Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

À conversa com a Ana #14 "Porque as imagens também contam a história da minha depressão pós-parto!"

Porque as imagens também contam a história da minha depressão pós-parto!

 

Mostro a Ana, mãe há 2 meses, com depressão pós-parto ainda não diagnosticada. Ganhei 12 quilos na gravidez, poucas semanas depois já tinha perdido esse peso. Estava muito magra. Tinha olheiras imensas. Sorria muito pouco. Andava quase sempre com semblante carregado. Não tinha vínculo com a minha filha. 

FP_R001_ILFORD_HP5_400_012.jpg

 

E mostro a Ana depois. A Ana, mãe há 9 meses, com a depressão pós-parto já diagnosticada e a ser tratada. Os 12 quilos extra voltaram. Engordei e inchei. As olheiras profundas desapareceram. Os sorrisos tornaram-se constantes. O rosto ganhou expressão de felicidade. O vínculo com a minha filha surgiu (e foi crescendo).

Rolo Kodak  - 033.jpg

 

Entre uma e outra foto existe tudo. Existe a dor, o sofrimento, o medo, a exaustão, a desesperança, a infelicidade. E existe a superação. Nos últimos dez anos da minha vida, entre os 22 e os 32 anos, andei num processo de desenvolvimento pessoal intenso. Foram anos de reconstrução. Foram anos muito duros, de muitos conflitos internos, de muitas tentativas de conquistar uma maior compreensão e consciência de quem sou e do que quero da vida. Desta vida que é única. 

 

Este processo foi a minha tábua de salvação de anos anteriores, uma década também, de muita dor e sofrimento, ligados a uma vivência familiar disfuncional. Salvou-me, mas precisei passar pela depressão pós-parto para descobrir o que faltava para alcançar uma verdadeira compreensão e aceitação de quem sou e da minha história. Quando isto aconteceu, começou a parecer tão simples e claro o que é preciso para eu estar bem. Para viver esta vida. Esta vida que é única. 

 

 

 

À conversa com a Ana #13 - "Sabia que precisava entender a depressão com o coração. Para voltar a um ponto de equilíbrio enquanto pessoa, e para ser a mãe que eu queria, sabia que tinha que me desculpar."

Posso dizer que o ter abanado a C., a culpa imensa que sentia todos os dias e que me destruía por dentro e o processo de fazer as pazes comigo mesma e de me desculpar, foi o mais doloroso e o mais difícil em todo o processo.

 

A pessoa que eu conhecia em mim, até então, tinha desaparecido. Eu, uma pessoa calma, compreensiva, parecia que vivia em constante reatividade, sempre pronta a rebentar à mais pequena situação. Abanei a minha filha porque ela não parava de chorar, gritei com ela, disse-lhe que a detestava, virei-lhe as costas muitas vezes por não suportar o choro, evitava pegar-lhe ao colo, não queria ficar sozinha com ela.

 

Foto.jpgTantos, mas tantos sinais de que as coisas não corriam nada bem! Mas, estando no meio da tempestade, com o cansaço característico do pós-parto, pela inevitável privação de sono, não consegui ter o discernimento para viver mais do que o meu sofrimento no dia-a-dia. Nem eu, nem o meu marido. Claro que sentíamos que havia qualquer coisa errada, mas achávamos que passaria, que era uma fase, que era o cansaço a falar mais alto. Que, algum dia, as coisas iriam acalmar.

 

Com a medicação e, sobretudo com a psicoterapia e o shiatsu, a tal ligação emocional começou a aparecer. Nos primeiros dias após o início da medicação o meu marido tirou uma foto de mim e da C.. A primeira em que eu sorria verdadeiramente para ela. Poucas semanas depois, pela primeira vez, acordei e em vez de sentir um peso enorme no coração, e uma vontade de fugir, senti amor pela minha filha. Senti que a Amava. Foi tão poderoso para mim. Foi mesmo bonito. Fico emocionada ao recordar. Foi um momento muito importante. Depois de tudo o que aconteceu naqueles dois meses, comecei a sentir que não estava estragada, que não era um monstro.

 

Esta foi a minha resposta à questão, que me foi colocada há algum tempo atrás, de: O que foi mais difícil para si em todo o processo?

 

Não consigo descrever com toda a exatidão aquilo que foi para mim viver os momentos de abanar a minha filha. Sei que, nos momentos em que o fiz, estava a viver num grande sofrimento. Não há palavras para descrever esse sofrimento que se está a viver e que nos leva a abanar, a gritar, a virar as costas a um bebé. E depois não há palavras para descrever o que é recordar esses momentos. Saber que eles aconteceram.

