainda não está nos seus braços. Quando ele nem sequer nasce no seu corpo, ou quando só e simplesmente faz parte da sua imaginação. Quando nem sequer existe outro por perto. 

 

E tudo isto, há que ter em conta como de, nada mais, nada menos, do que completa e absolutamente natural. Mas Pais, peço-vos só um pouco de compreensão. Um pouco mais do que aquela que consideram ter, ou mesmo do que aquela que têm tido e que consideram que está a terminar. 

E como se já não estivesse a abusar, peço-vos também um pouco mais de tolerância e afeto, mesmo nos piores momentos. Tolerância e afeto com quem está a vosso lado, e acima de tudo, tolerância e afeto convosco próprios. Acreditem no que já construíram. Relembrem várias vezes o que prometeram construir. E reflitam bastante sobre como é que podem tornar esta fase - porque é isto que é, uma fase - no momento mais confortável possível, dentro da desorganização mental que poderão estar a viver. 

 

 

A verdade é que vocês conhecem de ginjeira quem têm ao lado. Simplesmente, essa mulher, tem agora em si uma nova e complexa missão - o constructo de um novo papel, o de mãe - e vocês têm em vós uma posição fundamental nas suas vidas - o vosso apoio é fundamental! - nas vossas vidas - também vocês estão a construir o vosso papel de pai - e na vossa vida de casal - tolerância e afeto... estão recordados? 

 

Sim... vocês já eram, mas agora, são ainda mais importantes!

A relação mãe-bebé, tal como ela é.

A relação mãe-bebé, não tem de seguir padrões rígidos, inflexíveis. Não tem uma determinada textura, ou sabor. Não tem uma tonalidade totalmente afirmativa, nem um toque absolutamente suave. 

Não é completamente estática, nem anda sempre às voltas. Não é de curvas e mais contra-curvas. Não é de extremos. (Não) anda à deriva, nem se constitui numa só certeza. (Não) anda só e (pode andar) mal-acompanhada. 

Não é rosa-choque, nem verde às bolinhas roxas. Não sei se é azul. Talvez laranja?

Não anda sempre de mãos dadas com a fluorescência da felicidade, nem se encaixa permanentemente, e num para sempre, com os patins da depressão. 

Não é estanque. Por vezes é não, outras sim e/ou talvez. 

 

Parece-me que por vezes amarga, por vezes reconforta. Por vezes abraça, por vezes afasta. Por vezes envolve, e outras, simplesmente limita. 

Por vezes solta, dá força, velocidade e ação. Outras, integra dúvidas, mágoas e confusão. 

 

Faz de certo reviver, e sem tantas certezas, traz um tanto de conhecimento. 

 

É luz. É fogo. É terra. É água. É ar. Não é.

 

É o que é. Dinamismo, e vida, com esperança na segurança e sem querer absorver o oposto. Com fé no amor, sem ser sempre por todos desejada. Paira sobre o manto da família e de uma sociedade, sem ser por todos, tocada.

A relação mãe-bebé, assim o é. Por vezes branca, e por vezes prateada. Pronta para ser desenhada. Sem sombra de dúvidas de que caracteristicamente única e personalizada. 

 

 

Sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto #11

Segundo Bowlby (1969), a relação de vinculação entre a mãe e a criança orienta todas as relações futuras da criança e portanto, influencia o seu desenvolvimento social e cognitivo. Entre as características principais das relações de vinculação seguras, a harmonia e a sincronia afectiva entre a mãe e a criança podem favorecer o desenvolvimento de estilos particulares de comunicação por parte da criança. Por outro lado, as crianças identificadas como tendo uma relação de vinculação segura exploram mais activamente o ambiente, um facto que pode potencialmente implicar diferenças no modo de comunicar. 

 

 

 

Veríssimo, M., Blicharsky, T., Strayer, F. & Santos, A. (1995). Vinculação e estilos de comunicação da criança. Análise Psicológica 1-2 (XIII), p. 145-155.

Há imagens que valem mais do que mil palavras! Por isso...

...já reparou na expressão da sua companheira/amiga/filha/nora/sobrinha/prima que acabou de ser mãe? 

 

 

Expressões como esta devem dar sempre que pensar. Questionem-se. Questionem-na.

E se tiverem alguma questão, não hesitem em contactar-me: blog@mulherfilhamae.pt