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Mulher, Filha e Mãe

Porque a saúde mental na gravidez e no pós-parto importa!

Mulher, Filha e Mãe

Porque a saúde mental na gravidez e no pós-parto importa!

Dom | 17.04.16

Movimento Depressão Pós-Parto: A opinião de uma Grávida (primeiro filho) sobre a Depressão Pós-Parto.

Ana Vale

A Teresa, grávida de 17 semanas, decidiu aderir ao #movimentodepressãopósparto e refletir um pouco sobre o que sabia sobre o tema. 

 

Engraçado como descreve tão clara e simplesmente, não só o produto da sua reflexão, mas como também o quão foi importante para ela refletir sobre o tema nesta fase da sua vida. Algo que refere que nunca tinha pensado de forma tão profunda, e que nem pensava fazê-lo, até ter aceite o desafio.

 

Ficam aqui com a sua reflexão, que espero que leiam tão atenta e carinhosamente como eu. Fico feliz, por saber que o #movimentodepressãopósparto, aos poucos e poucos, a cada palavra, a cada testemunho e a cada pessoa que toca, vai promovendo a reflexão e o debate sobre o tema. 

 

E vocês? Já refletiram sobre o que é que sabem sobre Depressão Pós-Parto

Fico à espera das vossas respostas para blog@mulherfilhamae.pt

 

o que é que tu sabes sobre dpp.jpg

 

Confesso que quando me foi lançado este desafio, o meu primeiro pensamento foi “Acho que não sei praticamente nada sobre este assunto e muito provavelmente não irei acrescentar um contributo significativo para quem ler”. Por momentos esqueci o assunto mas ao longo do dia não conseguia deixar de pensar que talvez fosse importante reflectir um pouco sobre esta temática. Quando finalmente tive um bocadinho livre, considerei que devia ser bom sinal não saber muito sobre o assunto pelo facto de nunca ter passado por essa situação mas depressa me recordei de uma amiga que passou por uma fase complicada. E mais pensamentos me foram surgindo: “E se entretanto tiver amigos que passem pelo mesmo? E se for eu ou o meu marido que muito em breves iremos ser pais?” Realmente devo ter a obrigação de saber mais sobre o assunto! Não só pelas pessoas que mencionei mas como profissional de saúde, devo também estar alerta para o caso de me cruzar com alguém que apresente sinais de ter uma depressão pós-parto. Pois bem, foi assim que iniciei a minha reflexão, na esperança de conseguir responder ao desafio que me foi lançado.

 

Entendo que a depressão pós-parto, tal como o nome indica, é a depressão que ocorre após o parto, ou seja após o nascimento de um bebé. É diferente do sentimento de tristeza no sentido que é mais difícil de ultrapassar e requer a ajuda de um profissional especializado. É mais frequente ouvir falar de depressão pós-parto na mulher (mãe) mas também pode afectar o homem (pai), pois ambos são os responsáveis principais pelo bebé, cabendo-lhes satisfazer as suas necessidades básicas. O bebé não tem que ter necessariamente um problema (de saúde ou outro) e nem os pais têm necessariamente que ter antecedentes para desenvolver este tipo de depressão. Por outro lado, a depressão pós-parto manifesta-se de diferentes formas em cada pessoa, não havendo por isso uma resolução/tratamento igual para todas as pessoas que sofrem desta condição. Considero que existem uma série de manifestações que são mais comuns ou pelo menos, que são mais evidentes porque são facilmente verbalizadas ou visíveis por outros, como por exemplo: o mãe ou o pai sentir que não é capaz de tomar conta do bebé (alimentá-lo, mudar-lhe as fraldas); ter dificuldade em tranquiliza-lo e dar-lhe carinho (pegar-lhe ao colo, embalá-lo); achar que não é um bom ou boa mãe (ter dificuldade em distinguir os diferentes sinais do bebé de quando tem fome ou dores, ou não conseguir que o bebé pare de chorar). No entanto, acho que existem muitas outras formas que não sendo visíveis aos outros ou porque não são verbalizadas (pelo medo do que os “outros irão dizer”, pela vergonha de os dizer ou simplesmente pelo facto de não os conseguir expressar), acabam por ser ainda mais dolorosas porque são sofridas “em silêncio”.

