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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Conheceu alguém que passou por alterações emocionais na gravidez e/ou pós-parto?

Foi esta a questão que coloquei a várias pessoas com quem contactei na segunda-feira, durante a tarde, pelas ruas de Lisboa. 

 

Desde que abri o Centro Mulher, Filha e Mãe que andava para tirar uma tarde para ir conversar com as pessoas que frequentam as ruas que envolvem o Centro, sobre saúde mental materna, e ontem foi o dia. 

 

Levei uma folha para apontar respostas, uma caneta, flyers, cartões, coragem, alegria e determinação, e assim fui eu, a andar por Lisboa durante horas.

Inicialmente, enquanto andava, fui deixando as minhas inseguranças ganharem expressão no meu coração e na minha mente:

- Mas que loucura é esta? 

- Será que alguém me vai ouvir?

- Vai tudo achar que eu vou pedir alguma coisa... e vou! Vou pedir tempo... 

- Talvez seja melhor só entregar os flyers e pronto... 

 

Mas não! 

O que eu queria era mesmo conversar com as pessoas sobre o tema. De forma livre e descontraída. 

O que eu queria era ler a expressão espontânea que as pessoas faziam quando as abordava. 

O que eu queria era ouvir o que as pessoas tinham para dizer. Mesmo que desvalorizassem. E mesmo se o fizessem, de certo que seria uma boa oportunidade para as sensibilizar para o tema. E assim foi! 

 

Vivi muito nessas horas a andar pelas ruas de Lisboa. 

A maioria das pessoas esteve sempre muito disponível para me ouvir. Ficavam interessadas e muitas desconheciam o tema. Outras, simplesmente expressavam seriedade do inicio ao fim. Preferiam não responder. Outras, identificavam-se de alguma forma. E todas, receberam com agrado um cartão ou flyer do Centro Mulher, Filha e Mãe

 

Para além das pessoas que iam a andar (aparentemente) de forma descontraída, também abordei pessoas em cabeleireiros, papelarias, cafés, centros de estética, jardins, esplanadas, floristas, e afins. O sorriso, a espontaneidade e a presença calorosa, foram sempre as principais ferramentas que levei comigo, assim como, a aceitação. 

 

Aceitar que determinadas pessoas não queriam falar, responder, que coravam, que se interessavam mais, que preferiram ignorar ou que encolhiam os ombros e continuavam a andar, por exemplo.

Aceitar a rejeição é difícil, mas necessário para termos alguma saúde mental. A verdade, é que seja neste, ou em qualquer outro momento da nossa vida, várias poderão ser as vezes em que nos sentiremos rejeitados, ou que, o seremos de facto. Nem sempre vamos ser aceites. Nem sempre as pessoas vão identificar-se com o que somos/fazemos. Mas isso também não significa que estaremos necessariamente no caminho errado. 

 

No final, fui ao café de sempre onde encontro com frequência uma equipa bem-disposta e que, desde que abri o Centro Mulher, Filha e Mãe, muita força me têm dado! Fui à Confeitaria Sá, onde o Sr. Carlos, que não gosta de tirar fotos, e o Diogo, que tanto lhe faz, aceitaram tirar uma foto comigo e registar o momento em que tomaram conhecimento de que amanhã, seria o dia mundial da saúde mental. Mas não foi só isso que aconteceu. Várias pessoas que estavam no café ouviram, e a conversa sobre o tema instaurou-se de uma forma alucinante. Nunca pensei que um "pequeno desabafo" desse origem a uma conversa tão produtiva e à troca de tantos contactos. 

 

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E já agora, têm de provar as queijadas de amêndoa desta confeitaria!

Tenho por certo, que vão querer voltar com frequência!  

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Desafios no relacionamento conjugal no início da maternidade

Muitas vezes os pais, enquanto casal, têm uma tendência frequente para que discussões (de múltipla causalidade) ocorram até compreenderem como é que se podem apoiar e satisfazerem as necessidades emocionais um do outro. Não é incomum, para ambos, a experimentação de sentimentos de perda, a sensação de serem menos apreciados pelo(a) companheiro(a), menos valorizados, ou até menos amados do que antes de serem pais. Isto pode aumentar a tensão e contribuir para a experiência de ansiedade e depressão entre ambos e/ou de cada um. 

