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Mulher, Filha e Mãe

Sensibilizar (para) e apoiar (na) ansiedade e depressão na gravidez e no pós-parto

À conversa com a Ana #13 - "Sabia que precisava entender a depressão com o coração. Para voltar a um ponto de equilíbrio enquanto pessoa, e para ser a mãe que eu queria, sabia que tinha que me desculpar."

Posso dizer que o ter abanado a C., a culpa imensa que sentia todos os dias e que me destruía por dentro e o processo de fazer as pazes comigo mesma e de me desculpar, foi o mais doloroso e o mais difícil em todo o processo.

 

A pessoa que eu conhecia em mim, até então, tinha desaparecido. Eu, uma pessoa calma, compreensiva, parecia que vivia em constante reatividade, sempre pronta a rebentar à mais pequena situação. Abanei a minha filha porque ela não parava de chorar, gritei com ela, disse-lhe que a detestava, virei-lhe as costas muitas vezes por não suportar o choro, evitava pegar-lhe ao colo, não queria ficar sozinha com ela.

 

Foto.jpgTantos, mas tantos sinais de que as coisas não corriam nada bem! Mas, estando no meio da tempestade, com o cansaço característico do pós-parto, pela inevitável privação de sono, não consegui ter o discernimento para viver mais do que o meu sofrimento no dia-a-dia. Nem eu, nem o meu marido. Claro que sentíamos que havia qualquer coisa errada, mas achávamos que passaria, que era uma fase, que era o cansaço a falar mais alto. Que, algum dia, as coisas iriam acalmar.

 

Com a medicação e, sobretudo com a psicoterapia e o shiatsu, a tal ligação emocional começou a aparecer. Nos primeiros dias após o início da medicação o meu marido tirou uma foto de mim e da C.. A primeira em que eu sorria verdadeiramente para ela. Poucas semanas depois, pela primeira vez, acordei e em vez de sentir um peso enorme no coração, e uma vontade de fugir, senti amor pela minha filha. Senti que a Amava. Foi tão poderoso para mim. Foi mesmo bonito. Fico emocionada ao recordar. Foi um momento muito importante. Depois de tudo o que aconteceu naqueles dois meses, comecei a sentir que não estava estragada, que não era um monstro.

 

Esta foi a minha resposta à questão, que me foi colocada há algum tempo atrás, de: O que foi mais difícil para si em todo o processo?

 

Não consigo descrever com toda a exatidão aquilo que foi para mim viver os momentos de abanar a minha filha. Sei que, nos momentos em que o fiz, estava a viver num grande sofrimento. Não há palavras para descrever esse sofrimento que se está a viver e que nos leva a abanar, a gritar, a virar as costas a um bebé. E depois não há palavras para descrever o que é recordar esses momentos. Saber que eles aconteceram.

 

As palavras da psiquiatra, dos livros, dos textos que li nas inúmeras pesquisas que fiz na Internet, deram uma causa a este comportamento. Foi o descontrolo hormonal e emocional que vivi após o nascimento da minha filha, a tal depressão pós-parto, conjugada com uma perturbação de ansiedade generalizada. Surgiu a explicação, houve uma arrumação da experiência, a nível racional e intelectual. Mas e o coração? Como é que o coração de uma pessoa, de uma mãe lida com o ter abanado a filha? Havia uma explicação, mas ainda assim sentia-me culpada. Sabia que outras mulheres passavam pelo mesmo, mas ainda assim sentia que eu era única e que haveria alguma coisa errada em mim.

 

A culpa que sentia era gigante. Ao mesmo tempo que me ia sentindo melhor, com o avançar do tratamento, sentia que a minha relação com a C. estava presa a estas memórias e à culpa. E foi isso que me fez avançar para a psicoterapia e para o shiatsu. Sabia que precisava entender a depressão com o coração. Para voltar a um ponto de equilíbrio enquanto pessoa, e para ser a mãe que eu queria, sabia que tinha que me desculpar.