 

E quanto ao “outro pai/mãe” (nos casos em que existe) que não está a sofrer a depressão pós-parto? Creio que é também um elemento frágil e susceptível de sofrer depressão, pois para além de também se estar a adaptar à nova vida familiar com mais um elemento (bebé), tem de lidar com o “companheiro/a” que está a sofrer. Os casais são todos diferentes e as pessoas também mudam alguns comportamentos ao longo da vida mas é fundamental, no período pós-parto que ambos funcionem como um todo, não só em função do bebé mas também da sua própria relação um com o outro. É fundamental que criem tempo para que possam conversar sobre tudo o que está a acontecer de novo e como se sentem face a essas mudanças. Esta é sem dúvida uma parte difícil, sobretudo nos casos em que os casais não costumam dedicar tempo para dialogar, ainda antes do bebé nascer.

 

A depressão pós-parto é sem dúvida um tema importante que deve ser falado e discutido, uma vez que não é tão vulgar como se julga. O facto da pessoa permanecer com depressão acarreta consequências negativas não só para si, como na relação com o bebé, outros filhos e o companheiro (nos casos em que existe) mas também no seu círculo social mais alargado onde se incluem familiares e amigos. Neste sentido é fundamental que sejam levadas a cabo iniciativas de prevenção, através de acções de formação e divulgação pelos diferentes meios de comunicação social, para que as pessoas passíveis de sofrerem de depressão pós-parto estejam devidamente informadas e sensibilizadas, para que possam identificar os sinais de alerta de ocorrência desta problemática. É extremamente importante conhecer a informação técnica e clínica que os profissionais de saúde especializados nesta matéria detêm, bem como é igualmente importante a troca de experiências e de testemunhos de pais que passaram por esta situação. Assim, torna-se mais fácil de partilhar os sentimentos e angústias sentidos, para que se sintam apoiados e ouvidos e não se sentiam desamparados e sozinhos. Os meios de comunicação social são uma óptima ferramenta para chegar ao maior número de pessoas e blogues como este (blog@mulherfilhamae.pt) são importantíssimos na divulgação desta informação, permitindo a troca de experiências e testemunhos.

Ainda muito há para fazer e um longo caminho para percorrer!

 

 

Sab | 16.04.16

Depressão Pós-Parto ou Depressão Perinatal?

Ana Vale

Qual dos conceitos melhor traduz a depressão nesta fase da vida da mulher?

 

Dizer 'Pós-Parto' ou 'Perinatal', reporta-nos para períodos diferentes. Tal como o nome indica, 'Pós-Parto' reporta-nos para o momento a seguir ao parto e 'Perinatal' remete-nos para o momento desde a conceção até ao primeiro ano do bebé.

 

 

Classificar a Depressão como Depressão Pós-Parto, acaba por ser o conceito maioritariamente falado e escrito, contudo acaba também por ser mais limitativo do ponto de vista do desenvolvimento da doença, chegando até, a alimentar o mito de que "a Depressão só acontece depois do parto". O que não é verdade. 

 

A Depressão pode ocorrer em qualquer fase da vida, mas a Depressão que tem como foco subjacente as alterações biopsicossociais decorrentes da conceção até ao primeiro ano do bebé, é aquela que se denomina como Depressão Perinatal. 

Como referi neste texto, dado que quando se começou a investigar mais profundamente sobre o tema se incidiu maioritariamente no pós-parto, devido às consequências nefastas que se começaram a atentar mais na época como o suicídio da mãe e/ou o infanticídio, a depressão começou a ser denominada frequentemente como "Depressão Pós-Parto". Não é que esteja errada, no entanto, dizer Depressão Perinatal tendo em conta a sua caracterização, não só é mais correto, como também desmistifica por si só o período provável de ocorrência da respetiva patologia. 

 

Na DSM IV e na CID - 10 - dois livros que identificam vários critérios de diagnóstico para as doenças do foro mental - a depressão e outras patologias que ocorrem no mesmo período aparecem sempre indicadas como no "pós-parto", o que também a nível médico pouco tem contribuído para a clarificação destes conceitos. 

No entanto, sendo a Psiquiatria Perinatal uma área em constante desenvolvimento e que tem ganho uma visibilidade cada vez maior, é provável que a clarificação deste e de outros conceitos, vá sendo cada vez mais preconizada e concretizada.

 

Aqui no blog utilizo muitas vezes o termo Depressão Pós-Parto, uma vez que, sendo o mais conhecido dos dois acaba por mais facilmente chamar à atenção de quem lê os artigos sobre o tema. Contudo, muitas vezes já tenho utilizado o termo Depressão Perinatal para o ir começando a tornar familiar também.