 

É comum ouvirem-se as mulheres falarem sobre esta realidade, e até mesmo os seus parceiros falam sobre estes factos, mas muitas vezes abordam a questão maioritariamente por não saberem como lidar com este tipo de situação considerada pelos próprios como estranha/desconhecida. 

 

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Também é natural considerar-se e sentir-se esta realidade como um paradoxo. Afinal, o mundo da maternidade que muitas vezes é pintado às cores, revela-se em tons cinza para muitos, e negro para alguns, no seu inicio. Contudo, não nos podemos esquecer do quão delicado é o momento que estamos a abordar!

 

É verdade que nem tudo são rosas na maternidade, mas também nem tudo são espinhos. E, especialmente se algum dos membros do casal - ou mesmo os dois - experimentarem algum tipo de problema do foro da saúde mental no período da gravidez e do pós-parto, então a vulnerabilidade será maior e os momentos de tensão e conflitos entre o casal poderão aumentar. Experimentar esta vulnerabilidade enquanto se cuida de um bebé poderá tornar-se muito assustador, pelo que todo o tipo de apoio, compreensão e tolerância por parte da família e amigos revela-se um elemento chave e que também marca o percurso que é trilhado pelo casal neste período de suas vidas. É vital que os casais tenham acesso a apoio especializado, criem um espaço seguro para explorarem os seus desafios individuais e aprendam a apoiar-se melhor. 

 

Isso pode incluir o recurso ao acompanhamento emocional, à psicoterapia, terapia familiar, ou simplesmente a adesão a um grupo de pais, ou até mesmo reunirem-se regularmente com amigos, onde conversas abertas e honestas sobre a presente temática podem ser compartilhadas com outros na mesma jornada. Assim como é vital que a saúde mental seja priorizada, integrar o relacionamento como uma parte crucial desta recuperação em curso também é importante.

 

O resultado provável é um relacionamento de casal mais forte e uma unidade familiar mais feliz. Mas sim, sem dúvida alguma que os desafios no relacionamento conjugal após a maternidade são muitos. Aliás, mais do que muitos. São diários, constantes, e frequentemente trazem dúvidas e confusões internas, que através de uma boa capacidade de comunicação entre ambos, tornam-se mais simples de resolver. 

 

Fonte

"Presenciei na minha filha a angústia e a ansiedade dos primeiros dias do pós-parto"

Há pouco tempo enviei um email com uma mensagem que já andava há muito para partilhar com as mulheres e respetivas famílias que têm partilhado pedaços das suas histórias aqui no blogue, nas Histórias que dão a cara por esta causa e em outros momentos. 

 

Recebi respostas inesperadas, que não pude deixar de comentar e de trazer, com a respetiva autorização, de novo para este espaço. Especialmente por considerar que podem ser fontes valiosas de partilhas que a terceiros muito podem/poderão ajudar.

 

A resposta da Maria Leonor foi uma das respostas inesperadas que vos falo.

Já tinha partilhado connosco uma história que viveu enquanto cunhada, na década de 80. E hoje, partilha connosco uma história que viveu enquanto avó, há relativamente pouco tempo e que toca essencialmente na temática do baby blues e da depressão pós-parto.  

 

Partilhem também as vossas histórias! Façam como a Maria Leonor, que enquanto avó, também tem uma voz, também tem a sua visão, e também tem o seu lugar de quem apoia, e de quem precisa de ser apoiado enquanto vivência este tipo de realidade. 

 

blog@mulherfilhamae.pt

 

"Olá Ana

 

Da ultima vez que lhe escrevi contei a historia de um familiar com realidade de depressão pós parto.