 

As palavras da psiquiatra, dos livros, dos textos que li nas inúmeras pesquisas que fiz na Internet, deram uma causa a este comportamento. Foi o descontrolo hormonal e emocional que vivi após o nascimento da minha filha, a tal depressão pós-parto, conjugada com uma perturbação de ansiedade generalizada. Surgiu a explicação, houve uma arrumação da experiência, a nível racional e intelectual. Mas e o coração? Como é que o coração de uma pessoa, de uma mãe lida com o ter abanado a filha? Havia uma explicação, mas ainda assim sentia-me culpada. Sabia que outras mulheres passavam pelo mesmo, mas ainda assim sentia que eu era única e que haveria alguma coisa errada em mim.

 

A culpa que sentia era gigante. Ao mesmo tempo que me ia sentindo melhor, com o avançar do tratamento, sentia que a minha relação com a C. estava presa a estas memórias e à culpa. E foi isso que me fez avançar para a psicoterapia e para o shiatsu. Sabia que precisava entender a depressão com o coração. Para voltar a um ponto de equilíbrio enquanto pessoa, e para ser a mãe que eu queria, sabia que tinha que me desculpar.

 

A psicoterapia ajudou-me muito no processo de entendimento emocional da minha experiência e dos traumas que se criaram. Permitiu-me ganhar confiança em ficar sozinha com a C. O Shiatsu foi a chave mestra para entender com o coração a minha depressão. Permitiu-me passar do questionamento “Porque é que isto me aconteceu? Porque a mim?” para “O que é que a depressão me veio mostrar? O que posso aprender com isto?” E foi a partir daí que o perdão surgiu. 

 

À conversa com a Ana #12 - "“A amamentação é o ideal, mas (...) o que a sua filha precisa é de ter uma mãe feliz, que esteja bem”

No outro dia, ao reparar numa mãe a amamentar o seu bebé, lembrei-me de mim a amamentar a C. e da decisão em parar com a amamentação após o diagnóstico da depressão pós-parto. A C. tinha 2 meses. A psiquiatra explicou-nos as opções que existiam. E eram 2: ou tomava medicação “menos forte” que começaria a fazer efeito dentro de 15 dias; ou tomava medicação “mais forte” que começaria a fazer efeito em 24horas.

 

A primeira opção permitia continuar com a amamentação, mas não em exclusivo, tal como estava a acontecer até então. Poderia amamenta-la durante o dia mas durante a noite, após a toma de um dos medicamentos, não o poderia fazer. Teria que ser com leite artificial ou com o meu leite, caso tirasse o leite com a bomba durante o dia. O outro medicamento, que tomaria durante o dia, era compatível com a amamentação. Tanto a psiquiatra, como a médica de família asseguraram-nos isso, e mostraram-nos um site médico que lista todos os medicamentos e o seu grau de interferência com a amamentação. Demorariam 15 dias até começar a sentir os efeitos da medicação.

 

A segunda opção não permitia continuar com a amamentação, de todo. Era medicação “mais forte”, com capacidade para produzir efeito em 24h. Se decidisse por esta, aquela noite (a da consulta) seria a última em que daria de mamar à C. Depois disso, teria que passar ao leite artificial.

 

Eu e o meu marido saímos da consulta e enquanto íamos para casa falámos. Eu pendia para a 2ª opção. Estava exausta, à beira do precipício e a perspetiva de ter que esperar 2 semanas para começar a sentir-me melhor não me parecia (humanamente) possível. Não me sentia com qualquer réstia de energia física, emocional e psicológica. Mas a contrapartida era deixar de amamentar!

 

Sempre achei que amamentaria. Mesmo nas aulas de preparação para o parto prestei pouca atenção quando se falou sobre o leite artificial. Tinha arrumada em mim a ideia e a vontade de alimentar a minha filha dessa forma. De tudo o que lia, de tudo o que ouvia, compreendia que era o mais benéfico para ela e para mim. Amamentaria até ela deixar de querer. Por isso, naquele momento fiquei dividida porque o que era o melhor para mim não era o que era o melhor para ela. Isto era como pensava na altura.

 

Há uma força social muito grande que nos transmite que devemos fazer sempre aquilo que é o melhor para os nossos filhos. Especialmente porque somos as Mães. Há subjacente a ideia de espírito de sacrifício e de abnegação das nossas necessidades face às necessidades dos nossos filhos. Pelo menos é assim que eu sentia. Como tal, tinha essa pressão moral e social na minha cabeça. Sentia “porque eu preciso descansar e dormir, vou tirar à minha filha algo que é benéfico para ela?” “Não poderei esperar os 15 dias? Não conseguirei fazer esse esforço?”