 

A psicoterapia ajudou-me muito no processo de entendimento emocional da minha experiência e dos traumas que se criaram. Permitiu-me ganhar confiança em ficar sozinha com a C. O Shiatsu foi a chave mestra para entender com o coração a minha depressão. Permitiu-me passar do questionamento “Porque é que isto me aconteceu? Porque a mim?” para “O que é que a depressão me veio mostrar? O que posso aprender com isto?” E foi a partir daí que o perdão surgiu. 

 

"Precisava de entender a depressão com o coração e fazer as pazes comigo mesma"

Há mais de um ano que esta leitora me enviou um email a descrever a sua passagem pelos caminhos da depressão pós-parto. Publiquei o seu testemunho na rubrica Histórias que dão a cara por esta causa #14 - "cheguei a um ponto de ansiedade tal que sentia que só queria morrer".

 

Durante este ano fomos mantendo o contacto, e a respetiva foi-me contando como tem sido a sua experiência em termos de recuperação da depressão pós-parto que lhe foi diagnosticada. Cada vez que contactamos é sempre uma agradável surpresa para mim compreender tudo o que tem feito por si, e os bons resultados que está a ter. Há algum tempo desafiei-a a escrever um pouco sobre a sua recuperação para partilhar com quem nos lê, e senti desde logo que foi um desafio aceite com grande entusiasmo da sua parte.

 

Assim que sentiu que foi o momento mais confortável para si, não hesitou em enviar-me um email a contar-me como tem sido essa experiência nos últimos 13 meses, e hoje, partilho convosco a sua viagem, que felizmente, está próxima de ter um final bem feliz! 

 

Enviem-me também as vossas experiências de recuperação da depressão pós-parto. De certo que existem por aí muitas histórias semelhantes à desta leitora. Enviem-me email para: blog@mulherfilhamae.pt

 

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"Passados 13 meses e meio após o nascimento da minha filha e 11 meses e meio após o diagnóstico de depressão pós-parto, sinto-me feliz, mais feliz do que alguma vez fui. A DPP veio "obrigar-me" a olhar, uma vez mais, para dentro de mim e a descobrir-me. E este processo de auto-consciência tem sido maravilhoso. Custoso, desconfortável, mas imensamente rico em aprendizagens. 
 
Aos 2 meses de ser mãe, numa espiral dolorosa de ansiedade, angústia e exaustão, procurei ajuda psiquiátrica. Comecei a tomar medicação e o resultado surgiu logo após 2 semanas. 6 meses após o tratamento exclusivo com a medicação senti que o meu corpo tinha reencontrado algum do seu equilíbrio físico e hormonal e a minha cabeça havia percebido o que era a DPP. No entanto, o coração ainda apertava, a culpa inundava-me, o medo de ter deixado sequelas emocionais na minha filha estava sempre presente. Precisava de entender a depressão com o coração e fazer as pazes comigo mesma. 
 
Procurei apoio na psicoterapia (com recurso à hipnose) e no shiatsu (massagem terapêutica). E tem sido a conjugação destas 3 ferramentas que me permitiu embarcar nesta viagem de descoberta, de cura e crescimento. Como já te disse Ana, sinto que finalmente consegui agarrar a vida nas minhas mãos e seguir aquilo que me dá prazer, me apaixona e que me traz significado. 
 
Amo muito a vida, a minha filha, a minha família.
 
Obrigada por alimentares este espaço de divulgação, partilha e reflexão acerca das inúmeras experiências, menos positivas, relacionadas com a parentalidade. Espero que, aos poucos, as pessoas comecem a falar e a percepcionar estes temas com a mesma naturalidade com que se aborda, por exemplo, os cuidados a ter com o bebé ou as possíveis dificuldades com a amamentação. Ninguém nunca estará preparado para aquilo que vai viver quando se torna mãe/pai, mas é possível e desejável que saibam que estas dificuldades poderão surgir, que não serão "maus pais" por isso e que, acima de tudo, existem soluções."

Depressão na gravidez e no pós-parto: no que consiste e como se manifesta?

Há pouco tempo uma leitora do blogue enviou-me o seu testemunho onde referia que “tanto ouvi falar em depressão pós-parto, mas parecia-me algo difícil de acontecer”.

 

Algo que me parece comum, tendo em conta a quantidade de mulheres com quem tenho contactado dentro deste âmbito desde que comecei o blogue.