 

Entretanto já fui avó de um lindo menino que nasceu em Agosto de 2016, e presenciei ao longo dos dias na minha própria filha a angustia e a ansiedade dos primeiros dias, até porque o bebe nasceu prematuro e os cuidados foram maiores, no entanto houve dias em que senti que a mãe (minha filha) se encontrava na fase dos baby blues acho que é assim que se diz.

 

Mas estes baby blues não são mais do que o começo das depressões, no entanto talvez com a sua formação em enfermeira teve o discernimento para ela própria evitar que a depressão se instalasse, também conversamos e manteve conversas com as amigas recém mamas, e acho que toda a ajuda pela positiva é necessária nestes primeiros dias, não julgar, não interferir, não baralhar, não dar palpites, e estar presente com energias positivas é primordial para que a recente mãe se sinta calma e sem stress.

 

Mas é imperioso que se fale neste assunto, porque o mesmo é muito abafado, porque se espera demasiado de uma recente mãe, porque está gorda, porque o bebe não mama, porque tem que sair e fazer a vida normal, porque mil e uma coisas e nada disso é real, a realidade são as 24 horas em que dedica toda a energia a um ser recém chegado, que não conhece e que não nos conhece, que chora e não sabemos porquê, que implora atenção, que depende totalmente de nós.

 

Não devíamos exigir tanto de uma recém mãe.

 

Muito obrigada pelo trabalho que tem feito, qualquer ajuda não hesite em pedir.

 

Beijinhos."

A pessoa com experiência de doença mental: O que eu vejo.

É difícil limitar o meu campo visual. 

Dia após dia alcanço cores diferentes. De gente, de luz, de ser. 

É difícil ficar indiferente. Ignorar, para conseguir estar. Olhar ao lado, para melhor me sentir. 

Já diziam, e é verdade, olhos que não veem, coração que não sente. Mas que não se engane quem finge não ver, ou quem faz por não alcançar nesse sentido. Os problemas de saúde mental são uma realidade e afetam um sem número de pessoas e respetivas famílias. E isto, está ao alcance de qualquer um.

 

Eu compreendo, é difícil encarar. Motivos? Vários!

E de forma fria não me coíbo de afirmar que a petulância, o medo, o estigma e a hipocrisia, são só alguns dos que lhes estão subjacentes.

Contudo, é necessário para se confrontar com a pobreza de meios, recursos e awarness alheia, e que mesmo assim geram dentro do possível, um número variado de avaliações, integrações, intervenções, e que atingem pessoas, que mesmo com a sua limitação não se deixam levar pelos olhares alheios e continuam. Mantém a sua riqueza pessoal. 

Quando nos confrontamos, é uma pessoa que estamos a ver. É um pequeno problema dentro dela que temos de resolver, pois a pessoa continua, e a sua riqueza pessoal também. 

É isto que eu também vejo. Pessoas com esta experiência, que fazem mais por si, do qualquer outra que não a tem. 

Também vejo o oposto. Pessoas que se recusam a fazer por si, mas que têm acesso a pessoas dotadas para lhes transmitirem esse insight. 

Infelizmente, também vejo que existem pessoas que a nada têm acesso, a não ser à experiência de doença mental em si mesma, e a um tanto ou quanto de outros (in)felizes acasos e realismos subjacentes ao desenrolar da vida. 

 

Vejo iniciativa, redundância, dúvidas, amor, maus-tratos, confusão, alienação. Vejo força invisível e sempre presente. Vejo personalidade. Vejo tristeza e mágoa. Vejo dificuldade de expressão. Vejo dúvidas. Ah! Já disse? Então repito. É porque vejo muitas. 

 

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Ter a experiência de uma doença mental não é o mesmo que partir uma perna, pois a primeira não se vê tão concretamente, nem se diagnostica tão claramente, ao contrário da segunda. Mas é (quase) o mesmo que uma perna ter partido. O osso não vai completamente ao lugar, por vezes o nosso corpo lembra o sucedido e não há cura, mas há a possibilidade de reabilitação. Acreditamos na reabilitação, sentamo-nos ao lado, fazemos conversa de circunstância e até nos baixamos para pegar na muleta de quem uma perna partiu, certo? 

