Comecemos por definir o que é a sexualidade. Segundo o conceito da Organização Mundial de Saúde, a sexualidade é: uma energia que nos motiva a procurar amor, contacto, ternura, intimidade, que se integra no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados. É ser-se sensual e ao mesmo tempo sexual; a sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações, e por isso influência também a nossa saúde física e mental.
Esta definição de sexualidade é extremamente completa e integra toda a realidade da sexualidade em qualquer fase da vida adulta – inclusive – durante a gravidez e no pós-parto, fases que vamos abordar neste texto.
Assim que uma mulher engravida aparecem sempre uns “velhos do Restelo” com teorias sobre o sexo na gravidez, muitas delas baseadas unicamente em mitos. Vamos hoje desmistificar algumas ideias, sim? Vamos lá!
Mito: O orgasmo pode afetar o desenvolvimento fetal.
Realidade: Os orgasmos são positivos em qualquer fase e está provado que quando a mulher grávida vivencia um orgasmo o feto tem - igualmente – uma sensação de bem-estar.
Mito: Ter relações sexuais no primeiro semestre pode causar um aborto?
Realidade: Não há qualquer impedimento do casal manter a sua vida sexual exceto se houver expressas contraindicações médicas.
Mito: As grávidas não sentem prazer.
Realidade: O prazer sexual sentido pela mulher não está diretamente relacionado com a gravidez. No entanto, algumas mulheres grávidas afirmam que conseguem sentir mais prazer sexual na gravidez devido a uma maior sensibilidade sensorial. Outras sentem uma maior inibição devido às mudanças corporais e a sua influência emocional. Não podemos – de forma alguma – generalizar.
Mito: A penetração pode magoar o/a bebé.
Realidade: O/A bebé está protegido pelo útero e a penetração não magoa o/a bebé. O nosso corpo é inteligente e está preparado para a atividade sexual mesmo durante a gravidez, se esse for o desejo do casal. Contudo, relembro que caso existam expressas contraindicações médicas para não terem relações sexuais com penetração as mesmas devem ser cumpridas.
É importante que a realidade seja conhecida por tod@s!
Na gravidez a mulher sofre imensas alterações hormonais, físicas e emocionais que tem de gerir da melhor forma e nem sempre (ou quase nunca) é uma tarefa fácil. Muitas vezes as alterações que ocorrem no corpo da mulher durante o período de gestação e no pós-parto podem provocar sentimentos de diminuição de autoestima que, por consequência, provocam uma imagem de menor beleza e capacidade de sedução que pode culminar no decrescimento do desejo sexual. Também há fases da gravidez e do pós-parto que provocam alguma diminuição do apetite sexual, nomeadamente os enjoos e o cansaço intrínseco. Outras vezes as alterações são positivas para as mulheres que se sentem mais femininas e atraentes com as novas curvas corporais e por consequência mantêm ou elevam a sua autoestima. Não há um padrão rígido, depende das mulheres, da gravidez, da relação de casal, de muitos elementos que podem influenciar estas fases.
![]()
Não nos podemos esquecer dos homens pois também eles lidam de forma diferente com a gravidez e com o pós-parto da mulher, o que influencia direta ou indiretamente o desejo e atividade sexual do casal. Por exemplo, há homens que se sentem mais atraídos pelas formas do corpo da mulher gestante e há outros homens que – muitas vezes influenciados pelos mitos em cima identificados – diminuem a sua libido. Não há uma postura certa ou errada nesta realidade, depende sempre das pessoas, do casal. O importante é que haja sempre diálogo entre os dois pois é uma regra fundamental na relação de casal, conforme já foi referido aqui.
Deste modo, é visível que a gravidez e o pós-parto são fases que o casal é obrigado a gerir com muito tato. Atualmente o tema da atividade sexual nestas fases ainda é considerado tabu. É muito importante que os casais não tenham receio de solicitar informações desta natureza e que dialoguem muito sobre o que querem e o que sentem, juntos enfrentam obstáculos e encontram soluções. A falta de diálogo e compreensão nestas fases pode originar situações mais complexas, entre elas, a depressão pós-parto. Neste ponto saliento também a retoma da atividade sexual no pós-parto que deve ser controlada pela mulher em parceria com o homem. A mulher é que deve reconhecer se se sente preparada – física e psicologicamente - para retomar a atividade sexual plena, não nos esquecendo das alterações hormonais que a mulher continua a sofrer no pós-parto e durante todo o período de amamentação. Mais uma vez relembro que o diálogo é crucial no casal e a partilha de todas as questões que existam.
O casal deve procurar sentir-se bem com as mudanças que ocorrem e não viver com dúvidas ou receios. Por exemplo, um casal que tenha contraindicação médica para praticar sexo deve perguntar ao/à especialista se está a especificar sexo com penetração pois é importante distinguir e relembrar que – caso o casal queira manter a sua intimidade sexual nestas fases – existem muitas formas de explorarem a sexualidade sem penetração e de forma prazerosa para ambos.
A prescrição nestes casos é simples: criatividade!
*Crónica por Isabel Sofia Pires (Terapeuta Familiar)