 

E vocês, já alguma vez se tinham questionado sobre esta questão?

 

Sex | 15.04.16

Entrevista à Dra. Ana Telma Pereira #2

Ana Vale

Lembram-se de vos ter falado da Dra. Ana Telma Pereira* e do seu trabalho de investigação na área de Saúde Mental Perinatal, aqui?

 

A própria respondeu a algumas questões para a Rádio Regional do Centro, às quais tive acesso, e que tenho a certeza que serão bastante esclarecedoras para quem se interessa por a área, seja por motivos pessoais e/ou profissionais. 

Não vos vou conseguir colocar aqui a entrevista por inteiro, uma vez que é muito extensa, mas irei reparti-la em alguns textos de forma a que a leitura e reflexão sobre os diversos conteúdos que integra seja mais facilitada. 

 

Há uma semana partilhei a resposta à primeira questão, aqui.

Hoje ficam com a resposta à segunda questão, que converge com um texto que escrevi logo no inicio do blog - "Baby Blues e Depressão Pós-Parto: Duas realidades (muito) diferentes"

 

Ora vejam:

 

- Depressão pós-parto e blues pós-parto - é tudo a mesma coisa?

 

É importante distinguir a depressão perinatal dos blues pós-parto. Estes são considerados reacções normais, comuns e passageiras às alterações hormonais e ao nível de stresse que caracterizam os primeiros dias após o bebé nascer.

Contrariamente à depressão perinatal, não alteram a capacidade da mulher funcionar adequadamente, não requerem tratamento profissional, e o apoio da parte da família e amigos costuma ser suficiente para acelerar a sua resolução.

 

____________________________________________________________________________________________

*Ana Telma Pereira

Psicóloga; Investigadora Auxiliar no Serviço de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (Director: Prof. Doutor António Ferreira de Macedo)

Coordenadora do Projecto Rastreio, prevenção e intervenção precoce na depressão perinatal nos cuidados de saúde primários

Financiado pelo Programa Iniciativas de Saúde Pública, EEA-Grants (MFEEE 2009-2014)

Qui | 14.04.16

Movimento Depressão Pós-Parto: A Depressão Pós-Parto vista pela lente de uma amiga.

Ana Vale

A Ana, autora do blog Chic'Ana, resolveu aderir ao #movimentodepressãopósparto e enviou-nos a sua opinião sobre o tema. 

 

Mais uma perspectiva sobre a Depressão Pós-Parto, através da lente de alguém que embora não tenha passado por esta realidade na primeira pessoa, viveu-a enquanto amiga de alguém que vivenciou a dura realidade que é a Depressão Pós-Parto. 

 

Após a leitura do seu testemunho podemos verificar o quão importante é TODOS estarmos informados sobre o tema, pois tendo alguém próximo que passe por uma Depressão Pós-Parto, podemos mais facilmente compreender (mesmo que minimamente) a sua situação, e determinados comportamentos que da mesma derivam, evitar julgamentos erróneos, e acima de tudo, apoiar (verdadeiramente) a pessoa que padece desta patologia. Mesmo sabendo que este tipo de apoio será uma luta constante e que o 'Não', muitas vezes, será a palavra de ordem. 

 

É por isto também que qualquer um, seja (ou não), pai, mãe, familiar, amigo e/ou especialista no tema, é convidado a aderir ao #movimentodepressãopósparto enviando-me a sua resposta à seguinte pergunta:

 

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blog@mulherfilhamae.pt

 

"Antes de mais muito obrigada pelo convite para expressar a minha opinião quanto a este assunto. De momento, apenas sou mulher e filha. Espero um dia mais tarde ter a felicidade de conhecer a palavra “mãe” sob outra perspectiva, com mais intensidade.

Relativamente à depressão pós-parto já ouvi falar imensas vezes e tenho uma amiga minha que também sofreu desta depressão. Foi algo que começou devagar, começou a afastar-se com a desculpa que o bebe lhe tirava todo o tempo disponível. É compreensível, principalmente nas primeiras semanas, mas as semanas iam passando e ela ia-se afastando cada vez mais. Não queria receber visitas, não queria telefonemas longos. Achámos toda a situação muito estranha e confrontámos os pais dela com este comportamento. Disseram-nos que estava a ser medicamente acompanhada e para não desistirmos de lutar pela recuperação dela. Assim foi, levámos muitos nãos, levámos respostas muito bruscas, mas não desistimos e felizmente hoje encontra-se bem.