 

Então porque é que eu continuo a ver a renitência de contacto, o olhar de esguelha, o claro afastamento, e a pobreza de (re)ação, perante uma pessoa com óbvia experiência de doença mental?

 

É tão fácil ter iniciativa para segurar a muleta de quem uma perna partiu, e é tão difícil, sequer, sentar ao lado de alguém com óbvio traço de experiência de doença mental. Chega-se até a respirar o medo, o nojo, a procura pela indiferença e o estigma subjacente. É muitas vezes, cruel, o que vejo. 

 

Tão à frente, e tão atrás que nós estamos. 

 

Informem-se:

 

 

Ou, se preferirem, perguntem:

blog@mulherfilhamae.pt

 

 

Porque eu não acredito que alguém nasça ensinado, ou com a certeza de que a experiência de uma doença mental, nunca lhe vá bater à porta. 

Vêem aí mais workshops! Quem está interessada(o)?

O próximo será na Ericeira, no dia 7 de Maio pelas 15h00, sobre "Saúde Mental na Parentalidade". 

 

Surgiu no decorrer de um convite feito pela nossa querida Psicóloga e Coach Raquel Vaz e faz parte de uma quadra de Workshops/Temas/Testemunhos que vão ocorrer ao longo dos próximos dois meses no espaço Be U.

 

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Precisamente porque a qualidade das relações que desenvolvemos com quem nos rodeia ser a base para a felicidade, cada um destes 4 Temas / Workshops / Testemunhos será uma oportunidade para, através da reflexão, partilha e orientação, promover o Desenvolvimento Pessoal e Bem-Estar.

1º Workshop: "Vidas em Transparência: Pensar para Evoluir"
Apresentação do livro da autora Maria Queiroz.
É um convite para a introspeção e análise das relações que mantemos, para a identificação de relações tóxicas e para um "arrumar" de ideias que nos traga paz de espírito.
Dia 2 de Abril 15h-17h
Entrada LIVRE e possibilidade de desconto na compra do livro.

2º Workshop: Coaching - Desafio, Apoio, Ação
Quer conhecer mais sobre Coaching? Quer ser capaz de concretizar objetivos? De uma forma prática e motivadora tomará contacto com ferramentas que o farão chegar ao seus Sonhos.
Dia 9 de Abril 15h-17h
Número de inscrições mínimo e máximo.

3º Workshop: Ser em Família
Uma oportunidade para uma reflexão dinâmica acerca do papel da família e das famílias, como estrutura essencial para a promoção de qualidade de vida e o auto-conhecimento.
Dia 30 de Abril 15h-17h
Número de inscrições mínimo e máximo.

4º Workshop: Saúde Mental na Parentalidade
A parentalidade nem sempre rima com felicidade... Momento de partilha e testemunho para que o ser mãe/pai possa ser vivido de forma transparente e saudável.
Dia 7 de Maio 15h-17h
Número de inscrições mínimo e máximo.

Dinamizadora: Raquel Vaz (Psicoterapia e Coaching)

Para mais informações e inscrições:
be.u.ericeira@gmail.com
261861987/918 585 501

 

Conto convosco? 

Tenho tanto para vos contar!!!

E confesso que nem sei por onde começar...

 

Vão demorar dias (ou talvez, semanas...) a descrever por aqui todas as novidades que tenho para vos transmitir. 

Os últimos meses que passaram foram marcados pela ausência da vertente escrita neste blog. É verdade! Algo que não previa acontecer, mas que por força de vários acontecimentos na minha vida, acabou por se verificar.

No entanto, eu não estive, nem nunca me senti, totalmente ausente deste nosso espaço. Estive atenta e fui respondendo a todas as questões que me iam colocando - e que eu consegui - via email, e acima de tudo, fui observar, aprender e integrar um conjunto de novas perspetivas, e novos conhecimentos sobre Saúde Mental, especialmente, sobre Saúde Mental Perinatal. Seja através da leitura, da prática e/ou da observação, a verdade é que nos últimos meses me tenho dedicado a absorver o máximo de informação possível sobre a área em questão. Um caminho que iniciei quando fundei este blog, que tenho mantido com grande motivação e avidez de conhecimento e que pretendo continuar.