 

Foto.jpg

Falei com o pediatra. Ele disse-me algo que nunca me irei esquecer e que acabou por passar a ser uma força motriz no meu tratamento e, na verdade, na minha vida. Disse-me “A amamentação é o ideal, mas muitas vezes não é isso que mais conta na realidade. O que a sua filha precisa é de ter uma mãe feliz, que esteja bem.”

 

De coração e cabeça decididos, seguimos para a 2ª opção. O meu marido foi comprar biberões e o leite artificial. A minha mãe veio para nossa casa. E dei, pela última vez, mama à minha filha. Ela ficou a dormir com a minha mãe. Eu tomei os comprimidos, deitei-me e partir dessa noite tudo mudou. A Ana feliz pode começar a espreitar e a C. pode começar a ter uma Mãe.

 

Sobre o ser mulher.

Hoje apetece-me falar um pouco sobre mim. 

 

DSC_8033-Edit.jpg

 

Não me perguntem porquê. A verdade é que nem sou muito disto. Disto, que nada de mal tem, mas a verdade é que este blogue desde a sua génese que sempre teve um propósito bem definido: falar de forma realista e fidedigna sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto. 

 

Ao longo destes três anos da sua existência, e olhando em retrospetiva, sinto que tenho conseguido atingir o meu objetivo. Sinto que cresci, sinto que muito tenho aprendido, sinto que o meu rumo profissional alterou-se por completo, sinto que consigo ver de forma cada vez mais nítida a mulher que há em mim, sinto que nem sempre fui a mãe que idealizei, sinto que, apesar disso, tenho tentado dar o meu melhor. 

 

Se imaginei que estaria onde estou hoje à três anos atrás? Quatro anos atrás? Dez anos atrás? Jamais! 

A minha vida era muito clara para mim, nessa altura. No meu imaginário, com quase trinta anos seria uma mulher viajada, com uma carreira em ascensão, completamente dedicada ao trabalho e amigos. Filhos, Família? Só a partir dos 40. 

 

Chocados? Nem por isso? 'Está tudo certo' - como diria a minha querida Catarina. 

 

A minha geração tem um pensamento muito semelhante a este, e não é por acaso que a natalidade está como está. Mas posso exemplificar-vos um pouco melhor do porquê.

 

Quando terminei a minha licenciatura em enfermagem, em 2011, vários foram os hospitais onde fui, que quando percebiam que ia entregar um curriculum vitae, olhavam para mim com um ar enfadonho e pediam-me para voltar daqui a um ano porque ninguém nos ia contratar nem agora, nem num futuro próximo. O mundo estava em crise. Financeira, diziam eles. Para mim, a crise era uma crise muito maior que esta. Mas disto, só me fui apercebendo ao longo do ano seguinte, onde tudo fiz para procurar emprego, com muito pouco sucesso.

Um ano depois, e com as minhas perspetivas profissionais desfeitas, pensei em emigrar, como a maioria dos meus colegas. A maioria transformou este pensamento numa atitude concreta e objetiva, e saíram do seu País (muitos, com muito pouca vontade). Eu, fiquei por cá. Finalmente encontrava o meu primeiro emprego na área para que tinha estudado, e mal sabia eu, que apesar disso, o pior ainda estava para vir. Nada foi fácil, especialmente a nível profissional. Contudo, assim fui seguindo na precariedade. Clínicas, hospitais, domicílios, lares, formação, etc. Perdi-lhes a conta. Mas nada disto me satisfez. Se me imaginava a fazer o que era suposto, com as condições que me davam (a mim e às pessoas que cuidava), nos próximos anos? Não! Tinha de procurar algo melhor, mesmo que fora da área. E por melhor, não falo simplesmente em salário (que também é muito importante!). Há condições que contribuem para a nossa saúde mental e que valorizo ainda mais. Mas... tudo isto teria de ficar em stand-by, pois estava a caminho uma filha bastante desejada. 

 

Carreira? Dedicação plena ao trabalho? Afinal não! Agora, era tempo de me dedicar à minha família. Ou pelo menos, foi assim que o senti. 

 

Mal sabia eu que o nascimento da minha filha viria mudar todo o meu percurso profissional também. 

 

Confrontando-me com as dificuldades diversas na área da saúde inerentes ao acompanhamento da família com alterações emocionais na gravidez e no pós-parto, era óbvio para mim que tinha de compreender mais sobre o assunto. Óbvio porquê? Não sei, mas era. Era o que sentia. 

