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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

Sobre o ser mulher.

Hoje apetece-me falar um pouco sobre mim. 

 

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Não me perguntem porquê. A verdade é que nem sou muito disto. Disto, que nada de mal tem, mas a verdade é que este blogue desde a sua génese que sempre teve um propósito bem definido: falar de forma realista e fidedigna sobre saúde mental na gravidez e no pós-parto. 

 

Ao longo destes três anos da sua existência, e olhando em retrospetiva, sinto que tenho conseguido atingir o meu objetivo. Sinto que cresci, sinto que muito tenho aprendido, sinto que o meu rumo profissional alterou-se por completo, sinto que consigo ver de forma cada vez mais nítida a mulher que há em mim, sinto que nem sempre fui a mãe que idealizei, sinto que, apesar disso, tenho tentado dar o meu melhor. 

 

Se imaginei que estaria onde estou hoje à três anos atrás? Quatro anos atrás? Dez anos atrás? Jamais! 

A minha vida era muito clara para mim, nessa altura. No meu imaginário, com quase trinta anos seria uma mulher viajada, com uma carreira em ascensão, completamente dedicada ao trabalho e amigos. Filhos, Família? Só a partir dos 40. 

 

Chocados? Nem por isso? 'Está tudo certo' - como diria a minha querida Catarina. 

 

A minha geração tem um pensamento muito semelhante a este, e não é por acaso que a natalidade está como está. Mas posso exemplificar-vos um pouco melhor do porquê.

 

Quando terminei a minha licenciatura em enfermagem, em 2011, vários foram os hospitais onde fui, que quando percebiam que ia entregar um curriculum vitae, olhavam para mim com um ar enfadonho e pediam-me para voltar daqui a um ano porque ninguém nos ia contratar nem agora, nem num futuro próximo. O mundo estava em crise. Financeira, diziam eles. Para mim, a crise era uma crise muito maior que esta. Mas disto, só me fui apercebendo ao longo do ano seguinte, onde tudo fiz para procurar emprego, com muito pouco sucesso.

Um ano depois, e com as minhas perspetivas profissionais desfeitas, pensei em emigrar, como a maioria dos meus colegas. A maioria transformou este pensamento numa atitude concreta e objetiva, e saíram do seu País (muitos, com muito pouca vontade). Eu, fiquei por cá. Finalmente encontrava o meu primeiro emprego na área para que tinha estudado, e mal sabia eu, que apesar disso, o pior ainda estava para vir. Nada foi fácil, especialmente a nível profissional. Contudo, assim fui seguindo na precariedade. Clínicas, hospitais, domicílios, lares, formação, etc. Perdi-lhes a conta. Mas nada disto me satisfez. Se me imaginava a fazer o que era suposto, com as condições que me davam (a mim e às pessoas que cuidava), nos próximos anos? Não! Tinha de procurar algo melhor, mesmo que fora da área. E por melhor, não falo simplesmente em salário (que também é muito importante!). Há condições que contribuem para a nossa saúde mental e que valorizo ainda mais. Mas... tudo isto teria de ficar em stand-by, pois estava a caminho uma filha bastante desejada. 

 

Carreira? Dedicação plena ao trabalho? Afinal não! Agora, era tempo de me dedicar à minha família. Ou pelo menos, foi assim que o senti. 

 

Mal sabia eu que o nascimento da minha filha viria mudar todo o meu percurso profissional também. 

 

Confrontando-me com as dificuldades diversas na área da saúde inerentes ao acompanhamento da família com alterações emocionais na gravidez e no pós-parto, era óbvio para mim que tinha de compreender mais sobre o assunto. Óbvio porquê? Não sei, mas era. Era o que sentia. 

 

Pesquisei, li, estudei, analisei, refleti, questionei, escrevi. O universo da saúde mental na gravidez e no pós-parto era para mim, agora que acabava de ter uma filha, um mundo que me apetecia tanto explorar como as crianças quando começam a rebolar, gatinhar, andar. Quando tudo no mundo lhes faz mais sentido, quando despertam para uma nova realidade. Era assim que me sentia: uma exploradora. 