Hoje, absorvendo um pouco mais do mundo académico, tenho-me confrontado com frequência com uma diversidade de novas questões relacionadas com o tema e que sei que será também do vosso interesse terem acesso. 

 

Tantas vezes me apeteceu pegar no bloco e começar a escrever sem parar.

Tantas vezes me apeteceu passar a tarde a refletir, a ler e/ou a escrever. Seja para desabafar, pesquisar ou simplesmente a atualizar-me quanto ao foco principal deste nosso espaço, tantas vezes me apeteceu passar tudo o que ia refletindo, observando e aprendendo para aqui.

No entanto, os vários compromissos e desafios que se foram colocando no meu dia-a-dia de Mulher, Filha e Mãe (e agora, também de volta aos estudos...) acabaram por me ir consumindo, e o tempo voou, até hoje. 

 

Sei que muitos de vós se poderão identificar. Outros, talvez nem por isso. Mas para mim, o importante é dizer-vos que aqui me encontro de novo, com uma nova energia e muito para partilhar! 

 

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E vocês, prontos para me acompanharem neste novo ciclo?

Tem uma doença do foro da Saúde Mental? Credo!

Infelizmente ainda é assim que as pessoas vêem os problemas de Saúde Mental.

 

Depressões, Demências, Esquizofrenia, Perturbação Bipolar, Ansiedade, AnorexiaDependências, são termosentre tantos outros, que se tornam muito comuns e frequentes quando se toca no assunto da Saúde Mental.

 

E alguém quer ser afetado por alguma destas afeções? Claro que não!

E há alguém por aí gostava de ter uma perna partida, um Enfarte, um AVC ou qualquer um de qualquer outro âmbito?

Aposto que também não!

Mas já houve quem dissesse que preferia ter qualquer uma das anteriores, do que uma doença do foro da Saúde Mental. 

 

Sem dúvida alguma que bom, bom...é sermos saudáveis física e mentalmente! Certo?

Mas por vezes a vida prega-nos algumas partidas, e o aparecimento de uma doença deste género pode ser uma dessas partidas na vida de qualquer um.

Têm noção de que se estima que em 100 pessoas, 30 irão sofrer de algum problema de saúde mental ao longo da vida? E que em 100 pessoas cerca de 12 irão ter um problema de saúde mental grave? [Podem ver a fonte aqui]

 

Dá para acreditar na quantidade de pessoas que estamos a falar?!

 

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Alguns quadros pintados por pessoas com doenças do foro da saúde mental 

 

Há números que não enganam, mas mesmo que enganassem, há factos que não mentem!

Há tantos factos que não mentem... Contudo, se eu tivesse de escolher algum para me debruçar seria sem dúvida algo relacionado com o estigma (ainda) frequente e persistente, perante a doença do foro da saúde mental, e tudo o que a mesma envolve para o individuo e respetiva família. 

 

Não julguem que pessoas Deprimidas não querem sair de casa porque não lhes apetece.

Não julguem que pessoas Esquizofrénicas querem desconfiar porque sim.

Não julguem que pessoas com Perturbação Bipolar são mal educadas por natureza, porque não são.

Não julguem que pessoas com Dependências de substâncias, não as largam porque não querem.

Não julguem que pessoas com Demências querem/gostam de falar alto e mal, porque faz parte dos seus comuns maneirismos.

Não julguem. 

Não julguem porque não vale a pena julgar sobre o que se pensa, mas concretamente, não se sabe. 

 

Pura e simplesmente, julguem porque vos assiste uma boa qualidade mental. Mas não julguem em excesso, quando julgar a mais faz mal.