 

Pesquisei, li, estudei, analisei, refleti, questionei, escrevi. O universo da saúde mental na gravidez e no pós-parto era para mim, agora que acabava de ter uma filha, um mundo que me apetecia tanto explorar como as crianças quando começam a rebolar, gatinhar, andar. Quando tudo no mundo lhes faz mais sentido, quando despertam para uma nova realidade. Era assim que me sentia: uma exploradora. 

 

A licença terminou, e tive de voltar para a minha antiga vida. Aquela, antes de ser mãe. 

Se me apetecia? Nada! Parece que o que outrora me fez lutar, correr, suar, já não fazia mais. A minha missão era outra. Para mim, a minha missão era continuar a explorar o mundo da saúde mental na gravidez e no pós-parto, agora com um olhar mais profissional. E assim foi. O Mestrado foi o meu próximo caminho. 

 

E quanto mais estudava, mais queria estudar. Quanto mais sabia, mais queria saber e praticar. O blogue foi continuando, cada vez com informação mais fidedigna. Os pedidos de ajuda continuavam, e as respostas que lhes dava eram cada vez mais ajustadas, no meu ponto de vista. Conheci várias pessoas da área que me apoiaram e me apoiam desde então, e com quem muito aprendo, todos os dias. 

 

Terminando o mestrado, o Centro Mulher Filha e Mãe fazia mais sentido do que nunca. E porque não? Quais as possibilidades? Vamos analisar! 

 

Analisar, colocar em prática, trabalhar, correr, estudar, acreditar. Esta, tem sido a realidade que me tem acompanhado nesta viagem, desde que o  Centro Mulher Filha e Mãe foi fundado. E parecia que agora ia estabilizar um pouco mais. Mas não. Ainda havia e há tanto por fazer! 

 

Juntar-me à Árvore dos Bebés, foi das melhores opções que tomei, e a minha querida Carolina é, sem dúvida alguma, mais do que um braço direito, mais do que uma parceira. É uma companheira neste caminho. E sempre o foi, desde o seu inicio. Agora, tanto em teoria, como na prática, os nossos projetos tornaram-se num só. Quem diria! 

 

Aliás, esta, é também uma das expressões que mais ouço por parte dos que me são mais significativos e da minha parte também: Quem diria! 

 

A surpresa e o orgulho estampados no discurso de quem me conhece. Estampados no meu próprio discurso. 

 

Quem diria que terminaria a minha licenciatura, depois de tantos desafios? 

Quem diria que me iria casar e ser mãe tão cedo? 

Quem diria que o meu percurso profissional mudava tanto após a maternidade? 

Quem diria que de um nascimento, um blogue, que de um blogue, um projeto, que de um projeto, um centro com a abrangência que hoje já tem? 

Quem diria que terminaria o meu mestrado na fase de vida em que me encontrava?

Quem diria que hoje estaria aqui a escrever sobre mim? 

Quem diria que a minha vida seria assim? 

 

A resposta é clara: não sei! 

Talvez ninguém dissesse, ou talvez alguns possam já o ter dito, ou refletido. E independentemente de quem disse, ou do que foi dito e/ou refletido, hoje, só sei que me apeteceu dar espaço de antena a mim também. À minha expressão, e acima de tudo, apeteceu-me, olhando para trás, fazer algo que possivelmente tenho como raro na correria do meu dia-a-dia: valorizar as minhas conquistas. Eu não diria que estaria onde estou hoje, mas fico feliz por estar, mesmo ainda não tendo a estabilidade que gostaria. Estou a lutar pelo que quero, e todos os dias tento dar o melhor de mim em tudo o que faço e a todos com quem estou. É assim que me vejo. E é sobre esta mulher que hoje me apeteceu falar. 

 

Afinal de contas, quantas vezes olhamos para nós, mulheres, e valorizamos firmemente tudo o que temos conquistado e todos os esforços que fazemos no meio de tantos papéis e afazeres? 

 

É verdade que o dia da mulher é todos os dias, mas que este dia da mulher sirva, acima de tudo, para olharmos com consciência para nós mesmas e darmos valor à mulher que há em nós! 

 

Feliz dia da Mulher a todas as grandes mulheres que ao longo destes três anos, têm acompanhado este meu percurso, e que de uma forma, ou de outra, têm contribuído para que a mulher que há em mim cresça cada vez mais em consciência e em amor. 

 

#asaudementaldamulherIMPORTA! 