Outra perspectiva que não podemos esquecer é a do pai, também os homens podem ser afectados por esta depressão, devido à falta de atenção que têm da esposa, por passarem de um momento para o outro para um segundo plano. Há muitos que sofrem em silêncio.

O que eu posso aconselhar, apesar de não ter vivenciado nada semelhante? Não encarem a depressão como uma fraqueza, apoiem-se na família e nos amigos para ultrapassarem mais uma provação que a vida coloca. É importante desabafar, pedir ajuda.."

Qua | 13.04.16

Birras... para que vos quero?

Ana Vale

No Sábado, eu e o meu marido fomos a um workshop intitulado por "Birras...para que vos quero?" promovido pela creche onde a Madalena está. Foi um Workshop dado pela Psicóloga Carolina Canto que também dá as aulas do Gymboree, na mesma creche. 

 

Estávamos um pouco expectantes, pois - tal como a maioria dos pais no mundo - andamos a passar por uma fase complicada com a Madalena no que toca à temática das Birras. Sempre percebemos a nossa filha como um bebé/criança bastante decidida - aquilo que ela quer, é aquilo que tem de ser -  e bastante comunicativa, mesmo que ainda não tão eficazmente por via verbal. Mas... ultimamente começou esta fase, em que pela conquista da sua autonomia, nos tenta desafiar a todo o custo chegando muitas destas situações a terminar em Birras bastante complicadas de gerir... 

 

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Também, tal como a maioria dos pais no mundo, chegamos a momentos em que não sabemos o que havemos de fazer e também já chegámos à brilhante conclusão de que não existe uma única solução. Não existe uma única, mas sim várias. Várias dependendo do momento e da birra (e provavelmente, dependendo de mais algumas coisas também...).

 

Assim sendo, lá fomos nós. Estava tudo preparado para nos receber - a nós e aos restantes 30 pais que se inscreveram - e cerca de 10 minutos depois lá começou o Workshop. 

Na teoria, a Carolina tentou mostrar-nos algumas correntes de pensamento sobre o que são as birras, para que servem, porque é que são tão necessárias e algumas dicas básicas para podermos lidar com elas. Na prática, foi ainda melhor. Tentou chegar a todas as nossas dúvidas e questões, abriu um grande espaço para colocarmos as nossas experiências, e como conhecia um pouco de todos os bebés e crianças que foram faladas (porque já lhes dá aulas no Gymboree), melhor ainda. 

 

Conclusões?

 

  • Não há uma forma padronizada de agir perante uma birra (mesmo que as birras sejam semelhantes...);
  • É importante valorizar as boas atitudes e comportamentos que os nossos filhos adotam perante determinada situação. Eles fazem birras, e no meio das birras têm atitudes e comportamentos que por vezes nos fazem sair do controlo. Contudo, é importante mostrar-mos aos nossos filhos que embora os seus comportamentos não estejam corretos, que os adoramos, valorizando (mesmo os pequenos) atos que são bem feitos pelos próprios.
  • As birras são necessárias e fazem parte do desenvolvimento da criança. Portanto... é complicado lidar com elas mas, é também necessário aprendermos a enfrentá-las, acolhe-las, e quem sabe até, antecipá-las, tendo em conta o quão bem conhecemos os nossos filhos. 
  • Devemos ter sempre presente que nem sempre são só os nossos filhos que fazem birras. Nós, Pais, também fazemos as nossas birras perante (e não só) as birras dos nossos filhos. Por isso, também é suposto que o nosso autoconhecimento se vá aprimorando ao longo desta árdua tarefa que é a educação, para que se torne num parceiro de grande fulgor nesta batalha.
  • Também na sequência do último ponto, devemos saber orientar os nossos filhos em busca de um comportamento mais adequado, mas também devemos saber pedir desculpa quando os chamamos à atenção e não tivemos o melhor comportamento/atitude nesse momento. Somos Falíveis, e como tal, também devemos dar o melhor exemplo neste sentido. 
  • Se as birras forem tão complicadas de gerir que a criança berra, bate e faz trinta por uma linha para o mundo que a rodeia se aperceber do quão irritada está... é melhor deixá-la deitar tudo cá para fora durante breves minutos e depois intervir.
  • As birras, na idade da madalena, ocorrem muitas vezes pelo facto das crianças nessa idade não saberem gerir as emoções, uma vez que, não só são imaturos emocionalmente, como também, ainda não se conseguem exprimir bem verbalmente. Assim, a forma que encontram para gerirem as emoções menos positivas que os consomem é deitando tudo cá para fora através (adivinhem lá!)... das birras. 
  • Como disse inicialmente, não há soluções mágicas para as birras dos nossos filhos e cada um é como cada qual. Existem algumas estratégias que podemos aplicar, mas sem grande expectativa de resultar. No entanto, é bom pararmos para refletir sobre o que suscitou esse momento, posteriormente. Partilhar este tipo de situações seja com quem for, especialmente se de alguma forma nos sentirmos "sem norte", poderá ser um bom ponto de partida para compreendermos melhor a situação e que aprendizagens tiramos da mesma. Neste sentido, o grupo de pais que se juntou no Sábado e todas as partilhas que realizámos foram catalisadoras de um bem-estar geral que se sentia na sala.
  • É verdade que nós, Pais, muitas vezes estamos sujeitos a um stress gigante simplesmente só por sermos Pais e estarmos no século XXI. Mas muitas vezes esse stress deriva muito de nós próprios, das nossas opções e da nossa forma de estar, ser, pensar e sentir. É importante compreendermos que somos Super-Pais, só, pura e simplesmente por querermos o melhor para os nossos filhos, refletirmos sobre a sua educação, e tentarmos ser melhores a cada dia que passa.