 

E porque, felizmente e cada vez mais, existem pessoas a pensar assim, realizou-se uma exposição dedicada à Saúde Mental no Pavilhão do Conhecimento no Parque das Nações, que eu julgo que seja loucamente ajustada aos mais novos e aos mais velhos. A todos os que estejam interessados em saber um pouco mais sobre o que é a Saúde Mental, sobre testemunhos de quem já passou e hoje está controlado, sobre como a visão e tratamento sobre a Saúde Mental tem vindo a evoluir ao longo dos últimos séculos, entre tantos outros temas que irão encontrar, e que se mostram bastante pertinentes e esclarecedores!

 

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Uma exposição que julgo que irá ajustar pensamentos e que espero que transforme mentalidades.

 

Já alguém a visitou?

Crónicas da nossa Equipa Clínica - "Normal?! Como definir normal?"*

O que é a saúde mental? Como sabemos que estamos sãos mentalmente? Será normal o que estou a pensar?

São algumas questões que por vezes em algumas fases da vida não saem da nossa cabeça e pensamos precisamente “não devo estar bem da cabeça!”.

 

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A saúde mental não se resume simplesmente à ausência de doença, não basta estarmos “livres de diagnósticos” para concluirmos que estamos sãos mentalmente. Então será que precisamos de atingir um completo bem-estar para nos considerarmos sãos mentalmente? E será possível atingir esse completo bem-estar?! Por outro lado um equilíbrio é possível atingir, o equilíbrio de cada um de nós, o seu equilíbrio. Nem sempre todas as áreas (biológica, psicológica e social) da nossa vida estão a 100% e apesar de se influenciarem mutuamente, podemos sentir bem-estar, sem estar efetivamente TUDO bem.

 

Primeira ideia:

A definição de saúde mental é subjetiva, ou seja, cada indivíduo sente o (tal) equilíbrio de forma diferente.

A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) refere que não existe uma definição oficial de saúde mental, referindo que a saúde mental está ligada a um “estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere” (OMS, 2002). Isto é, o indivíduo sente-se bem consigo próprio e com os outros, e é capaz de lidar de forma positiva com as adversidades, sem temer o futuro.

Deste modo, o primeiro sensor de que algo pode “não estar bem” somos nós próprios ou deveremos ser! Sem censuras ou álibis.

 

Segunda ideia:

Considera-se normal o comportamento mais frequente e concordante com os valores estabelecidos e aceites em determinada sociedade.

Na realidade, a delimitação entre o normal e o patológico é, por  vezes, extremamente  difícil de estabelecer, existindo não só uma progressão entre um estado e o outro, como também uma forte influência do fator cultural, dos costumes e das crenças do grupo e crenças individuais. As próprias crenças dos profissionais de saúde poderão influenciar a avaliação sobre o comportamento.

 

Terceira ideia:

Todos nós podemos ser afetados por problemas de saúde mental.

Podemos perceber que não estamos nesse estado de equilíbrio ou ser percebido pela nossa rede social. Pode ainda existir um diagnóstico que confirme a suspeita. Mas existindo maior ou menor “gravidade”, a nossa qualidade de vida deve ser levada a sério. E existe qualidade de vida quando uma pessoa ou grupo sente que as suas necessidades são satisfeitas e não lhes são negadas oportunidades para alcançar um estado de felicidade e de realização pessoal em busca de uma qualidade de existência acima da simples sobrevivência.

 

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No fundo, o que pretendo com este artigo é desmontar mitos acerca da doença mental e do que se considera ser normal e ser suposto...

 

 É “obrigatório” respeitar os próprios sentimentos e ser-se respeitado, não julgar apenas que “é uma forma de chamar a atenção” que “vai passar com o tempo”.

Se algo chama a atenção então a mesma deve ser dada. Não é o tempo que muda o sentimento é o que se faz com esse tempo.

Se é normal?! Talvez não seja... Mas mais que normal o importante é ser feliz!

 

 

*Crónica por Raquel Vaz (Psicóloga Clínica)

Baby blues e Depressão Pós-parto: Duas realidades (muito) diferentes.

Como temos vindo a falar consecutivamente, existe um momento após o parto que pode vir a ser muito stressante não só para a mãe, como para o pai e toda a família envolvente e presente.