À conversa com a Ana #11 - "Aos poucos, a nossa dança, dolorosamente desengonçada, foi-se sincronizando. O tal amor incondicional, puro e apaixonado foi surgindo, crescendo e solidificando."

Texto escrito no final de Outubro 2017

Dentro de poucos dias terão decorrido 2 anos de tratamento da minha depressão pós-parto. Voltarei para mais uma consulta com a psiquiatra e creio ser intenção dela dar como concluído o tratamento. Eu também sinto que este capítulo da minha vida está pronto para ser finalizado.

 

Revendo, em retrospetiva, estes 2 anos foram repletos de grandes desafios e de emoções! Um desses grandes desafios foi a relação com a minha filha. Amo-a incondicionalmente. Sou completamente apaixonada por ela. Mas não começou assim. O meu amor (puro, incondicional e apaixonado) por ela foi-se construindo aos poucos.

 

Na gravidez sentia-me em paz comigo e com a (ideia) de ser mãe da C. Falava com ela, cantava para ela, tocava muito na minha barriga. Sabia que a relação mãe-filha já acontecia ali, naquele instante da gravidez e queria que a minha filha sentisse, desde logo, que era desejada e amada pela mãe e pelo pai.

 

Depois ela nasceu e eu não fui invadida por aquele amor imenso e intenso de que se fala. Não houve nenhum clique. Estava exausta por causa do trabalho de parto e em choque (sem ser consciente) pela forma como fui tratada no hospital S.Francisco Xavier (onde era suposto ela nascer). Observava as enfermeiras a tratarem dela, enquanto eu era cosida e pensei “ok, sou mãe! Eu sou mãe. Aquela é a minha filha. A minha filha.” Não sentia felicidade, nem amor, também não sentia medo, tristeza. Sentia-me apenas muito cansada e com a sensação de que tudo tinha mudado. Na maternidade cuidei dela, não tive medo de ir para casa. Pelo contrário, queria ir. Queria descansar na minha casa e começar a nova vida com a pequena C.

 

Durante as semanas que se seguiram, eu estava a tentar recuperar do trauma da receção do hospital SFX e do toque intrusivo e doloroso de uma das médicas no hospital de Cascais (onde ela nasceu). Tentava recuperar física e emocionalmente, ao mesmo tempo que tinha que responder àquelas que são as exigências de cuidar de uma recém-nascida. E aos poucos, de uma forma completamente insidiosa e crescente, o medo e a insegurança em não conseguir/saber cuidar da C., a tristeza e a raiva pelas expectativas não correspondidas sobre o que seria cuidar de um bebé, foram-se revelando. Mostravam-se no dia-a-dia, nas mais pequenas situações e acabei por entrar no papel de mãe em puro piloto automáticoFoto.jpg e estabelecendo uma relação de aceitação condicional da pequena C.

 

Cuidava dela por responsabilidade e obrigação. Evitava ficar sozinha com ela. Quando ficava, a maior parte do tempo, evitava olha-la. Queria que ela mamasse e dormisse. Nada mais. Não brincava com ela, não interagia. Ficava enraivecida quando não adormecia ou quando dormia muito pouco. Não diziam que os recém-nascidos “só comem e dormem”! Então porque é que a minha não era assim? Porque é que eu não conseguia fazer mais nada, nem ser mais nada do que alguém a cuidar de uma bebé?

 

Com o início do tratamento, sobretudo com o Shiatsu e a psicoterapia, a nossa relação começou a mudar. Ao longo dos meses que se seguiram, fui ganhando consciência da falta de apego e de um vínculo forte entre nós. E fui tentando criar precisamente momentos/oportunidades que promovessem o vínculo com a minha bebé. Por exemplo, todos os dias, antes dela dormir, à noite, deitava-me com ela na minha cama, enchia-lhe de beijos, de abraços, de festas, procurava o olhar dela, demorava-me a olhar para ela. 

 

Foram precisos bastantes meses para nascer a Mãe da C., ao mesmo tempo que nasceu a minha própria mãe. Aprendi a ser mãe da C. e a ser a mãe que eu não tive. A tal mãe que ama incondicional e apaixonadamente. Sempre que abraço e beijo a minha filha é como se a minha mãe me estivesse também a abraçar e a beijar.

 

Mais um exemplo de que pedir ajuda compensa...mesmo quando se está longe!

Há poucas semanas, no grupo do facebook que criei - Maternidade nem sempre rima com felicidade - uma mulher publicou uma mensagem muito espontânea, genuína e sofrida. A solidão foi o sentimento de ordem, e gritou tanto naquele momento que a mulher sentiu que precisava de escrever e publicar para alguém ver e "ouvir". 

