Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

À conversa com a Ana #15 - "Para mim foi uma libertação enorme. Saber que a minha filha seria alimentada, mesmo que eu não pudesse ou não conseguisse estar presente."

Há pouco tempo atrás escrevi, aqui, acerca da minha decisão em deixar de amamentar. Fui confrontada, pela psiquiatra, com duas opções de tratamento para a minha depressão pós-parto, e acabei por escolher aquela que me permitiria sentir no imediato os efeitos da medicação. E, com essa escolha, veio a necessidade de deixar de amamentar.

 

No dia da consulta, esse dia 05 de Novembro de 2015, à meia-noite dei de mamar pela última vez. Depois tomei, pela primeira vez, os medicamentos. Fui deitar-me. Andava há semanas com insónias. Se pensarmos na privação de sono que se vive nos primeiros tempos de vida do bebé porque, naturalmente, ele não dorme muito tempo seguido, e acrescentarmos uma séria dificuldade em dormir quando o bebé está efetivamente a dormir, chegamos a um ponto de desgaste enorme.

 

Sou eternamente grata à minha psiquiatra. Porque a mão dela chegou numa altura em que eu já não tinha forças sequer para sobreviver. Quando entrei naquela consulta estava para lá do meu limite físico e emocional. Ela própria, mais tarde, confidenciou-me que eu estava num ponto em que se a medicação não fizesse efeito, e de forma imediata, ela teria possivelmente que internar-me. Não foi preciso. A medicação, ainda que tenham sido precisas algumas semanas para acertar a dosagem, começou a reverter a espiral descendente em que me encontrava.

 

E assim, nessa primeira noite, dormi finalmente. A minha mãe ficou com a C. E o plano de tratamento estava traçado. A psiquiatra foi peremFoto.jpgptória e bastante prática: eu precisava descansar, dormir, recuperar. E a minha bebé também precisava de ser cuidada. Teria que existir o apoio do marido e da família para que tudo isto fosse possível. E avançou logo com o cenário: na primeira semana, o meu marido ficaria em casa. Ele cuidaria da C. de noite, para eu dormir. Ficaria durante o dia comigo, dado que eu tinha desenvolvido um medo enorme de ficar sozinha com ela. Ele ficou. Cuidei da C. com o suporte dele. Dormi. Dormi muito. E pude dormir porque ele podia alimentá-la. E, para mim, isso foi uma libertação enorme. Saber que a minha filha seria alimentada, mesmo que eu não pudesse ou não conseguisse estar presente.

 

Nas semanas seguintes, nos meses seguintes, durante o primeiro ano de vida da C. ela foi alimentada por mim e, também, pelo pai, pela minha mãe, pelos pais do meu marido. Eu podia ir à psicoterapia, às sessões de Shiatsu, podia ir correr, ir às consultas com a psiquiatra, com a tranquilidade de saber que ela seria alimentada. Podíamos alternar, entre os dois, a pessoa que a alimentava durante a noite. Eu podia sair para respirar depois de um dia mau, mesmo que isso calhasse em cima do biberão do jantar. Eu podia adormecer no sofá, depois do jantar e não acordar para o próximo biberão. E assim as exigências (e o cansaço) de cuidar de uma bebé pequena foram sendo repartidas por igual, conforme a disponibilidade e capacidade de cada um.

 

Para o pai, foi a oportunidade de alimentar a filha. Vi, nos olhos dele, tanta ternura, tanto amor. A forma como ela punha a mãozinha dela sobre o peito dele. A forma como brincava com ele. Os olhares e os sorrisos que trocavam. Os momentos de alimentar um bebé são momentos únicos. Existe ali uma troca que é única. Amar é nutrir. Seja de que forma for.