A verdade é que ter um bebé é por si só stressante! Não interessa o quanto se desejou este momento ou o quanto se ama esse filho.

 

 

 

Existe uma fase que se inicia cerca de 2 a 5 dias após o parto denominada por Baby Blues. É uma fase perfeitamente natural decorrente de um pós-parto, mas se os sintomas não desaparecem após algumas semanas ou se se intensificam, poderá estar presente uma depressão pós-parto. Este tipo de depressão pode interferir com a capacidade para cuidar do bebé, por isso é extremamente importante que se tenha ajuda imediata.

Com apoio familiar e profissional adequado, a mãe, poderá voltar com confiança ao seu papel maternal.

 

 

Baby Blues

 

Já falámos muito por aqui sobre este tema e iremos continuar a falar muito mais!

 

Acabamos de ter o nosso filho e de acordo com o que nos transmitem verbal e não verbalmente, é suposto que estejamos a celebrar a chegada deste novo membro da família com os nossos amigos e família. Mas ao contrário de grandes festejos, só nos apetece chorar. Estávamos preparadas para a alegria e celebração, e não exaustão, ansiedade e choro. Certo? Estávamos preparadas para a construção de um novo amor isento de significativas problemáticas subjacentes, mas em vez disso, iniciamos essa construção quebradas numa realidade hostil e nulamente confortável.

Embora possamos não estar preparadas, estas repentinas e frequentes mudanças de humor são comuns nas mães que deram à luz recentemente.

O Baby blues não tem ainda uma tradução consensual. Trata-se de uma condição benigna que se inicia nos primeiros dias após o parto, com duração de alguns dias a poucas semanas. É de leve intensidade e não requer, normalmente, o uso de medicação.

 

A grande maioria das mães numa fase recente da maternidade experimenta pelo menos alguns sintomas decorrentes deste, nomeadamente, tristeza, dificuldade em dormir, irritabilidade, alterações do apetite e problemas de concentração. 

Para terem uma noção, entre as mulheres que acabam de ser mães, aproximadamente de 50 a 85%, experienciam esta condição após o parto (Mehta e Sheth, 2006).

Desta forma, tenham a noção de que, se passarem por esta fase não é caso para alarme, pois é provável que virão a sentir-se melhores assim que as hormonas equilibrarem, sendo que, o apoio dos que a rodeiam, especialmente do seu companheiro, é essencial e suficiente para ultrapassar esta fase.

Contudo, convém estar atenta ao tempo que este período predomina na sua vida. Pois se demorar mais do que 2-4 semanas, então convém procurar apoio especializado (Psicólogo/Psiquiatra/Médico de Família). Poderá estar perante uma Depressão pós-parto.

 

Depressão Pós-Parto

 

A Depressão pós-parto é um problema sério que não deverá ser ignorado. Contudo nem sempre é fácil distinguir entre Baby Blues e Depressão pós-parto.

No início, uma depressão pós-parto pode ser semelhante ao Baby Blues. Afinal ambas as situações partilham muitos sinais e sintomas, incluindo as alterações do humor, choro frequente, tristeza, insónia e irritabilidade. A diferença está na severidade e maior duração da sintomatologia no caso da depressão pós-parto.

 

Exemplo de alguns sinais e sintomas típicos da depressão pós-parto são:

• Falta de interesse no bebé;
• Sentimentos negativos para com o bebé;
• Grande preocupação relativamente à incapacidade de cuidar do bebé;
• Falta de interesse em si própria;
• Falta de energia e motivação;
• Sentimentos de inutilidade e culpa;
• Alterações no apetite ou peso;
• Dormir mais ou menos do que o habitual;
• Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio.

 

A depressão pós-parto surge normalmente pouco depois do nascimento do bebé e desenvolve-se num período de vários meses. Mas também pode surgir repentinamente, e em algumas mulheres os primeiros sinais só aparecem após vários meses de terem sido mães. Para além disso, as causas da depressão pós-parto ainda permanecem pouco claras, no entanto, são apontadas vários tipos de alterações a nível físico, psicológico e social.