 

18033053_721815684664047_5244768035800512015_n.jpg

 

Naquele momento não me era possível responder-lhe, e nem acedi à publicação em tempo útil, mas quando a vi... dezenas de comentários repletos de valorização, compreensão, disponibilização de presença e apoio ressoaram mais alto. 

 

Gostava de registar que o sentimento de orgulho e gratidão percorreu-me instantaneamente e de forma veloz. Foi impossível não ficar emocionada ao ver que a compaixão feminina e o sentimento materno demonstrou-se espontaneamente naquilo que senti como um abraço imaginário e sentido entre muitas mulheres e mães que ali estavam presentes. Todas, umas para as outras. Muita identificação, mas também muita compaixão pelo direto pedido de ajuda de alguém que estava longe, muito longe. Estava tudo acontecer ali, naquele grupo, com aquele título refutado por muitos outrora, num espaço de muitos lugares e poucas caras - até ali - e num lugar virtual mas que em tudo fez sentido naquele momento e naquela hora para aquela pessoa. Para aquelas pessoas. Se dúvidas houvesse, ali ficou explicito que o que quer que estivesse a fazer neste sentido, onde nem sempre se ergue uma resposta clara no tempo desejado sobre o caminho a trilhar, fazia sentido. Tudo me fez sentido naquele momento, e o apoio e orientação que muitas vezes peço e desejo em silêncio, gritou bem alto numa demonstração compassiva absoluta, daquilo que tenho expectativa que um dia, num outro espaço que criei, também assim seja e de uma forma mais pessoal. 

 

Só posso ser grata a todas estas mulheres que estão mesmo lá. Todas elas, estiveram lá e muitas delas responderam com afeto e disponibilidade demonstrando que o sentimento de solidão até poderá ser partilhado, mas assim também o é, o apoio e a ajuda. 

 

Mais uma vez, este é um exemplo de que, pedir ajuda compensa. 

 

E tu, já pediste ajuda

 

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Hoje faz 1 mês que o Centro Mulher, Filha e Mãe abriu e...

21951721_1570488113009037_1005559116_o.jpg

 

... já temos tanto para contar!!!

 

Vários são os desafios que nos têm sido colocados, especialmente, burocráticos! Muitos, nem sequer imaginava. 

O meu coração de enfermeira apaixonada por esta área direcionou-me sempre no sentido de suprir esta necessidade urgente de estruturar um apoio focado no acompanhamento da mulher e família na preconceção, gravidez e pós-parto, especialmente, no âmbito da promoção do bem-estar emocional. Mas a verdade, é que quando se gere uma casa, tal como esta é, muitas outras questões se colocam. Especialmente, as burocráticas! Essas, têm sido o meu maior desafio. Estar com as pessoas, poder acompanhá-las, tem sido o meu maior privilégio. E como tal, gratidão mantém-se a palavra de ordem. Aquela que é falada por mim, mesmo que em silêncio, cada vez que penso, que sinto, que imagino, que olho à minha volta e que vislumbro que para além do sonho que tinha, hoje, é uma realidade: O Centro Mulher, Filha e Mãe, existe! 

 

_1180415.JPG

 

Segui o meu coração, e aqui estou: com um mês de trabalho neste Centro, mas com a sensação de que uma vida posso aqui passar se souber encontrar um equilíbrio entre o meu coração, a minha mente e o meu corpo, agora, a nível profissional. 

 

O tempo, assim o dirá.

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Todos acham que eu já devia saber tudo sobre como cuidar de um bebé porque...

...Sou educadora de infância.

...É o meu segundo filho.

...Sou profissional de saúde. 

...Já sou mãe de três. 

...Trabalho com crianças.

...Sou professora. 

...Já cuidei de todos os meus primos. 

...Sou mulher. 

...Sou mãe.

 

6ffc4a37-e513-4e66-92a8-9a25c3a83cd5.jpg

 

Estas foram as diversas respostas que eu já ouvi, por parte de mulheres, que sentem que as pessoas que as rodeiam consideram de alguma forma - seja porque o dizem, seja porque o demonstram, seja porque tecem comentários menos apropriados para o momento, seja porque simplesmente o sentem - que elas deviam saber tudo sobre como cuidar de um bebé. 