 

A “depressão pós-parto” é uma doença que pode acometer mulheres quer na gravidez, quer no pós-parto. E é por este mesmo motivo que muitos autores referem que dizer “depressão pós-parto” acaba por estar mal dito, reportando-nos erradamente para um só período, não alertando na íntegra, para a fase em que a depressão pode ocorrer, e que neste caso, corresponde ao denominado período perinatal. Desta forma, dizer Depressão Perinatal é a forma mais adequada para identificar e descrever a doença. 

 

Muitos dos casos conhecidos têm início nas primeiras seis semanas podendo durar em média de seis meses a dois anos. Mas não se deixem levar em exclusivo por estes períodos. Vários são os casos em que a depressão pós-parto começa a desenvolver-se cerca dos três, seis ou doze meses após o nascimento do bebé, por exemplo.

Vários são os factos que lhes estão subjacentes, embora a causa precisa da depressão ainda não seja conhecida. O que conhecemos sim, são alguns fatores de risco que nos permitem compreender de uma forma mais estruturada se a probabilidade de uma mulher desenvolver uma depressão perinatal é alta ou não. Independentemente da probabilidade de tal ocorrer, o facto de se engravidar e de se ter um filho são acontecimentos de vida significativos, que por si só, podem levar ao desenvolvimento de uma patologia desta dimensão.

 

 

Sabemos atualmente que de acordo com dados lançados pela Direção-Geral de Saúde, cerca de 10% das mulheres desenvolve uma depressão na gravidez e cerca de 12% a 16% das mulheres desenvolve uma depressão pós-parto e que a depressão na gravidez tem cerca de 40% de probabilidades de persistir após o parto.

São dados como este que nos mostram a quão significativa é esta patologia, não tendo ainda falado sobre muitos dos seus contornos.

 

Para muitas mulheres, desenvolver uma depressão perinatal implica lidar com sentimentos de irritabilidade intensa, ansiedade, fadiga, insónia, alterações do apetite, tristeza invasiva, falta de interesse ou interesse obsessivo no cuidado ao bebé, ou no desenvolvimento da gravidez, assim como com crises de choro frequentes, fortes sentimentos de culpa por se sentir que não se consegue dar resposta ao momento presente e/ou aos cuidados para com o bebé, sensação de desespero, ideias suicidas, entre outros. Umas mulheres podem ter várias destas manifestações, e outras só algumas. O curso da doença é diferente de pessoa para pessoa, não se manifestando sempre da mesma forma. Motivo pelo qual o seu diagnóstico também nem sempre é fácil de realizar.

 

Se repararmos bem, muitas das manifestações da doença poder-se-ão confundir com várias das manifestações de determinados períodos da gravidez e do pós-parto onde ter, insónias, cansaço extremo, alterações do apetite pode ser muito comum. Daí que, se este tipo de sinais e sintomas perdurar no tempo, interferindo com o bem-estar da pessoa, com a sua interação social ou com a sua forma de estar em relação a si e aos que a rodeiam, especialmente à gravidez e/ou ao bebé, é importante consultar um profissional de saúde especializado, de preferência com experiência na área da gravidez e da maternidade. Falo de enfermeiros (de preferência especialistas em saúde mental e psiquiatria e/ou em saúde materna e obstetrícia), de psicólogos, psiquiatras e médicos de clínica geral.

 

O tratamento da depressão pós-parto poderá passar por medidas não farmacológicas, mas também necessitará de medidas farmacológicas que poderão não interferir totalmente com a possibilidade de amamentação, algo que hoje já se tem conhecimento. Depende de uma série de fatores, nomeadamente do tipo de medicação que a mulher fará. Algo que só o psiquiatra ou o médico de clínica geral poderão definir.

 

No entanto, e independentemente da medicação que realizar, potenciar as possibilidades de recuperação acompanhando-a da realização de psicoterapia e/ou de uma outra qualquer atividade terapêutica que lhe faça sentido (por exemplo, meditação, jogging, acupuntura, reiki, etc.), é muito provavelmente mais de meio caminho andado para atingir resultados bastante satisfatórios neste âmbito.