 

Este, foi sem dúvida alguma um excelente espaço que se abriu. Uma excelente oportunidade que foi proporcionada pela Creche e pela Carolina do Gymboree e um excelente momento que floresceu e nos deu a todos a oportunidade de nos expressarmos livremente, sem sentirmos que seríamos julgamos por agirmos de determinada forma ou vivermos determina birra juntamente com os nossos filhos. Foi um momento de partilha e reflexão. Ou pelo menos, foi assim que eu o senti. 

Espero que haja a possibilidade de serem dinamizados mais momentos assim porque tenho a certeza que de alguma forma, todos entrámos expectantes no workshop, e saímos do mesmo com uma sensação de maior leveza em relação a este assunto. 

 

Birras... eu não vos quero. Mas sei que estarão sempre presentes daqui em diante. Portanto... é sempre bom podermos falar sobre isto!

 

E vocês, o que têm a dizer sobre o assunto?

Ter | 12.04.16

Movimento Depressão Pós-Parto - Não precisas de ter filhos para aderir!

Ana Vale

Ao contrário do que presumo que muitos possam pensar, podem aderir ao movimento mesmo não tendo passado pela experiência da maternidade/paternidade. O objetivo é conhecer a opinião de todos os que a quiserem dar sobre o tema. Não precisam de escrever textos grandes, mas se assim o quiserem fazer, força! Basta uma frase, uma imagem, o que considerarem mais correto para nos transmitirem o que é que sabem sobre Depressão Pós-Parto

 

A autora do blog Us4all também aderiu ao #movimentodepressãopósparto, mesmo não sendo mãe e aqui está a sua opinião, e pelos vistos, está muito bem informada! 

 

E vocês, o que sabem sobre o assunto? Já alguma vez tinham pensado sobre o que sabem sobre Depressão Pós-Parto?

blog@mulherfilhamae.pt

 

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"Na verdade penso que é um tema pouco explorado, só agora recentemente se começa a ouvir falar mas acho que é um tema ainda muito sensível. Toda a gente assume que a mulher deve estar feliz por ter um ser para amar, alguém que a completa, que corresponde aos padrões socialmente impostos, mãe, mulher, trabalhadora... mas a verdade é que o confronto com a realidade deve ser muito duro e cada vez mais. Estamos habituadas a uma vida mais independente hoje, a casar mais tarde a gerir a nossa vida de forma mais independente e de um momento para o outro sentimos que o nosso corpo muda, a nossa rotina muda, a casa, o grupo de amigos, a família... tudo sofre grandes alterações imagino eu. As rotinas são afectadas... tudo isso são motivos que, a par das alterações hormonais, devem ser tão mas tão difíceis de gerir e equilibrar e que nada têm a ver com o amor por um filho."

Seg | 11.04.16

Desde quando se fala em Depressão pós-parto?

Ana Vale

Devem-se a Hipócrates os primeiros relatos de perturbações psiquiátricas associadas ao momento do pós-parto.