 

É também nesta pressão, que eu diria social, que nasce em larga escala o sentimento de culpa que muitas destas mulheres também carregam, por sentirem e/ou frequentemente se questionarem, sobre a sua capacidade de cuidar de um bebé. É no seu instinto que brota alguma sensação de alívio e/ou conforto, mas é também nas suas dúvidas, perceção de falta de apoio - incluindo aqui o social também - e na sua relação consigo mesmas que muitas vezes nasce o primeiro sentimento de que falei. 

 

Serei boa mãe o suficiente? 

Estarei a fazer o indicado no cuidado para com o meu filho?

Será que ele está confortável? 

Todos acham que eu já devia saber tudo sobre como cuidar de um bebé, mas não é assim que me sinto. 

 

E por vezes, no espaço do social, não há lugar para este tipo de expressão. Para a expressão de uma mulher, agora mãe, que precisa, que necessita, que muitas vezes grita quase em silêncio, bem baixinho, com vergonha, e com grande necessidade de se expressar, que apoio, compreensão e afeto, são as três palavras mais desejadas, e muitas vezes as três palavras mais caras, que neste momento, alguém lhe pode dar. 

 

E porquê? Porque mais caras, e portanto, menos acessíveis?  

Porque não doadas? Facilmente transmitidas? 

 

Somos frequentemente capazes de doar algo a uma instituição, de dar algo a um sem abrigo que passa na rua, de doar o nosso tempo a famílias e crianças carenciadas de algum tipo de apoio. E porque não, doar algum do nosso apoio, compreensão e afeto, a uma mãe confusa, por vezes desesperada, e desamparada, que carrega um bebé? Uma mãe que pode não dizê-lo, mas que facilmente o transmite através de um olhar, de uma expressão, ou de uma ausência inesperada, por exemplo. 

 

Todos acham que as mães, por serem mães, têm de saber cuidar. E se a mãe considerar que não sabe? E se tiver muito medo? E se o medo a impedir de tentar? E se não estiver disponível para aprender? E se quiser aprender, mas tiver muitas dúvidas? 

 

Será que é contribuindo para sua culpabilização que a vamos fazer sentir melhor? Que ela vai sentir que cuidará melhor do seu bebé? Ou é, fornecendo apoio, compreensão e afeto? Respeitar o seu tempo, estar atento, pedir ajuda especializada quando necessário, falar simplesmente com alguém que possa perceber um pouco mais das suas dificuldades, não pressionar, mostrar-lhe que gosta dela, como ela é. E como ela é, é também sentir dúvidas e ter dificuldades. É também, nem sempre saber.

 

E não é por isso que deixa de ser mãe.

E não é por isso que não faz o melhor que sabe naquele momento e dentro do presente contexto.

 

Todos acham que as mães deviam saber tudo sobre como cuidar de um bebé, mas todos se esquecem que por trás de uma mãe, está uma mulher, está uma pessoa, está um ser humano, e que continua ter, todas as suas características associadas.  

 

E já agora, será mesmo possível saber tudo sobre o que quer que seja?

Será mesmo possível saber tudo sobre como cuidar de um bebé? Sobre como cuidar de alguém? 

 

Fica a questão.

 

centro@mulherfilhaemae.pt

Reiki: É assim que acontece.

Escrever numa folha em branco pode parecer difícil, mas já alguma vez pensaram em tentar fazê-lo deixando-se levar pelo vosso instinto? Pelo vosso corpo espiritual? Pelo que sentem? E, não só, pelo que pensam? 

 

É, mais ou menos assim, que acontece nas sessões de Reiki aqui no Centro Mulher, Filha e Mãe, entre mim e as mulheres e famílias que sigo e que procuram e/ou aceitam com agrado a realização de sessões de Reiki integradas no acompanhamento que têm. 

 

Reiki significa energia universal. E a energia que vem do universo, é aquela que nos acomete a todos, simplesmente para alguns que integram uma formação mais específica neste âmbito, (re)aprendem a ser canal como forma de passar essa energia de forma organizada, e com um determinado fim: o de nutrir os locais que no corpo do outro, dela necessitam. 

 

 

Para mim sempre foi claro que seja qual for a doença, não tem de ter constantemente e em exclusivo uma causa física. Para mim, é demasiado redutor pensar que se uma parte do corpo de alguém adoece se deve única e exclusivamente a uma causa física. Causa essa para a qual a medicina nem sempre tem resposta. E note-se que, enquanto enfermeira que sou, sei o quão importante é a medicina tradicional e afirmo-o, não deixando de tentar conhecer e/ou explorar outras hipóteses. 

 

As causas emocionais e mentais das doenças são cada vez mais conhecidas por todos, e também elas, têm de ser colocadas em perspetiva se queremos, enquanto profissionais, e de forma efetiva, atingir a doença pela sua raiz. 