 

 

 

Querem ter acesso a mais bibliografia sobre o tema?

http://www.pandasfoundation.org.uk/

http://www.panda.org.au/

http://americanpregnancy.org/first-year-of-life/baby-blues/

 

Maternidade? Nem tudo são rosas!

Estava sentada no cadeirão cinzento quando tudo, efetivamente, começou.

Eram 21h00 do dia 31 de Dezembro, e tinha acabado de chegar a casa após duas belas noites na maternidade.

E lá estava eu, com a minha pequena nos meus braços. 

Ela a dormir, suspirava. E eu, pensativa, de repente, me consciencializava profundamente, do que poderia significar toda esta nova corrente de vida. Toda esta nova vertente do sentir.

Sem perceber bem como ou porquê, subitamente começo a aperceber-me da abertura de uma agressiva cratera num local, por mim, fisicamente desconhecido, mas emocionalmente, bastante sentido: o mais intimo de mim.

Seria nostalgia do momento? Seria medo? Cansaço? Fadiga? Dor? Não!

Comecei aperceber-me que angustia, vazio e tristeza, eram as palavras que melhor se encaixavam.

Mas porquê? Porquê?

Porquê, se agora, finalmente me sentia mais completa do que nunca!

Porquê, se agora sim!

Porquê, se agora sentia que tinha nos meus braços a fonte da minha realização enquanto mulher, a fonte do meu mais profundo desejo de ser, a fonte de metade do que eu sou conjugada com a minha, tão amada, cara-metade.

Porquê? Foi a pergunta que mais me quebrou durante quatro intensas semanas.

Semanas essas, que me assolaram de fraqueza, irritação, fragilidade, tristeza, constante angustia, necessidade de isolamento frequente e desvios constantes da minha mente. Mente essa, que preferia vaguear por entre os meus constantes e perturbadores pensamentos acerca do meu passado, do que, pela minha mais intima presente vontade de viver o meu amor incondicional, fomentando assim, a nossa cumplicidade, a nossa vinculação.

Não lhe virei as costas, mas muitas vezes fiquei parada a olhar p'ra ela, ali, pura e serena, colocando frequentemente em dúvida a minha capacidade de ser quem a cuida. De ser quem a protege. Embora nunca, a de ser quem incondicionalmente a ama. 

Culpa? Muita a senti! Muita me percorreu, pois sem compreender o que se passava ou o que aconteceu para chegar até ali, muito me culpava, dado que o desejo de a ter, antes d'ela existir, ultrapassava o tamanho do céu. 

Numa palavra? Assolador!

Sim, é verdade!

E perdoem-me, a quem futuramente poderá vir a viver a maternidade, mas este meu testemunho, não mostra mais nada, do que a crua realidade, de quem foi na onda do alheio floreado e pura ingenuidade, e se deixou apanhar na curva desta dura e muito intima veracidade.

Agradeço, sinceramente, a quem teve a coragem de enfrentar os seus fantasmas do passado e de me ajudar a identificar os meus do presente. Conseguem imaginar a importância que isto tem na vida de alguém?

 

Há quem chame isto de babyblues, há quem o denomine por melancolia ou tristeza pós-parto.

Tenha o nome que tiver, sabem o que mais me revoltou quando tudo isto passou? 

O facto de não haver em pleno século XXI, informação adequada, profissionais devidamente informados e interessados sobre esta temática, e acima de tudo, a existência de uma geral aceitação da situação como se de algo normal se tratasse, e pelo qual, quase que, necessariamente todas as mulheres têm de passar (e sozinhas) após um parto, por parte de uma sociedade supostamente evoluída, sem se provir a devida validação e abordagem à situação. 

Aceito que me digam que é naturalmente decorrente de uma gestação.

Não aceito que me façam engolir a normalidade de uma situação que altera por completo o íntimo, pessoal e social de uma vida comum, sem nada se fazer, e sem se agir de forma realista numa sociedade que em muito romântiza o que duro (de uma forma ou de outra), é logo à partida. 

 

Maternidade? Nem tudo são rosas!

 

 

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