Numa das suas obras descreveu o caso de uma mulher que, após o nascimento do primeiro filho, começou a manifestar alguns delírios, fenómeno que veio a repetir-se no pós-parto dos seus sete filhos seguintes.

 

Quanto à Depressão na Gravidez e no Pós-parto (Perinatal), pensa-se que a primeira vez que foi reconhecida terá sido por uma mulher italiana, Tortula de Salerno (1040-1097), considerada como a primeira ginecologista e urologista da história da Medicina. Pouco se sabe da sua vida, apenas que era filha de um médico, que exerceu medicina no século XI e que escreveu um livro que descrevia muitas das "doenças da mulher", para instruir os médicos da época sobre o corpo feminino e dos sintomas típicos da gravidez, do puerpério e do período menstrual. 

 

 

Curiosamente, a primeira descrição pormenorizada da doença foi feita por um médico português - João Rodrigues de Castelo Branco - conhecido como Amantus Lusitanus - que em 1547, se encontrava a trabalhar em Roma.

Alguns anos mais tarde, apareceu uma nova descrição realizada por  Rodriguez de Castro - um discípulo de Lusitanus - outro português que se encontrava a exercer em Hamburgo. Na mesma época são descritos vários casos de mulheres com choro compulsivo e que tinham ideação suicida e de cometer infanticídio com inicio nas gravidezes. Desde então multiplicaram-se as descrições inerentes à temática e a depressão, quer na gravidez ou no pós-parto, assumiram um interesse crescente na comunidade médica e cientifica. 

 

Na escola da psiquiatria francesa, o tema também foi alvo de grande interesse, tendo Esquirol, em 1818, observado uma mulher que teve episódios depressivos em todas as sua cinco gravidezes. Um dos alunos de Esquirol, Louis Victor Marcé, apresentou num dos seus livros o resultado de uma investigação na qual verificou que a maioria das mulheres deprimidas durante a gravidez assim continuavam depois do parto.

Por esse contributo, Marcé é considerado atualmente como o Pai da Psiquiatria Perinatal e Channi Kumar, Ian Brockington e James Hamilton criaram em 1980 a Marcé Society, a primeira associação internacional dedicada ao estudo multidisciplinar desta área.

 

Embora Marcé tenha dado esse grande contributo, a verdade é que nos dois séculos seguintes, a depressão na gravidez suscitou muito menos interesse na comunidade médica e cientifica, do que a depressão pós-parto, motivo pelo qual, esta última é muito mais estudada, abordada e falada do que a primeira, atualmente.

 

Portanto, como podemos constatar, a resposta correta à questão que foi colocada é que "desde há séculos" que se fala, estuda e explora sobre Saúde Mental Perinatal, nomeadamente sobre Depressão Perinatal. 

 

Sabiam? 

Fonte

Dom | 10.04.16

Movimento Depressão Pós-Parto - Testemunho #2

Ana Vale

E as respostas continuam a chegar-me ao email, com as mais variadas opiniões sobre o tema. 

 

E tu, o que é que sabes sobre Depressão Pós-Parto? Já alguma vez tinhas pensado sobre isso? 

 

A Rita, autora dos blogs 'Conversa, Café e Sorrisos' e 'Dentro de mim', enviou-me uma resposta com base na sua vivência, falando também de algumas estratégias que utilizou para ultrapassar o momento menos positivo que viveu no seu pós-parto. 

Junta-te ao #movimentodepressãopósparto e envia-me também a tua resposta à pergunta:

"O que é que tu sabes sobre Depressão Pós-Parto?"

 

blog@mulherfilhamae.pt

 

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Sou mãe e passei pelo período de pós-parto.

Tive uma gravidez inicialmente atribulada (um descolamento da placenta às 7 semanas meses que me impossibilitou de trabalhar e ter uma vida normal até as 13 semanas – altura em que tive alta).

Como mamã de cesariana (o meu príncipe estava numa posição pélvica) tive sempre muito presente as celebres frases “nem sabes a sorte que tens” e “não vais ter um parto natural nem sabes o que é ter filhos”.

Desenganem-se se pensam que este tipo de coisas não nos afeta. Sim, afeta.

E comentários como este podem deitar por terra uma mulher que (em estado de recuperação) está mais fragilizada.

Não posso dizer que tenha sofrido de DPP grave logo após o parto mas, durante o período de amamentação, engordei bastante e, apesar de ser nova, demorei quase 2 anos a recuperar a minha forma.