Tal como qualquer raiz, que tem várias ramificações, as causas das doenças, acredito que assim também o são. 

 

Foi também por acreditar em tudo o que vos referi até aqui que há precisamente 10 anos fiz a minha iniciação no Reiki. Sem pressões, sem pressas, mas com uma grande motivação para compreender o que estava por detrás desta forma de estar. Muitos optam por tratá-la como uma terapia alternativa, mas não considero que seja no plano do alternativo que tenha de estar. Integrada numa abordagem holística não faz muito mais sentido? Porque temos de excluir formas de intervir em prol de outras se todas poderão fazer sentido no trabalho com as pessoas que nos procuram? 

 

Tal como dizia, forma de estar na vida, na minha vida pessoal e na minha vida profissional. Falar sobre Reiki é falar sobre vitalidade, é falar sobre a vida. Ter despertado para o Reiki foi, possivelmente, dos despertares com mais luz e sentido interno pessoal, e hoje, já lá vão 10 anos de práticas, conhecimentos, leituras, reflexões e formação associada.

 

Nunca me pressionei para realizar Reiki a terceiros, ou para simplesmente fazer porque sim. Várias foram as pessoas que me foram fazendo diversos pedidos neste âmbito e vários foram os pedidos que senti que tinha recusar. Ainda não era o momento para tal, e o meu corpo, a minha forma de estar, o meu sentir, a minha sabedoria interna foi-me transmitindo isto com sentido. 

 

Para mim não são determinados dias de prática específicos, em primeiro lugar acreditar e/ou uma estruturação arrojada que fazem do Reiki o que ele, simplesmente, é. Somos nós, quem o pratica, quem o transmite e quem o reflete que deve ouvir-se a si próprio. Algo que data de há muito, muito mais do que a prática de Reiki em si, algo simples e básico: É naturalmente importante ouvir-mos o nosso próprio corpo, e no Reiki, não é diferente. Muito pelo contrário. No meu ponto de vista, é também aqui (mas não só) que a prática de Reiki se revê. 

 

Foi sempre tudo sentido, desde o inicio, e só assim me faz sentido. E é com uma realização imensa que escrevo, feliz e plena, que também o Reiki faz parte da minha abordagem no Centro Mulher, Filha e Mãe

 

Não uma abordagem única e exclusiva de uma sessão parcial e/ou completa, mas sim, de uma abordagem integrada em todo o acompanhamento dado à mulher e família no Centro. 

 

Olhar e escutar atentamente a mulher e/ou família, propor uma sessão, compreender quais os locais que carecem de maior intervenção a este nível, poder ser um canal que facilita a nutrição energética destes locais, e observar, na primeira fila, os benefícios claros, visíveis e relatados pelas próprias pessoas, desta prática e no momento, é sem sombra de dúvidas um dos maiores privilégios a que posso ter acesso através desta minha opção profissional. 

 

Sou Grata*

Encontros para mães e bebés: livres, isentos e descontraídos.

Todas as 6ªfeiras entre as 12h00 e as 13h00, a partir do dia 27 de Outubro, haverá um momento de encontro para mães e bebés no Centro Mulher, Filha e Mãe

 

Sala do grupo de mães e pais - Centro Mulher, Fil

 

São encontros:

 

  • Livres de participação: Todas as mães que tiverem bebés até aos 18 meses e tiverem interesse podem participar;

 

  • Isentos de pagamento: Os encontros não têm nenhum valor monetário associado. Basta que se dirijam ao Centro Mulher, Filha e Mãe e desfrutem do passeio, do espaço do Centro, do convívio e do espaço envolvente. Considerando o espaço, simplesmente será necessário que, quem tiver interesse, se inscreva para a(s) 6ªfeira(s) em que tiver disponibilidade/interesse.

 

  • Descontraídos no seu todo: Não há temas definidos para se falar ou determinadas normas a cumprir. O objetivo é criar um tempo específico durante a semana em que a Enfª Ana Vale possa estar com as mães e com os seus bebés, ouvir as suas questões, conversar e disponibilizar o espaço do Centro Mulher, Filha e Mãe para promover momentos de convívio e partilha nesta fase do ciclo de vida. 

 

Pátio - Centro Mulher, Filha e Mãe.jpg

 

Haverá sempre a oferta de chá a quem estiver presente, e quem tiver interesse e se queira inscrever, basta enviar email (centro@mulherfilhaemae.pt) ou contactar-nos via telefónica (936 180 928).

 

Partilhem com quem considerem que possa ter interesse!