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Mulher, Filha e Mãe

Porque a saúde mental na gravidez e no pós-parto importa!

Mulher, Filha e Mãe

Porque a saúde mental na gravidez e no pós-parto importa!

Conselhos durante a gravidez e no pós-parto: para ouvir e refletir, ou filtrar e descartar?

13.10.18 publicado por Mulher, Filha e Mãe

Recomecei a ler um livro que há muito queria ter terminado, mas que na altura não me foi possível...

Estava mesmo a precisar deste meu momento de leitura livre, de novo! 

Acontece que ao recomeçá-lo também tenho dado por mim a refletir sobre outras questões que têm vindo a ficar pendentes de reflexão, escrita, partilha, etc., da minha parte. Esta, foi uma delas: conselhos de pessoas durante a gravidez e no pós-parto

 

 

Consideram que recebem muitos? Poucos? Nenhuns? 

Pois bem, da minha experiência profissional, tenho contactado com mulheres que recebem muitos, a toda a hora! De pessoas que conhecem e desconhecem. Aliás, basta estarmos um pouco atentos às mães com bebés que se sentam perto de nós nos cafés, que vão ao supermercado, que passeiam na rua, no jardim, etc., para perceber que poucos são os que ficam indiferentes a um bebé! E penso que esta pouca - ou nenhuma - indiferença, não tem problema! Muito pelo contrário. É bom que as mães e os bebés se sintam acolhidos, não só pelas suas famílias, como pela comunidade em que se inserem. O que por vezes questiono que seja assim tão bom, são os conselhos/comentários/observações, que mesmo não sendo intencionalmente, se tornam inoportunos, despropositados, incómodos. 

 

Há por aí alguém que se identifique, ou que neste momento esteja a lembrar-se de alguma situação em particular que tenha acontecido consigo neste sentido?

Eu estou! 

"Ó mãe, não acha que está muito frio para sair com o bebé à rua?"

"Coitadinho, está a chorar, de certeza que tem fome!"

"Dê-lhe logo a mama, pode ser que assim se cale..."

"Acho que dás demasiado colo ao teu bebé... não vês que ele assim fica mal habituado?"

"Ele ainda dorme na tua cama? Vê-se logo que é um mimado..."

 

E continuaria aqui a identificar e relatar vários comentários que tenho ouvido com frequência nos últimos anos, enquanto terapeuta, que com mais uma, ou menos uma, palavra aqui e ali, vão dar todos ao mesmo: conselhos inoportunos que carecem de sentido, especialmente quando aqueles que os dão se esquecem que, perante um bebé, não existem receitas mágicas, iguais para todos e/ou estruturadas ao milímetro. 

 

Cada bebé, cada mãe, cada família, são pessoas diferentes. E aquilo que é bom/resulta com uns, poderá não ser bom e/ou funcionar com outros. E não, isto não é uma frase cliché! É aquela que a poucos agrada, mas que no geral é a mais simples e pura das verdades agregada à maternidade/paternidade.

 

Ao ler este livro, encontrei esta passagem, que identifico de seguida. Fiquei agradavelmente surpreendida, porque já estava a escrever este texto e achei que se enquadrava na perfeição. A autora é uma profissional da área conhecida pelo público feminino no geral, e apesar de não concordar com determinados pontos de vista, a verdade é que neste, não podia estar mais de acordo:

 

"A quantidade de conselhos que as mães recebem a partir do surgimento de um bebé - um leque de sugestões contraditórias - produz, logicamente, uma desorientação e uma infantilização que as obrigam a conectar ao que é correto, em vez de atender aos caprichos de sua sombra, ditados pela parte mais oculta do seu coração. 

As necessidades da mãe puérpera têm a ver com a contenção afetiva, a aceitação de suas emoções e a confiança que podemos lhe oferecer para que se conecte com o que acontece com ela. O conselhos carecem de sentido quando não guardam estreita relação com a história emocional de cada mulher. (...) O que é certo e errado se constitui um guia, e todos se sentem mais tranquilos. Menos as próprias mães."

 

Foram inevitáveis as memórias que este parágrafo me trouxe, a vários níveis, e fez-me todo, TODO o sentido! 

 

Quantas não são as pessoas que ao abordarem mães/pais optam por deitar cá para fora todas as suas - por vezes - rígidas regras e guias, como se de um manual de instruções, esta coisa da maternidade, se tratasse? 

Quantas não são as pessoas que se esquecem que as mães/pais tomam determinadas decisões, com determinado fundamento, e que não há ninguém que melhor conheça o seu bebé? 

Quantas não são as pessoas que optam por perder um bom momento para estarem caladas e que se esquecem da importância da escuta ativa nestes momentos tão preciosos como na fase do pós-parto?

 

Ou seja, conselhos de terceiros, sempre existirão, é certo! E todos têm o seu papel se refletirmos bem: uns poderão servir para facilitar a nossa reflexão, introspeção, para melhorarem as nossas práticas, dia-a-dia, comportamentos, quando na verdade quem os dá está conectado de alguma forma com a nossa realidade emocional. Outros poderão servir simplesmente para percebermos o que não nos faz sentido, o que nos aproxima e/ou afasta de quem nos rodeia, o que causam em nós. Em suma, todos servirão para darmos mais atenção aquilo que a nossa intuição nos diz, a quem somos, e ao que pretendemos enquanto mães/pais. 

 

Ao longo dos últimos grupos de mães que temos facilitado no Centro Materno-Infantil, várias vezes esta questão tem surgido, e várias têm sido as partilhas associadas. Contudo, muitas das conclusões sobre este tema acabam por ir dar a três aspetos fundamentais que têm vindo a surgir com frequência pelas próprias que o frequentam. Vou partilhá-las convosco, pois no meio de tantos conselhos/observações/comentários, estes são aqueles que mais sentido me têm feito no que toca a esta fase do ciclo de vida:

 

  1. Confia em ti. Não há ninguém que conheça melhor o teu bebé. 
  2. Tens dúvidas? Não há problema. Faz parte. Fala com um@ familiar/amig@ em quem confies. Faz uma breve pesquisa e vê o que algumas pessoas (credíveis) falam sobre o assunto. Ficaste assustada? Com mais dúvidas? Lembra-te que tens sempre a possibilidade de contactar o teu médico/enfermeiro de família, a saúde 24 (808 24 24 24), outro profissional com quem tenhas contacto, pesquisa no meu blog e/ou contacta-me (936 180 928). No final da busca, tira um pouco de tempo para ti e reflete sobre o que ouviste/leste e volta sempre à dica número 1. 
  3. Escuta com a cabeça e filtra com o coração. Conselhos de terceiros, vão ser sempre muitos. Uns que te podem fazer sentido, outros menos. Isso não significa necessariamente que és uma mãe descuidada, ou que sabes cuidar de forma menos atenciosa do teu filho. Escuta - se quiseres - o que te dizem, seleciona o que te faz sentido e filtra de acordo com a tua intuição materna - sim, ela existe! Mais uma vez, tira uns minutos para ti, reflete sobre o que ouviste/leste e volta sempre à dica número 1. 

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Questões? 

centro@mulherfilhaemae.pt

(+351) 936 180 928