Ouvia as pessoas a comentarem “olha lá, ficou tão forte depois do parto” ou “era uma rapariga tão magrinha e agora ficou assim”. Isso massacra-nos o psicológico e queira-se ou não leva-nos a ficar cada vez mais em baixo e mais deprimidas.

A DPP no meu caso passou por um estágio de negação, na qual eu achava que se desse a parte fraca as pessoas iam achar que eu era fraca ou que não tinha capacidades de cuidar convenientemente do meu filho.

Passou por uma fase de raiva, na qual eu evitava a todo o custo olhar para mim e para o meu corpo porque tinha nojo e desgosto por aquilo que ali via.

Passou pela fase do desleixo, onde me comecei a deixar de me vestir com roupas justas e passei a andar com roupas que em nada me favoreciam e a perder completamente a feminilidade.

Passou pela fase da negação sexual, que me recusava a praticar sexo com o meu marido porque achava eu que ele odiava o meu corpo e só o fazia por necessidade.

E mais tarde pela fase da aceitação, em que um dia olhei para o espelho e disse para mim mesma “tens 26 anos, um filho para criar e muito para dar” e comecei a fazer dieta e a consultar sites de aconselhamento para mães que após a gravidez ganham kilos extra.

E foi assim que, pouco a pouco, numa luta que travei comigo e contra mim que hoje, com quase 29 anos voltei ao meu peso normal e a gostar de me ver ao espelho.

Penso que a DPP é diferente em cada mulher e que cada uma tem os seus estágios e as suas etapas, tanto na queda como na recuperação. Mas uma coisa é igual para todas, uma simples palavra pode fazer toda a diferença para o bem e para o mal.

Sab | 09.04.16

Em rede ou na rede?!

Ana Vale

Em conversa constatei um facto dos dias de hoje. Se há umas décadas existiam os diários, nos quais escrevia-se secretamente e muitas discussões eram geradas quando alguém ousava lê-los. Atualmente não só partilhamos o registo de vivências como queremos que seja visto (caso contrário não publicávamos...) e comentado!

Até aqui tudo ok, efetivamente a tecnologia e as redes sociais facilitaram a transmissão de informação e consequentemente a partilha entre todos, o que tem a grande vantagem não só de nos sentirmos mais próximos (quando a distância geográfica é grande), como de criar pontos comuns, informar e até formar e deste modo ajudar a desmistificar ideias e aceitar com mais naturalidade certas situações.

No fundo este espaço é prova disso mesmo!

Então qual é a questão?

Existem várias questões, mas pensando num contexto de saúde mental poderemos reflectir acerca de: isolamento, idealização, expectativa, ansiedade,...

 

Poderá haver um isolamento camuflado atrás de um qualquer dispositivo electrónico, mas mesmo quando não há um isolamento físico, muitas vezes há um “isolamento mental”, muitos de nós esconde nos seus pensamentos um sofrimento, uma desvalorização acerca das próprias capacidades, um mal-estar social causados precisamente pelo bombardear de informação colorida, pela partilha de momentos que sendo reais aparecem de forma perfeita num contexto virtual. E será só em contexto virtual?... Mesmo num contacto directo, vê-se o empenho de muitas pessoas em passar uma imagem que poderá não corresponder ao que realmente estão a sentir. Como diz uma amiga ninguém mostra o seu lado lunar quando está em campanha!

 

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Um exemplo disto mesmo é a vivência da parentalidade, tanto num período pré, peri e pós-natal, como noutras etapas da vida de uma mãe ou de um pai, a idealização colocada nas futuras e presentes experiências, esperando-se um “bebé modelo”, acompanhado pela mãe/pai perfeito, juntamente com a expectativa imposta pelas imagens e pelos relatos transmitidos por pais que muitas vezes escondem as mesmas dúvidas, dão a ilusão da possibilidade de um mundo perfeito, mas o mesmo não existe, nem tem que existir. Direi mesmo não deverá existir! E porquê? Porque quem considera que não erra (ou não lhe é permitido errar) tem muito maior probabilidade de lidar mal com as contrariedades, com a frustração e tornar-se inflexível, intolerante. Será que queremos pais, ou seja crianças assim?!

Agarrando no desafio da nossa querida autora deste blogue Ana Vale “Movimento - O que é que tu sabes sobre depressão pós-parto?”, vamos partilhar sim! Seja em que rede for partilhar dúvidas, angústias, medos,... e conhecimento, tolerância, serenidade.