 

A licença terminou, e tive de voltar para a minha antiga vida. Aquela, antes de ser mãe. 

Se me apetecia? Nada! Parece que o que outrora me fez lutar, correr, suar, já não fazia mais. A minha missão era outra. Para mim, a minha missão era continuar a explorar o mundo da saúde mental na gravidez e no pós-parto, agora com um olhar mais profissional. E assim foi. O Mestrado foi o meu próximo caminho. 

 

E quanto mais estudava, mais queria estudar. Quanto mais sabia, mais queria saber e praticar. O blogue foi continuando, cada vez com informação mais fidedigna. Os pedidos de ajuda continuavam, e as respostas que lhes dava eram cada vez mais ajustadas, no meu ponto de vista. Conheci várias pessoas da área que me apoiaram e me apoiam desde então, e com quem muito aprendo, todos os dias. 

 

Terminando o mestrado, o Centro Mulher Filha e Mãe fazia mais sentido do que nunca. E porque não? Quais as possibilidades? Vamos analisar! 

 

Analisar, colocar em prática, trabalhar, correr, estudar, acreditar. Esta, tem sido a realidade que me tem acompanhado nesta viagem, desde que o  Centro Mulher Filha e Mãe foi fundado. E parecia que agora ia estabilizar um pouco mais. Mas não. Ainda havia e há tanto por fazer! 

 

Juntar-me à Árvore dos Bebés, foi das melhores opções que tomei, e a minha querida Carolina é, sem dúvida alguma, mais do que um braço direito, mais do que uma parceira. É uma companheira neste caminho. E sempre o foi, desde o seu inicio. Agora, tanto em teoria, como na prática, os nossos projetos tornaram-se num só. Quem diria! 

 

Aliás, esta, é também uma das expressões que mais ouço por parte dos que me são mais significativos e da minha parte também: Quem diria! 

 

A surpresa e o orgulho estampados no discurso de quem me conhece. Estampados no meu próprio discurso. 

 

Quem diria que terminaria a minha licenciatura, depois de tantos desafios? 

Quem diria que me iria casar e ser mãe tão cedo? 

Quem diria que o meu percurso profissional mudava tanto após a maternidade? 

Quem diria que de um nascimento, um blogue, que de um blogue, um projeto, que de um projeto, um centro com a abrangência que hoje já tem? 

Quem diria que terminaria o meu mestrado na fase de vida em que me encontrava?

Quem diria que hoje estaria aqui a escrever sobre mim? 

Quem diria que a minha vida seria assim? 

 

A resposta é clara: não sei! 

Talvez ninguém dissesse, ou talvez alguns possam já o ter dito, ou refletido. E independentemente de quem disse, ou do que foi dito e/ou refletido, hoje, só sei que me apeteceu dar espaço de antena a mim também. À minha expressão, e acima de tudo, apeteceu-me, olhando para trás, fazer algo que possivelmente tenho como raro na correria do meu dia-a-dia: valorizar as minhas conquistas. Eu não diria que estaria onde estou hoje, mas fico feliz por estar, mesmo ainda não tendo a estabilidade que gostaria. Estou a lutar pelo que quero, e todos os dias tento dar o melhor de mim em tudo o que faço e a todos com quem estou. É assim que me vejo. E é sobre esta mulher que hoje me apeteceu falar. 

 

Afinal de contas, quantas vezes olhamos para nós, mulheres, e valorizamos firmemente tudo o que temos conquistado e todos os esforços que fazemos no meio de tantos papéis e afazeres? 

 

É verdade que o dia da mulher é todos os dias, mas que este dia da mulher sirva, acima de tudo, para olharmos com consciência para nós mesmas e darmos valor à mulher que há em nós! 

 

Feliz dia da Mulher a todas as grandes mulheres que ao longo destes três anos, têm acompanhado este meu percurso, e que de uma forma, ou de outra, têm contribuído para que a mulher que há em mim cresça cada vez mais em consciência e em amor. 

 

#asaudementaldamulherIMPORTA! 

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