O maior desafio é acolher e respeitar qualquer convicção e sentimento, tentando desmistificar crenças que em nada ajudam a que o papel de mãe/pai atinja a sua plenitude e equilíbrio. E se temos pais equilibrados, temos crianças equilibradas (seja o que for esse equlíbrio para cada um de nós).

 

 

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Neste sentido é ótimo estar em rede, mas sem cair na rede...

É tão importante reflectir acerca do que é importante para nós e não só para os outros, o que é que eu sinto e não o que é suposto sentir porque os outros o consideram, é fundamental pensarmos acerca das nossas prioridades e, neste sentido, pensarmos sobre a forma como colocamos as “redes sociais” (virtuais e reais) a nosso favor e não colocarmo-nos ao dispor das “redes sociais”, reféns de uma liberdade de expressão muitas vezes prisioneira do “gosto” e de uma avaliação de nós mesmos presa à realidade que nos é mostrada.

Em consulta a mãe de uma criança que acompanho mostrava-se angustiada com o que lhe teria sido aconselhado, perguntei: “E para si, o que lhe faz sentido?”

 

 

Texto da autoria da Psicóloga Clínica Raquel Vaz

Sex | 08.04.16

Entrevista à Dra. Ana Telma Pereira #1

Ana Vale

Lembram-se de vos ter falado da Dra. Ana Telma Pereira* e do seu trabalho de investigação na área de Saúde Mental Perinatal, aqui?

 

A própria respondeu a algumas questões para a Rádio Regional do Centro, às quais tive acesso, e que tenho a certeza que serão bastante esclarecedoras para quem se interessa por a área, seja por motivos pessoais e/ou profissionais. 

Não vos vou conseguir colocar aqui a entrevista por inteiro, uma vez que é muito extensa, mas irei reparti-la em alguns textos de forma a que a leitura e reflexão sobre os diversos conteúdos que integra seja mais facilitada. 

 

Hoje, ficam com a resposta à primeira questão. Alguma dúvida?

blog@mulherfilhamae.pt

 

1. O que se entende exatamente por depressão perinatal?

 

A Depressão Perinatal compreende todos episódios depressivos que ocorrem entre a gravidez e os doze meses após o parto. Esta designação é consensual entre os peritos da área da Saúde Mental, nomeadamente pela Marcé Society, uma organização internacional dedicada ao estudo das perturbações psiquiátricas perinatais.

A depressão é a perturbação mental perinatal mais comum e, portanto, a que mais afecta as mulheres e as suas famílias. Como qualquer depressão clínica, independentemente do período de vida em que ocorre, é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um problema de saúde pública porque é cada vez mais prevalente, é prevenível e é tratável.

Enquanto perturbação depressiva, caracteriza-se pela presença de humor deprimido e/ou perda do interesse ou do prazer em todas ou quase todas as actividades, durante pelo menos duas semanas, acompanhados de pelo menos quatro dos seguintes sintomas biológicos e/ou cognitivos: diminuição ou aumento do apetite ou do peso; insónia ou hipersónia; agitação ou lentificação psicomotoras; fadiga ou perda de energia; sentimentos de desvalorização ou de culpa excessivos; dificuldade de concentração ou de tomada de decisão; pensamentos recorrentes de morte ou de suicídio. Estes sintomas acarretam prejuízo significativo no funcionamento. No entanto, estar grávida, ter um bebé e ser uma recém-mãe constituem acontecimentos que podem influenciar grandemente o conteúdo dos pensamentos negativos e o modo como os diversos sintomas se manifestam. Por exemplo, é comum as mulheres sentirem-se culpadas por não serem mães suficientemente boas, sentirem-se inseguras acerca das capacidades parentais e terem preocupações excessivas e/ou irracionais acerca do bem-estar e desenvolvimento do bebé. Por outro lado, muitas mulheres referem-se à incapacidade para sentirem proximidade e interesse pelo bebé.

 

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*Ana Telma Pereira

Psicóloga; Investigadora Auxiliar no Serviço de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (Director: Prof. Doutor António Ferreira de Macedo)

Coordenadora do Projecto Rastreio, prevenção e intervenção precoce na depressão perinatal nos cuidados de saúde primários

Financiado pelo Programa Iniciativas de Saúde Pública, EEA-Grants (MFEEE 2009-2014)